2. NEFRET SÖYLEMİNE KAVRAMSAL BAKIŞ VE MEDYAYLA İLİŞKİSİ
2.4. Medyada Nefret Söylemi
O debate atual sobre as fragilidades da democracia representativa é ponto de partida da concepção participativa ou comunicativa de democracia, em suas dimensões administrativa e legislativa, que coordenam as relações sociais, econômicas e políticas. Habermas (1997; 2002) reúne esse amplo debate sobre modelos democráticos construindo uma tipologia na qual dispõe três modelos normativos de democracia, quais sejam: o liberal, o republicano e o deliberativo. O modelo liberal situa o locus da política no Estado e o republicano na sociedade. No modelo deliberativo, proposto pelo autor, a política não está preferencialmente nem no topo nem na base, mas no meio, na inter-relação entre Estado e sociedade. Envolve negociações, formas de argumentação, abriga processos de poder, controvérsias, estratégias, conduzidos por interesses públicos ou operações sistêmicas.
O modelo de democracia deliberativa como formulada por Habermas está centrado na participação política da sociedade civil nos negócios públicos. No entanto, tal concepção da prática democrática calcada na teoria do discurso e no procedimentalismo24 encontra barreiras históricas e estruturais impostas pelo próprio modelo normativo liberal de democracia, o qual está enraizado na arquitetura de arranjos e processos políticos nas sociedades ocidentais contemporâneas, além das controvérsias da racionalidade humana que orientam ações sociais em direção a “consensos” ou a “finalidades”. Disso decorre que o paradigma de uma democracia dialógica contrasta com o modelo hegemônico de representação pautado na concepção liberal de funcionamento do sistema político e em pressupostos da concepção republicana no delineamento da unicidade do “bem comum”. No entanto, tais modelos, ao mesmo tempo, não se contrapõem ao paradigma dialógico porque a concepção habermasiana de uma democracia discursiva resulta de uma combinação entre liberalismo político e concepção republicana da vida pública e está apoiada na operacionalidade de uma ação comunicativa no espaço discursivo de debates públicos.
Em seu modelo de democracia combinada, entre o liberalismo e o republicanismo, Habermas propõe um olhar mais atento às propostas originais que podem surgir do âmbito da sociedade civil a partir da configuração de contextos de espaços públicos, os quais podem gerar um conteúdo fundamental para subsidiar processos decisórios no âmbito do espaço público estatal e do parlamento. A proposta desse autor está alinhada a iniciativas de democratização da democracia “como uma forma de aperfeiçoamento da convivência humana.”(SANTOS; AVRITZER, 2005, p.50). Nesses termos, a perspectiva de um processo generalizado de ampliação da democracia, como aponta o modelo normativo proposto por Habermas se traduz de fato na materialização da capacidade reflexiva do cidadão não só de questionar o sistema político como de se lançar no espaço público político para tentar alcançar o centro do poder público. A construção de instâncias calcadas no modelo da participação direta de intervenção cidadã pelo debate em processos decisórios nos negócios públicos tem dado sinais de que o processo da
24 Dewey ([1927]; 1984) postula que os limites da democracia representativa estariam na ausência ou debilidade dos canais de comunicação existentes entre Estado e sociedade. Para o autor, a participação do cidadão em contextos decisórios via procedimentalismo e comunicação, ofereceria uma boa resposta para as restrições democráticas do modelo de representação. Dewey chama atenção para o papel do cidadão enquanto membro do público em processos decisórios arbitrados pelas instâncias da esfera estatal, postulando sua participação nessas situações a partir da sua atuação direta em contextos sociais de debates públicos, protagonizados pelos próprios cidadãos. Dewey defende que os mecanismos de participação e de controle público disponibilizados pelo Estado não são suficientes para concretização de uma relação discursiva e democrática entre cidadãos e poder público. O pragmatismo discursivo postulado por Dewey, nutrido pela educação política e cívica, seria o subsídio para participação do cidadão em um contexto deliberativo, criado na própria sociedade civil, independente da estrutura das instituições públicas.
política deliberativa constitui o âmago do processo democrático. O modelo deliberativo de democracia se constrói entre as concepções liberal e republicana. É um modelo combinado que não se reduz a nenhum dos paradigmas anteriores, mas se desenvolve a partir de seus limites e vantagens, recompondo-os de modo novo.
Na verdade, Habermas aponta tanto ontem como hoje o espaço público como esfera de possíveis entendimentos e construção de consensos entre membros da comunidade social que se lançam nesse espaço para debater publicamente temas de interesses de uma coletividade, protagonizando, assim, uma ação política. O que está em pauta aqui é a discussão sobre os limites da democracia representativa que concede poucos momentos aos cidadãos de exercerem seus direitos políticos em momentos de eleições pela ação do voto.
Esta perspectiva deliberativa é diferente do modelo liberal cuja fonte de formação tanto da opinião25 como da vontade se dá a partir de processos eleitorais e servem para legitimar o exercício do poder político. Na concepção republicana, a formação da vontade e da opinião destina-se a constituir a sociedade como uma comunidade política, revivendo em cada eleição o ato fundador. Na concepção deliberativa, a dinâmica das opiniões e da vontade, inclusive suas fontes heterogêneas, é levada em consideração, sobretudo, porque a formação democrática tanto de uma como de outra decorre da racionalização discursiva que se manifesta no debate público e esse mecanismo permite uma certa limitação do poder decisório e da centralização administrativa por parte do governo:
(...) as estruturas comunicativas da esfera pública formam uma rede ampla de sensores que reagem à pressão de situações problemáticas da sociedade como um todo e estimulam opiniões influentes. A opinião pública, transformada em poder comunicativo, segundo processos democráticos, não pode ‘dominar’ para si mesma o uso do poder administrativo; mas pode, de certa forma, direcioná-lo. (HABERMAS, 1997, vol. II, p.23).
A política deliberativa mantém um vínculo interno com contextos de um mundo da vida racionalizado e se diferencia a todo momento da política estratégica praticada na esfera estatal ou parlamentar. De um lado temos a complexidade da sociedade pressuposta na própria estruturação do Estado de direito e a sociedade que ao se auto-organizar cria instâncias de redução da
25 A respeito do processo de formação da opinião e da vontade Habermas (1997) observa que esse não pode ser reduzido à mera “clonagem de formadores de opinião”, ou a “leis da imitação” no sentido atribuído por Gabriel Tarde, ([1890]; 2001 e [1901]; 2005), mas se dá, essencialmente, a partir da constituição de redes de espaços públicos autônomos, da prática discursiva em contextos que prevejam pluralidade.
complexidade, que caracteriza as formações sociais pluralistas, quando organizam e produzem informações a partir da prática discursiva. Por outro lado, os cidadãos podem permanecer apáticos ou anestesiados diante da complexidade das normas constitucionais e da estrutura do ente estatal e de uma certa forma essa letargia os impediria de lançar mão de direitos fundamentais já conquistados e textualmente garantidos pelo próprio Estado Constitucional, como os impedir de praticar a auto-organização, permitida pelo direito à associação, à liberdade política.
A organização de instâncias de auto-reflexão no seio da sociedade civil a respeito daquilo que impacta o seu mundo da vida é possibilitada a partir de um modelo dialógico de intervenção pública na materialização de grupos, movimentos sociais, associações, partidos políticos, os quais não podem prescindir de uma esfera de entendimento sobre o que pode ser definido como “bem comum”, a qual, por sua vez, possa entrar em contato direto com o poder público, seja no âmbito local, regional ou nacional, pelo viés do pragmatismo discursivo. A pragmática discursiva, em contextos de construção de consensos, opiniões e vontades, pode também gerar conteúdos para nutrir a ação política da coletividade, cuja permanência ou institucionalização depende da validação consensual da eficácia desse espaço discursivo, o qual pode assumir outras configurações e atuações no meio social onde está implantado para além do objetivo que os reuniu em associação.
É importante vislumbrar que a força discursiva desses espaços pode se converter em poder social capaz de impactar o sistema político e o poder público e sua dimensão tanto governamental como administrativa a partir de um processo democrático de intervenção pública pelo exercício racional da prática discursiva. Trata-se, então, de fazer uso dos mecanismos de participação nos negócios públicos já outorgados pelo Estado para gerar, inclusive, situações de intervenção ainda não previstas pela burocracia estatal, que fazem frente às limitações do próprio modelo de representação política e questionam a legitimidade das leis que regulam a sociedade. Afinal, as formas e conteúdos que podem caracterizar contextos sociais de espaços públicos são tão variados quanto as iniciativas de cidadãos e suas motivações. No entanto, o que mantém a essência de esfera pública de uma instância que reúna pessoas em um público que discute temas de seu interesse está na forma discursiva de publicizar suas opiniões e vontades e justificar suas ações e escolhas. As diferentes interfaces que se reforçam dialeticamente na esfera pública são características fundamentais desses espaços, as quais só se tornam perceptíveis se observadas
desde seu interior, a partir de fatores endógenos a esses ambientes, como a operação de distintas lógicas de ação que perpassam esse “mundo comum”.