Para o referido processo de inscrição, distribuição e organização na grelha de
análise mista, de acordo com a categorização temática, utilizou-se o programa QSR
NUD*IST, versão 6, como ferramenta informática de exploração, o tratamento e
validação dos resultados. Embora a análise de conteúdo, enquanto técnica de exploração dos dados, não implique necessariamente a utilização de programas informáticos, a tendência verificada nos últimos anos em Portugal e as vantagens apresentadas pela tecnologia na investigação científica, levaram à utilização deste software específico de apoio à análise de dados qualitativos. Assim, apesar da renitência de alguns teóricos no uso deste tipo de programas de apoio à análise de conteúdo, por serem considerados insensíveis à leitura e compreensão dos discursos dos entrevistados, preferindo a análise manual, há que discernir que é, apenas, o pesquisador que exerce domínio sobre estes programas, os quais apenas executam as tarefas pedidas pelo Homem. Acrescenta-se que é o responsável pelo estudo quem decide, enfim, pela recolha e interpretação. A este propósito é interessante atender à reflexão feita por Weitzman (citado por Landry, 2003) relativamente a este tipo de programas informáticos de apoio à análise de conteúdo:
“(…) os computadores não fazem análise de conteúdo; somente os humanos a fazem […]. [Os computadores] não são substitutos para o pensamento humano, mas, por outro lado, eles podem ajudar-nos a pensar” (p. 369).
Os programas informáticos de apoio à análise de dados qualitativos começaram a surgir na década de 80 nos Estados Unidos, tendo sido amplamente utilizados, desde o início, não apenas em projectos científicos, mas também em organizações privadas de vários sectores de actividade, dadas as suas potencialidades para gerir e analisar grandes quantidades de dados qualitativos. Para além disto, a sua fiabilidade e a estandardização de procedimentos facilitam, em grande medida, a comparação de dados e a capacidade de controlo sobre as acções efectuadas pelo investigador, permitindo à comunidade científica compreender de forma eficaz e precisa o trabalho desenvolvido.
Relativamente ao programa utilizado nesta análise qualitativa – o QSR NUD*IST
– importa acrescentar que é um software de gestão e inferência de informação baseado
no princípio da codificação do texto. Basicamente este programa funciona como um sistema de indexação, busca e teorização de dados não numéricos e não-estruturados.
Importa, ainda, frisar que a análise de dados qualitativos, através do programa
QSR NUD*IST, implica determinados cuidados prévios, sobretudo no que concerne ao
conhecimento do material que se pretende analisar. Para além de uma leitura minuciosa e um bom enquadramento com os objectivos da investigação, é necessária, ainda, a organização prévia do material em tópicos, eixos temáticos ou outras formas de categorização, que no caso específico desta dissertação, são precisamente as áreas temáticas, as suas categorias e as subcategorias. Sucede-se que também foi necessário preparar os textos das entrevistas, isto é, fazer com que não aparecessem parágrafos
muito extensos, pois a divisão do texto em unidades muito grandes poderia fazer com que a codificação se sobrepusesse ao que foi dito no discurso dos sujeitos. Por fim, foi essencial ter em atenção a separação das questões colocadas pelo investigador, do resto do texto e que apareciam ao longo do texto das entrevistas, uma vez que elas funcionavam como quebras de secção e tinham grande importância em alguns dos testes de análise disponíveis.
Todo este processo foi, naturalmente, efectuado através da análise dos discursos dos sujeitos entrevistados, que foram representados, no próprio programa informático, por códigos. Os códigos funcionaram simplesmente como índices de referência que equivalem às áreas temáticas, e às suas categorias e subcategorias. O programa informático permite que este processo possa ser feito de duas formas: de forma manual, seleccionando individualmente as unidades de registo e de contexto e codificando-as; de
forma automática a todos os documentos indexados e, neste caso, o programa QSR
NUD*IST codifica todas as unidades de texto que cumpram os parâmetros estabelecidos
pelo investigador. Por exemplo, é possível codificar, com o código EXP, todas as
unidades de texto que contenham o termo experiência científica. Esta modalidade,
embora seja substancialmente mais rápida, também é menos eficaz, dado que se rege por parâmetros cegos, isto é, codifica todas as unidades que encontra que tenham a referência indicada, verificando-se muitas vezes que estas não correspondem exactamente ao que o investigador tinha em mente.
Face ao exposto, neste estudo as unidades de análise foram codificadas
manualmente, tendo-se utilizado a árvore de análise que derivou da exploração dos
contexto.
Importa, ainda, frisar que a unidade mínima de codificação do programa QSR
NUD*IST é a linha de texto, no entanto, esta modalidade não é muito funcional, dado
que normalmente o pensamento dos sujeitos entrevistados está encadeado em diversas linhas. Neste sentido, o uso desta unidade por linha, para além de fragmentar a análise em blocos excessivamente pequenos, multiplica o número de vezes em que se encontra determinado conceito, isto é, neste caso, as categorias e subcategorias. Os dados que estão no texto, perdem, posteriormente, grande parte da fidelidade das matrizes retiradas.
Com efeito, optou-se por utilizar o parágrafo de texto como unidade de análise
mínima. No entanto, em alguns casos, quando o parágrafo apresentava uma dimensão excessiva, o mesmo foi fragmentado em duas ou mais unidades de texto. Estas unidades foram constituídas por várias linhas de texto, de acordo com a categorização específica que se pretendia fazer, circunscrevendo-se apenas a esse bloco de texto e não a todo o parágrafo. Desta forma, e mais uma vez, consideraram-se, na presente investigação, as
unidades de registo, assim como as de contexto, pois houve uma preocupação constante
em analisar o discurso dos sujeitos, atendendo ao enquadramento em que o mesmo foi proferido, tendo-se abdicado de o analisar isoladamente.
A codificação feita, atribuída a porções de texto, era automaticamente
armazenada em “recipientes” denominados nodes (nós). O conjunto total dos nodes de
codificação formava a index tree root (árvore principal de índices) que apresentava o
categorias e subcategorias. A árvore de áreas temáticas e o funcionamento que lhe está implícito – a codificação do texto e o armazenamento destas referências em nós
específicos – constituem o princípio básico de acção do QSR NUD*IST.
Após a identificação e categorização das unidades de texto, em função das áreas
temáticas, procedeu-se à análise, através da qual se procurou distinguir para cada uma das áreas temáticas, as suas categorias e subcategorias. Assim, esta tarefa passou por identificar fragmentos de discurso que, embora tenham sido claramente identificados como pertencendo a uma das áreas temáticas, foram diferenciados, ainda, num nível de análise mais refinado, ou seja, em categorias e subcategorias. Estas categorias e subcategorias surgiram mediante a identificação de blocos de informação específica, e referente à área temática em análise, o que gerou a árvore de análise. Tal como acontece sempre em análises qualitativas, este processo foi-se sucedendo até se encontrar a árvore de categorias e subcategorias, das áreas temáticas em análise, com capacidade explicativa sobre o fenómeno estudado.
Este processo manual de selecção e criação da árvore de análise (área temática – com as suas categorias e subcategorias) é extremamente dinâmico, dado que, em última instância, a decisão de incluir um fragmento de discurso ou uma unidade de texto em determinada área temática, categoria ou subcategoria depende única e exclusivamente do investigador.
O uso concreto do programa informático foi utilizado numa fase posterior a todo este processo de elaboração da árvore de análise, o qual passa a ser apresentado no item seguinte.