Com o término das hostilidades iniciais e a consequente vitória israelense, centenas de milhares de árabes palestinos estavam fora das fronteiras do novo estado de Israel. Os países árabes em que tinham buscado refúgio, que em certa medida também eram novos países, criados ao final da Primeira Guerra Mundial, não podiam prestar-lhes auxílio imediato, tendo em vista que tais territórios de destino não se encontravam preparados para receber migrações em massa, situação que forçou a Assembleia Geral da ONU a enviar ajuda maciça em bases internacionais. No princípio, o auxilio das Nações Unidas foi enviado por três organizações específicas: a Cruz Vermelha e o Crescente Vermelho, além do Comitê da Amizade Americana (SILVA; RODRIGUES, 2011).
Posteriormente, a própria ONU criou um organismo especificamente para ajudar os refugiados da Palestina, ou seja, a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos (UNRWA), com o objetivo de lhes proporcionar ocupação e trabalho, enquanto não se chegasse a uma solução definitiva para o problema (BAILEY, 1963).
Vale ressaltar que tal órgão colaborou para a difusão, debate e conceituação de questões referentes aos refugiados de todas as ordens, algo que antes, carecia de fontes e trabalhos abordando a temática, como é destacado por Malkki (1995b).
A formação de um grande contingente de refugiados palestinos entre os anos de 1948/49 coincidiu com o desenvolvimento do sistema internacional de proteção de refugiados e dos esforços para estabelecer uma definição universal desta categoria. Com efeito, se antes da Segunda Guerra Mundial a definição de refugiado e os regimes designados para ajudá-los eram circunstanciais (Feldman, 2007), após esse período, conforme explicita Malkki (1995), surgiram modos
padronizados e globalizados de lidar com os refugiados, seja no que se refere ao seu assentamento ou à administração dos campos, seja relacionado à emergência da lei internacional dos refugiados. Assim, embora estes sempre tenham existido na história, ‘the refugee as a specific social category and legal problem of global dimensions did not exist in its full modern form before this period’ (HAMID, 2012. p. 55. grifos do autor).
Atualmente, a UNRWA ainda apresenta como missão ajudar quase cinco milhões de refugiados na Jordânia, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza e no Líbano, a alcançar todo o seu potencial no desenvolvimento humano, enquanto se aguarda uma solução para a causa palestina. A Agência atua nas áreas de educação, saúde, serviços sociais e de assistência, infraestrutura e melhoria dos campos, microfinanças e assistência em emergências (UNRWA, 2013).
Tal programa ainda conta com princípios aprovados pela Assembleia Geral das Nações Unidas que visavam colaborar com os refugiados palestinos. Sendo eles:
Como primeiro princípio, os refugiados que desejassem regressar ao país de origem, para viverem em paz com seus vizinhos, deveriam receber autorização para fazê-lo. Como segundo, os refugiados que decidissem não regressar ao país de origem deveriam receber uma indenização pela perda dos bens imóveis que tivessem abandonado. (SILVA; RODRIGUES, 2011, p. 31)
Entretanto, as determinações da Assembleia Geral se chocaram com uma série de problemas fundamentalmente políticos, em especial, a pressão existente por parte das nações árabes para que ambas alternativas aprovadas (indenização ou repatriamento) fossem acatadas e a recusa israelense em ceder. Tais questões se agravam ao observarmos o antagonismo presente nas visões de mundo, em grande medida, arraigadas em aspectos fundamentalistas e nacionalistas, que dividiram ainda mais os atores principais desta disputa, o povo palestino e o povo
judeu, distanciando-os de uma solução duradoura ou definitiva para os refugiados.
O problema dos refugiados palestinos, portanto, foi originado de duas interpretações diferentes para o mesmo acontecimento. Quando o novo Estado de Israel foi fundado, e houve o deslocamento maciço de árabes palestinos, a posição árabe foi a de que esses refugiados tinham sido forçados à migração pelas tropas sionistas, para dar lugar aos novos colonos judeus. O governo israelense recém formado, por outro lado, afirmava que os refugiados tinham fugido em atenção ao próprio apelo de seus líderes árabes, que queriam usá-los como instrumento político contra o Estado judeu (SILVA; RODRIGUES, 2011, p. 32).
As propostas de solução ao longo destes anos também se diferenciaram radicalmente. Os árabes insistiam no direito de que os refugiados tinham que ser repatriados e de serem indenizados por perda de propriedade, tal como aprovado pela resolução n.194 da Assembleia da ONU, girando atualmente na casa dos trezentos bilhões de dólares na melhor das estimativas (BISHARA, 2003). Os israelenses, receando que se os refugiados retornassem em massa poderiam subverter a ordem do país de seu interior, instou em que fossem reassentados em territórios árabes adjacentes (STOESSINGER, 1975), de modo que fossem assimilados por estas sociedades.
Desta forma, os refugiados palestinos se encontram em uma situação de impasse, sendo, em grande número, obrigados a viverem em campos sustentados principalmente pelas Nações Unidas. Esta realidade insolúvel parte da premissa de que os países árabes não aceitam a fixação permanente dos palestinos em seus territórios, enquanto os israelenses exigem para o processo
de repatriação o término dos ataques, numa proposta que ficou conhecida pelo lema “Terra por Liberdade”72.
É impressionante como o tremendo choque dos nacionalismos judeu e árabe naquela região do mundo tenha sido tão intenso ao ponto dos aspectos humanitários do problema dos refugiados palestinos serem quase completamente ignorados ao longo de todo este tempo. Poucos esforços foram realizados por ambas as partes para ouvir as preferências dos próprios refugiados a respeito da repatriação ou indenização (STOESSINGER, 1975).
De acordo com Silva e Rodrigues:
A controvérsia neste aspecto é que os israelenses receberam um número bastante elevado de judeus advindos de diversas outras regiões do mundo, ao longo de todos estes anos, e alegam serem incapazes de receber com facilidade uma grande migração de árabes, sem colocar em risco a segurança nacional do país, pelas desconfianças históricas entre os povos. Há claramente um problema de confiança mútua entre as lideranças políticas dos dois povos que se arrasta ininterruptamente, amplificados ainda mais pelos posteriores conflitos armados de 1956, na questão do Canal de Suez, da Guerra dos Seis Dias em 1967, a do chamado ‘Yom Kippur’ para os judeus, em 1973; a invasão do Líbano em 1982 por Israel, e as intifadas árabes de 1987 ou de 2000, assim como a recusa judaica em cumprir a Resolução 242 da ONU, que obriga o país a devolver os territórios conquistados (2011, p. 34).
A questão dos israelenses não devolverem os territórios ocupados, somado ao fato de que desde 1964 havia sido fundada a Organização para Libertação da Palestina (OLP) e logo em seguida o primeiro grande grupo guerrilheiro palestino denominado “Al Fatah” (WOLOSZYN, 2009), sob o comando de Yasser Arafat, ligado a organização, além de diversas outras facções armadas dedicadas a erradicar Israel do mapa, fez com que o conflito atingisse níveis nunca vistos.
72O princípio de "terra por liberdade" — presente nas negociações árabe-israelenses — é baseado na devolução de
territórios ocupados em 1967 por Israel em troca de acordos de paz. Ver em:
Desta forma, uma possível solução para os problemas se tornou cada vez mais distante, na medida em que radicais extremistas de ambos os lados se dedicaram e ainda se dedicam a sabotar quaisquer medidas de paz, praticando desde atentados terroristas suicidas até ações militares abusivas, inclusive assassinando lideranças que se dedicam a essa causa, como foi o caso do primeiro-ministro israelense Ytzhak Rabin (1922-1995) e a morte, sob fortes suspeitas de envenenamento, do próprio Yasser Arafat (1929-2004), ganhadores do Prêmio Nobel da Paz de 1994.
A tragédia histórica que opõe estes dois povos, e que tem os refugiados palestinos como consequência, não nasce de situações concretas em que o direito se opõe ao erro, ela ocorre quando o direito se choca com o direito. Este é o elemento central do conflito da Palestina que antagoniza estes dois grupos nacionalistas. Ele é, em essência, uma luta feroz entre duas ferrenhas formas de nacionalismo e de fé espiritual. (STOESSINGER, 1975)
Ainda de acordo com Silva e Rodrigues, fica clara a importância e a forma como este tema permeia uma série de questões diplomáticas internacionais.
É um dos problemas mais centrais das relações internacionais contemporâneas, tendo como pano de fundo a luta histórica entre o Oriente e o Ocidente, minimamente no campo simbólico. Com claros elementos de uma verdadeira tragédia grega, visto que a tese de cada uma das partes, mesmo com questões de mérito, não invalida a tese contrária. (2011, p. 36)
Segundo estatísticas da organização israelense para os direitos humanos “Btselem”, somente do ano de 1987 até 2006, 1.560 israelenses foram mortos por grupos guerrilheiros árabes, ao passo que 5.050 palestinos foram mortos pelas forças de segurança de Israel, fora os feridos e desaparecidos, dados que, por si
só já relevam a gravidade e a amplitude a qual as hostilidades entre estes povos alcançou (WOLOSZYN, 2009). Bem como, vislumbram a improvável solução para suas diferenças, uma vez que, hoje, um acordo de paz implica em uma imagem de perda para ambos os lados e a vitória definitiva de um sobre o outro se mostra inaplicável e inaceitável pelos poderes hegemônicos da atualidade.
Assim sendo, se pode observar a não configuração do fato de que: “Quando alguém transfere seu direito, ou a ele renuncia, fá-lo em consideração a outro direito que reciprocamente lhe foi transferido, ou a qualquer outro bem que daí espera. Pois é um ato voluntário, e o objetivo de todos os atos voluntários dos homens é algum bem para si mesmos” (HOBBES, 2000, p. 115. grifos do autor). Desta forma, ao que parece, de acordo com a ótica de Feldberg (2003), uma das únicas alternativas para o conflito entre os palestinos e os judeus na chamada Terra Santa, e que produziu perto de um milhão de refugiados palestinos como consequência, seria um grande e poderoso armistício envolvendo todas as partes ao nível do que foi a Paz de Westfália73 para o mundo europeu, inaugurando um novo tempo de estabilidade para árabes e judeus, incluindo alternativas em torno do direito de retorno aos refugiados para um novo Estado Palestino que se estabeleceria.
Neste caminho seria necessário primeiro neutralizar completamente as posições governamentais e sociais intransigentes bem como os extremistas fanáticos de
73 A Paz de Westfália de 1648 refere-se a tratados que encerraram a Guerra dos Trinta Anos, iniciado com a intensificação
da rivalidade política entre o Imperador Habsburgo do Sacro Império Romano-Germânico e as cidades-Estado luteranas e calvinistas no território do norte da atual Alemanha que se opunham ao seu controle. Tal guerra teve o envolvimento de potências católicas administradas pelos Habsburgo, como a Espanha e Áustria, e também de Estados protestantes escandinavos e da França, que, mesmo sendo católica, temia o domínio dos Habsburgo na Europa e apoiou os protestantes no conflito. Enquanto o tratado entre a Espanha e os Países Baixos – assinado em Münster, no mês de janeiro – pôs fim à Guerra dos Oitenta Anos, o tratado assinado em Osnabrück, em outubro, pelo Sacro Imperador Romano-Germânico Fernando III, pelos príncipes do Sacro Império Romano-Germânico, pela França e pela Suécia encerrou a luta dessas duas últimas potências com o Sacro Império (Jesus, 2010).
lado a lado, extinguindo o contínuo estado de guerra e de tensão protagonizado por seus nacionalismos e fundamentalismos religiosos desde 1948. Nacionalismo exacerbado este que o internacionalista Norman Angell, desde o início do século XX, já previa como uma das forças motoras de sua época:
Provavelmente o sentimento nacionalista é a força política mais poderosa do mundo moderno [...] o nacionalismo se harmoniza com impulsos humanos profundos, instintos e outros fatos psicológicos que é preciso reconhecer, assim como é preciso admitir os fatos econômicos. Pretender que a nossa natureza não contenha ódios e agressividade, desejos de domínio e de represália, sadismo e apetites, que contrariam muitas vezes nossos interesses materiais e frustram nossas intenções conscientes, é desconhecer tanto a experiência diária como os ensinamentos da história (ANGELL, 2002).
Nesta perspectiva, qualquer parâmetro de solução do conflito deve ser posto do ponto de vista da autonomia e da formação do estado nacional nos moldes racionais modernos. O afastamento da questão religiosa é tão inevitável quanto impossível, mas se coloca como fundamento da possibilidade de paz. Assim, a resolução do conflito pressupõe uma ação recíproca em contratualizar os parâmetros culturais de ambos os povos em um mesmo território.
De acordo com dados do ACNUR, mais de um milhão de palestinos vivem refugiados devido aos conflitos com os judeus desde a criação do Estado de Israel em 1947, a maioria optou pela diáspora em nações árabes vizinhas, onde puderam se adaptar com maior facilidade ao modo de vida local. Um dos países de destaque e acolhida foi o Iraque, onde se estabeleceram e deram prosseguimento a suas vidas (QUERO, 2013).
No entanto, em março de 2003, os Estados Unidos invadem o território iraquiano em perseguição ao seu líder Saddam Husseim sob a alegação de que havia auxiliado membros da Al-Qaeda (grupo terrorista de origem islâmica) nos
atentados de 11 de setembro de 2001, além de produzir e estocar armas de destruição em massa (argumentos ainda hoje não comprovados). Este episódio levou os palestinos a se refugiarem uma segunda vez em sua recente história, fugindo agora para a Jordânia e se estabelecendo em um acampamento chamado Ruweished – um deserto.
Esse e outro campo foram preparados pela ONU para receberem iraquianos que estivessem fugindo do conflito e palestinos vítimas da crescente violência sectária no país, tendo em vista que com a administração norte-americana, xiitas tomaram o poder e começaram a perseguir a etnia sunita, antiga aliada de Saddam Husseim e a qual a maioria dos palestinos pertence (HAMID, 2010).
De acordo com matéria publicada no site “O Estrangeiro” em 20 de março de 2013, Quero expõe um pouco do que o jovem palestino Shahin e sua família enfrentaram:
[…] se as coisas estavam difíceis no Iraque, a vida no acampamento também não seria fácil. Abrigados em barracas, eles tinham cotas diárias para o uso de água e estavam expostos às intempéries do deserto. Além disso, seu pai, que saiu de Bagdá pouco depois, não conseguiu ser admitido na Jordânia e se refugiou em outro acampamento, perto da fronteira. Eles só iriam se reencontrar após quase três anos.
[…]
Cansados, ele e outros refugiados chegaram inclusive a fazer greves em protestos contra as condições no local. Foi quando o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) propôs que Shahin se estabelecesse em um país novo, a mais de 10 mil quilômetros dali: o Brasil. Shahin foi um dos 108 refugiados de origem palestina que desembarcaram no Brasil em 2007 como parte do Programa de Reassentamento Solidário, do governo federal e ACNUR (QUERO, 2015).
Em grande parte, os refugiados palestinos que vieram para o Brasil estabeleceram esse percurso – Palestina, Iraque, Jordânia e, por fim, Brasil –, vivendo por quase cinco anos em Ruweished.
CAPÍTULO 3
A POLÍTICA BRASILEIRA PARA REFUGIADOS
Este capítulo aborda a política brasileira sobre o refúgio e sobre os refugiados no Brasil. Revela o contexto brasileiro numa perspectiva histórica contemporânea. Ademais, são abordados instrumentos internacionais, regionais e nacionais, tais como: a convenção de 51 e o protocolo de 67, o Estatuto do Estrangeiro, a Declaração de Cartagena e a Lei brasileira do refúgio. Explica o funcionamento do CONARE e descreve e ilustra o procedimento de solicitação de refúgio.