Actualmente, os termos de Pobreza e Exclusão Social reapareceram, constituindo um desafio importante para as políticas sociais dos Estados-Membros da União Europeia. Trata-se de um desafio para a coesão da Comunidade no seu conjunto, apelando para um esforço constante e crescente de solidariedade. Determinadas categorias da nossa sociedade são especialmente vulneráveis, designadamente os pobres que vivem em situação de desemprego de longa duração, os jovens à procura do primeiro emprego, os
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indivíduos em situação de trabalho precário e os idosos pensionistas, entre outros. Os recursos são insuficientes para lhes assegurar um nível de vida acima dos limiares da pobreza (Rodrigues, 2000).
Segundo Costa, et al. (2008, p.26), a pobreza constitui “uma situação de privação, resultante da falta de recursos”. Neste entendimento, a ideia de pobreza é indissociável da noção de privação (não satisfação das necessidades básicas). A “privação” expressa- se em más condições de vida, relacionadas, normalmente, com a ausência de satisfação das necessidades mais básicas, como a alimentação, vestuário, condições habitacionais, transportes, comunicações, condições de trabalho, possibilidades de escolha, saúde, educação, cultura, formação profissional e participação na vida social e política.
Mas, como refere Bartolli (cit. in Coutinho, 2003), a pobreza deixou de ser vista apenas como privação de rendimentos, o que veio pôr em evidência o seu carácter multidimensional, isto é, não é só uma questão de ausência de rendimentos, mas de condições de existência no seio de um conjunto económico, social e histórico.
A pobreza e a exclusão, segundo Castel (1995), exprimem a emergência de uma nova condição feita de privação material (apesar de esta aparecer menos intensa), de degradação moral, e principalmente, de "des-socialização". A similitude entre os dois conceitos não é, porém, absoluta, na medida em que a pobreza surge a partir do processo algo violento de industrialização que rebaixa o homem ao trabalho, enfraquece a sua vontade e o debilita, enquanto que a exclusão, tal como a entendemos diariamente, corresponde a um processo de expulsão da esfera produtiva das populações menos qualificadas.
Há, no entanto, uma distinção conceptual necessária para a apreensão deste fenómeno social. Segundo Pereirinha (1997):
“O conceito de pobreza analisado enquanto situação de escassez de recursos de que um indivíduo, ou família, dispõem para satisfazer necessidades consideradas mínimas, acentua o aspecto distributivo do fenómeno (a forma como os recursos se encontram distribuídos entre os indivíduos ou famílias numa sociedade). Já o conceito de exclusão social acentua os aspectos relacionais do fenómeno, quando encaramos este conceito enquanto situação de inadequada integração social”.
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É por volta da década de 60, em pleno período de prosperidade económica, que surge a noção de exclusão. Designava, então, não o fenómeno de degradação do mercado de emprego e de enfraquecimento dos laços sociais, mas antes, a sobrevivência visível e envergonhada de uma população mantida à margem do progresso económico e da partilha dos benefícios (Darras, 1966).
A discrepância entre o crescente bem-estar da população e estes "excluídos" é tida como chocante. Mas, apesar de alguns programas sociais, a sociedade da abundância e a civilização do progresso não parecem ser capazes de obviar os mecanismos de reprodução desta miséria tenaz (Aron, 2000).
Na perspectiva de Capucha (1998, p. 210):
“Existe um conjunto de direitos e deveres normativamente inscritos nas estruturas sociais e explicitamente consagrados em documentos que expressam os grandes consensos que fundam os compromissos entre os membros de uma sociedade”.
Assim sendo, interrogamo-nos sobre o distanciamento entre o que está legislado e a prática. No plano teórico, os direitos e deveres que expressam o exercício da cidadania assentam no direito à liberdade de expressão, direito à escolha dos seus representantes e governantes, direito à privacidade, ao associativismo, bem como direitos e deveres sociais e culturais, direito à educação e à cultura, à habitação, ao acesso a cuidados de saúde, à protecção social e cívica, à participação social, etc.
É através da materialização destes direitos que o indivíduo, enquanto membro de uma comunidade, detentor de uma nacionalidade, adquire o estatuto de cidadão. Contudo, na opinião de Capucha (1998, p. 211),
“Produzem-se situações de exclusão social porque a sociedade não oferece a todos os seus membros a possibilidade de beneficiar de todos esses direitos nem de cumprir alguns deveres que lhes estão associados”.
A sociedade, não oferecendo aos seus membros o benefício de todos os direitos, torna- se geradora de situações de exclusão social, levando a que membros da sociedade mais
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desfavorecidos percam o estatuto de cidadania plena, o que os impede de participar nos padrões de vida considerados “normais” pela sociedade.
A cidadania surge, neste contexto como uma necessidade, sem a qual não se torna viável a inflexão dos fenómenos de exclusão. Nas sociedades actuais, o trabalho (indivíduo - produtor) e o exercício da cidadania (indivíduo – cidadão) constituem a base da dignidade individual, sendo também em seu torno que o sistema social se organiza (o estatuto de cada um de nós decorre, primeiro que tudo, da actividade profissional que exerce). É na medida em que o indivíduo é autónomo, devido ao seu trabalho (principal vector de integração social), que o pode também ser na sua prática de cidadão.
No seguimento desta ideia, falar na inflexão dos fenómenos da exclusão passa não só por uma auto-sustentação da vida material, como, também, pela satisfação das necessidades de sociabilidade e expressão da dignidade. Nalgumas situações - como as de pobreza - o acesso aos direitos e regalias que a cidadania confere está vedado ou limitado, conduzindo a processos de exclusões. Dito de outra forma, a pobreza é determinada pela exclusão, total ou parcial, dos direitos sociais de cidadania.
A pobreza representa, pois uma forma de exclusão social, ou seja, não existe pobreza sem exclusão social. O contrário, porém, não é válido. Com efeito, existem formas de exclusão social, que não implicam pobreza. Um bom exemplo desta última situação respeita aos idosos. É certo que os grupos etários mais elevados são mais vulneráveis à pobreza do que os mais jovens, contudo, o problema específico do idoso não é a pobreza, mas sim o isolamento.
Os idosos são socialmente excluídos da sociedade em geral (mainstream society), independentemente do seu nível de rendimento. Esta forma de exclusão é causada pela organização da sociedade e pelos estilos de vida correntes (Costa, et al., 2008). As situações de exclusão conduzem a um “afastamento progressivo e cada vez mais grave das pessoas do “estilo de vida” corrente na sociedade a que pertencem e dos sistemas sociais que a integram. A exclusão social das pessoas idosas implica, muitas vezes, que estas passem por estados de privação e carências múltiplas: relacionais; afectivas;
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psicológicas; e de convivência, que resultam, principalmente, da sua idade (Costa, 1993).
René Lenoir contribui para alargar o campo de reflexão acerca da exclusão ao defini-la, não como um fenómeno individual, como o entendiam os discípulos da tese da "pobreza voluntária", mas como um fenómeno social cujas origens devem ser procuradas nos princípios do funcionamento das sociedades modernas. Também para este autor, não se trata de um fenómeno marginal, que toca as franjas dos sub-proletários, mas antes de um processo que afecta cada vez mais pessoas e se propaga, tal como um cancro social, em todos os meios (Lenoir, 1974).
A associação do termo pobreza ao de precariedade alarga o âmbito da questão para um conjunto de situações instáveis, geradoras de dificuldades novas para grupos da população considerados pobres. A precariedade permitiu, nos anos 80, atrair as atenções para um fenómeno que viria a chamar-se a " nova pobreza”. Daí que, segundo Castel (cit. in Guerra e Chitas, 1998), esta “nova pobreza” apareça:
“Como resultado de uma série de rupturas de pertença e de fracassos na constituição dos laços sociais (…) O que está ameaçado não é apenas a segurança de emprego; é também uma inserção relacional através de um duplo vector familiar (…) e cultural, quer dizer, de uma forma de habitar o espaço e partilhar valores comuns”.
Para Xiberras (1993, p.28):
“As formas mais visíveis, ou mais chocantes, do processo de exclusão residem na rejeição para fora das representações normalizantes da sociedade moderna avançada. Numa sociedade onde o modelo dominante continua a ser o ‘Homo Económicus’ convém participar na troca material e simbólica generalizada. Todos aqueles que recusam ou são incapazes de participar no mercado serão logo percebidos como excluídos”.