Jesus era o primogênito de José e Maria. É dentro dessa compreensão que se faz a reflexão de Lc 2,22. O fato de Jesus ser apresentado no templo é um sinal de que ele era o primogênito. A lei do primogênito estabelecida em Ex 13,1-15 era muito importante porque lembrava a absoluta dependência de Deus que Israel teve para sua libertação do Egito. Deus disse: “Eu estarei contigo; e este será o sinal de que eu te enviei: quando fizerdes o povo sair do Egito, vós servireis a Deus nesta montanha” (Ex 3,12s). Os primogênitos israelitas, na ocasião da libertação do povo de Israel do Egito, não podiam ser destinados para o uso profano, senão através do resgate, ou seja, de um pagamento efetuado pelo pai de uma soma equivalente aproximadamente a vinte dias de trabalho (Nm 18,16). No primogênito era representado o povo da aliança, resgatado da escravidão para pertencer a Deus (RC 13).
Portanto, o primeiro objetivo que Lucas coloca para a viagem da Sagrada Família à Jerusalém é para “apresentar o Senhor”, o menino, o primogênito de Maria (Lc 2,7). “Cumpriu-se, assim, segundo o Antigo Testamento, o estabelecido na lei. Jesus, com isso, supera este rito, pois não era ele “um simples homem sujeito a ser resgatado, mas o próprio autor do resgate” (RC 13). Aqui está também mais um motivo pelo qual Lucas omite o
97 Foi para Abraão como “pai de uma multidão de nações” (Gn 17:4-5; Gen 15:5; Rm 4:17-18) que Deus disse: “Este é meu pacto, o qual deves manter, entre eu e você e seus descendentes depois de você: Cada homem entre vocês deve ser circuncidado ... na pele do seu prepúcio” (Gn 17:10-11). Em obediência Abraão e seus filhos Ismael (Gn 17:23) e Isaac (Gn 21:4). A obrigação dizia respeito primeiramente ao pai, e somente quando ele falhar com seus deveres passava à mãe. Cf. TOSCHI, L. Op. cit., p.2.
referimento ao resgate, embora possamos concluir que José, certamente, o fez por ser obrigação do pai. José, com suas próprias mãos e plenamente consciente dos mistérios, ofereceu e consagrou a Deus sobre o altar do Templo, o menino Jesus.
Quanto à importância dos preceitos da religião, observamos o cuidado que o casal tem para não ferir as normas básicas da fé judaica ao afirmar: “terminados os dias da purificação deles segundo a Lei de Moisés” (Lc 2.23). Ambos precisavam desse tempo de purificação para que o gesto seguinte tivesse validade.
Contudo, o motivo principal da apresentação no Templo está fundamentado no Antigo Testamento, quando entendemos que o primogênito era ofertado ao Senhor (Ex 13,2.12.15). Era obrigação dos pais consagrarem ao Senhor o primogênito. A forma dessa consagração não está explícita na passagem do Evangelho. Em outras palavras, Deus poderia dispor da criança conforme seus desígnios. Primeiro, os direitos de Deus, depois, os dos homens. Tudo o que José e Maria fizeram até o presente momento foi por causa do menino a partir da vontade de Deus.
Todos os requisitos exigidos pela lei se faziam presente na vida de Jesus, a saber: era o primogênito e era do sexo masculino. Bastavam esses dois. A primeira oferta era aquilo que José e Maria tinham de mais precioso: seu próprio filho. Agora restava apenas a segunda oferta que deveria ser de acordo com a sua condição social. Considerando a oferta dada por ocasião da apresentação de Jesus no Templo, concluímos que José e Maria eram pessoas humildes. O par de rolas, ou dois pombinhos, é um sinal visível de que eles não tinham grandes recursos para seu próprio sustento (Lv 12,8).
Simeão esperava a consolação de Israel (salvação) e o Espírito Santo estava com ele. A oração de Simeão fez José e Maria compreenderem mais profundamente quem era o menino e como deveriam agir em relação a ele. Quanto mais humana a educação dada a Jesus, mais facilmente será a compreensão de sua missão. A criança não sabia como sua missão iria se apresentar, por isso deveria ser instruída gradativamente. Ao apresentar Jesus no templo
o pai e a mãe do menino estavam maravilhados com o que se dizia dele. Simeão os abençoou e disse a Maria, sua mãe: “Este menino está destinado a ser ocasião de queda e elevação de muitos em Israel e sinal de contradição. Quanto a ti, uma espada atravessará tua alma! Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações (Lc 2,33-35).
Lucas serviu-se do rito de purificação da mulher que dava à luz. A lei de Moisés estabelecia que toda mãe, após o parto era obrigada a apresentar-se no Templo para purificar- se, pois a mulher após dar à luz era considerada impura (cf. Lv 12,2-4).
Conforme o livro do Levítico, na Lei de Moisés havia três prescrições: a purificação da mãe depois de quarenta dias do nascimento do filho; a consagração a Deus de cada primogênito, seja homem ou animal, e o resgate de cada primogênito (Ex 13,2.13). Entretanto, no texto, Lucas evidencia a apresentação de Jesus no Templo. Isso para ressaltar o valor histórico que seus pais realizavam em vista da missão desta criança. Jesus é consagrado a Deus de maneira única e com especial consagração. Lucas fundamentando-se no Antigo Testamento, onde a palavra consagração (parestánai) tem a conotação em relação aos Levitas e Sacerdotes que desenvolviam o serviço no nome do Senhor (Dt 17,12; 18,5), vê Jesus, desde aquele momento, como o Grande Sacerdote da nova aliança e também como o Sacerdote que se apresenta como sacrifício ofertado.99
É importante notar que foi nessa circunstância que Lucas, pela primeira vez, qualificou expressamente José como pai de Jesus, nomeando-o hierarquicamente antes de Maria, sua mãe (2,33). Também neste contexto Maria é envolvida como mãe, em relação a Jesus, “uma espada traspassará sua alma” (2,35); aqui o carisma profético de Simeão revela a participação de Maria na sorte dolorosa de seu Filho. Naturalmente José terá experimentado somente em parte esta profecia de sofrimento feita por Simeão, ou seja, tomará parte das angústias pela perseguição de Herodes e a fuga no Egito, ou ainda da dor por ocasião da perda de Jesus no Templo, isto porque o evangelista não acena se ele era ainda vivo durante a vida pública de Jesus.
Desde o momento em que o anjo lhe havia transmitido, em nome de Deus, a ordem de tomar Maria como sua esposa e de dar o nome à criança (Mt 1,21), José passou a viver na espera deste filho e assim, se a Simeão, em virtude do seu carisma profético, tocou anunciar pelos átrios do Templo a presença da salvação na pessoa do menino (Lc 2,30-31), a José, como pai do menino, tocou de fazer-lhe os gastos da oferta dele, em virtude do qual todos seriam salvos.100
99 DANIELOU, J. Les Evangiles de L’Enfance, p. 109-111. In. CARRASCO, San Giuseppe nel mistero di Cristo e della Chiesa, p. 32.
100 “Ofereceram também em sacrifício, conforme está escrito na Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos” (Lc 2,24).