2.3. İlgili Çalışmalar
2.3.1. Sanal Manipülatiflerle İlgili Yapılmış Çalışmalar
Nos primeiros tempos da fábrica, ou mais exatamente nas duas primeiras décadas de existência, o trabalho dos operários era ainda marcadamente artesanal. As atividades desenvolvidas nas oficinas de trabalho da fábrica envolviam apenas o trabalho manual dos empregados, através de ferramentas ou máquinas de tração humana. Segundo o que observam Francisco Hardman e Victor Leonardi43, esse é um período da protoindustrialização brasileira, em que as atividades desenvolvidas nas fábricas (muitas das quais simples oficinas) dependiam apenas do uso de ferramentas simples (martelos, serrotes, formões etc.) e das habilidades técnicas dos próprios funcionários, passadas, muitas vezes, de pai para filho. Assim, com apontam os autores, não havia ainda nesse período das primeiras décadas do
século XX “inteira separação entre trabalhadores e instrumentos de trabalho (...) e o
trabalhador identificava-se ainda com o produto, como resultado de certa habilidade
artesanal”44
.
A partir da década de 1920, essa situação começa a mudar. Nesse período, a firma de Abramo Eberle (já enquanto Abramo Eberle & Cia., após ter alterado a sua razão social no ano de 1917) amplia significativamente o número de máquinas automáticas para auxiliarem na e aumentarem a produção nas seções de trabalho. Nessa nova fase de seu desenvolvimento, a fábrica faz a instalação de motores elétricos próprios, utilizados para gerar a força motriz necessária para o funcionamento do maquinário recém-instalado na fábrica.
As máquinas automáticas, além de servirem para aumentar a produção da fábrica, inauguram uma nova disciplina no interior da fábrica. Sobre isso, como registra Perrot45, a
“mecanização não responde a necessidades técnicas, mas basicamente disciplinares”46
. A
máquina é uma “arma”, faz parte de uma “estratégia” para a dominação, pois passa a controlar a produção “disciplinando o corpo do operário, seus gestos e comportamentos”47
. De forma
43 HARDMAN, Francisco Foot; LEONARDI, Victor. História da indústria e do trabalho no Brasil: das origens
aos anos vinte. 2. Ed. Rev. São Paulo: Ática, 1991.
44 Ibid., p. 137. 45 PERROT, 2010. 46 Ibid., p. 19. 47
análoga, a historiadora Luzia Margareth Rago48 demonstrou como a instalação de máquinas nas fábricas significou o surgimento de uma nova forma de vigilância na fábrica, sendo a nova tecnologia responsável por tornar mais efetivo o controle sobre os operários, não mais dependente apenas da subjetividade dos superiores encarregados dessa tarefa: A uma forma de exercício do poder concretizada na figura humana do contramestre ou do patrão tradicional, opunha-se a vigilância mecânica, exercida pelo maquinismo, aparentemente independente de qualquer interferência subjetiva da vontade patronal.”49.
É também do período da década de 1920 que temos acesso a um dos regulamentos internos da fábrica. Inspirados na doutrina da Igreja Católica, especialmente na Encíclica
Rerum Novarum do Papa Leão XIII50, os regulamentos da fábrica determinavam o comportamento a se esperar dos operários no interior da fábrica. Conforme os artigos de um desses regulamentos, datado de 1924, os operários eram proibidos de “cantar, assobiar ou
conversar nas horas de trabalho”; os aprendizes eram proibidos de “sahir da fabrica, ou da secção em que trabalha, sem antes pedir licença ao seu contramestre”; e, para o caso de falta
sem aviso prévio, “se sujeitará à multa de Rs 2$000 na primeira vez, 3$000 na segunda e
5$000 na terceira”, assim como era proibido “entrar depois de começar o trabalho ou interromper este antes de tocar a campainha”.51 Nota-se, pois, a rigidez moral de um verdadeiro modelo disciplinar religioso, onde o silêncio e a obediência eram valorizados.52
Curiosamente, sabe-se que Abramo, a cada nova manhã de trabalho, surgia com uma sineta (a campanela) na frente da fábrica convocando os operários para o serviço. Essa imagem de convocador para o labor ficou imortalizada no título da primeira obra biográfica do empresário, escrita por Álvaro Franco: “Abramo Já Tocou...”53. Ainda conforme as narrativas de memória da empresa, segundo uma matéria publicada em um dos Boletins
Eberle, a campanela de Abramo era
48 RAGO, Luzia Margareth. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar: Brasil, 1890-1930. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1985.
49 Ibid., p. 41.
50Encíclica “Rerum Novarum: sobre a condição dos operários”, escrita em 1891, pelo Papa Leão XIII.
51“Regulamento da Fábrica Eberle, de janeiro de 1924”. Acervo: Arquivos Particulares / AHMJSA.
52 Mais sobre a adoção da Encíclica Rerum Novarum podem ser encontradas na biografia de Abramo Eberle:
FRANCO, Álvaro. Abramo já tocou..., ou, a epopeia de um imigrante: ensaio biográfico. São Paulo: Ramos, Franco, 1943.
53
o condão mágico que movimentava todas as atividades da cidade e que determinava o tempo útil de seus habitantes. 'Abramo já tocou' era o axioma que traduzia toda a densidade da vida da própria cidade, em seu trabalho, em suas divagações.54
Interessante observar, a esse respeito, como o industrialista tinha o poder de ditar o tempo e o ritmo da cidade. O objetivo em controlar o tempo parece ser um só: como lembra o historiador Edward Thompson55, é precisamente nesse período, de surgimento das sociedades industriais, que “o tempo está começando a se transformar em dinheiro, o dinheiro do
empregador. […] E o empregador deve usar o tempo de sua mão-de-obra e cuidar para que
não seja desperdiçado.”56.
A primeira viagem de Abramo Eberle ao exterior ocorre em 1920. O destino escolhido é Buenos Aires (Argentina), de lá se encaminhando diretamente para os Estados Unidos, onde teve a oportunidade de conhecer algumas fábricas do seu mesmo ramo de negócios. Logo em seguida, ainda no ano de 1920, o empresário parte em direção à Europa, onde também visita uma grande quantidade de fábricas dos mais avançados centros industriais do mundo. No Velho Continente, visita países como Itália, Alemanha e França.57 Na Alemanha, deixou José, o filho mais velho, para estudar e estagiar, por dois anos, em uma fábrica de talheres em Düsseldorf, demonstrando preocupação em dar continuidade ao seu negócio nos moldes familiares.
As viagens de Abramo tinham um objetivo claro: conhecer novas máquinas, produtos e processos de trabalho, para que pudesse modernizar o seu empreendimento no Brasil. Ao observarmos imagens fotográficas tomadas no interior da fábrica anteriores à década de 1920, e compararmos essas imagens com outras posteriores às viagens do industrialista à Europa, podemos notar claramente como o ambiente precário e fumarento da fábrica sofrem mudanças importantes, assim como a organização para o trabalho é outra nesse período. Isso porque, da América do Norte e da Europa o industrialista caxiense trouxe as primeiras preocupações higienistas, mais tarde adotadas em outras fábricas do país, e também importou os postulados do método taylorista de produção, que passaram a ser incorporados na fábrica.58
54Boletim Eberle, jun. 1956, p. 13 (“Abramo já tocou”. Texto de Adelar Cosner). Acervo: AHMJSA.
55 THOMPSON, Edward Palmer. Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial. In: _____. Costumes em
comum. Estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
56 Ibid., p. 271-272.
57 FRANCO, 1943, p. 158-163. 58
Abramo Eberle manteve sempre relações estreitas com os acontecimentos políticos e econômicos da região, do Estado e do país.59 Na década de 1920, que marca a ascensão do fascismo na Itália, o regime totalitário criou simpatia nos colonos da antiga Zona Colonial Italiana do RS, uma vez que a grande maioria havia emigrado do país peninsular. Da Itália, inclusive, partiram alguns “emigrantes tutelados”, espécies de “diplomatas” do regime autoritarista de Mussolini.60 Nos locais onde se fixavam, os fascistas exerciam cargos influentes e de prestígio, criando boa identificação entre a população. Em Caxias do Sul, por exemplo, o engenheiro agrônomo Celeste Gobbato, condecorado pelo Duce italiano, chegou ao posto de intendente municipal, tendo então como vice Abramo Eberle, eleito “por
unanimidade de votos”61
.
Conforme a historiadora Loraine Giron62, o fascismo também criou identificação entre os imigrantes italianos de Caxias, especialmente entre os industriais, em função da existência, entre estes, de valores semelhantes ao regime político italiano: “o trabalho, a
economia, o respeito à autoridade e a disciplina”63
. Conclamado, sobretudo, através das Sociedades Italianas ou Sociedades de Mútuo Socorro organizadas no município e que
promoviam o culto à pátria distante, o fascismo cooptou, sobretudo, “os vitoriosos”, ou seja,
figuras de destaque regional, como médicos, professores, comerciantes, arquitetos, engenheiros e empresários que obtiveram na nova pátria grande influência, advinda do seu sucesso econômico e profissional.64
Apesar do envolvimento com o fascismo na década de 1920, com a Revolução de 1930, levando Getúlio Vargas ao Catete, os empresários da cidade de Caxias passaram a apoiar o novo regime instaurado pelo político gaúcho, cujos traços marcantes eram o autoritarismo, o nacionalismo e o corporativismo.65 Sobre isso, como indicam Giron e
59 BERGAMASCHI, Heloísa Eberle. Abramo e seus filhos: cartas familiares – 1920/1945. Caxias do Sul:
Educs, 2005, p. 68.
60 GIRON, Loraine Slomp. As sombras do Littorio: o fascismo no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Parlenda,
1994. 61 ADAMI, 1971, p. 458. 62 GIRON, 1994. 63 GIRON, 1994, p. 15. 64 Ibid., p. 81-87.
65 Sobre o governo de Getúlio Vargas e suas características, é possível aprofundar a questão em FONSECA,
Pedro Cezar Dutra. Vargas: o capitalismo em construção. São Paulo: Brasiliense, 1989. Para uma visão regional acerca do governo de Vargas, principalmente sobre o período do Estado Novo e onde é possível encontrar referências ao nacionalismo e ao corporativismo defendidos durante o período da presidência do político gaúcho, dois títulos se destacam: GERTZ, René Ernaini. O Estado Novo no Rio Grande do Sul. Passo Fundo: Editora da UPF, 2005, e ABREU, Luciano Aronne de. Um olhar regional sobre o Estado Novo. Porto Alegre: Edipucrs, 2007.
Herédia66, “o grupo de industriais da chamada Região Colonial Italiana contribuiu com
doações polpudas para o movimento [revolucionário de 1930]”67
. O ano de 1930 também marca o surgimento do Centro de Indústria Fabril do Rio Grande do Sul, órgão de classe que apoiará o Vargas durante todo o seu governo, e, nele, Abramo Eberle – juntamente com Adelino Sassi (outro comerciante e empresário local) – será figura representante do município.68 Como se observa, Abramo irá ficar atento às mudanças políticas, procurando adequar-se à nova situação com nítido interesse de classe.
Ainda sobre sua atuação política, o nome de Abramo Eberle também esteve presente na nominata de integrantes da Associação de Comerciantes do município de Caxias, tendo ingressado ainda no ano de 1906. Como assinalam as historiadoras Vânia Herédia e Maria Abel Machado69, a Associação de Comerciantes (fundada em 1901) foi a principal entidade da elite econômica da região, congregando não apenas comerciantes, mas, também, os industriais locais. A Associação dos Comerciantes tinha caráter amplamente reivindicatório, sendo responsável por interferir em questões importantes do município, relativas aos interesses dos empresários, como, por exemplo, sobre os impostos municipais, transporte, energia elétrica e comunicações.70