III . EKONOMİK SEKTÖRLERDE MEVCUT DURUM VE SEKTÖREL DEĞERLENDİRMELER
AĞAÇ SAYISI
3. SANAYİ VE TİCARET
Neste momento é preciso que o leitor esteja informado a respeito da trajetória121 da investigação empírica com os refugiados palestinos e das entrevistas realizadas a instituições. Já no levantamento bibliográfico, a falta de pesquisas acadêmicas sobre o tema do refúgio indicava que a pesquisa de campo era fundamental neste tipo de estudo. Decidida a estudar o reassentamento de refugiados palestinos no Brasil, viajei à cidade de Mogi das Cruzes (SP) em novembro de 2009 como consultora do ACNUR, mas a realização das entrevistas só foram possíveis me apresentando como professora, Coordenadora do NUARES- Núcleo de apoio aos refugiados no Espírito Santo.
Importante ressaltar que em nenhum momento da pesquisa foi requisitado sigilo em relação aos nomes dos refugiados e das instituições das quais alguns interlocutores faziam parte. Entretanto, alterei os nomes dos refugiados citados na tese em razão da confidencialidade do status de refúgio.
121Essa trajetória tem tempo e espaços variados. Ela começa em 2004 e seu espaço geográfico abrange atividades de
pesquisa em Vila Velha (ES), no ano de 2009 em Mogi das Cruzes (SP) e no ano de 2012 em Lisboa (PT). Isto porque o que vai permitir a aproximação com os refugiados Palestinos são as atividades de pesquisadora no NUARES – Núcleo de apoio aos refugiados no Espírito Santo. A investigação empírica deu-se em dias e horas variados (conforme adaptação ao tempo dos refugiados), mas com aproximadamente uma presença de 30 dias de pesquisa de campo em Mogi das Cruzes (SP) e posteriormente como pesquisadora na Universidade de Lisboa. As entrevistas as instituições ocorreram em dois espaços privilegiados, quais sejam: na Comigrar – a primeira conferência sobre migração e refúgio no Brasil e no V encontro nacional da Cátedra Sérgio Vieira de Mello, realizado na UFRGS.
Assim, a primeira preocupação foi na forma de elaborar as questões, para que se estabeleça a comunicação eficiente entre o investigador e o sujeito. As respostas devem refletir o que o investigador quer saber e o que pretende fazer com a informação.
No Quadro 7, apresenta-se a dinâmica da investigação, o que ela envolve, visa e quais seus respectivos planos de estudo.
Quadro 7: Esquema da dinâmica da investigação
Dinâmica da Investigação
Envolve Visa Apresenta Planos
Epistemologias ; Metodologias; Perspectivas Teóricas; Métodos e Técnicas. A obtenção do conheciment o científico. Experimentai s Não experimentai s ou descritivos Qualitativos Mistos/ Específicos Pré- experimentais; experimentais puros; Quase experimentais; De sujeito único. Causal comparativo; Correlacional; Survey; Estudos psicométricos. Estudo de caso; Teoria fundamentada; Etnografia; Fenomenologia . Investigação – ação; Avaliação; Desenvolvimento ; Investigação analítica. Fonte: Coutinho (2008)
Nesta tese, utiliza-se a combinação da pesquisa empírica, da aplicação de questionários122 (quantitativo) e de entrevistas (qualitativa). Assim, quanto aos
métodos e técnicas da investigação, foram realizadas: 1) Investigação empírica ou pesquisa de campo, através de observação participante123; 2) Realização de
122O questionário“[…] é um instrumento para recolha de dados constituído por um conjunto mais ou menos amplo de perguntas
e questões que se consideram relevantes de acordo com as características e dimensão do que se deseja observar.” (Hoz, 1985:58). E permite “[…] transformar em dados informação diretamente comunicada por uma pessoa (sujeito).” (Tuckman, 2000 p.307)
123 Não ocorria apenas através da observação participante (Malinowski, 1978), mas, sobretudo, através da participação
entrevistas individuais e em pequenos grupos (semidirigidas124 ou abertas) e não
estruturadas com os refugiados e outros atores (indivíduos e instituições);3) Aplicação de questionário com contato direto com os refugiados e/ou pequenos grupos de refugiados nos locais de moradia e práticas religiosas (foram 4 encontros na mesquita) e, em menor intensidade (apenas 1 encontro) no espaço da Cáritas; e 4) História Oral para revelar a trajetória migratória e aspectos culturais do país de origem.
Os questionários propriamente ditos e as entrevistas são técnicas características de um Survey que potenciam a recolha de dados. No entanto, os questionários diferenciam-se das entrevistas por serem auto-administrados, isto é, dispensam a presença do entrevistador; podem ser entregues em mão, ou enviados por correio e podem ter diferentes formatos – formulários impressos, escalas de Likert125 e
diferencial semântico.
O estudo piloto do questionário foi testado com voluntários do NUARES – Núcleo de apoio aos refugiados no Espírito Santo. O objetivo era avaliar o desempenho/funcionalidade do questionário, para se necessário reformular antes de aplicá-lo em campo.
A investigação empírica iniciou-se em novembro de 2009 com o foco voltado para uma consultoria para o ACNUR. Foram pesquisados programas e projetos referentes à assistência e à integração dos refugiados no município de Mogi das Cruzes (SP), abarcando tanto o favorecimento do acesso destes refugiados às
124 Obteve-se autorização para a transcrição das respostas. Todas as entrevistas foram realizadas com auxílio de uma
tradutora de origem síria.
125 Escala de Likert1= Completamente em desacordo2= Em desacordo 3= Nem concordo nem discordo 4= Concordo 5=
políticas públicas (em especial o acesso aos sistemas públicos de saúde e educação). Naquele momento o conhecimento in loco além de agregar novas informações tinha o objetivo superar as dificuldades de integração existentes até aquele momento. Sobretudo de identificar estratégias econômicas e sociais para a autossuficiência.
O primeiro passo para realizar a pesquisa é que o pesquisado aceite o pesquisador, disponha-se a falar sobre a sua vida, introduza o pesquisador no seu grupo e dê-lhe liberdade de observação. Esse mergulho na vida de grupos e culturas aos quais o pesquisador não pertence, exige uma aproximação baseada na simpatia, confiança, afeto, amizade, empatia, etc. (MARTINS, 2004, p.294).Porém, havia um clima de desconfiança126 e também o período que foi realizado as entrevistas – já no final do
segundo ano de assistência financeira do ACNUR e, portanto, terminando o aporte financeiro recebido por eles – foi especialmente difícil ser recebida pelos palestinos. Eles já não tinham diálogo com a Cáritas, já estavam desgastados com o ACNUR e com o governo brasileiro devido aos protestos empregados. Sofri muita resistência e somente ao me identificar como professora criou-se certa empatia127, eles aceitaram e aos poucos o que era resistência tornou-se uma catarse. Críticas, desilusões, indignações foram presentes em todas as entrevistas.
O segundo passo trouxe também vários fatores de dificuldade: o maior deles foi a aplicação do questionário/entrevistas, devido a barreira linguística, o que gerou
126 A questão da confiança/desconfiança/suspeita em trabalhos de campo com refugiados já se configura tema estudado, de
diferentes maneiras, pelos antropólogos. Para mais informações sobre esta discussão, ver: Knudsen (2009) e Schiocchet (2011).
127 Little (2006), referente à etnografia toma como objeto de análise o conflito, ele ressalta que se deve estabelecer um esforço
problemas de comunicação. A maioria das entrevistas foram realizadas em árabe128,
mas também em inglês e português quando possível, haja vista que já estavam há quase 2 anos no Brasil. Houve outros complicadores, como alguns refugiados que se disponibilizaram para ser entrevistados, mas não permitiram que as suas filhas/filhos fossem entrevistadas(os); houve o caso de uma palestina hospitalizada; o caso de alguns refugiados estarem buscando trabalho na capital; alguns casos de refugiados que foram difíceis de localizar e por fim, nem todos aceitaram responder ao questionário/entrevista.
Foram realizadas entrevistas em 14129núcleos familiares de refugiados residentes em Mogi das Cruzes (SP).
O questionário de duas páginas contemplava perguntas abertas e fechadas (Quadro 8) sobre o background pessoal (idade, sexo, nível de instrução), nível do português, experiência profissional (anterior e posterior a chegada ao Brasil), condições de trabalho e rendimentos, habilidades, áreas de interesse e empreendedorismo. As perguntas abertas indagavam especialmente sobre: (1) O que lhe impede de trabalhar no momento? (2) Onde gostaria de trabalhar no próximo ano?
128 Com o auxílio de uma tradutora de origem síria, Dona Fátima.
129 Do universo de 108 refugiados palestinos, metade deles se encontram em São Paulo, metade no Rio Grande do Sul. A
Quadro 8: Vantagens e desvantagens das questões abertas e fechadas
Fonte: http://inqporquestion.
Fonte: Coutinho (2008).
Os dados foram analisados de forma quantitativa e qualitativa. Para as análises quantitativas serão utilizadas informações disponibilizadas no questionário. A análise qualitativa a partir de verbalizações selecionadas para ilustrar as visões dos refugiados apontando tanto aspectos negativos quanto positivos citados por eles.
Geralmente prevalece a ideia de que as metodologias quantitativas (onde a técnica mais utilizada é o questionário) opõem-se às metodologias qualitativas (onde se recorre principalmente à técnica da entrevista). No entanto, o que se deve ter em atenção é que estes dois métodos e respectivas técnicas pretendem responder a diferentes necessidades consoantes aos objetos de estudo e aos objetivos em causa. Tal como se refere Foddy:
PERGUNTAS VANTAGENS DESVANTAGENS
ABERTAS FECHADAS O sujeito goza de liberdade para responder O sujeito fica limitado à opção de resposta Estimula o pensamento livre Indispensável aos estudos exploratórios Dificuldade no tratamento de informação
Análise dos dados mais subjetiva
Dificuldade em categorizar e
interpretar respostas
Possível distorção das repostas
durante o processo de codificação
Maior probabilidade de ocorrer
vieses associados ao entrevistador
Mais tempo para responder à
questão
Dificuldade em detectar erros de
omissão
Existe uniformidade, e
por isso simplifica a análise da resposta;
Análise mais rápida e
econômica;
A lista de respostas
ajuda a clarificar o significado da questão;
Respostas mais fácil
de tabular;
Ajuda a sintetizar a
informação;
Mais fácil e rápida de
responder.
Não dá liberdade de expressão ao
inquirido
Condiciona a resposta do inquirido
Difícil de elaborar
Pode levar a erros quando são
selecionados padrões de resposta que interessam ao selecionador
Diminui o índice de reflexão sobre o
tipo de resposta do inquirido
Falha pela falta de variáveis e
profundidade
Dificuldade em determinar erros e
Ao longo do século XX, independentemente das razões que conduziam ao atual estado de coisas, as ciências sociais tem-se caracterizado por duas grandes formas de empreender recolha de informação verbal. Por um lado, assistiu-se ao enorme crescimento e mesmo à preponderância de inquérito por questionário, tentando trilhar caminhos paralelos ao que as ciências da natureza seguem. No essencial, trata-se de procedimentos orientados por uma postura positivista que visa descobrir ou descrever um mundo ‘objetivo’, ‘tal com ele é’ através de medidas verdadeiras [...] O fato de as perguntas serem cuidadosamente padronizadas, associado ao de cada inquirido fornecer apenas uma resposta também ela padronizada, conduz aos defensores deste procedimento assumirem que diferentes respostas à mesma pergunta podem ser pertinentemente comparadas.
[...]
Por outro lado, existe todo um conjunto de investigadores que, situando-se embora em diferentes quadros teóricos, pode globalmente considerar-se como utilizador de ‘métodos qualitativos’ de investigação [...] Os membros deste grupo comungam os pontos de vista subjetivista e fenomenológico segundo os quais as ciências sociais se devem interessar mais por dimensões ‘vividas’ pelos seres humanos do que por impactos de qualquer fenômenos físicos. Neste contexto, favorecem-se procedimentos de recolha de informação julgados mais adequados para captar a subjetividade dos atores, designadamente os baseados no contato direto e prolongado com o meio social em estudo, participando nas interações sociais e inquirindo através de perguntas abertas e não permitindo aos observados exprimirem- se pelas suas próprias palavras e não através de um conjunto preestabelecido de respostas (FODDY, 1996 p.13).
Para esta tese foi construído um questionário cujo conteúdo foi elaborado com os seguintes objetivos:
- Permitir a caracterização dos entrevistados;
- Identificar o percurso escolar e profissional dos entrevistados nos países onde estiveram antes (incluindo país de origem) e no Brasil; e
- Identificação de problemas e necessidades da integração local e no mercado de trabalho.
Após a aplicação do questionário, percebeu-se ainda mais a importância de uma metodologia qualitativa (entrevistas), uma vez que buscamos explicações mais profundas e uma melhor interpretação dos comportamentos e ações dos refugiados
e seus significados. Embora em toda informação corre-se o risco de ocultação, a entrevista revelou-se mais eficiente e flexível que o questionário. Permitindo maior recolha da informação e mais elementos para análise. Na entrevista, o entrevistador apenas aponta os tópicos que têm de ser abordados, não sugerindo respostas. Já no questionário o entrevistador tem o controle de todo o processo, direcionando as respostas e opiniões dos entrevistados através das hipóteses de respostas colocadas.
As entrevistas foram realizadas durante o mês de novembro de 2009. A escolha do local de realização das entrevistas ficou a cargo dos próprios entrevistados. A maioria preferiu na sua própria residência, sempre oferecendo chás ou refrigerantes. Apenas um pequeno grupo mais acautelado preferiu a realização das entrevistas na mesquita. No que diz respeito ao tempo de duração das entrevistas, em média, duraram entre os 40-90 minutos. O dia e a hora da realização das entrevistas foram previamente marcados, e o acesso aos refugiados foi através da Cáritas e do ACNUR. Foi explicado a todos os entrevistados que se tratava de uma pesquisa acadêmica e que o ACNUR teria acesso as informações. Vale dizer que os refugiados palestinos não autorizaram a gravação das entrevistas. Assim, ao término das mesmas eram feitas as anotações.
Buscou-se entrevistar o maior número de refugiados palestinos residindo em Mogi das Cruzes (SP) e também entrevistei uma família em Ferraz de Vasconcellos (SP). Alguns palestinos se recusaram a dar entrevistas. Entretanto, a variedade e a diversidade dos entrevistados nos leva a crer que nenhuma situação importante para as problemáticas tratadas nessa tese foram omitidas.
Considerou-se igualmente importante conhecer o ponto de vista das instituições envolvidas no processo de seleção, acolhimento e integração dos refugiados. Ou seja, captar os pontos de vista de quem os recebe e promove a integração local. Para isso, foi construída uma entrevista com os seguintes objetivos:
- Perceber de que forma as instituições envolvidas avaliam o Programa de Reassentamento Brasileiro;
- Identificação de práticas promissoras, sugestões e recomendações; e - Efetuar um balanço do Programa de Reassentamento Brasileiro.
Neste sentido, foram identificadas as seguintes instituições a entrevistar:
Quadro 9: Relação de Entrevistados
INSTITUIÇÃO ENTREVISTADO
CONARE – Comitê Nacional para
Refugiados
Paulo Abrão Pires Júnior Departamento de Estrangeiros do Ministério
da Justiça João Guilherme Lima Granja Xavier da Silva
MEC- Ministério da Educação Maria Auriana Pinto Diniz
ACNUR Brasil - Alto Comissariado das
Nações Unidas para Refugiados Gabriel Gualano de Godoy
ASAV- Associação Antônio Vieira Karin Wapechowski
DPU – Defensoria Pública da União Laura Zacher
Cáritas Arquidiocesana de São Paulo Andreia Costa Vieira
Fonte: Elaboração Própria
Vale ressaltar que apenas a entrevistada da ASAV estava na instituição quando a chegada dos palestinos em 2007. Por opção, as entrevistas foram realizadas após a análise dos questionários/entrevistas realizados junto aos refugiados, uma vez que
se pretendia confrontar os entrevistados com algumas das principais dificuldades/problemas apresentados pelos refugiados.
No Capítulo 5, analisa-se os relatos das entrevistas, conversas e encontros realizados com os refugiados e no capítulo 6 as entrevistas realizadas com indivíduos e instituições, sendo estas últimas apresentando maior profundidade no que diz respeito às condições de integração local (avaliativa).
Assim, esta tese apresenta reflexões sobre o processo de reassentamento e integração local dos refugiados palestinos no Brasil, a partir de pesquisa de campo inédita realizada com eles em Mogi das Cruzes (SP) em 2009. Conta como objetivo principal conhecer tais indivíduos em situação de refúgio no Brasil, a partir de suas características socioeconômicas e do acesso às políticas públicas. Analisamos também como as instituições do Estado, da Sociedade Civil e do ACNUR avaliam o apoio prestado aos refugiados palestinos.