• Sonuç bulunamadı

2.6. Verilerin Analizi

3.2.1. Kentte Olmaktan Memnuniyet

3.2.1.1 Kente Aidiyet

Autores como Bosi (1977) e Lippman (1980), que se dedicaram a estudar o processo de formação da opinião e dos estereótipos, chamam atenção para o fato de que o espaço que ocupamos no mundo é pequeno, e nossa percepção do mundo condiz com este espaço. Dessa forma, tudo o que conhecemos, concluímos ou interpretamos tem ligação com o ―pedacinho‖ de mundo em que crescemos e com os acontecimentos ou pessoas com os quais tivemos contato. Isso significa que os aspectos que colhemos do ―real‖ são confeccionados pela cultura.

No decorrer da vida, presenciamos apenas alguns fatos, enquanto outros chegam até nós e são construídos em nossa memória com base na confiança em quem os relata (sejam vizinhos, professores, jornais ou a televisão). Ao mesmo tempo, as cenas a que assistimos são transfiguradas de forma pessoal. As pessoas possuem diferentes olhares e, por conseqüência, diferentes descrições de um mesmo acontecimento. Essa distorção é causada pelo ponto de vista (BOSI, 1977).

O ponto de vista se forma com base em elementos culturais e sociais, complementado por características pessoais que compõem a simpatia por determinado objeto. A falta de simpatia causa empobrecimento da relação com as coisas. É uma ―afinidade pré-categorial do sujeito com seu objeto‖ e traz em si uma ―intuição de ordem superior, que começa com a negação do óbvio e do já visto‖ (BOSI, 1977: 98). Ela pode se formar por meio da negação de um dado imediato, e é recompensada quando já não descrevemos nem classificamos, mas habitamos as coisas do mundo.

145 A partir desse habitar (e do hábito), nossas percepções do mundo se formam com base em definições congeladoras, por meio de estereótipos construídos que ofuscam nossa visão de mundo. Lippman (1980) descreve essa limitação com o exemplo de um homem que viaja e procura uma paisagem. Passa por muitos ambientes que nunca havia visto, cruza estradas, lagoas, mas não a encontra, porque uma paisagem, para o homem, deveria ser uma daquelas que havia visto nas pinturas que costumava observar. Essa visão, que pode parecer ―fechada‖, nada mais é que a representação do conjunto de referências que construímos ao longo da vida e que norteiam nossas opiniões e pontos de vista.

Em outras palavras, a relação de um indivíduo com um objeto influencia sua visão sobre ele. Um leigo, ao se deparar com uma rã, poderia descrevê-la pela cor ou altura do pulo. Já um herpetólogo olharia, primeiramente, as membranas das patas. E isso vale para todos os aspectos da vida. O texto de Lippmann (1980) Estereótipos possui um trecho interessante e útil para a compreensão da influência da cultura na opinião e no juízo críticos, que chama atenção ao caráter multidisciplinar dessa influência.

Ilustre crítico de arte [Bernard Berenson] afirmou que ―em parte pelas formas quase inumeráveis assumidas por um objeto. (...) Em parte pela nossa insensibilidade e desatenção, as coisas não teriam para nós traços e contornos tão precisos e claros que pudéssemos recordá-las à vontade, não fossem as formas estereotipadas que a arte lhes emprestou‖. A verdade vai ainda mais além, pois as formas estereotipadas empresadas ao mundo não procedem apenas da arte, no sentido da pintura, da escultura e da literatura, mas também de nossos códigos morais, filosofias sociais e agitações políticas. Substitua-se, no seguinte trecho do Sr. Berenson a palavra ―arte‖ pelas palavras ―política‖, ―negócios‖ e ―sociedade‖, e as sentenças não serão menos verdadeiras. (1980: 152)

Lippmann, baseando-se nas afirmações de Berenson, discute a mudança dos modos de olhar que ocorre com o tempo. Afinal, a maneira como vemos as coisas nos foi ensinada. Lippman menciona, então, a dificuldade de se entender a arte da Idade Média, pois era exigido do povo que compreendesse a obra da maneira como o artista a pensou. Não se podia enxergar as formas de modo diferente daquele percebido pelo gênio. ―O povo tinha, por fôrça, de ver as coisas daquele jeito e de nenhum outro, e de ver apenas as formas traçadas, amar apenas os ideais apresentados...‖(Berenson, apud Lippman, 1980:153)

Essas referências nos são, em grande parte, impostas pelo poder, sob o mesmo princípio que o é a ideologia da classe dominante aludida por Bakhtin (2002). Para Bosi, o ―repouso no

146 estereótipo, nas explicações dadas pelo poder, conduz a uma capitulação da percepção e a um estreitamento do campo mental.‖ (1977: 99). Neste contexto, podemos identificar mais um aspecto positivo na abertura que se tem dado à opinião dos telespectadores, o que os incita a refletir sobre o que vêem em vez de deixar a opinião para a autoridade, no caso, os críticos. Como o mundo é regido por leis que não são as da nossa opinião, esta só pode se expressar de modo teimoso e revolto, o que faz com que seja comum, nos sistemas autoritários, ceder a liberdade de opinião à autoridade. Essas leis, quando aplicadas aos meios de comunicação, levam facilmente a um círculo vicioso, no qual, para conhecer a opinião pública, precisamos conhecer os seus órgãos; e para criticar esses órgãos precisamos conhecer a opinião pública. Bosi (1977) ressalta, ainda, a importância de se refletir sobre a opinião e suas vicissitudes em nossa vida. Se a opinião é um pensamento, a atitude é uma organização estável e hierarquizada de experiências sobre um objeto, em que as partes se relacionam entre si e com o todo. Nossas ações se concretizam também como uma estrutura semi-aberta que é parte de um contexto mais amplo, como o comportamento de uma criança com os pais e na escola, ou de um adulto em seu trabalho e em seu grupo de amigos. Desse modo, a mudança de atitude pode causar uma desordem nas relações sociais, pois as opiniões convergem, são interdependentes. Sempre que uma se abala, as outras também se abalam, porque são cognitivamente estruturadas.

De acordo com a autora, certas classes atribuem a si o conhecimento; e a opinião, ao povo. ―O limite entre a opinião sadia e a demência não é traçado pelo conhecimento do concreto, mas por essas classes. A sua opinião se substitui à verdade do fato‖ (1977: 101). Bosi pauta-se nas definições de Adorno, segundo o qual a opinião é a posição de uma consciência subjetiva, tida como válida, mas sem a universalidade da verdade. Por outro lado o conhecimento seria a opinião verificada. Assim, para Bosi (1977), pensar não é uma atividade subjetiva, mas um relacionamento entre sujeito e objeto, e apenas essa relação pode nos fazer passar da opinião para o conhecimento. No entanto, na vida prática, não temos sempre condições de transformar opinião em conhecimento; e a verdade fica sendo a opinião comum, do povo.

As opiniões sobre a TV seriam, nesse contexto, emitidas pelo público, que aqui chamamos de crítica popular. O conhecimento, sendo mérito da autoridade, torna-se competência da crítica especializada (subjetiva). No atual cenário, a opinião dos especialistas é aceita não por ser a

147 verdade, mas por ser autoridade. Autoridade, essa, ainda envolta por preconceito contra a opinião do público.

Quando os intelectuais criticam a opinião alheia congelada em preconceito, crêem que o seu ceticismo seja mais objetivo. No fundo, é o subjetivismo do intelectual que não crê mais na possibilidade de conhecer a verdade e, por isso, suspende as certezas alheias. (BOSI, 1977: 104).

E completa dizendo que ―é necessário buscar uma racionalidade individual, mas que não seja aceitação, nem total negação.‖ (1977: 104). Assim, dada a compreensão da subjetividade comum às duas modalidades, podemos entender que cada crítica tem seu caráter relevante para o estudo da qualidade, devendo, portanto, serem combinadas. A possibilidade de combinação das duas críticas se dá em função de um ponto comum a elas: o juízo de gosto.