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Dördüncü Alt Probleme İlişkin Bulgular

4. BULGULAR

4.4. Dördüncü Alt Probleme İlişkin Bulgular

Assim como no caso da biotecnologia agrícola, os países europeus também divergem a respeito da regulação das pesquisas com células TE. Tais discordâncias, no entanto, não são solucionáveis a partir de análises de risco mais rigorosas, ou evidências científicas mais robustas, posto que têm como base diferentes (e em geral irreconciliáveis) percepções a respeito do status moral do embrião. Como coloca Salter (2006), é durante a discussão de temas como este que são reveladas as “fragilidades” do sistema “tecnocrático” de governança transnacional da ciência adotado pela UE.

123 Os dissensos no interior da UE a respeito das pesquisas com células TE vieram à tona mais fortemente durante a elaboração do 6º Programa de Financiamento Público para

Pesquisas da União Europeia, válido para o período de 2002 a 2006.65 Mais especificamente,

Áustria, Alemanha, Itália e Portugal, países contrários à extração de células-tronco de embriões humanos, uniram-se na época da discussão das diretrizes do programa para derrubar a proposta do Parlamento Europeu em favor do financiamento, com recursos da UE, de pesquisas com embriões excedentes de fertilização in vitro (Walters 2004a, 5-6). O impacto desta oposição foi forte o suficiente para levar a UE a se abster de financiar qualquer tipo de derivação de células-tronco de embriões humanos no ano de 2003 (European Commission 2002, 27). Ainda assim, a vitória da ala conservadora não foi completa, posto que, para os anos de 2002 e de 2004 a 2006, ficou estabelecido que a UE só não financiaria “atividades direcionadas a criar embriões humanos unicamente para propósitos de pesquisas ou para a produção de células-tronco, incluindo através da transferência do núcleo de células somáticas” (European Commission 2002, 27). Tal decisão, que implicitamente autoriza o financiamento de pesquisas com embriões excedentes de fertilização in vitro, ou com linhagens de células TE previamente existentes, foi reafirmada em 2006, com a divulgação do 7º Programa, aplicável ao período de 2007 a 2013 (European Parliament and European Council 2007). Neste ponto, é importante ressaltar que a política da UE para os períodos de 2002-2006 e 2007-2013 representou uma solução compatível com a Convenção Europeia

sobre Direitos Humanos e Biomedicina, de 1997, que proíbe a criação de embriões humanos

para finalidades de pesquisas (Convention on Human Rights and Biomedicine 1997). Tal Convenção, apesar de importante nos contextos europeu e internacional, não foi ratificada por alguns países-membros da UE cujas políticas domésticas autorizam a produção de embriões

65 Estes programas determinam as regras para o financiamento de pesquisas transnacionais,

124 para a realização de pesquisas com células TE, como é o caso do Reino Unido. Vale a pena se deter brevemente neste caso, pois é ilustrativo de como as trajetórias históricas e considerações políticas de ordem doméstica prevalecem, às vezes, sobre orientações de organismos coletivos com relação às pesquisas de células tronco TE, mesmo quando os países estão integrados a blocos.

O Reino Unido sustenta uma política de regulação de pesquisas com células TE e clonagem que está entre as mais permissivas do mundo. Como mencionamos no capítulo anterior, em 1982, em um contexto de expansão da utilização da técnica da fertilização in vitro, foi criada a chamada Comissão Warnock, encarregada de formular recomendações para políticas neste campo e no campo das pesquisas com embriões excedentes. As prescrições desta Comissão formaram a base do Ato de Embriologia e Fertilização Humana (Human

Fertilisation and Embryology Act – HFEA), promulgado em 1990.

O HFEA, que inclui em seu escopo regras sobre paternidade na era da fertilização in vitro e uma série de normas relativas a embriões e gametas, “permit[iu] a pesquisa em embriões humanos sob estrito controle regulatório [e] para determinados propósitos” e criou a Autoridade em Fertilização Humana e Embriologia (Human Fertilisation and Embryology

Authority), que se responsabiliza por “conceder e manter licenças que autorizem as pesquisas

com embriões” (Belew 2004, 492). O ato também previu a possibilidade de criação de embriões, através da fertilização in vitro, exclusivamente para pesquisas.

Cerca de uma década depois da promulgação do HFEA, a existência desta norma desempenhou um papel fundamental na autorização das pesquisas com células TE, extraídas tanto de embriões excedentes de fertilização in vitro, quanto de embriões produzidos por clonagem. Uma vez que o HFEA já permitia pesquisas com embriões voltadas para a solução de problemas de infertilidade e doenças congênitas, não foi difícil argumentar em prol de

125 uma “modesta” extensão da estrutura regulatória preexistente, no sentido de promover avanços no campo da compreensão de doenças humanas (Cooper apud Banchoff 2005, 218).

Assim como o Reino Unido, a Suécia também figura entre as nações mais liberais da Europa e do mundo quando o assunto são as pesquisas com células TE. Apesar de ter ratificado a Convenção de Direitos Humanos e Biomedicina, em abril de 1997, o país berço do famoso Karolinska Institutet, e um dos competidores mais agressivos no mercado internacional da biomedicina, autoriza desde 2002 a produção de embriões para pesquisas, através da clonagem (Svenska Vetenskapsradet website). Segundo Kulawik (apud Burrell 2006, 16), tal inconsistência é atenuada através de uma “manobra linguística”: isto é, o Comitê de Integridade Genética do país vale-se do termo “óvulo fertilizado” (befruktade

ägg), ao invés de embrião, a fim de evitar oposição.

As políticas regulatórias da Alemanha representam, no contexto europeu, um claro contraste com as da Suécia e do Reino Unido. Em 2002, o parlamento deste país estabeleceu uma diferenciação polêmica entre linhagens de células TE produzidas em território nacional e no exterior, ao permitir “importações, cuidadosamente supervisionadas” de linhagens já existentes (Jasanoff 2007, 197). É consenso entre os estudiosos do caso alemão que as profundas marcas deixadas pelo nazismo influenciaram a forma como este país lida com questões relativas à vida e à dignidade humanas (Gottweis 2002). A Constituição alemã estabelece, por exemplo, garantias contra quaisquer tentativas de apropriação do discurso da ciência para a condução de experimentos eugênicos ou que propagandeiem a “melhoria” da espécie humana (Banchoff 2005, 221; Belew 2004, 512). É com base neste princípio que o Ato de Proteção ao Embrião (Embryonenschutzgesetz), de 1990, proíbe qualquer tipo de pesquisas com embriões humanos, estabelecendo a pena de reclusão de até três anos para tentativas de fertilizar um óvulo sem a intenção de provocar uma gravidez, ou de usar um embrião para fins que ultrapassem o de sua própria existência (Banchoff 2005, 221). Apesar

126 de seu caráter restritivo, não há nada no Ato que, tecnicamente, impeça a importação de linhagens de células TE (Belew 2004, 513) – mesmo porque a lei foi promulgada oito anos antes do anúncio da produção da primeira linhagem nos Estados Unidos. Nesse contexto, o que desencadeou o debate sobre as células TE neste país foi um pedido de financiamento, submetido à Fundação Alemã de Pesquisas (Deutsche Forschungsgemeinschaft), para um projeto de pesquisas utilizando linhagens de células TE importadas (Jasanoff 2007, 196-197).

Em 2002, reconhecendo os significativos avanços no campo das pesquisas com células TE, a Alemanha aprovou o chamado Ato das Células-tronco (Stammzellgesetz). Essa lei bane a importação de linhagens de células TE, a menos que as seguintes condições sejam satisfeitas: (1) a linhagem tenha sido derivada antes de janeiro de 2002 (semelhante à política norte-americana durante a era Bush), (2) a linhagem tenha sido produzida de acordo com as leis do país fornecedor, (3) a linhagem tenha sido derivada de embriões criados in vitro e, originalmente, com finalidades reprodutivas, e (4) nenhuma compensação tenha sido dada ao doador (Belew 2004, 516). Em 2008, contudo, o Parlamento alemão prolongou o período de corte da produção das linhagens para maio de 2007.

Posicionamentos mais restritivos que o da Alemanha são sustentados pela Itália e Áustria. Na Itália, a Lei Quarenta (Legge Quaranta), de 2004, proíbe o uso de embriões em pesquisas, o congelamento e destruição de embriões e a doação de gametas, além de limitar a três o número de óvulos que podem ser fertilizados a cada ciclo de fertilização in vitro e de determinar que todo embrião produzido pela técnica deve ser implantado no útero humano. Um referendo para modificar a lei não obteve sucesso, devido aos baixos índices de participação (Prainsack e Gmeiner 2008, 378). Recentemente, o poder judiciário determinou que a limitação ao número de embriões produzidos por fertilização in vitro é inconstitucional. O financiamento das pesquisas com células TE, entretanto, continua sendo um ponto problemático. A lei italiana permite a realização de pesquisas com linhagens de células TE

127 preexistentes. No início de 2009, entretanto, cientistas entraram com ações contra o governo, devido a uma sentença que excluiu as pesquisas com células TE da lista de pesquisas financiáveis por um edital do governo (Eurostemcell.org 2010). Recentemente, cientistas italianos publicaram um artigo alegando que a ciência no país estaria sendo prejudicada por uma “epidemia de política”, semelhante à que ocorreu nos EUA durante a era Bush, caracterizada pela “interferência política na pesquisa científica”, como forma de censura (Cattaneo e Corbellini 2010).

No caso da Áustria, não existe uma proibição explícita às pesquisas com células TE. Muitos, entretanto, interpretam a lei austríaca de medicina reprodutiva, de 1992, como um impedimento subentendido a tais pesquisas, o que faz com que a maioria dos cientistas no país prefira desenvolver pesquisas com células-tronco adultas (Prainsack e Gmeiner 2008). O posicionamento conservador da Áustria, no que diz respeito à biotecnologia humana, assim como de diversos outros países, europeus e não europeus, manifestou-se também em um fórum mais amplo, de âmbito transcontinental: isto é, na declaração da ONU sobre a clonagem humana, que será discutida no capítulo VI. Antes de passarmos para o debate no âmbito internacional, entretanto, discutiremos em detalhe a regulação das novas biotecnologias no Brasil, com foco em OGMs e pesquisas com células TE. Um resumo das políticas de regulação de pesquisas com células TE nos países mencionados neste capítulo, assim como na União Europeia, pode ser visto abaixo (ver Quadro III).

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Quadro III – Políticas de regulação de pesquisas com células-tronco embrionárias por país e na União Europeia

País Política

Estados Unidos (governo George W. Bush)

Permite o financiamento, com dinheiro público federal, somente de pesquisas com linhagens de células TE criadas antes de 09/08/2001. Governo federal não financia a extração de células-tronco de embriões humanos. Iniciativa privada e estados da federação são livres para financiar a extração de células-tronco de embriões humanos.

Estados Unidos (governo Barack Obama)

Permite o financiamento, com dinheiro público federal, de pesquisas com linhagens de células TE, independentemente da data de criação das linhagens. Governo federal não financia a extração de células-tronco de embriões humanos. Iniciativa privada e estados da federação são livres para financiar a extração de células-tronco de embriões humanos.

União Europeia (2003)

Não financia a derivação de células-tronco de embriões humanos.

União Europeia (2004-2013)

Financia pesquisas com embriões excedentes de fertilização in vitro e com linhagens criadas antes de 2004. Não financia pesquisas com embriões produzidos unicamente para propósitos de pesquisa.

Reino Unido

(1990 e 2000) Permite a utilização de embriões excedentes da fertilização in vitro para pesquisas. Permite a criação de embriões exclusivamente para pesquisas através de fertilização in vitro ou clonagem.

Alemanha (2002-2007)

Permite, sob determinadas condições, a utilização de linhagens de células TE importadas e criadas antes de 2002.

Alemanha (desde 2008)

Permite, sob determinadas condições, a utilização de linhagens de células TE importadas e criadas antes de 2007.

Itália

(desde 2004) Permite a realização de pesquisas com linhagens de células TE criadas antes de 2004. Suécia

(desde 2002)

Permite a utilização de embriões excedentes da fertilização in vitro para pesquisas. Permite a criação de embriões exclusivamente para pesquisas através de clonagem. Áustria

(desde 1992)

Não autoriza a realização de pesquisas com embriões humanos.

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IV. As leis brasileiras de biossegurança: