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A. Escolha do Curso

Pretendeu-se com esta área descritiva conhecer os motivos que levaram os sujeitos a enveredar pelo curso de Enfermagem, com o objectivo de, posteriormente, estes dados contribuírem para uma melhor compreensão da questão do sofrimento e do prazer no trabalho.

A análise de conteúdo mostrou que o discurso dos entrevistados sobre o tema concentrou-se em duas categorias, tal como se pode verificar pela tabela síntese 1:

- Motivações de carácter intrínseco; - Motivações de carácter extrínseco.

Relativamente à primeira categoria – motivações de carácter intrínseco – os discursos proferidos centram-se, sobretudo, em questões humanas, registando-se duas subcategorias:

1) IAS6 – Aliviar o sofrimento/ajudar; 2) IEX – Experiência pessoal desagradável.

Dos oito entrevistados três referem que foi o querer aliviar o sofrimento/ajudar o Outro que os levaram a fazer a opção pelo curso de Enfermagem, com uma frequência de quatro vezes7, afirmando o seguinte:

• “Sempre gostei de ajudar o outro e de todas as profissões, aquela que daria para

ajudar mais o outro era, sem dúvida, a Enfermagem” (E1) 8

;

• “Inicialmente estava indecisa em seguir matemática ou em seguir Enfermagem. O

que me levou a fazer a opção pela Enfermagem foi a doença da minha mãe, que morreu com cancro. (…) e cheguei à conclusão que era Enfermagem que eu queria, para poder ajudar, para poder ajudar no sofrimento das pessoas” (E5);

• “Quando comecei o curso eu não tinha bem a ideia do que era a Enfermagem… o

que eu mais idealizava era algo tipo mais ajudar os outros (…)” (E7).

A segunda subcategoria, experiência pessoal desagradável, enquanto cliente do Serviço Nacional de Saúde (SNS), é apontada por um dos entrevistados, com uma frequência de duas citações, conforme se pode observar na seguinte citação:

• “Eu nunca quis ser enfermeira (...) e eu detestava aquilo que os enfermeiros faziam.

Depois entrei para o curso de farmácia, mas não estava a gostar muito (...). No meu

6

Código da subcategoria utilizado no programa informática QSR NUD*IST

7

O número apresentado como frequência, diz respeito ao número de citações, de referências que aparecem nas oito entrevistas, relativas à subcategoria em análise.

8

E1: diz respeito ao entrevistado número um. A atribuição dos números aos entrevistados foi feita em

função da ordem da realização das entrevistas. Esta classificação facilita a organização e a apresentação dos resultados

2.º ano de curso tive um acidente, estive internada e não gostei nada do tratamento que me fizeram e então foi aí que mudei para Enfermagem para mudar o que me fizeram” (E2).

No que concerne à segunda categoria – motivações de carácter extrínseco – as subcategorias que emergiram dos discursos dos entrevistados foram três:

1) ISP – Saídas profissionais; 2) IIF – Influência familiar;

3) ICA – Constrangimentos académicos.

O discurso de dois dos entrevistados, com uma frequência de quatro vezes, insere-se na primeira subcategoria, saídas profissionais:

• “(...) eu não tinha um motivo. O meu sonho era matemática desde o ciclo (...). (...)

mas cheguei à conclusão que matemática, via ensino, era para o desemprego. (…) pensei “Enfermagem, licenciatura naquele ano, boas saídas profissionais, 100% de emprego, o que é que eu preciso de mais?” (E3);

• “(...) foi o facto que Enfermagem era um curso (...) com saída profissional. Mas

quando terminei o curso percebi que não era uma profissão fácil, mas gostei porque era interessante ajudar as pessoas”(E6).

Apenas um dos oito entrevistados se refere à segunda subcategoria, com uma frequência de uma vez, influência da família, na escolha do curso de Enfermagem, afirmando que:

• “(…) a minha mãe também tinha muita afinidade com as pessoas feridas, vinha lá

tudo curar-se a nossa casa, era mercúrio para isto, mercúrio para aquilo” (E4).

Apontada apenas por um dos entrevistados, com uma frequência de uma vez, a terceira subcategoria, constrangimentos académicos, diz respeito à escolha do curso

de Enfermagem condicionada pela nota de acesso ao Ensino Superior, na medida em que a mesma era inferior para a entrada no curso que pretendia (farmácia), como se pode confirmar pela seguinte citação:

• “Como tinha a possibilidade de ter emprego numa farmácia queria era tirar o

curso de farmácia. (...) mas entrei para Enfermagem que foram as restantes opções (…)” (E8).

Feita a análise descritiva, passa-se a apresentar a tabela síntese 1 das categorias

e subcategorias da área descritiva em análise – Motivos da Escolha do Curso de

Enfermagem. Esta tabela síntese, por um lado, identifica os entrevistados que se

referiram aos conteúdos próprios da uma subcategoria e, por outro, a frequência de citações, referente aos entrevistados dessas mesmas categorias.

Tabela síntese 1 – Frequência de citações dos sujeitos por categoria e subcategoria da

área descritiva Motivos da Escolha do Curso de Enfermagem

Ent Motivações Intrínsecas Motivações Extrínsecas

IAS IEX ISP IIF ICA

E1 1 0 0 0 0 E2 0 1 0 0 0 E3 0 0 2 0 0 E4 0 0 1 1 0 E5 2 1 0 0 0 E6 0 0 1 0 0 E7 1 0 0 0 0 E8 0 0 0 0 1 Total 4 2 4 1 1 ∑ 6 6 Legenda:

IAS – Aliviar sofrimento/ajudar IEX – Experiência pessoal desagradável

ISP – Saídas profissionais IIF – Influência familiar ICA – Constrangimentos académicos

Pela análise da tabela síntese 1 percebe-se que quatro, dos oito entrevistados,

tiveram como primeira opção o curso de Enfermagem, ligada, portanto, às motivações

experiência pessoal desagradável. Os restantes quatro entrevistados justificam a sua

opção pelo curso evocando as motivações extrínsecas. Destes quatro entrevistados, três

apontam razões de ordem profissional, centrada na oferta do mercado de trabalho; um

refere-se às influências familiares.

Não há, portanto, prevalência de um tipo de motivação quanto à escolha do

curso (6 = 6). Além disso, internamente, em cada uma das categorias, motivações

intrínsecas e motivações extrínsecas, nota-se prevalência de uma das subcategorias.

Assim, no caso da categoria motivações intrínsecas ressalta-se a subcategoria aliviar

sofrimento (4±2). No caso da categoria motivações extrínsecas evidencia-se a

subcategoria saídas profissionais (4±1±1). Isto significa que, apesar de não haver

prevalência a nível do confronto entre as duas categorias elas equivalem-se. Há realmente prevalência interna em ambas as categorias.