• Sonuç bulunamadı

1. HABER, HABER ÜRETİMİ VE SÖYLEM

1.4. Söylem

uma tendência, tanto em países considerados desenvolvidos ou em fase de desenvolvimento, de “democratização da democracia”. Tal disposição decorre em parte da insuficiência do modelo representativo de democracia para responder aos desafios de uma sociedade multicultural, onde se configura a chamada cidadania multicultural (KYMLICKA, 2001), ancorada na demanda de novos direitos humanos, além das transformações globais que impactam modos de vida e novas formas de sociabilidade. A sociedade plena de diferenças demanda das instâncias estatais a renovação do quadro de políticas públicas setoriais adaptadas às configurações de novas necessidades sociais, culturais e políticas. Nesse sentido, reflexões contemporâneas sobre a interface participativa e comunicativa da democracia postulam a aproximação entre Estado e sociedade civil por meio de processos de interação discursiva, em que o cidadão comum pode assumir papel de protagonista em cenas públicas de debates sobre temas de seu interesse almejando alcançar espaços da política oficial.

A perspectiva de uma maior participação da sociedade civil em processos decisórios arbitrados pelo Estado e suas instâncias públicas destoa de concepções elitistas sobre o modelo de democracia representativa que asseveravam essa forma de governo como compatível com uma

sociedade complexa cujos membros não estariam capacitados para o exercício público direto da política. Esta proposição pode ser depreendida das chamadas “teorias elististas da democracia” nas quais, grosso modo, o cidadão ordinário restringe-se a eleger seus governantes em um sistema de escolhas de lideranças políticas (WEBER, 1999, 2000; SCHUMPETER, [1942], 1975). Formulações mais recentes sobre a pertinência do modelo liberal hegemônico de democracia representativa não se referem ao cidadão como mero produtor de governos. Abordagens menos reticentes em relação à competência do cidadão para atuar na vida pública para além de pleitos eleitorais fazem alusão, por exemplo, à compatibilidade entre representação política e descentralização do poder público central, configurada na poliarquia de Dahl (2001 e 2005), na qual as entidades civis como as associações cumprem papel decisivo nessa desconcentração da política e do poder, ao procedimentalismo apoiado na regra da maioria de Bobbio (1986), contando, em outros fatores, com um cidadão esclarecido e mais participativo, um modelo pautado no cumprimento das “regras do jogo democrático”.

Embora não se possa negar a viabilidade do paradigma representativo, chama-se a atenção para o processo de ampliação da democracia que exige uma maior valorização de práticas comunicativas insurgidas de manifestações socioculturais espontâneas e originais da sociedade civil, não mercado, e possam alcançar espaços oficiais de articulação da política ocupado por eleitos em procedimentos democráticos pautados na regra da maioria. A construção de canais de diálogo entre poder público e sociedade civil e entre esta e cidadãos não significa o declínio do sistema representativo de governo, mas a irrupção do tecido social de experiências participativas que só fortalecem qualquer regime democrático. As proposições viáveis de modelos combinados, participativos, comunivativos, dialógicos e deliberativos de democracia partem de críticas às limitações do modelo liberal representativo e não da sua superação. Na verdade, apontam para uma ampliação da democracia, prevendo uma maior inclusão do cidadão em processos decisórios, políticos e sociais arbitrados pelo Estado e suas instituções. Por isso, a noção de espaço público enquanto instância discursiva da sociedade civil, em toda sua dimensão comunicativa e participativa, é tão importante para a operacionalidade de experiências locais, nacionais e globais de democracia semidireta, as quais estão pautadas fundamentalmente em práticas comunicativas e discursivas, que se apresentam fundamentais, nos termos de Habermas (2002), para o exercício da autonomia pública conferida pela soberania popular.

Sociedade civil e democracia: em busca da participação

Em face às mudanças protagonizadas por movimentos globais de avanços da esfera econômica e de estratégias políticas em relação ao espaço das trocas sociais e simbólicas12, o papel da sociedade civil aparece vinculado à garantia da preservação do interesse público, historicamente representado pelo Estado, em processos decisórios nos quais quase sempre se rivalizam interesses privados versus interesses públicos e estatais. Nesse sentido, a sociedade civil aparece antes como protagonista do que como expectadora na condução de processos de intervenção em instâncias decisórias ou na implementação de experiências originais de protagonismo político e emancipação social (SANTOS; AVRITZER, 2005). A política aparece como elemento fundamental para alicerçar debates públicos e, sobretudo, oferecer as bases para a revisão, reflexão e atualização do sentido contemporâneo de democracia e suas possíveis configurações sem estar necessariamente atreladas ao modelo liberal hegemônico da representação. A discussão atual sobre a aplicabilidade de paradigmas democráticos oscila entre forma representativa e participativa, levando-se em consideração que há momentos de vaivéns em relação à crença na consolidação de processos democráticos mais inclusivos (BOBBIO, 2006).

Os temas da igualdade e liberdade perpassam o debate sobre dilemas e perspectivas de modelos de democracia por se tratarem de princípios republicanos democráticos, cujos conteúdos abstratos fomentam debates acirrados sobre sua efetividade e materialização em meio a sociedades capitalistas que transitam entre orientações políticas mais à direita (neoliberalismo) ou à esquerda (socialista) ou buscam a intersecção entre uma e outra (social democracia renovada). O que se discute mais precisamente em contextos de liberdade tanto política como individual é a conciliação de igualdade social e igualdade política. No entanto, como alerta Dworkin (2005), a igualdade distributiva, aquela geradora de igualdade material, não pressupõe a igualdade de reconhecimento recíproco entre os homens, fazendo com que estes se aceitem mutuamente como iguais. Tem-se várias dimensões sob as quais repousam algumas formas de igualdade: distributiva, política, de reconhecimento. Parece que a concretização da igualdade de condições e das liberdades individual e política acontece de acordo com o grau de priorização dada à política

12 A respeito da influência do avanço do econômico sobre a esfera social, K. Polanyi discute em A grande

transformação como o progresso econômico levou a uma desarticulação social para qual a ressalva só poderia ser

como mecanismo democrático de discussão e ação, voltada para o bem estar social e autonomia dos cidadãos reunidos em sociedade.

A instauração de um regime democrático, em que a maioria do povo de fato dispõe dos meios para exprimir sua vontade e fazer valer seus direitos, a priori, pressupõe a legitimidade de organizações da esfera civil da sociedade no engajamento e defesa de demandas da coletividade. Cabe ao Estado também garantir mecanismos efetivos de participação do cidadão em processos decisórios que dizem respeito à população. Mas, é importante ressaltar que tais mecanismos não garantem sozinhos a vitalidade de uma democracia direta. Para que instrumentos de controle público-social13 possam funcionar é fundamental a constituição de canais de comunicação entre

instituições públicas e cidadãos, organizados ou não em entidades civis. Nesse sentido, o pressuposto da deliberação em procedimentos democráticos de discussão pública enfatiza o viés comunicativo da democracia participativa, embora tal regime de governo jamais tenha se concretizado, como lembra Sartori (1994) nas sociedades contemporâneas, mas vários esforços de autogoverno, como o caso do orçamento participativo em cidades brasileiras (AVRITZER, 2003, SANTOS, 2005) suscitaram a sua eficácia em contextos democráticos pautados na representação.

As tentativas de autolegislação e de autogoverno, inspiradas em experiências democráticas são antigas, mas estas se deparam com movimentos históricos protagonizados por interesses corporativistas, como também com características da modernidade tais como individualismo, apatia política, privatização, escassez de “bens comuns”, retração das virtudes públicas. Na verdade, a história política das sociedades ocidentais nos mostra a difícil luta dos povos desde a antiguidade para inserção de procedimentos democráticos no âmbito estatal e no seio da própria sociedade. Norbert Rouland (1997)14 se refere a movimentos sociais seculares,

13 O controle social é visto comumente como forma de aumentar a capacidade de influência da sociedade sobre o

Estado. Este tipo de mecanismo é a base para o disciplinamento da esfera econômica e dos ambientes onde são travados embates de interesses, em que, geralmente, prevalece aquele que advém da esfera privada. O controle social seria a conformação de uma autoridade, com base na coletividade, fundada democraticamente para regular tanto o ente estatal, o mercado, como a própria sociedade. A cidadania é a base dessa formação, porque é nela que pousam as condições de participação pública. Ela habilita o cidadão à ação racional e de potencial modificado, aglutina os princípios de democracia, sociedade pluralista, educação política e iniciativa. (LEAL; RIBEIRO, 2002).

14 Rouland (1997) faz uma digressão à Roma Antiga sob a perspectiva da implantação do regime democrático naquela cidade. Ele atribui à debilidade da democracia romana a dois fatores fundamentais: as relações sociais de clientelismo (decorrentes de questões políticas e econômicas) que se desenvolvem entre plebeus e aristocratas e à liberdade censurada da população em ocupar espaços físicos nos limites da cidade para debater publicamente suas demandas e direitos. No que interessa mais de perto, o autor traça uma relação direta entre concepção arquitetônica e

liderados por plebeus, que permearam a trajetória da construção das bases democráticas na Roma antiga, contrariando as aspirações políticas da elite aristocrática. Os gregos deixaram um legado de ensinamentos políticos apreciados pelas democracias ocidentais, sobretudo no que concerne ao ideal da igualdade social, política e jurídica entre os cidadãos atenienses. Mais tarde, as revoluções burguesas que eclodiram na Europa entre os séculos XVII e XVIII, inspiradas no liberalismo político e econômico, retomaram o modelo de democracia como regime de governo apoiado agora no Estado de direito. No esteio de princípios democráticos e dos direitos fundamentais, aos poucos, configurou-se o cidadão baseado na universalidade dos direitos podendo exprimir publicamente suas opiniões, desfrutando da prerrogativa de reunir-se em associações, formar e integrar partidos políticos e acessar benefícios sociais15 que garantissem a sua sobrevivência.

É no encadeamento de eventos sociais, políticos e econômicos que a democracia vai se conformando em movimentos de retrocessos e avanços. Os modelos prescritivos contemporâneos de democracia oferecem suas vantagens e limitações frente a situações reais da vida social e política dos cidadãos de hoje. No que interessa a este estudo, o debate fundamental gira em torno do paradigma democrático que proporcione aos cidadãos os instrumentos necessários para que esses se tornem protagonistas em processos da vida social, para além das eleições, plebiscitos e outras formas de consulta pública. A perspectiva de uma maior inserção do cidadão em espaços públicos políticos está na base do paradigma da democracia participativa o qual se nutre do organização política da urbe e a caracterização do modelo de democracia romana. Para Rouland, embora a democracia romana tivesse inspiração na experiência grega, Atenas foi de fato uma democracia, a qual se manifestava nos espaços públicos da cidade, onde cidadãos podiam se reunir sem sofrerem represália do governante. Já em Roma todo tipo de restrição para ocupação popular de espaços públicos era empreendida pelos dirigentes da cidade, como, por exemplo, construções que inibissem a permanência por muito tempo de pessoas em um mesmo espaço (teatros e estádios sem assentos, esplanadas grandiosas mas pouco convidativas para reuniões públicas). Em Roma, o contato físico entre cidadãos e não-cidadãos em eventos públicos se traduzia em perigo eminente de conversações e formação de opiniões críticas. “A classe dominante deseja simplesmente evitar que se crie mesmo um esboço de condições concretas suscetíveis ao favorecimento de debates ou tomadas de consciência de natureza democrática: nesse sentido, é muito significativo o fato de que, em Atenas, os membros da assembléia popular têm assegurado seu assento. [Em Roma] Não se pode permitir que a população se habitue a reuniões assíduas nos mesmos lugares, os quais se podem converter em centros de convenção.” (ROULAND, 1997, p. 117)

15 A respeito dos direitos sociais e econômicos, previstos em constituições de muitos países democráticos, R. Dahl observa que: “Embora a constituição norte-americana e as que sobrevivem desde o século XIX nos países democráticos mais antigos geralmente tenham pouco a dizer explicitamente a respeito de direitos sociais e econômicos, as adotadas a partir da Segunda Guerra Mundial normalmente os incluem. Não obstante, às vezes os direitos sociais e econômicos prescritos (de maneira até bastante prolixa) são pouco mais do que simbólicos.”(DAHL, 2001, p. 137).

potencial dialógico das trocas argumentativas em contextos discursivos. As experiências de democracia direta se apóiam na valorização da comunicação como mecanismo dialógico para formulação de acordos, entendimentos, como também para ressaltar divergências opinativas.

A dimensão dialógica da política, ressaltada em Arendt (2001), Habermas (1992), só se torna plausível a partir do envolvimento de um maior número possível de cidadãos em práticas discursivas processadas em espaços comunicativos descentralizados, difusos na sociedade. Em uma democracia comunicativa (YOUNG, 2001), a política não está centrada nas instituições do Estado, mas encontra-se também deluída na sociedade, o que exige do cidadão um engajamento mais acentuado em relação a processos sociopolíticos da vida pública. Nesse sentido, uma forma do cidadão dialogar diretamente com o poder público é a partir da construção de canais de comunicação que alcancem as instâncias da política oficial e as diferentes instâncias civis que empreendem uma diversidade de lutas sociais. O desafio dos governos democráticos hoje é dar conta das novas demandas sociais em termos de direitos e políticas públicas, tendo em vista os dilemas pelos quais passam Estados-nações com suas novas dimensões geográficas e populações cada vez mais numerosas e diversificadas. Tem-se, então, a necessidade de governos democráticos capazes de articular políticas que permitam o equilíbrio entre demandas e interesses de maiorias e minorias, a partir do recurso do diálogo com a sociedade civil.

Benzer Belgeler