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1. BÖLÜM

4.2. Hindistan’da Ekonomik Reformlar ve Reformların Gelişmedeki Etkileri

4.2.1. Rao’nun Yeni İktisadi Politika Arayışı

Expressão utilizada pelo narrador de SE (p. 309) para fazer referência à versão segundo a qual a menina Eva Duarte teria sido levada à Buenos Aires por Magaldi: “Em 1934, Evita estaba lejos de ser Evita. Magaldi, en cambio, conocía una fama sólo comparable a la de Gardel”.104

Apresentando-se como um historiador não convencional, um investigador que recorre a todo e qualquer tipo de fonte, o narrador comenta que encontrou numa coleção de revistas de celebridades, Sintonía, uma notícia sobre uma apresentação de Mario Pugliese (Cariño) e o dueto Magaldi-Noda em Junín, em 10 e 11 de novembro de 1934. Com esta informação, deduz que nessa turnée Magaldi conheceu Evita e Cariño teria sido testemunha. Como desconfia das informações dos biógrafos de Evita que tendem a defender a versão de que ela teria chegado sozinha a Buenos Aires, e também não dá crédito a que Magaldi, um grande e conhecido cantor, tivesse introduzido Evita na rádio, decide entrevistar Cariño para saber o que de fato aconteceu.

Martínez narrador afirma que a geradora do boato sobre Magaldi foi a própria Evita quem teria confiado a seus primeiros amigos da rádio e eles fizeram a história circular, mas Cariño seria o único que sabia a verdade (SE, p. 310). Encontra-o em 1964, trinta anos depois

103Em português: “Saí de Junín quando tinha treze anos e, nessa idade, o que pode fazer de tão horrível uma

pobre moça?” (p. 39).

104 Em português: “Em 1934, Evita estava longe de ser Evita. Magaldi, ao contrário, gozava de uma fama

da apresentação em Junín, já decadente, com problemas de locomoção, desenvolvendo outras funções não relacionadas à arte. Afirma ser fiel a seu relato, no entanto não sabe se o que narra é fiel à verdade (SE, p. 311).

Segundo Cariño, em Junín, lhes recomendaram almoçar na pensão de Juana Ibarguren. Lá, Magaldi encantou a todos. A única que parecia indiferente era a filha menor, Eva, e isto incomodou a Magaldi. Evita tinha quinze anos e é descrita como faceira. Magaldi contou a Cariño que Juana lhe pediu que apadrinhasse Evita em Buenos Aires, e que ele depois de muito relutar, decidiu fazê-lo (SE, p. 316).

Quando partem de Junín para Buenos Aires, Evita vai com eles no trem: “Fue una escena de radioteatro, me contó Cariño: el príncipe azul rescataba de su infortunio a la provincianita pobre y poco agraciada” (SE, p. 317).105 Para Martínez narrador, “Todo sucedía

más o menos como en la ópera de Tim Rice y Lloyd Webber, aunque sin castañolas” (SE, p. 317).106

De modo discreto, o narrador, transcrevendo o que lhe relatou Cariño, aborda o relacionamento de Magaldi e Evita:

Desde esa noche, Magaldi fue um hombre dividido. Pasaba la mañana y parte de la tarde en la pensión de la avenida Callao donde vivía Evita. Allí compuso sus más

hermosas canciones de amor. “Quien eres tú” y “Cuando tu me quieras”, sentado en

una silla de cuero de potro. (SE, p. 318)107

Segundo Cariño, Magaldi perde seu contrato na rádio e a oportunidade de apresentar Evita, o que a enfurece. Passa a envergonhar-se dela e a não querer mais vê-la. Em conversa com Cariño, este sugere a Evita que volte para Junín, e sua resposta é quase profética: “A mí de Buenos Aires sólo me sacan muerta.” (SE, p. 319).108

O narrador diz que, ao contrário do que pensam os biógrafos, quem encaminhou a vida de Evita não foi Magaldi, foi Cariño. Várias vezes a socorreu, pagando sua estadia na pensão, ou repartindo refeições. Um dia, após encontrá-la e ela chorar, ele a leva para casa e chama por telefone Edmundo Guibourg, colunista de “Crítica”, pedindo-lhe um trabalho para Evita.

105 Em português: “Foi uma cena de radionovela, contou-me Cariño: o príncipe encantado resgatava de seu

infortúnio a provincianazinha pobre e sem graça” (p. 273).

106Em português: “Tudo acontecia mais ou menos como na ópera de Tim Rice e Lloyd Webber, só que sem

castanholas” (p. 317).

107Em português: “A partir dessa noite, Magaldi foi um homem dividido. Passava a manhã e parte da tarde na pensão da avenida Callao onde Evita morava. Ali ele compôs suas mais lindas canções de amor, “Quién eres tú”

e “Cuando tú me quieras”, sentado em uma cadeira de couro de potro” (p. 273).

Ela debutou no teatro Comédia, em 28 de março de 1935, interpretando uma mucama em La señora de los Pérez.

Embora o relato de Cariño afirme que Evita chegou a Buenos Aires em novembro de 1934, o narrador, ao iniciar sua narrativa, descrevendo momentos que antecederam a morte de Evita, compara sua condição atual com a da menina que chegou à capital em 1935:

No parecia la misma persona que había llegado a Buenos Aires en 1935 con una mano atrás y otra adelante, y que actuaba en teatros desahuciados por una paga de café con leche. Era entonces nada o menos que nada: un gorrión de lavadero, un caramelo mordido, tan delgadita que daba lástima. Se fue volviendo hermosa con la pasión, con la memoria y con la muerte. Se tejió a sí misma una crisálida de belleza, fue empollándose reina, quién lo hubiera creído. (SE, p. 11)109

Como o tempo não se apresenta de modo linear em SE, não há construção de sua transformação paulatinamente. Após essa menção de 1935, há outra de Eva Duarte, em 1939, a partir de informações extraídas de fichas do serviço de inteligência militar que estavam em poder do Coronel Moori Koenig em seu confinamento As fichas que tratam de 1939 trazem informações sobre seus romances e mudanças de domicílio: teve um caso com o dono da revista Sintonía e se mudou de uma pensão na rua Sarmiento para um apartamento na passagem Seaver, envolveu-se com o empresário dono de Jabón Radical, mas continuou vendo em segredo o dono da revista.

Em janeiro de 1940, também relatado nas fichas, conheceu o cabeleireiro Julio Alcaraz. Evita é descrita como “de una palidez enfermiza, de una belleza trivial, no inspiraba pasión sino compasión. Y sin embargo quería llevarse el mundo por delante” (SE, p. 292,

grifo do autor).110

As informações sobre Evita, em 1943, são introduzidas na narrativa através da conversa com o amigo Emilio Kaufman, pai de uma ex namorada, já falecida, de Martínez narrador. A indagação que faz Kaufman sobre o que fez Evita neste ano, em que pouco trabalhou, fornece ocasião para tratar do assunto.

Durante toda a conversa, o narrador e seu amigo referem-se a Eva Duarte como Evita, embora ela ainda estivesse longe de sê-lo. Evita é apresentada como “una pobre atriz de

109Em português: “Não parecia a mesma pessoa que havia chegado a Buenos Aires em 1935 com uma mão na frente e outra atrás e que se apresentava em teatros miseráveis em troca de um café com leite. Naquela época ela era nada ou menos que nada: um pardal ciscando migalhas, uma bala cuspida, tão magrinha que dava até pena. Foi ficando linda com a paixão, com a memória e com a morte. Teceu para si mesma uma crisálida de beleza, foi incubando-se rainha, quem diria” (p. 11).

110Em português: “de uma palidez doentia, de uma beleza trivial, não inspirava paixão e sim compaixão. E no entanto queria ser a dona do mundo” (p. 251, grifo do autor).

segunda” (SE, p. 246)111 que trabalhava onde era possível, como atriz, como modelo de

fotografias ou em publicações pornográficas.

Quando Kaufman diz que conheceu Eva, Martínez narrador pede-lhe que conte o que aconteceu. Após ouvir seu relato, diz que nunca mais pôde dormir até o momento em que escreveu a história (SE, p. 246).

Kaufman saía com uma atriz, Mercedes Printer, com quem conversava sobre tudo, e ela lhe falou sobre Evita, que é descrita como alguém que dá pena: “Es debilucha, enfermiza” (SE, p. 247),112 diz Mercedes, acrescentando que simpatizou com ela. Tornaram-se amigas durante uma atuação em Rosario; compartilhavam homens, comida e camarim: “A ella le interesaban los empresários, los hombres con plata, aunque fueron viejos y panzones, y yo a mi lo que me gustaba era la milonga. Ni ella ni yo teníamos un mango” (SE, p. 248).113 Mercedes conta que ela estava se recuperando de uma longa enfermidade e pede a Kaufman que convide um amigo para que saiam todos juntos.

O narrador faz uma digressão e comenta a transformação surpreendente e inesperada de Evita, e a memória de Kaufman a ela relacionada:

Si no fuera por el significado que los hechos iban a tener después, a la luz de la historia, Emilio se habría olvidado de todo. No sabía – no podia saber – que, com el tiempo, aquella chica iba a ser Evita. Tampoco Evita lo sabía. La historia tiene esas trampas. Si pudiéramos vernos dentro de la historia, dijo Emilio, sentiríamos terror. No habría historia, porque nada querría moverse. (SE, p. 248)114

Kaufman conta sua impressão de Evita quando a conheceu:

A Emilio le pareció insulsa, invulnerable al quebranto de la enfermedad y de la pena. Lo que más impresionaba en ella, me dijo, era la blancura. Tenía un cutis tan pálido que se le veían al trasluz los mapas de las venas y las lisuras del pensamento. No había en ella nada físico que atrajera, dijo, ninguna fuerza eléctrica para bien ni para mal. (SE, p. 248)115

111Em português: “uma pobre atriz de segunda” (p. 211). 112Em português: “é fracote, vive doente” (p. 212).

113Em português: “Ela só queria saber de empresários, homens endinheirados, mesmo que fossem uns velhos

barrigudos, e eu gostava era de farra. As duas sem um puto no bolso” (p. 212).

114Em português: “Se não fosse pelo significado que os fatos iriam ganhar mais tarde, à luz da história, Emilio

teria esquecido tudo. Não sabia ― não podia saber ― que, com o tempo, aquela moça iria ser Evita. Evita

também não o sabia. A história tem dessas armadilhas. Se pudéssemos nos ver dentro da história, disse Emilio,

ficaríamos apavorados. Não haveria história, porque todo mundo ficaria imóvel” (p. 213)

115 Em português: “Emilio a achou insossa, invulnerável ao quebranto da doença e do sofrimento. O que mais impressionava nela, disse Emilio, era sua brancura. Tinha uma cútis tão pálida que chegava a transluzir os mapas das veias e as lisuras do pensamento. Seu corpo não tinha nada de atraente, disse ele, nenhuma força elétrica,

Na ocasião, Evita estava triste e só se animou quando foram a Fantasio, um local onde se reuniam os produtores de Argentina Sono Film e as atrizes da moda. Emilio sente vergonha de apresentá-la a seus amigos, mas atende a seu pedido. Um produtor, Atilio Mentasti, a destrata e recebe um olhar de ódio. Nesse ponto da narrativa, o narrador realiza breve digressão para comentar sobre uma característica de Evita no futuro – a vingança:

Desde que llegó a Buenos Aires la habían desairado y vejado tantas vezes que ya nada la sorprendía: acumulaba em su memoria un largo catálogo de injurias que pensaba vengar tarde o temprano. La de Mentasti fue una de las peores. Nunca lo perdonó, porque no quería perdonar a nadie. Si Eva llegó a ser alguien, me dijo Emilio, fue porque se propuso no perdonar. (SE, p. 250)116

Kaufamn diz que Eva lhe perguntou o que faria se Mercedes engravidasse. Ele diz que a levaria para abortar, porque nenhum dos dois poderia ter um filho. A conversa estranha continua e Eva indaga o que ele faria se ela tivesse o filho sem ele saber. Após sua resposta – que iria querer ver o filho, mas nunca mais Mercedes, Eva conclui que homem e mulher pensam diferente.

Quando partem, Kaufman e Mercedes levam-na para casa. Depois de deixá-la, Mercedes lhe diz que Evita estava desesperada, mas Emilio não concorda. Mercedes então conta que ela estava grávida e fez um aborto no qual quase morreu e do qual levou quase dois meses para se recuperar. Por esse afastamento, sua carreira quase terminou, porque ficou sem trabalho, mas uma nota na revista “Antena”, a salvou: “Si Eva Duarte no trabaja es porque no le ofrecen papeles a su altura” (SE, p. 253),117 além de um romance com o tenente coronel que dirigia as rádios.

Mercedes conta que todos os homens com os quais Evita se envolveu eram casados e ela estava num estado de indiferença em que não amava ninguém. Seu estado emocional a preocupava, pois temia que pudesse cometer suicídio (SE, p. 253).

Emilio Kaufman encontra novamente Eva em 1950, quando já era Evita, mas:

― No me reconoció ― dijo Emilio ―, o fingió que no me reconocía. Era otra.

Parecía llena de luz. Parecía que en vez de un alma tuviera dos, o muchas. Pero la tristeza seguía rondándola. Cuando ella menos se daba cuenta, la tristeza le tocaba el hombro y le recordaba el pasado. (SE, p. 253)118

116Em português: “Desde que chegara a Buenos Aires, tinha sido destratada e vexada tantas vezes que nada mais a surpreendia: acumulava em sua memória um longo catálogo de injúrias que, mais dia, menos dia, pensava vingar. A de Mentasti foi uma das piores. Nunca o perdoou, porque não queria perdoar ninguém. Se Eva chegou

a ser alguém, disse Emilio, foi porque resolveu não perdoar” (p. 214).

117 Em português: “Se Eva Duarte não trabalha é porque não lhe oferecem papéis à altura” (p. 217).

118Em português: “― Não me reconheceu ― disse Emilio ―, ou fingiu não me reconhecer. Era outra. Parecia cheia de luz. Parecia que em vez de uma alma tivesse duas, ou muitas. Mas a tristeza continuava ali, rondando.

Martínez narrador desconfia do relato de Kaufman e coteja as informações ali contidas com memórias de outras pessoas (SE, p. 253). O narrador utiliza os relatórios do serviço de inteligência militar que estavam em poder do Coronel Moori Koenig para confirmar a informação sobre o afastamento de Eva, em 1943. O Coronel lê a ficha em que se perguntava: Durante los primeiros siete meses de 1943, la Difunta desa pareció. No actuó en la radio ni en el teatro. Las revistas de espectáculos casi no la nombran. ¿Qué sucedió en ese lapso? Estuvo enferma , prohibida, retirada en Junín? Tradujo, con desgano,

la última línea: “Mercedes Printer, que la acompañó en el Otamendi y Miroli, ha contado…” (SE, p. 287, grifo do autor)119

Em setembro de 1943, Evita foi contratada na Rádio Belgrano “para interpretar a las grandes mujeres de la historia” (SE, p. 183).120 Com um salário melhor, conseguiu se mudar

para um apartamento modesto na rua Posadas. O narrador destaca sua péssima dicção e o fato de que “para la gente de bien, que oía poca radio, Evita era sólo una cómica que entretenía a los coroneles y a los capitanes de fragata. Nadie pensaba en ella como un peligro” (SE, p. 183).121

Segundo a narrativa, Eva conheceu Perón em janeiro de 1944, durante um festival beneficente em favor das vítimas do terremoto de San Juan (SE, p. 189). De acordo com o narrador, Eva estava acompanhando o tenente coronel Aníbal Imbert, diretor dos Correios e Telégrafos, a quem devia o favor de lhe haver conseguido o contrato com a Rádio Belgrano. Embora o acompanhasse, queria conhecer o “coronel del pueblo” (SE, p. 190),122“sentía que

algo los predestinaba a estar juntos: Perón era el redentor, ella la oprimida” (SE, p. 191).123

O narrador coloca em sua boca a frase “gracias por existir”,124 que Eva teria dito a

Perón quando falou com ele pela primeira vez e isso o teria impressionado. Segundo o narrador, ela não se lembra em LRMV de haver dito tal frase, mas ele, pesquisando para sua escrita, assistiu a dezesseis noticiários de vários países sobre o terremoto e o festival

119Em português: “Durante os primeiros sete meses de 1943, a Falecida desapareceu. Não atuou no rádio nem no teatro. As revistas de espetáculos quase não citam seu nome. O que aconteceu nesse período? Esteve doente, proibida, reclusa em Junín? Traduziu a última linha, por pura inércia: ‘Mercedes Printer, que a acompanhou no

Otamendi y Miroli, contou que...’” (p. 246, grifo do autor).

120Em português: “para interpretar as grandes mulheres da história” (p. 159).

121Em português: “Para a gente de bem, que ouvia pouco rádio, Evita não passava de uma comediante ao gosto de coronéis e capitães-de-fragata. Ninguém pensava nela como um perigo” (p. 159).

122Em português: “Coronel do Povo” (p. 165).

123 Em português: “sentia que alguma coisa os predestinava a estarem juntos: Perón era o redentor, ela a

oprimida” (p. 166).

beneficente guardados pelo Arquivo Nacional de Washington e viu o momento em que ela disse esta frase (SE, p. 192).

Em outubro de 1945, após o episódio de sua prisão e posterior aclamação popular, Perón casa-se com Eva (SE, p. 88). Em 1947, Eva já era outra pessoa. Foi capa da revista

Time ao retornar da viagem que fez à Europa

que los corresponsales bautizaron como “la travesía del arco iris”. No tenía ningún

cargo oficial, pero en todas las partes la recibieron los jefes de Estado, el Papa, las multitudes. En Río de Janeiro, penúltima escala de su viaje, los cancilleres americanos le dieron la bienvenida e interrumpieron su conferencia para brindar por ella. Los que no le habían prestado atención como actriz la odiaban ya como ícono del peronismo analfabeto, bárbaro y demagogo. (SE, p. 183)125

O tema da viagem transformadora é presente no gênero hagiográfico, no entanto, curiosamente, em SE, não se aborda detidamente a viagem à Europa, considerada por outros biógrafos como um divisor de águas para Eva Perón, inclusive por ela própria em sua autobiografia. Há apenas um vislumbre de sua transformação no trecho citado acima em que se reconhece a importância da viagem. Em outro ponto da narrativa, diz que Evita assistiu sozinha a um documentário sobre sua viagem, mas ordenou que ele fosse destruído (SE, p. 220).

Sua principal obra, a Fundação de Ajuda Social María Eva Duarte de Perón, foi fundada em 1948, com o objetivo de oferecer “uma vida digna a las clases sociales menos favorecidas” (SE, p. 189).126 Com o trabalho na fundação, aproxima-se ainda mais das classes

populares, fato que, posteriormente, alimentará seu mito. Segundo o narrador, o primeiro elemento que constrói o mito de Evita é sua ascensão meteórica “desde el anonimato de pequeños papeles en la radio hasta un trono en el que ninguna mujer se había sentado: el de Benefactora de los Humildes y Jefa Espiritual de la Nación” (SE, p. 183).127

Martínez narrador destaca como tornou-se autoritária, chegando a atuar como um homem, de acordo com os códigos culturais da época. Mandava demitir atores por capricho ou vingança, dava ordens nas horas mais impróprias, não dormia atendendo seus

descamisados (SE, p. 184). Eva Perón torna-se Evita, a mãe dos descamisados, representando

125Em português: “que os correspondentes batizaram de ‘a travessia do arco-íris’. Não ocupava nenhum cargo oficial, mas aonde quer que fosse era recebida por chefes de Estado, pelo papa, por multidões. No Rio de Janeiro, penúltima escala de sua viagem, os chanceleres americanos foram dar-lhe as boas-vindas e interromperam a conferência de cúpula para erguer um brinde em sua homenagem. Aqueles que não tinham

reparado nela como atriz agora a odiavam como ícone do peronismo analfabeto, bárbaro e demagogo” (p. 160).

126Em português: “uma vida digna às classes sociais menos favorecidas” (p. 164).

127“do anonimato de papéis secundários no rádio a um trono jamais ocupado por mulher alguma: o de Benfeitora

o mais importante e destacado papel de sua vida. Desenvolveu uma personalidade forte que polarizou o país entre os que a amavam e os que a odiavam, fato que gerou uma série de formas de designá-la, como analisado a seguir.