Procurando entender o processo de educação pelo lazer no Programa Curumim do SESC Araraquara, esta pesquisa investigou a interface entre o lazer e a educação, privilegiando as questões que envolvem os processos educativos que se dão dentro do referido programa, da perspectiva de seus sujeitos: curumins participantes, responsáveis (mães) e instrutoras de atividades, bem como as concepções das práticas sociais lazer e educação nas quais o mesmo se baseia.
No presente estudo é adotada a perspectiva da investigação qualitativa, por compreender, assim como Ludke e André (1986), que a mesma implica no contato direto do pesquisador com o ambiente e a situação estudados, os dados coletados são predominantemente descritivos, o interesse fixa-se no processo e na perspectiva dos participantes, e a análise dos dados coletados tende a seguir um processo indutivo. Além disso, e concordando com Martins e Bicudo (1989), nas pesquisas de cunho qualitativo o pesquisador deve perceber a si e a realidade que o cerca em termos de possibilidades.
Nas abordagens qualitativas, o termo pesquisa ganha novo significado, passando a ser concebido como uma trajetória em torno daquilo que se deseja compreender, voltando o olhar à qualidade, aos elementos que sejam significativos para o investigador (GARNICA, 1997). Assim, nesta modalidade de pesquisa, como em qualquer outra, não há total neutralidade do investigador, uma vez que o mesmo atribui significados, seleciona o que do mundo quer conhecer, interage com o conhecimento e se dispõe a comunicá-lo. No caso particular da abordagem qualitativa fenômeno situado, a qual inspira este estudo, não haverá conclusões, mas uma construção de resultados, “posto que compreensões, não sendo encerráveis, nunca serão definitivas” (GARNICA, 1997, p.111).
Os critérios de seleção dos sujeitos são de compreensão, de pertinência, e não de representatividade estatística. Sendo assim, a “amostra” tem a intenção de ilustrar o fenômeno em estudo e de modo algum tem a pretensão de generalização dos resultados, mas um aprofundamento no conhecimento desta realidade, “cuja singularidade é, por si, significativa” (PAIS, 2001, p.110). Neste trabalho, a seleção dos sujeitos foi feita a partir da importância que estes têm na trajetória do Programa Curumim do SESC Araraquara, por terem-na vivenciado desde o início.
Foram entrevistadas as instrutoras de atividades da Unidade de Araraquara que permaneceram atuando no Programa desde a sua implantação até o final de 2004, para entender sobre suas concepções de lazer e educação, assim como cinco crianças participantes do Programa desde o seu início, e suas respectivas responsáveis (mães), para conhecer a perspectiva dos sujeitos sobre o processo de educação pelo lazer investigado.
A metodologia adotada na análise possui inspiração fenomenológica, modalidade fenômeno situado (MARTINS e BICUDO, 1989; MERLEAU-PONTY, 1996, GONÇALVES JUNIOR, 2003).
O fenômeno situado é uma modalidade de pesquisa qualitativa cujo objetivo é buscar a essência ou a estrutura do fenômeno, que deve se mostrar nos discursos (descrições) dos sujeitos. As percepções que os sujeitos têm da sua experiência vivida passam a constituir os dados da pesquisa (MACHADO, 1994, p.45).
Dirigindo-se a fenômenos, a fenomenologia se opõe de modo direto ao positivismo, que explica fatos, com padrões de rigor em termos de objetividade e neutralidade.
Fatos nos remetem a relações causais, mecânicas, mensuráveis, enquanto fenômenos (do grego phainoumenon: luz que ilumina aquilo que está oculto) àquilo que se
imanência (compreendida na própria essência do todo) e a capacidade de outorgar significado às coisas (TÁPIA, 1984).
Originada com o filósofo Husserl, a fenomenologia toma como máxima o ir às
coisas mesmas, visando à compreensão, ao conhecimento do mundo. “O homem percebe-se e
torna-se humano no contato com outros humanos, afetado pelo que desse convívio descortina” (GARNICA, 1997, p.113).
Fenômenos não são compreendidos sem que sejam interrogados, e são sempre vistos contextualizadamente. O pesquisador busca apreender aspectos do fenômeno por meio do que dele dizem os sujeitos que o vivenciam e, portanto, que podem descrevê-lo da maneira como o percebem.
Na coleta dos discursos foi proposta uma única interrogação: O que é o Curumim para você? deixando que os sujeitos falassem livremente, gravando suas descrições em fitas cassete magnéticas, para posterior identificação das unidades de significado, redução fenomenológica e organização das categorias temáticas na matriz nomotética, analisadas na construção dos resultados.
Para a análise do fenômeno situado estabelece-se um contato direto com o fenômeno vivido, através de uma leitura cuidadosa de todas as descrições. Esta análise envolve dois momentos: a análise ideográfica e a análise nomotética.
Na análise ideográfica, o pesquisador descobre e atribui significados ao discurso dos sujeitos, buscando acesso ao seu mundo-vida e ao seu pensar. Após realizar várias vezes a leitura do discurso de cada sujeito, através do levantamento de asserções significativas ao pesquisador, no que se refere à interrogação empreendida, apreendem-se as unidades de significado, enquanto aspectos pertinentes para chegar à evidências das experiências. As unidades de significado aparecem sublinhadas nas descrições dos sujeitos (MACHADO, 1994).
Em seguida, é feita a redução fenomenológica, “uma síntese das proposições constituintes apresentadas nas expressões reveladoras do pensar do sujeito, constituindo agrupamentos por temas, entendidos como categorias abertas” (MACHADO, 1994, p.41).
As categorias temáticas são organizadas pelo pesquisador “a posteriori”, a partir dos dados que emergem das descrições dos sujeitos interrogados e que dizem respeito à interrogação empreendida. Os agrupamentos das unidades de significado dos diversos depoentes em categorias se dá com base na similaridade ou divergência referente a uma mesma temática. Neste estudo, as categorias foram formuladas a partir da similaridade dos discursos das crianças, mães e instrutoras de atividades entrevistadas.
A essência ou a estrutura do fenômeno não é o fim da análise, mas o meio para se trazer à tona o que as relações vividas apresentam. A partir daí, realiza-se a análise nomotética para equacionar outros aspectos.
A análise nomotética caracteriza o movimento de passagem do nível individual para o geral. Os significados provenientes de uma descrição não estão limitados à experiência do indivíduo, mas de vários, sem que isso implique pertencer a todos os sujeitos. Assim, não se têm proposições de ordem universais, mas gerais. Cabe ao pesquisador determinar, então, quais aspectos das estruturas individuais manifestam uma generalidade sem, no entanto, pretender generalizações para outras realidades, grupos, comunidades e contextos. As convergências passam a caracterizar a estrutura geral do fenômeno. As divergências, quando ocorrem, contrapõem as demais descrições. Pode haver ainda as chamadas idiossincrasias, ou seja, percepções distintas de todos os demais discursos. Neste estudo, porém, não foram observadas divergências ou idiossincrasias.
As categorias são organizadas na chamada Matriz Nomotética, ou Quadro de Análise Nomotética, e se compõe de uma coluna à esquerda, onde se expõe as categorias provenientes dos discursos dos sujeitos interrogados, uma identificação dos discursos dos
sujeitos, que pode ser realizada através da numeração das descrições com algarismos romanos, dispostos na parte superior da matriz em uma seqüência horizontal, além do estabelecimento de caselas, abaixo da seqüência dos discursos identificados e do lado direito das categorias, onde números ordinais arábicos são estabelecidos, identificando a unidade de redução fenomenológica correspondente àquela categoria e discurso, não se perdendo assim, a origem da referida unidade. Quando observarmos vacância em casela, significa que aquele sujeito não expressou asserção correspondente àquela categoria (GONÇALVES JUNIOR, 2003).
A última fase da pesquisa, em que se busca uma compreensão do fenômeno, baseando-se diretamente nos dados da matriz nomotética, é a Construção dos Resultados, que trago adiante.