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A luta pela manutenção do poder eclesiástico também é um aspecto importante no estudo da condição da mulher na sociedade, da perspectiva das comunidades cristãs entre os séculos II e VI. Neste período, muitos interesses influenciaram a interpretação dos textos bíblicos.

Boyarin, fazendo referência a estudiosos como McNamara, Ross Kraemer e Clark102, que desenvolveram estudos importantes sobre a História da religiosidade no cristianismo latino, comenta sobre o poder obtido pelas mulheres no final da Antigüidade como algo desconhecido até então.

As mulheres conquistaram grande autonomia nas esferas das religiões de tendências ascéticas. Não só no cristianismo, mas especialmente nesta religião, sua expressão foi marcante e prolongada.

Acreditava-se, nos meios cristãos, que a virgindade tornava possível às mulheres serem como os homens ao abolirem totalmente a distinção entre os

101 RUETHER, op. cit., págs. 222-229. 102 BOYARIN, op. cit., pág. 179.

sexos, e este era um elemento estimulante para mulheres que buscassem uma condição de igualdade social.

Joyce E. Salisbury103 também fornece evidência quanto a essa questão em seu livro “Pais da Igreja, Virgens Independentes”. Em sua obra ela traz um exemplo claro, transcrevendo uma carta de Agostinho a uma de suas fiéis, chamada Ecdícia, na qual ele a aconselha quanto à traição que sofrera por parte do marido.

Ecdícia havia persuadido o marido quanto à importância de se viver um casamento espiritual, levando-o, contra sua vontade, a fazer um voto de castidade. O marido, porém traiu seu voto e tomou outra mulher por amante.

Magoada, Ecdícia escreve para Agostinho em busca de sua compaixão, e a resposta de Agostinho a sua carta chegou até os dias atuais, documentada e traduzida em obras como a de W. Parsons.104

A resposta de Agostinho certamente não foi a que Ecdícia esperava. Segundo sua compreensão quanto às intenções de Ecdícia “... esse grande mal (o adultério do marido) resultou de não o terdes tratado, em sua disposição de humor,

com a moderação que deveríeis ter demonstrado”.

Segundo comenta Salisbury, Ecdícia entendeu que seu voto de castidade a libertaria não só da obrigação sexual, mas também da obediência a seu marido e, sem consultá-lo ela doou parte de sua propriedade a dois monges errantes, enfurecendo-o, por desrespeitar sua autoridade e por privar seu filho de uma parte do patrimônio que viria a ter por direito.

Agostinho aconselhou Ecdícia a desculpar-se com o marido prometendo-lhe obediência em tudo, “com exceção da dívida carnal a que ambos

tinham renunciado.” 105

Para Salisbury, esse relato mostra um típico conflito doméstico do século IV, refletindo a enorme disputa que envolvia o papel das mulheres celibatárias na sociedade, que se iniciou pelo menos no final do século II.

Ecdícia acreditava que renunciando a seus deveres matrimoniais, impondo-se restrições ao prazer carnal, e assumindo controle sobre o próprio corpo, poderia controlar também outros aspectos da vida.

103 SALISBURY, J., E., “Pais da Igreja, Virgens Independentes”, 1991: 11.

104 Agostinho, Saint Augustine Letter, vol. V, n° 262, Sister Wilfrid Parsons (Trad.), NY, Fathers of

the Church, 1956, in SALISBURY, op. cit., pág. 232.

Os homens desse episódio, o marido e Agostinho, não compartilhavam desta opinião.

Para eles, mesmo tendo Ecdícia renunciado à sua sexualidade, isso não significava liberação de outras obrigações femininas.

Essa idéia, ascética, originava-se de uma tradição que se difundiu no Ocidente a partir dos desertos sírios e do Egito, segundo a qual os indivíduos que renunciassem à satisfação de seus desejos pessoais, prazeres físicos, sensualidade, bens materiais, etc., estariam manifestando um poder sobrenatural que lhes permitiria estarem acima das responsabilidades da dimensão natural e da hierarquia terrena, e por isso teriam o direito de “buscar a Deus a seu próprio modo”, comenta Salisbury.106

Como em todo movimento asceta, as pessoas que se tornavam conhecidas por se sobressaírem no esforço por cumprir as obrigações religiosas consideradas marcas de alto nível de espiritualidade, conquistavam o respeito entre os fiéis pelo poder espiritual que demonstravam.

Por meio de textos que chegaram até a modernidade, preservados pela igreja, pode-se identificar que esse tipo de comportamento religioso se tornou comum nas comunidades religiosas cristãs do final da Antigüidade Clássica.

A partir do século II a igreja começa a estabelecer seus padrões de espiritualidade e o aspecto mais marcante destes acabou por ser a forte ênfase à virgindade ou à castidade, como observado a pouco, o que era visto como marcas que separavam as pessoas santas da sociedade pervertida.

Várias escolas defendiam este conceito e entre elas podem ser citados os gnósticos de Alexandria, e o monasticismo, que igualou a virgindade ao estado de pureza original107, segundo o qual Adão e Eva eram virgens até a queda, criando assim uma base teológica a favor da virgindade.

Os Atos dos Apóstolos, apócrifo, de João Paulo e Pedro, escritos no século II E. C., e Atos de Tomás, eram alguns dos documentos que defendiam a castidade como a conduta mais elogiável a ponto de sugerirem alguns deles que o homem não poderia viver bem se não vivesse em castidade.108

106 SALISBURY, op. cit., pág. 13.

107 BUGGE, John, Virginitas: An Essay in the History of a Medieval Ideal, The Hague, 1975: 30, in

Salisbury, op. cit., pág. 14.

Negar-se a ter relações sexuais como forma de auto-afirmação feminina passou a funcionar como argumento na disputa do poder doméstico.

Ao negar a si mesma o direito ao prazer sexual como demonstração de verdadeira santidade, a mulher se eximia da responsabilidade de suprir seu marido nesta necessidade o que limitava os direitos deste sobre ela.

No entanto, o ascetismo sexual continha diferentes formas para homens e mulheres, sendo que ao homem asceta era conferido maior poder e autonomia. Para a mulher não era assim. O fato de ela fazer renúncias não a colocava numa posição de autoridade na igreja, e não a isentava da necessidade de “proteção” por uma estrutura eclesiástica, e em casa não a liberava da obediência ao marido, segundo determinação imposta pela igreja, como visto no caso de Ecdícia.

Segundo Salisbury109, as mulheres reivindicavam maior autonomia, implicando em isenção do cumprimento da obrigação de desempenhar o papel social feminino de acordo com as expectativas, ou seja, cuidar das questões domésticas, filhos, etc. Este foi o problema administrado por Agostinho quanto a Ecdícia.

Havia, então, um dilema entre os Pais da Igreja: como conciliar o ideal da virgindade como fonte de prestígio e autoridade moral, frente à posição de prestígio adquirida pelas mulheres de vida casta, tanto no ambiente doméstico quanto na estrutura hierárquica da Igreja?

Por meio do celibato essas mulheres adquiriam uma autoridade que segundo alguns, era inegável, porque cumpririam as solicitações feitas por Paulo em suas cartas, mas conferia às mulheres que o cumpriam, um nível de independência inaceitável não só para as estruturas da sociedade ocidental da época, como também para as autoridades eclesiásticas. 110

Salisbury anota o seguinte:

“No período clássico, que moldou as visões patrísticas, a sexualidade masculina e o poder estavam fortemente vinculados. Enquanto a sexualidade feminina era associada à passividade e subserviência, como conciliar com isto o ascetismo, que lhe concedia poder?”. 111

109 SALISBURY, J. E., op. cit., pág. 15.

110 Sabe-se que em grupos cristãos como os siríacos, no final do primeiro século e no início do

segundo, as mulheres gozavam de grande prestígio e autoridade nos meios eclesiásticos, o que começou a mudar após o século três com a intervenção das autoridades latinas da igreja. Sobre este evento na história do cristianismo, ver CAMERON, A., e KUHRT, A., (Ed.), Images of Women in Antiquity, Wayne State University Press, Detroit, 1993: 288-298.

O dilema de valorizar a virgindade feminina e mesmo assim manter as virgens sem direitos equivalentes aos dos homens e preservar a submissão feminina também no ambiente da hierarquia eclesiástica era o alvo dos pais latinos da igreja.

As teorias concebidas pelos Pais da Igreja entre os séculos III e IV se tornaram leis entre os séculos IV e VI, de forma que pode-se ver na Espanha, por exemplo, a imposição de controles sociais pelo concílio de Elvira, segundo os quais deveria se exigir voto público de castidade das virgens e viúvas.

Um exemplo clássico está na reforma monástica levada a cabo no século VII, que visava colocar todos os ascetas sob o controle dos bispos da Igreja, com o objetivo de integrar os santos de ambos os sexos ao seu sistema hierárquico.112

Esses fatos confirmam que a tradição ascética passou a assumir diferentes formas para homens e mulheres. Para o homem representava superioridade espiritual e prestígio em relação às autoridades religiosas, mas para a mulher se negava a independência elementar das responsabilidades domésticas, por exemplo, e nas esferas religiosas a tornava mais dependente do clero.

Todos esses argumentos confirmam que nossas práticas sociais são fortemente influenciadas por nossas convicções religiosas e pela forma como entendemos a divindade, ainda que essas convicções estejam equivocadas ou sejam preconceituosas.

Porém as narrativas bíblicas que se analisará nos próximos capítulos apresentam uma imagem diferente da mulher aos olhos do narrador e do editor bíblico. Lá mostra-se a mulher como superando ao homem e vários aspectos.

112 Third Counsil of Toledo, cânone IV, PL 84: 352, in Salisbury, op. cit., pág. 18. É necessário levar-

se em consideração os interesses da que fora a religião oficial no império romano, cujo objetivo era tornar a religião cristã sob o domínio do bispo de Roma a única religião autorizada em todo seu território.

2 AS FILHAS DE LÓ: HEROÍNAS OU

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