2.6. Verilerin Analizi
3.2.3. Kente Karşı Duyarlılık
De acordo com Bourdieu (2008), a observação científica mostra que as necessidades culturais são produto da educação. Todas as práticas culturais como visitas a museus, concertos e exposições, e as preferências em matéria de literatura, pintura ou música estão associadas ao nível de instrução e origem social. A hierarquia dos consumidores corresponde à hierarquia socialmente reconhecida das artes, fazendo com que o gosto funcione como marcador de classes. Assim, o encontro com a obra de arte nada tem a ver com amor à primeira vista. O ato de fusão afetiva pressupõe um ato de conhecimento, uma operação de decifração e decodificação, que implica o acionamento do patrimônio cognitivo e de uma competência cultural. O olhar ―puro‖ lançado para as obras pelo espectador culto atual não tem quase nada em comum com o ―olhar moral e espiritual‖ dos homens do Quattrocento.
De acordo com a teoria estética, o desprendimento e o desinteresse constituiriam a única maneira de reconhecer a obra de arte pela sua autonomia. Para Kant (2008), um juízo de gosto
155 puro só pode se dar a propósito de objetos naturais, pois nestes podemos e devemos prescindir de todo conceito de perfeição. Ao contrário tanto na criação como no juízo sobre a obra de arte é indispensável contar com um conceito de fim, sem o qual o objeto não teria sido produzido. Para Bourdieu (2008), a estética popular ignora ou rejeita a recusa da adesão ―fácil‖ e dos abandonos ―vulgares‖ que se encontram na origem do gosto (pelo menos indiretamente). Procurando entender a relação entre gosto e estética, Sodré e Paiva afirmam que o gosto, em Kant, é um conceito de sentido amplo, que designa a disposição para uma atitude estética, enquanto o contrário pode ser chamado de uma ―desarmonia do gosto‖ (2002: 17). Bourdieu apresenta, então, o gosto popular como uma ―estética antikantiana‖, um avesso negativo da proposição de Kant por contradizer a analítica do Belo.
Poder-se-ia dizer que os intelectuais acreditam mais na representação – literatura, teatro, pintura – que nas coisas representadas, ao passo que o ―povo‖ exige, antes de tudo, que as representações e as convenções que as regulam lhe permitam acreditar ingenuamente nas coisas representadas. (2008: 13)
Em oposição à ―satisfação desinteressada‖ e à ―finalidade sem fim‖ de Kant, Bourdieu aponta as classes populares como espectadores que designam funções, mesmo que seja de mero signo, em referência às normas morais. Essa atribuição de funções aos produtos do entretenimento podem ser fatores de desvalorização de obras artísticas. É o oposto dos moldes colocados por Hanna Arendt (2007) sobre a venda de um bem cultural, quando ela diz que o objeto se torna cultural por sua durabilidade, que se opõe à funcionalidade, enquanto a vida exige que tudo deve ser funcional. Segundo a autora, quando todos os objetos e coisas seculares são tratados como meras funções, para satisfazer a alguma necessidade, a cultura é ameaçada.
Mais à frente, Bourdieu conclui que, assim, ―a arte e o consumo artístico estão predispostos a desempenhar, independentemente de nossa vontade e de nosso saber, uma função social de legitimação das diferenças sociais‖.(2008: 14). Além disso, os autores apontam que mesmo as belas artes estão submetidas a um valor utilitário social, pois possuem uma função própria, da revelação à catarse, revelação e enobrecimento, já que o culto à arte eleva o nível social e por isso torna-se de utilidade para a ascensão da imagem do indivíduo; ou para a sublimação e fruição. Não se apresentaria, aqui, uma função própria da arte? Não que cause por si fruição
156 ou sublimação, mas que se mostra intrínseca e carrega uma satisfação e um desejo no indivíduo de que, ao apreciar a arte, ele se mostrará intelectualmente superior às classes populares. Assim, mesmo a satisfação ―pura‖ da arte, talvez não se apresente tão desinteressada como julga seu admirador.
Stephenson e Debrix (1969) questionam a padronização do discurso artístico que se refere às belas-artes, excluindo as arte úteis ou lucrativas, e apontam casos limítrofes, nos quais as atividades ou produtos não considerados arte, apresentam grande proximidade com algumas das belas artes. A dança de salão conta como recreação, mas há uma gradação contínua dela para o balé (uma das belas artes). Assim como o semelhante prazer derivado de um jogador de golfe ou futebol pertence ao mundo do esporte, e não da arte.
A mesma dificuldade é apresentada pelos autores em relação a distinguir estritamente entre as belas-artes tais como escultura, poesia e pintura das artes úteis, como arquitetura, cerâmica e criação de roupas, por serem funcionais, além de estéticas. Isso torna irônico o fato de que os objetos úteis do passado se tornam objects d'art do presente, peças de museu. Do mesmo modo, as artes podem ter utilidade social ou política – os romances de Dickens incentivaram reformas sociais; Alexander Nevsky, o filme de Eisenstein, aumentou o esforço de guerra russo, assim como o filme de Leni Rienfenstahl Der Triumph des Willens, espalhou o culto nazista; o hino da Marseillaise encorajou soldados franceses revolucionários; retratos e estátuas comemoram e estabilizam a ordem social. Estátuas de Lênin em cada cidade da Rússia não são apenas esculturas artísticas, são também símbolo de representação e hegemonia política.
Outro ponto a ser destacado é que as catedrais góticas e templos gregos podem transmitir um senso de beleza tão profundo quanto as belas artes, mesmo sendo artes úteis. E no mundo do filme, ―um documentário feito para persuadir ou instruir pode ser esteticamente tão belo quanto um filme puramente de ficção‖ (STEPHENSON E DEBRIX, 1969: 18). Da mesma forma, a telenovela adquiriu uma utilidade de mobilização social, mas muitas vezes apresenta elementos visuais esteticamente admiráveis. Em linhas gerais, o gosto popular cria uma mobilização e um consenso em relação às obras televisivas, que, com base nos fundamentos do juízo de gosto e do valor subjetivo das obras, acaba por criar uma validade coletiva.
157 Kant (2008) atribui ao juízo de gosto, enfim, a possibilidade de criação de um valor comum, ou seja, defende que as avaliações e os juízos de valor podem ser intersubjetivos. Essa noção abre espaço nesta pesquisa para uma reflexão que visa a avaliar se esta intersubjetividade é capaz de criar um senso comum, uma intersecção social, que pode ser usada como índice de qualidade, sob o julgamento popular.
Para isso é necessário compreender como esses juízos individuais adquirem uma pretensão de validade universal por meio de um senso comum. A noção de senso comum, que implica na união de juízos individuais que formam uma universalidade de opiniões semelhantes, é imprescindível para sustentar a proposta desta pesquisa. Esta compreensão auxilia a validar as premiações de júri popular, que representam a exposição conjunta de juízos individuais, culminando na formação de um senso comum capaz de emitir opinião e consagrar obras ou artistas, o que resulta na atribuição de uma determinada noção de qualidade da arte.