2.4. Okul Öncesi Eğitim Programı
2.4.2. Süreç
Outro fator importante que aparece no processo de escolarização da Educação de Jovens e Adultos é o espaço urbano. Denomino de espaço urbano a diversidade de lugares e de estrutura da cidade, onde as pessoas podem se socializar, aprender e trocarem práticas culturais.
A cidade é objeto da produção de imagens e discursos que se colocam no lugar da materialidade e do social e os representam. Assim, a cidade é um fenômeno que se revela pela percepção de emoções e sentimentos dados pelo
viver urbano e também pela expressão de utopias, de esperanças, de desejos e
medos, individuais e coletivos, que esse habitar em proximidade propicia. (PESAVENTO, 2007, p.14) [grifos do autor]
Assim, a cidade onde as educandas viviam, os lugares que frequentavam e por onde passavam, fazia parte do cotidiano de cada uma delas. Sendo a escola parte desse cenário, busquei perceber como a cidade se inseria no contexto da escolarização delas e se o espaço urbano promovia alguma interferência em suas aprendizagens.
O primeiro lugar de contato das estudantes com a cidade era a comunidade onde a escola estava localizada, local também de suas moradias. A região era considerada pelos moradores como ponto de tráfico de drogas e de violência. Os dados do Sistema de Indicadores Nossa BH apontam que, em 2010, em dois dos cinco índices medidos – lesão corporal dolosa e estupros – a região se encontrava entre os dez piores índices da cidade, sendo que em relação ao índice de estupros, a região tinha o terceiro pior índice da cidade e no outro ocupava o nono pior índice. Nos outros três índices relativos à violência (homicídio e latrocínio, furto e roubo,) a região se encontrava entre os cinco piores das regiões da cidade.
As educandas avaliavam que o bairro era perigoso e, por isso, tomavam cuidados relativos à segurança delas e das suas famílias. Para Ester, o bairro não era o ideal para quem quisesse estudar, relatando que
o bairro aqui, o bairro não ajuda a gente não. Porque a gente sai pra trabalhar. O bairro assim, a perspectiva de vida aqui no bairro mesmo, assim, a gente sabe que é bem difícil. A gente sai entregando a vida dos filhos da gente na mão de Deus, porque eu saio pra trabalhar...
Letícia relatou que, no tocante a ela,
me atrapalha sim, porque eu morro de medo de tiro. Morro de polícia pegar a gente na rua que é inocente e fazer alguma coisa com a gente. Já deixei de vir na aula, já deixei de trazer a minha filha por causa disso. Quando chega lá embaixo na rua, ah vai ter tiroteio, fulano vai matar fulano, cê pode ver que a escola esvazia. Quase não vem aluno na escola. Só vem as crianças que pai e mãe num tá sabendo. O bairro é igual uma bomba relógio. Qualquer hora explode, qualquer hora.
162
se eu tiver no meio do caminho ali, eu escutar um tiro Olavo, no meio do caminho não, se eu tiver no portão aqui, oh, eu escutar um tiro, eu volto pra trás, vou embora na hora meu filho. Fico uma semana sem vir na aula.
Ester prosseguiu:
Oh, aqui, eu venho pra aula, mas tipo assim, eu venho, eu saio do bairro qualquer hora, entro qualquer hora, mas tipo assim, eu não gosto de andar devagar, em relação..., porque eu num sei que hora, porque que é decente, a gente não entende nada. Mas esse povo, um piscado que eles dá um pro outro eles já entende o que que tá acontecendo. Às vezes a gente tá indo no meio de um fogo cruzado e num sabe. Entendeu? Então assim, o que eu posso andar rápido, sair daonde que eu vejo que é os lance que é mais perigoso, eu apresso mesmo. Mas em questão assim, em momento algum, igual o ano passado mesmo quando teve aquela guerra aqui no bairro e tudo, que foi perigoso, em momento algum, dia nenhum eu faltei de aula. Só que era aquela coisa, saindo do portão pra fora, pra casa mais rápido, porque eu não sei que hora, né. Um piscado que eles dá um pro outro ele já sabe o que significa. Eu num sei.
Esse clima “carregado de insegurança”, proveniente da violência na região, foi percebido no decorrer da última semana de observação. No final de semana que a antecedeu, aconteceu um tiroteio em uma rua próxima à escola, durante um baile funk, quando duas pessoas foram assassinadas e outras onze ficaram feridas. Na segunda- feira, todos na escola só comentavam a respeito desse crime. Ana, Ester e outra colega passaram boa parte da aula comentando sobre isso.
Na terça-feira, Camila, que não havia comparecido na escola no dia anterior, chegou dizendo que não ficaria na escola, porque estava com medo. Era notório como o ambiente estava tenso nesse dia. Ao dar início à aula, Camila se dirigiu até onde o educador Carlos estava e repetiu o que já tinha dito para os colegas e para mim. Disse que estava com medo, porque os “meninos25” avisaram que haveria problemas hoje, no
bairro.
Avalio que, na verdade, as educandas estavam mostrando que a violência externa, aquela que ocorria na comunidade escolar, era um fato interveniente no processo de aprendizagem. Era fato que
em virtude da violência indivíduos alteram comportamentos, hábitos de consumo, deixam de transitar por ruas com determinadas características físicas e sociais, usam, em suas residências, uma infinidade de aparelhos e recursos para a obtenção de um maior sentimento de segurança. Deste modo, o medo influencia comportamentos, atitudes e tomadas de decisões. (MARINHO; COLLARES; VILELA; PRATES, 2004, p.4)
Percebia, então, que, tanto o comportamento das educandas quando estavam na escola, quanto os resultados esperados nas atividades que participavam, eram afetados por uma série de ocorrências que sucediam na comunidade. É fato, também, que esses
25
163
comportamentos não eram uniformes, já que deve-se considerar as características e personalidades individuais, entre outros fatores, de cada uma delas e a forma como cada uma reagia a esses acontecimentos.
Esses eventos constituem o que denominamos violência objetiva ou ocorrência de atos criminosos tanto na escola como em seu entorno. Se eventos desta natureza são pertinentes o suficiente para afetar comportamentos cotidianos na sociedade como um todo, o mesmo deve ocorrer no ambiente escolar. Ainda que não sejam diretamente vitimados, o conhecimento acerca de sua ocorrência exerce influência sobre o cotidiano dos alunos. (MARINHO; COLLARES; VILELA; PRATES, 2004, p.4)
Muitos podem pensar que fatores como o lugar que se mora, por si só, não tem nenhuma influência e não possui nenhuma forma de relação com o processo de aprendizagem. O depoimento de Letícia mostrou algo diverso:
Ah, eu num gostava que o bairro que eu morava ele era melhorzinho, né! Uma classe melhor, né! Do que agora. E tinha muita menininha lá que tinha mãe, pai. Morava numas casona bonita. Lá é cheio de casa boa, sabe? Aí eu via elas assim, tinha tudo, eu não tinha nada. Às vezes eu queria um amarrador de cabelo, um chinelo bonitinho, eu não tinha. Tênis. Não tinha nada. Aí eu sentia mal com isso. Eu ficava vendo aquilo ali, eu ficava muito pensativa com aquilo. Mas mesmo assim eu era uma criança muito alegre, sabe? Tinha amizade com todo mundo. [...] Ficava triste porque todo mundo tinha e eu não tinha nada, né! Nem eu, nem a maioria dos meus primo. Só alguns que tinha, os outros também não tinha, era igual eu.
Letícia teceu esse comentário, entendo eu, porque, na escola onde retomou os estudos, havia uma igualdade entre os estudantes e o poder aquisitivo era semelhante entre os pares. Creio que ela quis mostrar com seu depoimento que, também no interior das escolas, existe um jogo de poder. Nesse campo, ao frequentar espaços onde pessoas de maior poder econômico e social são maioria, os pertencentes às classes mais pobres, no convívio com as outras, por ocasiões diversas, podem vir a se sentirem inferiorizadas e/ou desvalorizadas. Isso pode levar muitas delas a um sentimento de diminuição da autoestima, que, por sua vez, ocasionando, talvez, dificuldades na relação com o saber. Por outro lado, ao morar em lugares como esses, oriundos de famílias humildes, com poucas chances de melhoria das condições de vida, a escola se torna um espaço importante, também, no processo de construção da cidadania dessas pessoas. Letícia mostrou essa importância, ao falar das pessoas e dos lugares que teve a oportunidade de conhecer em função de estar estudando.
Uai, igual essas viagens que faz, né! De História, vai pra museu, essas coisas. Se tivesse mais vezes também seria bom, interessante pra gente interagir mais com os colegas. Igual eu moro aqui no bairro há mais de 20 anos, não, mais de 15 anos e eu não conheço muita gente aqui. Eu conheço pessoas da minha rua onde eu moro. [...] E eu tando aqui na escola, to conhecendo muita gente que mora aqui anos e eu nem nunca vi, sabe? Tô conhecendo, to vendo que as pessoas aqui são bacanas. Que eu moro aqui, mas eu não tenho uma visão
164
boa daqui, sabe? Aí agora eu tando estudando eu tenho mais contato com as pessoas, sabe?
Dessa forma, a escola se tornou um elemento primordial na construção das possibilidades de socialização das pessoas, além de ter permitido que elas pudessem usufruir e ocupar espaços públicos. Como nos mostra investigação recente sobre a apropriação dos espaços da cidade,
a pesquisa destacou o valor conferido pelos professores à participação dos alunos no seu próprio processo de aprendizado e o quanto, em sua percepção, as visitações a espaços de cultura e de memória transforma esses alunos em personagens e narradores de sua própria história. Revelou que um dos mais importantes saberes construídos pelos professores por meio dessas práticas refere-se ao reconhecimento e à valorização da cultura popular, a cultura dos próprios alunos, em suas relações com a escolarização e com a cidade. (SILVA, 2011, p. 149)
Viu-se, então, que mulheres, além de transitarem pela cidade, ocuparam lugares no mercado de trabalho, e que tal condição pode vir a intervir, de várias maneiras, na decisão de retornar à escola. Assim, lidando com sua corporeidade, para perceberem os espaços, manifestando todos os sentidos, entenderam, ainda, que a continuidade nos estudos era fator primordial para a melhoria de suas condições de existência, mobilizando-se para tal.
Terminadas essas análises, que transitaram no âmbito do mundo feminino, considerando as situações inerentes a ele, para mulheres adultas que retornaram à escola, sigo para as considerações finais deste trabalho.
165