1. BÖLÜM
3.1. Mao Döneminde Çin’in Sosyal Planlama Ekonomisi
3.1.2. Restorasyon ve İlk Beş Yıllık Planlama Dönemi
A história e a ficção têm em comum a narrativa no aspecto formal, material, reconhecível textualmente. Já no aspecto imaterial comungam do imaginário. Como construtor de representações e configurações sociais, o imaginário é objeto da história e da ficção, sendo também formado por estas. Dito de outra forma, no imaginário confluem as margens da história e da ficção.
Ao abordar novos interesses da história nos anos 1980, Jacques Le Goff (1994) refletiu sobre o imaginário para definir seu objeto de estudo, a sociedade medieval. Em sua reflexão, Le Goff distingue imaginário de outros conceitos aos quais está relacionado, mas que não totalizam sua compreensão: representação, simbólico e ideologia. Quanto à representação, esclarece que o vocábulo
engloba todas e quaisquer traduções mentais de uma realidade exterior percebida. A representação está ligada ao processo de abstração. A representação de uma catedral é a ideia de catedral. O imaginário pertence ao campo da representação, mas ocupa nele a parte da tradução não reprodutora, não simplesmente transposta em imagem do espírito mas criadora, poética no sentido etimológico da palavra. (LE GOFF, 1994, p. 11)
Assim, “o imaginário faz parte de um campo de representação e, como expressão do pensamento, se manifesta por imagens e discursos que pretendem dar uma definição da realidade” (PESAVENTO, 1995, p. 15). Por meio do imaginário, uma sociedade pode construir-se, estabelecer sua identidade, sua cultura, seu poder e os modelos de conduta para seus membros (ibdem, p. 16).
Segundo Roger Chartier, a representação tanto pode permitir ver algo ausente como exibir uma presença. Ela é o “instrumento de um conhecimento mediato que faz ver um objeto ausente através da sua substituição por uma “imagem” capaz de o reconstituir em memória e de o figurar tal como ele é" (CHARTIER, 1990, p. 20). Além disso, a representação associa-se à imaginação. Tomar o aparente pelo real é próprio da imaginação humana (ibdem, p. 21).
De acordo com Le Goff, “os documentos sobre os quais o historiador trabalha podem todos, sem dúvida, encerrar uma parte de imaginário” (LE GOFF, 1994, p. 13). Isto porque as fontes exprimem “não só as situações concretas, mas também um imaginário do poder, da sociedade, do tempo, da justiça, etc.” (ibdem, p. 13).
Le Goff distingue um conjunto de documentos privilegiados para a história do imaginário: as obras literárias e as artísticas. Segundo o historiador, esses documentos são produções do imaginário e há necessidade da interdisciplinaridade para sua análise (1994, p. 13). Afirma o autor que
quem se interessa pelo imaginário de uma época tem de olhar para o lado das produções características desse imaginário: a literatura e a arte. E já é tempo de
abolir as barreiras universitárias que se erguem entre a história “pura” (que o mesmo
é dizer mutilada), a história da literatura (e da língua, ou melhor, das línguas) e a história da arte (e das imagens). (LE GOFF, 1994, p. 21)
Anteriormente, mencionamos neste trabalho a definição de Wolfgang Iser, segundo a qual, a ficção compõe uma tríade com o real e o imaginário (ISER, 1983, p. 386) e sua afirmação de que o texto literário ficcional permite a realização do imaginário através dos atos de fingir, que são três: seleção, combinação e autodesnudamento (ISER, 1999, p. 68). Logo, o imaginário adquire aparência de real através dos atos de fingir. Desta forma, o mundo é representado como se fosse real. Portanto, perceber nos textos literários as representações neles presentes é abrir portas ao estudo do imaginário que constitui a vida social.
O imaginário é um domínio da história, porque “tudo na vida dos homens e das sociedades está também na história e necessita de um tratamento histórico” (LE GOFF, 1994, p. 15). A vida do homem está ligada tanto a imagens (iconográficas e mentais) quanto a realidades palpáveis. O imaginário alimenta o homem e o faz agir, “é um fenômeno coletivo, social e artístico” (ibdem, p. 16).
Na compreensão do imaginário como “[...] uma forma de entendimento que encara a realidade não só como “o que aconteceu”, mas também como “o que foi pensado” ou mesmo “o que se desejou que acontecesse” (PESAVENTO, 1995, p. 17), nela ouvimos o eco aristotélico da história como o que aconteceu e a poesia como o que poderia ter acontecido.
Que a história tenha percebido que o imaginário é seu campo de estudo e tenha se voltado não a psiquismos ou meras subjetividades, mas a documentos que são produções materiais, palpáveis, que permitem ver representações de mundo, enriquece a compreensão das sociedades, das relações humanas, relações de poder, religiosidade, sentimentos, em suma, tudo o que envolve a ação humana.
Cabe ressaltar que as imagens que interessam aos historiadores são, segundo Le Goff, as imagens coletivas (1995, p. 16). Isto porque seu interesse está no conjunto da sociedade, não apenas na história individual. Com isso, na análise de um texto autobiográfico em que uma figura de poder narra suas memórias e encadeia os eventos de sua história, é preciso ler nas entrelinhas a representação que constrói de si mesma e desse poder que exerce, como veremos mais adiante na análise de LRMV.
O imaginário comporta ainda as instâncias da utopia e da ideologia, visto que a utopia é a projeção no domínio do imaginário “de uma sociedade radicalmente outra, de um mundo em tudo melhor que o mundo real”; entretanto “o imaginário social não se resume às ideias,
imagens utópicas, mas elas lhe dão um suporte poderoso, como forma específica de ordenação de sonhos e desejos coletivos” (PESAVENTO, 1995, p. 22).
Quanto à ideologia, esta se presentifica porque no processo de formação do imaginário coletivo intervêm manifestações e interesses precisos: “Não se pode esquecer que o imaginário social é uma das forças reguladoras da vida coletiva, normatizando condutas e pautando perfis adequados ao sistema” (PESAVENTO, 1995, p. 23). Sandra Pesavento identifica três instâncias de realização do imaginário: “a do suporte na concretude do real, a da utopia e a ideológica” (PESAVENTO, 1995, p. 23). Segue a historiadora:
O imaginário social se expressa por símbolos, ritos, crenças, discursos e representações alegóricas figurativas.
O imaginário é, pois, representação, evocação, simulação, sentido e significado, jogo
de espelhos onde o “verdadeiro” e o aparente se mesclam, estranha composição onde
a metade visível evoca qualquer coisa de ausente e difícil de perceber. Persegui-lo como objeto de estudo é desvendar um segredo, é buscar um significado oculto, encontrar a chave para desfazer a representação do ser e do parecer.
Não será este o verdadeiro caminho da História? Desvendar um enredo, desmontar uma intriga, revelar o oculto, buscar a intenção? (PESAVENTO, 1995, p. 24)
Seria possível apontar que a ficção pode ajudar a responder essas questões, embora não tenham sido a ela direcionadas. Enredo, intriga, oculto, intenção são elementos próprios da representação ficcional, configurados no imaginário. Desta forma, as margens da história e da ficção confluem no imaginário.
Ao estudar as representações de Eva Perón na literatura, adentrarei o imaginário argentino a respeito do peronismo, do mito de Evita, da identidade nacional, sem no entanto me ater às transformações operadas ao longo do tempo. Isto, por si só, demandaria outro trabalho de pesquisa. Busco refletir sobre três diferentes gêneros (autobiografia, biografia e biografia ficcional) e suas diferentes representações.