4. BULGULAR
4.3. Üçüncü Alt Probleme İlişkin Bulgular
O caso norte-americano merece ser destacado nesta seção por uma série de motivos. Em primeiro lugar, por serem os EUA pioneiros na derivação bem-sucedida de células-tronco de embriões humanos e líderes no número de publicações de resultados de experimentos neste campo, é natural considerá-los como referência no campo regulatório. Além disso, a importância político-eleitoral que tem, neste país, o debate sobre pesquisas com embriões, de
que a tipologia de Avelino e Diniz (2009) não segue uma ordem crescente nem decrescente em termos do grau de restritividade.
119 forma geral, e com células TE, de forma específica, é algo sem paralelo. Uma das evidências disto foi o destaque dado ao tema pelo recém-eleito presidente George W. Bush. Ele dedicou uma de suas primeiras aparições em rede nacional de rádio e televisão, em nove de agosto de 2001, à apresentação de sua proposta relativa à governança das pesquisas com células TE. Com ar grave diante das câmeras, Bush afirmou ter chegado à conclusão, após consultas com cientistas e bioéticos, e ponderações pessoais, de que seria importante autorizar o repasse de verbas federais para o financiamento de pesquisas com linhagens de células TE já existentes,63 isto é, produzidas antes de seu pronunciamento. Nestes casos, segundo o
presidente, “decisões de vida e morte” já teriam sido tomadas (Bush 2001). Tal deliberação, apresentada em uma linguagem afirmativa (we should allow), impôs, entretanto, um limite considerável às pesquisas, posto que resultou na proibição do financiamento público tanto de pesquisas com linhagens produzidas após o pronunciamento, quanto da produção de novas linhagens. Além disso, o presidente argumentou que a questão das células TE pertencia mais ao campo da ética, tradicionalmente ligado ao da política, que ao da expertise científica (Jasanoff 2005b). Ao decidir-se por esta alternativa, Bush pretendia atender às demandas dos grupos conservadores, autoproclamados “favoráveis à vida” (pro-life), e contrários à destruição de embriões, sem, entretanto, negar a imagem dos EUA como nação que apoia e se funda no progresso tecnocientífico.
The United States has a long and proud record of leading the world toward advances in science and medicine that improve human life. And the United States has a long and proud record of upholding the highest standards of ethics as we expand the limits of science and knowledge. (…) As the discoveries of modern science create tremendous hope, they also lay vast ethical mine fields (…) We have arrived at that brave new world that seemed so distant in 1932, when Aldous Huxley wrote about human beings created in test tubes in what he called a “hatchery”. (…) I also believe human life is a sacred gift from our Creator. I worry about a culture that devalues life, and believe as your President I have an important obligation
63 Na época do pronunciamento, estimava-se que haveria cerca de 60 linhagens nos Estados Unidos,
prontas para a pesquisa. Entretanto, ao fim do ano de 2003, “apenas 12 das linhagens de células- tronco embrionárias aprovadas estavam disponíveis para os receptores de financiamento federal de pesquisas” (Cohen 2001, 99).
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to foster and encourage respect for life in America and throughout the world. And while we're all hopeful about the potential of this research, no one can be certain that the science will live up to the hope it has generated (Bush 2001).
É importante ressaltar que, longe de simplesmente refletir o conservadorismo de Bush, tal política não foi construída sobre um vazio legal. Em 1995, durante o segundo mandato de Bill Clinton, dois deputados federais do Partido Republicano lograram adicionar, ao orçamento destinado à saúde, uma emenda que visava a proibir que recursos federais fossem utilizados em pesquisas que culminassem na destruição de embriões humanos (Cohen 2004, 98). A proibição imposta pela chamada emenda Dickey-Wicker, que valia inicialmente para 1996, continuou a ser mantida, ano após ano, pelo Congresso, mesmo durante as legislaturas de maioria democrata. Foi nesse contexto legal que grupos de cientistas, patrocinados pela empresa privada Geron, anunciaram as primeiras experiências bem- sucedidas de extração de células-tronco de embriões humanos (Nielsen 2005). Ao ser notificado da notícia, o então presidente Clinton, um “otimista em questões tecnológicas” (Jasanoff 2007, 194), solicitou à Comissão Nacional de Bioética (National Bioethics Advisory
Committee) um posicionamento sobre o caráter ético de tais pesquisas. A Comissão
recomendou que o Congresso voltasse atrás com relação à proibição de 1995 (isto é, a emenda Dickey-Wicker), sob a justificativa de que seria melhor para a sociedade permitir o financiamento federal destas pesquisas do que apoiar uma situação na qual elas seriam realizadas de toda forma, e ainda com o agravante de se basearem na lógica do mercado, sem qualquer supervisão governamental. Em seguida, a conselheira geral do Ministério da Saúde, Harriet Rabb, fez a polêmica declaração de que não haveria nenhum fundamento legal para proibir as pesquisas com células TE, posto que estas não envolviam o uso de embriões humanos, mas apenas de células-tronco pluripotentes (Belew 2004, 502).
Procurando evitar um posicionamento tão radical quanto o de Rabb, e a fim de não contrariar a emenda Dickey-Wicker, o Ministério da Saúde (Department of Health and
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Human Services) propôs, ao final do governo Clinton, uma distinção entre “derivação” e
“uso” de embriões (Cohen 2004, 98). Em outras palavras, foram estabelecidas normas que impediam a utilização de verbas federais para a derivação de células TE – procedimento que, inevitavelmente, culmina na destruição do embrião e, consequentemente, fere a emenda – e, ao mesmo tempo, liberavam recursos para o uso, em pesquisas, de células TE cuja extração tivesse sido paga com fundos privados (Dolgin 2003, 143). Nesse sentido, não é exagero concluir que a principal diferença entre as políticas de Clinton e Bush está em que a última “restringiu o número de linhagens de células-tronco embrionárias que poderiam ser usadas em pesquisas com células-tronco financiadas com verbas federais para aquelas [linhagens] derivadas antes das nove horas da noite de nove de agosto de 2001” (Cohen 2004, 98).
Também faz sentido indagar até que ponto a política de pesquisas com células TE da era Bush foi realmente restritiva. Afinal, a proibição do financiamento federal coexistiu o tempo todo com uma postura laissez-faire com relação ao financiamento privado (Isasi e Knoppers 2006, 21), e com a autonomia dos estados para destinarem verbas para estas pesquisas (Avelino e Diniz 2009, 4).64 Todavia, é impossível negar a importância dos
“dólares federais” (taxpayer’s dollars) no financiamento da pesquisa biomédica no país (Dunn 2005). Em termos logísticos, a proibição destas verbas também causou uma série de problemas para os laboratórios de pesquisas, tais como a necessidade de se utilizarem diferentes equipamentos para pesquisas financiadas por meios privados e por meios públicos, e até mesmo separar grupos de pesquisa, o que prejudicou a colaboração entre eles (Kalb 2009). Por fim, é necessário considerar o conteúdo simbólico de uma proibição desta natureza; isto é, se tais pesquisas são consideradas moralmente problemáticas, a ponto de não
64 Vale lembrar que em novembro de 2004, o Estado da Califórnia decidiu investir três bilhões de
122 serem dignas de financiamento federal, é natural que os agentes privados pensem duas vezes antes de associarem sua imagem a elas (Werner 2008).
Como era esperado por muitos, alguns meses após assumir a presidência, em 2009, Barack Obama ordenou a remoção dos limites impostos por Bush ao financiamento federal de pesquisas com células TE (Obama 2009). Isto é, apesar de continuar a proibir o financiamento da derivação em si, Obama voltou a permitir que os taxpayer’s dollars fossem utilizados para financiar o uso de células TE em pesquisas, independentemente da data da derivação destas células. Em 2010, contudo, a questão voltou à tona, quando o juiz de uma corte federal de apelação determinou que a política de Obama violava a emenda Dicker- Wicker, a qual foi renovada pelo Congresso em 2009. O juiz Royce Lamberth não aceitou o argumento de Obama, originado na era Clinton, de que “o processo de extração das células- tronco, o qual destrói o embrião, pode ser separado das pesquisas subsequentes que se utilizam de células-tronco” (Boyer, 2010, 67). Em abril de 2011, entretanto, uma corte federal de apelo votou contrariamente à posição de Lamberth, trazendo de volta, até segunda ordem, o cenário desejado por Obama.