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2. KURAMSAL ÇERÇEVE VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR

2.3. Sayı Hissi Bileşenleri

Considerações sobre o status moral do embrião de acordo com seu estágio de desenvolvimento impactam a formulação não apenas de políticas relativas às pesquisas com células TE, mas também as referentes ao aborto, fertilização in vitro, saúde da mulher e outros tipos de pesquisas com embriões. Com efeito, estes temas parecem tão próximos entre si que, sob o ponto de vista regulatório, um viés incrementalista parece uni-los (Banchoff 2005). Isto é, espera-se, por exemplo, que países com um background de políticas permissivas com relação ao aborto tendam a ser permissivos também com relação às pesquisas com embriões, posto que ambos os tópicos se relacionam ao status moral do embrião. Casos como o do Brasil – onde a autorização das pesquisas com células TE convive com a criminalização do aborto – e o da Noruega – onde, ao contrário, a proibição das referidas pesquisas foi estabelecida em um contexto de leis de aborto bastante permissivas –, entretanto, refutam esta hipótese. Nesse sentido, é bem-vinda a tentativa de apontar, mesmo que de forma não exaustiva, os pontos de conexão e diferenças entre estes assuntos.

As pesquisas com células TE pertencem ao campo mais amplo das pesquisas com embriões, que surgiu pela primeira vez na pauta política das nações industrializadas nos anos 1970, após o desenvolvimento da técnica da fertilização in vitro. Como regra geral, o número de embriões produzidos in vitro para propósitos de fertilização é maior que o número dos que são efetivamente implantados no útero. Isso ocorre porque os custos financeiros, psicológicos e fisiológicos de um tratamento de fertilidade são significativos. Logo, ter embriões “de reserva” – isto é, embriões congelados em nitrogênio líquido, prontos para ser implantados – evita que, em caso de uma gravidez malsucedida ou da não ocorrência de gravidez, a paciente ou o casal de pacientes tenha que passar novamente por todo o processo, desde o início (Hastenreiter; Nascimento e Bossi 2009). Além disso, a produção de um número maior de

96 embriões garante uma margem de segurança para a seleção dos mais saudáveis. Os embriões “adicionais” (isto é, os não implantados), também chamados de “excedentes” ou “supernumerários”, são os responsáveis pelo estabelecimento do vínculo entre as clínicas de fertilidade e os laboratórios de pesquisas, entre a medicina e a ciência (Svendsen e Koch 2008, 94). Em outras palavras, estes “subprodutos” da fertilização in vitro, ao perderem seu valor enquanto “filhos em potencial”, ganham, simultaneamente, valor enquanto matéria- prima para pesquisas médicas (Svendsen e Koch 2008, 94).

Muitas décadas antes do desenvolvimento da fertilização in vitro, cientistas na Europa e nos Estados Unidos já haviam percebido o potencial da utilização de fetos em pesquisas médicas.47 A vacina Salk contra a poliomielite (paralisia infantil), por exemplo, foi

desenvolvida através da cultura de tecidos fetais. Até início dos anos 1970, estas pesquisas eram desenvolvidas em alguns estados da federação norte-americana, a partir de fetos provenientes de abortos, sem gerar maiores polêmicas (Maynard-Moody 1995).48 Não é

coincidência, portanto, que elas tenham se tornado alvo do movimento antiaborto justamente em 1974, após o julgamento (Roe versus Wade) que assegurou o direito constitucional da mulher a submeter-se a um aborto “terapêutico” no primeiro trimestre da gravidez (Belew 2004, 496). Dolgin ressalta que o movimento antiaborto (pro-life) nos Estados Unidos não nasceu ostentando a bandeira da defesa de embriões e/ou fetos; sua agenda inicial era muito mais ampla, e focava na preservação de um modelo tradicional de família (no qual a mulher desempenhava o papel de dona-de-casa, esposa e mãe) e da solidariedade comunal, em oposição aos valores da igualdade e da liberdade de escolha (2004, 202-203). Na medida em que esse discurso foi perdendo legitimidade perante a sociedade, a defesa da dignidade de

47 A diferença entre embriões e fetos está ligada ao estágio de desenvolvimento. Embriologistas

geralmente falam em embrião do momento da concepção até a 8ª semana da gravidez. Alguns especialistas, principalmente os obstetras, consideram, no entanto, que esse período se estende até a 10ª semana da gravidez, ponto a partir do qual podemos começar a falar na existência do feto.

97 embriões e fetos veio substituí-lo. Em suma, segundo Dolgin, a luta em prol “da vida do embrião” tornou-se uma forma de mascarar a busca do objetivo maior (e mais controverso) de preservar valores tradicionais e uma estrutura familiar patriarcal.

Apesar das interseções com o movimento antiaborto, a oposição às pesquisas com fetos e embriões nasceu com uma agenda própria, mais relacionada às questões do consentimento informado e do tratamento humano de objetos de pesquisas. Na Inglaterra, por exemplo, grupos religiosos que partiam do princípio de que embriões possuem os mesmos direitos que adultos alegaram que não seria ético realizar pesquisas em seres incapazes de expressar seu consentimento para tal (Belew 2004, 489). Nos Estados Unidos, manifestantes

pro-life chegaram a argumentar que crime mais terrível do que o de cometer um aborto seria

o de usar seres humanos como cobaias (Cohen, apud Maynard-Moody, 1995:11).

O aborto é usualmente avaliado à luz dos direitos e deveres da mulher que carrega o embrião em seu corpo. As pesquisas com embriões excedentes da fertilização in vitro, por sua vez, obrigam a considerar, sob outra ótica, o problema do status do embrião. De maneira mais evidente, já não se trata de discutir o direito da mulher de decidir, após a concepção, se pretende conceder ao feto a “licença” para usar seu corpo como morada temporária (Smith apud Losco 1989, 272). Afinal, após a retirada dos óvulos produzidos por estimulação hormonal, o corpo feminino sequer participa da trajetória que conecta clínicas de fertilização aos laboratórios de pesquisa. Ainda assim, as pesquisas com embriões possuem implicações para a saúde da mulher e forte interseção com políticas de gênero. A preocupação com o status moral do embrião, ou com assuntos de propriedade intelectual, entretanto, abafa o problema da vulnerabilidade da mulher doadora de óvulos para pesquisas (Waldby 2008, 27).

Como observa Kulawik (apud Burrell 2006, 15), o surgimento de pesquisas com embriões criou uma demanda adicional por óvulos que só pode ser preenchida por meio de “tratamentos intrusivos no corpo feminino”, o que implica o risco de as mulheres se

98 transformarem em fornecedoras de “matéria-prima”. A este tipo de argumento junta-se, muitas vezes, a preocupação de que tal demanda venha a ser suprida por mulheres de baixa renda, “guetificadas” em polos de alta tecnologia nos países desenvolvidos ou residentes nos países em desenvolvimento (Waldby 2008, 20). São esses receios que motivam as proibições, como é o caso no Brasil, à venda de gametas. Nos países onde a comercialização de gametas é legal, como nos Estados Unidos, lobbies em prol da saúde da mulher podem combinar uma agenda favorável à liberalização do aborto e contrária às pesquisas com embriões. A organização não governamental Our Bodies, Ourselves, por exemplo, realiza uma campanha contra a venda de óvulos para fertilização ou pesquisa sob a alegação de que os hormônios que estimulam a produção destes gametas podem provocar efeitos colaterais graves no organismo feminino (Norsigian 2005; Schneider 2007).

Diferentemente do sêmen, óvulos não são um tecido “autorrenovável, copioso e acessível” (Waldby 2008, 20). Mais ainda, ao contrário de espermatozoides, óvulos não se desprendem “naturalmente” do corpo, e sua retirada requer a aplicação de injeções subcutâneas de hormônios por até dez dias, e um procedimento cirúrgico que exige anestesia e está associado a uma série de riscos e efeitos colaterais, tais como sangramento (Steinbrook apud Waldby 2008, 20) e síndrome da hiperestimulação ovariana. Como resume Dickenson (apud Waldby 2008, 21), a doação de óvulos assemelha-se mais à doação de fígado de um ser humano vivo para outro, do que à doação de esperma, no que diz respeito à “singularidade do tecido, aos riscos envolvidos no processo e à possibilidade de consequências de longo prazo”. Estes problemas relativos à saúde da mulher, como veremos no capítulo VI, chegaram a ser apontados na Assembleia Geral das Nações Unidas, durante a tentativa de aprovação de uma declaração contra a clonagem humana.

Apesar destes pontos de controvérsia, é importante ressaltar que a resistência às pesquisas com embriões humanos tende a ser atenuada quando se enfatiza que seu objetivo

99 final é “compreender e eventualmente tratar doenças e lesões sérias” (Walters 2004a, 3-4), como veremos no capítulo V. Além disso, a forma como os embriões são produzidos e o objetivo inicial de sua produção também interferem na aceitação das pesquisas, assim como na elaboração de políticas públicas. No próximo capítulo analisaremos como alguns países reagiram ao desafio de regular as pesquisas com células TE e a clonagem. Entretanto, seguindo o padrão estabelecido neste capítulo, começaremos com o tema da regulação dos OGMs.

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III. A regulação da biotecnologia moderna