2.6. Verilerin Analizi
3.2.2. Kent İmkânlarından Faydalanma
A formação de opinião e interpretação de uma obra televisiva se constrói em processo semelhante ao do juízo sobre uma obra de arte, assim como os juízos de gosto sobre qualquer objeto. De acordo com a Crítica do Juízo de Kant (2010), o Belo, objeto da experiência estética, se manifesta por intermédio da faculdade de julgar, dos juízos estéticos ou de gosto, fundamentados na satisfação interior, desinteressada, de caráter contemplativo, proveniente das representações ou intuições, desembaraçadas dos conceitos de Entendimento. Para Parra (1991), apesar de a obra de arte não ser um discurso cognitivo, nem substituí-lo, pode-se problematizá-lo e enriquecê-lo. A Crítica do Juízo abre um caminho cognitivo distinto, de reflexão ou mesmo de interpretação, mais ligado às atitudes próprias da recepção da obra de arte.
Nunes (1989) vai além ao defender que não basta dizer que a satisfação que acompanha o juízo de gosto é interior e de caráter contemplativo. O prazer relacionado ao Belo é diferente do prazer sensível, pois, segundo o autor, tende a universalizar-se. Ao experimentarmos a Beleza, reconhecemos um objeto valioso que outras consciências poderão também reconhecer. ―É belo o que é reconhecido sem conceito como objeto de uma satisfação universal‖, diz uma das definições da Crítica do Juízo estético (NUNES, 1989: 49). Não sendo motivada por inclinações do sujeito ou por seus interesses e desejos, a satisfação do Belo é universal. Longe de ser um estado de fato, a satisfação estética é uma conquista da
148 consciência que possibilita a universalização do juízo de gosto, como se a Beleza fosse uma condição dos próprios objetos. A experiência estética não depende de finalidade exterior. Por não estar subordinada a conceitos, ela possui valor autônomo.
Para a tradição, o prazer estético é ―uma representação sensível da perfeição de um objeto‖ (PARRA, 1991: 237). A beleza se identifica com a finalidade objetiva interna de um objeto, apesar de se tratar de um conhecimento confuso dessa finalidade. Prazer estético ou beleza são concebidos então como formas inferiores – ―confusas‖ – de conhecimento e se diferenciam do conhecimento intelectual das coisas pelo grau de ―claridade‖ exibido. Para Kant, a concepção realista é inaceitável. Na natureza, nenhuma experiência pode validar ou invalidar a existência de uma inteligência criadora, só nos casos da arte humana, incluídas aqui as ―obras de arte‖. Estamos obrigados a aceitá-las como obras finalísticas e que obedecem a um conceito de perfeição, mas ainda nesse caso a perfeição não é aprendida intuitivamente, mas sim reconhecida a partir de um conceito prévio. Por esse entendimento, a intuição (assim como a perfeição) é igualmente subjetiva.
Não se trata somente que sem essa diferenciação o modo estético de representação não seria totalmente distinto do lógico. Talvez seja mais importante que ao proceder assim, Kant reconheça e legitime um tipo específico de experiência, própria da modernidade, segundo a qual é possível ter uma relação com os objetos que não requer nem produz conhecimento algum sobre eles. A relação estética dada entre o espectador e a ficção televisiva, por exemplo, acontece devido à sua imersão no universo imaginário criado pela produção. Apesar da associação muitas vezes instantânea da estética como valor exclusivo das obras de arte, Morin desconstroi esse elo, definindo a estética ―como um tipo de relação humana muito mais ampla e fundamental.‖ (2005: 78).
Morin (2005) chama de relação estética o intenso envolvimento do espectador com a obra, por entrar no universo imaginário criado pelo filme ou pela leitura. Porém, essa relação é ao mesmo tempo desligada, pois o leitor sabe se tratar de uma obra ficcional. Assim, cria-se uma espécie de dupla consciência, que permite ao leitor vivenciar os personagens, refletir-se neles e vê-los em si refletidos. Essa relação tem, ainda, um efeito de sublimação, quando lhe proporciona divertimento e lhe possibilita a vivência de determinadas situações no imaginário, satisfazendo certas vontades que funcionam como uma libertação psíquica, uma
149 vez que não poderiam ser realizadas na vida cotidiana. O caráter contemplativo e o valor subjetivo das obras são a base do entendimento da noção de juízo de gosto de Kant, essencial para justificar a validade da crítica e da opinião do indivíduo sobre a obra, pautada em seus valores subjetivos do gosto.
Kant (2010) estabelece uma diferença entre a beleza da natureza, cujo juízo só exige gosto, e a beleza artística, cuja possibilidade (que há que se tomar também em consideração o juízo de um objeto semelhante) exige gênio. Assim, Kant diferencia dois tipos de juízo: do gosto e do gênio (genius). Não obstante, Kant insiste que a condição sine qua non quanto ao valor nas coisas da arte bela é o gosto, que não consiste na riqueza e originalidade de ideias próprias do gênio, mas na adequação da imaginação ao entendimento. Ainda assim, é possível encontrar obras que se adequem melhor às exigências de um ou do outro.
A natureza que dá lugar a um juízo de gosto puro, de acordo com Kant, é despojada de qualquer valor de uso e de qualquer valor cognitivo ou moral. Assim Kant associa pássaros e flores a papéis rasgados ou pintados sem nenhum conceito, ou música sem texto, o que seria o ―tipo ideal‖ de obra para o juízo do gosto. O relevante do ponto de vista rigorosamente estético não é para que serve o objeto, e nem o que ele quer dizer ou representar. Da perspectiva do juízo de gosto puro, não importa a função inicial das estruturas. A forma simples de um objeto, ou o modo como temos consciência dela, pode constituir a satisfação de a julgarmos universalmente comunicável e, portanto, condiz com o fundamento de determinação de juízo de gosto. Apesar de reconhecer a existência de pinturas cuja intenção é ensinar (história, ou conhecimento da natureza), Kant afirma que o objeto do juízo de gosto são as formas, tal como se oferecem à vista, sem considerar fim algum. Essa ―finalidade sem fim‖ que julgamos no belo natural só podemos encontrar dentro de nós mesmos, na determinação moral do sujeito.
Assim, segundo a interpretação de Parra (1991), o que importa para o juízo de gosto é a forma, enquanto o conteúdo pode ser simbólico ou material. A obra de arte ideal é, portanto, aquele objeto sem conteúdo, cuja forma não remete a nada que não a ele mesmo. É a mera contemplação de um objeto. Na obra de arte típica do gosto não há nada que suscite a ocupação das faculdades. Se essa ocupação é dada, se deve mais a um esforço adicional do sujeito que julga.
150 O gênio seria pensado, então, como fator de juízo exigido pela obra de arte. O tipo ideal de obra de arte para o gênio enfatizará suas características de produção ―artificial‖ humana. ―Sua causa produtora pensou um fim ao qual deve sua forma‖. (PARRA, 1991: 243). O conteúdo para o gênio é importante tendo em vista a criação da ―segunda natureza‖. Não quer dizer que quem julga deve ser gênio, mas simplesmente que o julgamento deve levar em conta principalmente não as exigências do gosto, mas a característica da obra produzida, ou seja, o conceito de perfeição que se encontra na origem da sua produção. Assim, gosto e gênio não se excluem necessariamente, tampouco coincidem. Pode-se, portanto, perceber em uma obra de arte bela, gênio sem gosto; em outra, gosto sem gênio. A relação entre gosto e gênio é também ressaltada por Venturi quando explica que o bom ou mau gosto podem existir, mas não são absolutos, pois dependem da relação com o artista. ―Cada gosto é óptimo desde que adaptado à criatividade do artista‖ (1984: 25).
Apresenta-se, no entanto, uma divergência entre os juízos: a criação do gênio não necessariamente deve se restringir às limitações impostas pelo gosto. Os ―temas‖ do gênio, suas ideias estéticas não necessariamente buscam harmonia com o entendimento. Por isso, Kant, que reconhece a peculiaridade da criação genial, não deixa de desconfiar dela, pois toda a riqueza da imaginação produziria, em total liberdade, nada mais que absurdos. A forma ―perfeita‖ será aquela que mostre sua limitação, induza o espectador a tomar a representação formal tão só como ponto de partida de variados pensamentos.
Os pensamentos, incitados pela obra do artista, combinam-se com os critérios subjetivos de gosto do espectador, ou no caso, do crítico, para a formulação do juízo. Venturi (1984) acredita que essa construção se pauta em elementos contextuais e que o gosto pode sofrer mutações de acordo com a época. Aponta, ainda, os principais fatores que influenciam a construção do juízo: 1) fator pragmático, dado pela obra de arte sobre a qual recai o juízo; 2) fator ideal, dado pelas ideias estéticas do crítico, pelas suas ideias filosóficas e necessidades morais e, enfim, pela civilização em que se insere e para cuja formação contribui; e 3) fator psicológico, que depende da personalidade do crítico. Os três fatores combinados representam a junção da obra em si, da opinião e da percepção individual para a construção do juízo de quem avalia a obra.
O juízo individual, em última instância, não é construído sem referências ou relações com o ambiente externo. Venturi reafirma que, conforme ensinado por Baudelaire, a sensibilidade
151 artística, que deriva da comunhão de experiência com os artistas, é a fonte necessária à intuição crítica. Em outras palavras, é inevitável que o crítico seja parcial em suas escolhas ou recusas. Resulta daí o caráter passional de toda a crítica viva, pois a ―distanciação da natureza física, natural no homem de ciência, não se adapta ao crítico de arte, que se move dentro do mundo do Homem, das suas paixões e suas fantasias.‖ (1984: 264)
Kant (2010) distingue, ainda, o juízo de percepção, que se refere ao sentimento do sujeito particular, que nunca poderá exigir que outro julgue da mesma maneira, sendo, portanto, subjetivo, do juízo de experiência, que se inicia com um enlace subjetivo de percepções, mas leva a uma pretensão de validade que serve para todo sujeito. O juízo de percepção se converte, então, em juízo de experiência por meio do conceito de entendimento. Os juízos de experiência exigem sempre a ação unificadora de conceitos de entendimento sobre as representações para dotá-las de uma validade objetiva.
O enlace entre as representações efetuadas sob uma condição remete, em primeira instância, à ação dos conceitos puros do entendimento e, em última instância, aos fundamentos destes, a unidade transcendental da consciência, capaz de convertê-lo em válido universalmente. Somente em virtude desta referência à unidade transcendental de percepção é que se poderá formular um juízo de experiência que declare uma relação objetivamente válida, distinta da relação do sujeito particular. Assim, os juízos de percepção possuem uma validez subjetiva, enquanto os juízos de experiência podem atingir uma validez universal.
No caso do juízo de gosto sobre o belo também pode haver uma pretensão de validez universal, porém o juízo não será objetivo, e sim subjetivo. A relação do juízo não se dá mais com o objeto, mas com o sujeito julgador e, em um segundo momento, naquela condição subjetiva e às vezes universal que se encontra na esfera total dos sujeitos julgantes. ―O objeto chama-se então belo e a faculdade de julgar mediante um tal prazer (por conseguinte, também universalmente válido) chama-se gosto.‖ (KANT, 2010: 34)
Kant (2010) estabelece diferença entre a sensação como representação objetiva dos sentidos relacionada com o objeto, para fazer possível o conhecimento do mesmo (sensação objetiva); e a sensação como determinação do sentimento de prazer e dor, que se relaciona com o sujeito, e não serve a nenhum conhecimento, apenas ao sujeito privado, resultando em uma validez única, particular. Em outro ponto, destaca-se o sujeito membro de uma comunidade de
152 sujeitos julgantes, que, identificados e enlaçados entre si pela presença de um mesmo sentimento pretendem legitimamente uma validez universal para os juízos que formulam.
Segundo Kant (2010), mesmo o juízo objetiva e universalmente válido é sempre um juízo subjetivo. E somente sobre essa universalidade das condições subjetivas se fundará a pretensão de validez subjetiva universal do juízo de gosto sobre o belo, a possibilidade de que este possa aspirar a ter uma validade universal, pública, apesar de ter um fundamento somente subjetivo, referido ao sentimento do sujeito.
Com base nessas reflexões, vemos que o valor do juízo de gosto individual é intrínseco ao ser humano e demonstra, portanto, que a posição de crítico pode ser assumida por qualquer espectador. O juízo pode ser ainda transferido a um valor coletivo, supondo uma pretensão universal de sua validade. No caso desta pesquisa, o juízo a ser trabalhado é o proveniente do consenso de uma grande variedade de sujeitos que ofereçam sua contemplação, e que em conjunto, formam um juízo coletivo que constitui o gosto popular, base da crítica popular