2.4. Okul Öncesi Eğitim Programı
2.4.1. Amaç ve Kazanımlar
O trabalho é uma dimensão fundante para o ser humano. Sabe-se que, na Educação de Jovens e Adultos, ele é considerado uma dimensão de fundamental importância, visto ser ele constitutivo do sujeito da EJA. Entendo que, tanto o educando, quanto o educador dessa modalidade da Educação Básica, estão imbricados com o trabalho, não sendo possível entender as lógicas sociais, nas quais estão envolvidos, separadamente. Isso se explica porque a EJA, em seu cerne, é pensada e voltada para pessoas trabalhadoras, que se constituem naquelas que, pelas necessidades da vida contemporânea, precisam abandonar a escola e se inserir no mercado, em busca do sustento.
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Nessa perspectiva, a Educação de Jovens e Adultos é entendida como
o conjunto de processos educativos destinados àqueles que vivenciam diversas interdições que as profundas assimetrias de poder inerentes à sociedade capitalista impõem à classe trabalhadora, no que se refere ao acesso pleno ao conhecimento. Designamos, assim, como classe trabalhadora, a imensa maioria da população brasileira que vivencia situações cada vez mais precárias de produção da existência, dependendo para viver, ou no mais das vezes, sobreviver, da venda, em condições cada vez mais adversas, e perversas, de sua força de trabalho. (RUMMERT, 2006, p. 124)
Assim, pensando nessa dimensão, que conforma os sujeitos educandos, busquei identificar como o trabalho influenciava a permanência delas na escola. Isso porque, para a maior parte dos estudantes que retornam para a EJA, o trabalho foi priorizado, pois é dele que retiravam as condições para seu sustento e sobrevivência.
Em pesquisa realizada no ano de 1999, em classes de alfabetização de adultos no interior de São Paulo, ao analisar a trajetória de vida de 31 educandos, constatou-se que suas
trajetórias de vida, estas estão penetradas pelas necessidades de trabalho; os entrevistados trabalharam, todos eles, desde a mais tenra idade, como possibilidade de garantir a sobrevivência da família. As trajetórias de vida apontam que a expectativa familiar voltava-se para a necessidade de inserção precoce desses sujeitos no mundo do trabalho; a escola era apenas um apêndice, existia, mas era acessório. Antes, tinha que trabalhar. (CAMARGO;
MAZZA; SALLES, 2000, p.8)
Em decorrência disso, procuro saber se o trabalho, em algum momento, chegou a fazê- las pensar em desistir dos estudos. Ester, de forma bem enfática, respondeu negativamente. Chamou a atenção como ela defendeu o seu direito de permanecer e continuar na escola. Ela deixou claro, ainda, que esse é um assunto que não se restringe às conversas entre o casal, estendendo-se para o restante da família.
Eu não. Eu falei que agora se eu tiver abrir mão de alguma coisa eu abro, mas de meu estudo não. Eu sempre falo isso com meus filhos e falo com meu esposo, não vou parar por causa de nenhum de vocês. Fiquei nove, não, oito anos, fiquei oito pensando em casa, serviço, marido e filhos. Enfim, continuo, eu falei assim com ele, continuo lavando privada da casa dos outros, enfim, por causa de quê? Porque eu não tenho estudo. Então, portanto, vocês não são meu futuro, meu futuro sou eu mesmo, correndo atrás. Então não vou parar, meu futuro é o estudo. Pra mim ter uma coisa melhorzinha, eu tenho que estudar, eu não vou parar.
Ester, de certa forma, vai ao encontro das palavras de Bernard Charlot que encontrou, em sua pesquisa com alunos dos liceus profissionais na França, uma perspectiva de futuro com uma profissão e uma vida melhor. No caso dela, o futuro melhor tem relação com a mudança da sua vida, o que, ao que tudo indica, implica em sua entrada no mercado de trabalho.
A lógica deles continua a ser a de que os estudos devem permitir ter uma boa profissão no futuro, sem que esta profissão seja definida e sirva de ponto de
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apoio a uma nova mobilização escolar. A lógica destes jovens continua a ser a do nível, ou pelo menos a da inserção no emprego, não é uma lógica de inserção numa profissão com especificidades identificadas e desejáveis. (CHARLOT, 2009, p.33)
Ela se mostrou muito decidida em percorrer sua trajetória escolar até o ensino superior. Para isso, disse que abriria mão até mesmo do casamento, se fosse necessário fazê-lo.
Aí meu marido falou assim, eu não tô falando pra você parar de estudar. Eu tô falando que tem hora que você tem que parar de alguma coisa. Parar o quê? O que ocê tá me referindo a eu parar de estudar. Eu não vou abrir mão dos meus estudos. Aí virou assim: mas quando você pretende liberar (sic) minha vida? Até eu conseguir todos os meus objetivos, que eu falei com ele. Meu filho, o ensino médio pra mim é só um passo daquilo que eu tô tentando conquistar. Aí falou assim. Então, se você tiver abrir mão de um casamento, você abre. Não tô querendo abrir mão de nada e de ninguém, mas.... se precisar, enfim. Ocê não é o meu futuro. Falei com ele. Ele falou, exatamente. Eu falei assim, porque o que você sabe não serve para mim.
Perguntei, para as outras educandas, qual seria a atitude delas diante de um obstáculo como esse (a não aceitação do cônjuge quanto ao prosseguimento delas na vida escolar), se diriam a mesma coisa para os maridos.
Ana, por exemplo, respondeu:
Olha, se... a gente não quer abrir mão não né, infelizmente a gente não quer abrir mão, mas agora escola, a gente precisa de estudar, o estudo hoje, hoje se ocê não tiver estudo ocê não consegue um serviço melhor, não consegue nada. A gente não quer abrir mão dos esposo, mas se não tiver alternativa, você vai fazer o que? Você vai morrer? Não tem jeito não. Apesar de que meu esposo é uma bença. Graças a Deus, me ajuda muito, não posso reclamar não. E é uma pessoa que me incentiva muito. Tem vez que eu tô... naquele desânimo, ele que me incentivou a voltar estudar.
No caso de mulheres que moram com os maridos, o papel que os cônjuges desempenham no retorno e na permanência delas na escola pareceu-me de fundamental importância, como mostram as palavras de Ana. A educanda Ester relatou:
O meu também me incentiva. O meu me ajuda em questão de coisa lá de casa, mas tem hora que ele fala ... parar (sic).. são assim coisas que deixa a desejar, que a gente deixa mesmo, né. Aquilo, por exemplo, a vida de casado a gente deixa de lado por cansaço, num guenta né. Aí eu falo com ele assim, então se você tiver de abrir mão do seu casamento, sabe, eu falo com ele assim, meu filho não tô querendo abrir mão de nada, mas se não tiver outro alternativa, fazer o que, paciência.
Chamou-me a atenção o fato de como o estudo ocupou um lugar destacado na vida de Ester. Mostrar-se disposta a encerrar uma relação, aparentemente estável, não é fato comum em comunidades carentes como aquela, onde parte considerável das mulheres casadas, ou amasiadas, necessitava compartilhar com o cônjuge o sustento da casa e dos filhos.
Miriam reconheceu a importância dos estudos, mas como dava prioridade para o seu trabalho, muitas vezes, ela precisou fazer hora extra, deixando de vir na escola.
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Eu me esforço o máximo que eu posso, porque o meu objetivo é aprender um pouco mais, né, além do que eu já sei, porque eu acho que a pessoa sem estudo hoje não é nada, né! Então eu tô me esforçando o máximo que eu posso. É por esses motivo que às vezes eu falto, não tem tempo pra vim, né! Às vezes eu tô atendendo uma cliente não tem como terminar no tempo certo, pra eu chegar aqui 7h, né! Ou seja, até 7:30h a gente pode entrar, né ? Ai eu prefiro faltar do que vim, mas sempre me esforçando pra poder vim e não faltar, entendeu ? Eu quero vencer. Se eu lutei até hoje, né! Ai eu quero lutar pra chegar até o fim, né!
Lembrou que, algumas vezes, em função de ter trabalhado, o que tomava grande parte do seu dia, vinha para a escola muito cansada e percebeu que seu rendimento nas atividades escolares ficava comprometido devido a isso.
Não, é assim, eu não consigo pensar não, né! Não consigo... a cabeça.. não consigo firmar, né! Por exemplo, uma conta, né... pra resolver um problema de Matemática, as vezes eu sei aquilo ali, eu tiro de letra, e no momento... ali do cansaço que eu estou, foge tudo da mente.
Além disso, ela reconheceu que, em algumas oportunidades, deixava de comparecer à escola, visto ter que trabalhar.
Sim, só que infelizmente, né, até pelo meu tempo, assim, meu trabalho, meus filhos, né, não tem como eu participar. [...] porque eu sou, como eu volto a dizer, eu sou mãe e sou pai, tenho três criança pra dar conta, né! Então eu tenho que trabalhar. Sorte minha que eu já tinha feito a quarta série, né! Quando eu fui fazer o curso [para cabelereira], então consegui passar. [...] E já terminei o curso trabalhando, com salão montado, já. Por que, né! Consegui clientes na própria sala de aula lá do curso. E tô até hoje lá... Tem mais de 7 anos.
Em relação ao trabalho, Letícia disse que ele envolvia muita responsabilidade já que lidava com a vida das pessoas. Além disso, o trabalho lhe era muito cansativo.
Ah... Cansaço físico, dor. Vai dando dor nas costas, dor nas perna. Tem hora que to até arrastando já. Quando chego a descer pra ir embora, você já tá arrastando. A mente tá cansada, o corpo tá cansado, sabe? Desanimada. Tem dia que, no outro dia que não é no plantão, levanto e já não to aguentando é nada. Então muitas vezes eu até cancelo faxina porque não to dando conta.
Falou que já trabalhava no hospital há três anos e se vangloriava de nunca ter tido um problema com nenhum paciente. Mesmo assim, ela reconheceu que
Ah, tem hora que eu me sinto muito cansada. Cansaço físico terrível. Mas preciso trabalhar, né! Não tenho outra opção. E hoje em dia o mercado de trabalho tá difícil. Igual eu, tenho só 7ª série, incompleta. O salário não é aquele salário assim. É 601,00 reais que a gente ganha. Só que com a insalubridade dá 701,00, né! Aí desconta os desconto tudo, vai ver é uns 400 e pouco a gente recebe por mês. Não chega ser um salário, né! Mas já ajuda, né! Porque a gente ficar sem serviço, sendo chefe de família, é difícil.
As últimas falas nos mostram como que a corporeidade é importante para que a mobilização para a relação com o saber possa acontecer. O corpo ocupa lugar privilegiado para que o sujeito viva experiências e, assim, aprenda. Um corpo cansado indisponibiliza o estudante para aprender.
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