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1. BÖLÜM

2.2 Hindistan: Hegemonya’dan Sömürgeciliğe

2.2.4. Aurangazep Reformu

multiplicidade de sentidos; signo da escritura e da assinatura; o mito da simetria intelectual Sartre-Beauvoir; Swann e Odette, a assinatura e o duplo; o mito de Adão e Eva - o retorno ao começo.

Um outro termo que se repete ao longo do romance é "signo" - signo de importância capital para o autor/narrador/personagem, um crítico literário. Trata-se de uma repetição que cita, possivelmente, e de novo, a obra de Deleuze sobre os signos em Proust [op. cit.].

Deleuze observou que o termo "signo" é muito freqüente na Recherche, sobretudo ao final, no Temps Retrouvé. O mesmo ocorre em Un Amour de soi: o termo ocorre sete vezes na Spirale XII e se multiplica pelo corpo do texto:

Connais le signe, menton en pointe... Signal, circulez. [AS: 32]

Rachel m'adresse un signe d'adieu. Signal, je fais démarrer ma Plymouth [AS: 73] les meubles montrent des signes d'usure. [AS: 121]

FASTEN SEAT BELTS signe s'allume signal danger. [AS: 132] signal s'éteint danger disparu. [AS: 133]

le signal d'alarme doit être mis [AS: 184]

Un rude choc... l'épouse qui se découvre la vocation de Lesbos (...) Michel fait signe, on avance dans les salons... [AS: 207]

A la cession du bail, quand on a signé. [AS: 210] Le nouveau style capillaire... signé Annie. [AS: 280] Je relis la lettre, je scrutte les lignes, les signes... [AS: 291]

un bon signe de ton "changement" [AS: 303]

Pas un signe de vie, invisible, Rachel a disparu. [AS: 345] Pas bon signe... [AS: 389]

Bon signe... Les signes favorables s'accumulent... [AS: 391]

Venez demain, on signe le contrat. [AS: 396]

L'écriture ponctue nos vies... durant sept années...J'ajoute, c'est le signe du destin. Elle et Lui. Dans notre zodiaque inscrit. Sous le signe du Livre, on va vivre. [AS: 396-397]

un collègue fervent du zodiaque, très ferré sur tous les signes... Son signe [de Rachel] est coincé dans ma division. [AS: 424]

Elle se digère. Patiemment, minutieusement. Cela est toujours utile de savoir ce qu'elle a dans le ventre et dans la tête, ce qu'elle trame d'avenir derrière mon dos... ce que je guette d'un oeuil glouton, au fil des ans, de page en page, ...ne se trouve pas parmi les signes du zodiaque. Bien plus simple, un SIGNE DE VIE. Je décrypte

ses pattes de mouche à la loupe pour apprendre si j'éxiste encore, qu'elle place j'occupe. [AS: 426-427]

Dans les carnets que je fouille, les paperasses que je compulse, mon destin est tout écrit. Plus un signe.

Pourtant, il y en a eu un, soudain... [AS: 427]

inscrit, ÉCRIT, une femme est comme un livre, pour qu'elle ait à jamais ma marque, Rachel, je la SAIGNERAI la SIGNERAI. [AS: 439]

j'ai signé avec Claude l'arte de séparation. [AS: 449]

a cité dans son séminaire de Hunter ta phrase de Signs sur le formalisme et le féminisme ... du coup te voilà consacrée THÉORICIENNE... [AS: 469]

je tiens à te signaler... [AS: 471]

"Signo" se refere, alternativamente, a: sinal de continuar, despedida, decadência, perigo, alarme, sinal de avançar, assinatura, significado, mudança, vida (presença), esperança, destino, livro, zodíaco, título de livro e assinalar. Há aqui, como em "espiral" e "fio/filho", um deslocamento de sentido, uma mutação referencial. Sua primeira aparição, como "adeus", anuncia o desenlace final do drama afetivo. "Decadência", "perigo", "alarme", "avançar", "mudança", "busca de um significado" e da presença do outro ilustram o trajeto tortuoso e angustiado que será percorrido até a cauda envenenada - local da revelação da "vocação de Lesbos da esposa".

Essa trajetória espiral como expressão da angústia é, em si, uma citação textual de Proust, cujo herói, à espera de Albertine, diz: "J'étais torturé par l'incessante reprise du désir toujours plus anxieux... j'étais arrivé au point culminant d'une ascension, tourmenté dans les spirales de mon angoisse solitaire...". [Sodomme et Gomorrhe: 128].

Mas, a partir de "destino", nas repetições do termo na Spirale XII, "signo" vai compor a temática do livro, da escritura (processo de produção textual), da escrita (resultado gráfico) e da assinatura. O relacionamento dos protagonistas havia começado como uma espécie de aliança literária pontuada por livros, prateleiras de livros, anotações às margens dos livros, cursos e toda uma rotina de pesquisas literárias. Escrever, intitular e assinar o texto escrito são questões fundamentais para dois profissionais da palavra. "No fio dos anos, de página em página" - a vida dos personagens é um rosário (fio) de textos (espirais); o destino está escrito menos nas estrelas do que nas linhas e entrelinhas dos escritos que povoam a casa; e a "marca" do homem, a ser "escrita" e "inscrita" na mulher, é a assinatura desse homem: "uma mulher é como um livro, eu a SANGRAREI, a ASSINAREI" - ele o autor, ela a obra.

A Spirale XII é o local do enfrentamento do fracasso afetivo. É onde se completa a inversão de posições entre Serge e Rachel: é onde ela, substituindo-o, torna-se aranha - sujeito e autor da trama-texto: "Ela se digere. Pacientemente, minuciosamente... o que ela tem no ventre e na cabeça... o que ela trama pelas minhas costas". Expulso do centro, resta a ele ecoar o verbo de Rachel (ela já dissera antes dele: "j'ai ouvert la lettre de ta femme, je voulais savoir ce qui se tramait derrière mon dos... - Mais il ne se trame rien du tout! Tu as de ces expressions.", [AS: 100]), e o exercício hermenêutico da interpretação: "SINAL DE VIDA. Eu decifro suas patas de mosca com uma lupa para saber se ainda existo, o lugar que ocupo", a fim de saber se, como Lázaro, já morreu, para poder renascer e retomar o seu lugar.

É, também, na Spirale XII que o narrador idealiza sua relação com Rachel:

Toutes nos conversations tournoient en moi... la trame de nos projets nous tisse, ensemble on a transbordé tant de pensées. Nos cervelles sont des vases communicants... Sartre-Beauvoir, Lui et Elle, qu'on appelle ça comme on voudra, ce mythe est une réalité... Réciprocité de l'intellect, des alter égaux. De la tête, cela descend dans tout le corps, rayonne dans les membres. Un soleil, elle me réchauffe. [AS: 409]

Serge anuncia o ideal de viver o mito Sartre-Beauvoir, mas seu universo pessoal só permite a dissimetria no casal, em função da preocupação com o poder hierárquico. "Da cabeça, desce para todo o corpo, irradia pelos membros. Um sol, ela me aquece": é a valorização do intelecto - a cabeça - que subordina, como um sol, os membros, assim como Rachel a Serge. A hermenêutica se reinsinua no texto, mas o centro irradiador aparece, agora, sob a forma da intelectualidade (em substituição ao poder pessoal destronado).

"Ela e Ele. Em nosso zodíaco inscrito" fala de Rachel e Serge, e de sua colaboração intelectual; "Ele e Ela, ...esse mito é uma realidade" refere-se a Sartre e Beauvoir e à primazia da intelectualidade sobre o afetivo. Esse novo desdobramento imaginado pelo narrador reintroduz a imagem palimpsestuosa de Proust: "nossos cérebros são vasos comunicantes... Reciprocidade do intelecto, alter iguais" é uma projeção deformada do ideal proustiano da superioridade da sensibilidade sobre o intelecto. Em Contre Sainte-Beuve, Proust afirma que as obras são vasos que se

comunicam com o passado [1954: 223]. A imagem dos vasos comunicantes é tributária da filosofia platônica e repousa sobre a idéia de um mundo sensível ideal, que precede o material. Nesse aspecto, Serge e Swann diferem: um vive sob o signo do livro que ele faz questão de assinar/sangrar e patentear como autor-proprietário; o outro vive sob o signo da Arte - domínio não-intelectual, sem problemas de direito autoral com o Criador - pois a "comunicação dos vasos" realiza a continuidade, em planos diferentes, da idéia de Deus, como que em oitavas da escala musical ou em voltas sucessivas de uma imensa espiral.

Serge não é pródigo em sensibilidade. Ele "tece nas entranhas", "hifologicamente", suas mulheres e seus livros - complexo do criador ou do autor proprietário de sua obra; ele se coloca, hermenêutica e confortavelmente, no centro de sua rede de signos, e crê ter o controle dos "fios/filhos" semeados em seu texto-teia através de jogos de palavras, associações de idéias e citações; é um homem muito cerebral que confessa "não ser artista".

"Sangrar/Assinar": essa promessa vindicativa não se esgota na revolta de um homem envenenado pelo seu próprio fracasso amoroso. É, também, indício da intertextualidade com a obra ensaística de Doubrovsky, que enfoca a questão da assinatura do nome de Odette: Swann, acredita ele, inscreve o nome de Odette no vazio deixado pela frase (musical) de Vinteuil (da qual também se enamorara):

De sorte que ces parties de l'âme de Swann où la petite phrase [de Vinteuil] avait effacé le souci des intérêts matériels, les considérations humaines et valables pour tous, elle les avait laissées vacantes et en blanc, et il était libre d'y inscrire le nom d'Odette (I, 237).

...ce que Swann a inscrit c'est le nom d'Odette (...) Présence de Vinteuil à la sonate, du sujet dans le signifiant, pour évanescente qu'elle soit et insaisissable, pourtant attestée: tel est sans doute le sens (l'essence) de la signature. Effraction du sujet dans un discours où il s'imprime de force et par principe (en tête). Cette appropriation de la langue, coiffée d'un nom propre, ne peut aller sans viol ou violence... [1979: 123-124]

Impressão, no sentido fotográfico, de si mesmo no outro; pressão sobre o outro; versão não-autorizada do outro; perversão, portanto. Doubrovsky advoga que o amor obsessivo e malsão de Swann por Odette é uma perversão necrófila: Odette é menos um ser vivo que uma música e um quadro, numa série de deslocamentos freudianos:

Swann éprouva... le désir physique sous le signe de l'instinct de vie; ce désir peut même coexister... avec des relations perverties; la perversion ici n'est rien d'autre que le désir vécu pleinement, totalement, sous le signe de l'instinct de mort... Mais, à son tour, l'amour de la mort est l'amour de l'art. La mise à mort rituelle d'Odette par métamorphose en "pièce de musée" (ou de musique, on est toujours dans la "femme muse")... [ibid.: 120]

Signo deslocado do sentido da vida para o da morte, como no desejo de "sangrar/assinar" de Serge. E a máxima "uma mulher é como um livro" é decorrência desse deslocamento:

Son platonisme pervers, qui le guide vers l'amour... du corps-tombeau, vers l'Idée, le mène au désir d'écrire, au livre-cimetière: étude sur Ver Meer, recommencée, interrompue, au rythme de ses amours avec Odette. L'association Odette-catleyas- écriture (...) [forme] un tissu mort, qui est l'analogon même du texte, écriture "séchée", elle aussi... [ibid.: 124]

A mulher amada é esvaziada de vida própria; seu corpo humano torna-se um corpo escritural, e sua imagem um espelho onde se refletem desejos daquilo que ela não é.

Pendant que Swann se perd dans la fabrication imaginaire d'une Odette-plaisir... il se prend, en fait, tout entier à la glu de l'Odette-réalité... celle qui n'est point sa création, mais son double... [ibid.: 123]

Swann, "Pigmalião às avessas", criatura de "Odette-realidade" - que sai do museu do imaginário de Swann para a vida a seu lado em desigualdade, diferença, desnível e autonomia. É seu duplo, sua rival, desdobramento pervertido de seu desejo, o negativo da imagem impressa - torna-se o "irmão inimigo" (como no caso do artista e do colecionador, o "inverso do artista"), deslocamento incestuoso que efetiva a separação de Odette e Swann.

Assim também é Rachel: duplo de Serge, antes criatura, depois, sonho de simetria - o duplo ideal -, e, finalmente, o duplo inimigo. O tema do duplo, da rivalidade e do irmão-inimigo marca Un Amour de soi desde o primeiro diálogo do casal, quando se identificam, ainda em tom de brincadeira, como profissionais concorrentes: "Alors, en somme, nous voilà rivaux." [AS: 12]; ou quando descobrem afinidades familiares: "on se trouve chacun une soeur..." [AS: 17]; e se estende pelo texto.

Sur ce point, je suis à l'opposé de toi. J'adore tout ce qui est groupe. [AS: 80] Le paradis de l'un, c'est l'enfer, l'envers de l'autre [AS: 108]

Frère et soeur... quand on se fourre dans son grand lit... Un zeste d'inceste [AS:215- 216]

Rachel, elle a un amour sans bornes. Mais pas que le côté mère. Ou père. Soeur aussi, avec Rachel, I sister myself. [AS: 216]

on s'aime en échos. Elle me redouble. Je redouble l'attention. [AS: 217]

elle [une amie d'enfance] était pour mio comme une soeur jumelle, je l'aimais et la détestais [AS: 218]

À elles deux, pas de paire, un vrai couple. Pour se voir... Rachel, ce n'est pas une glace qu'il lui faut, c'est une . Pour chaque phase de sa vie, il y a une Âme soeur, l'âme damnée. [AS: 218]

À travers son ballet de père-mère-soeur, avec en miroir les père-mère-soeur adoptifs, imbroglio de sa famille d'émigrés des années 40 en double [AS: 274] Pas moi qui ai couru... UN AUTRE. Plus fort que moi veut dire que c'est LUI qui a décidé. Je suis absolument absent de mon acte. [AS: 355]

plus fort que moi pas moi c'est L'AUTRE [AS: 256]

Marivaux, il a écrit la Double Inconstance, Henri de Régnier, la Double Maîtresse, moi, je fais mieux encore. En même temps, le même jour, je reçois UN DOUBLE DIVORCE! [AS: 444]

No decorrer do romance, a rivalidade entre opostos revestida da busca do complemento torna-se busca da alma gêmea - do gêmeo que se ama/odeia -, até a dissociação da própria imagem: duplicação e separação de si mesmo: imagem distorcida de um Narciso enamorado de um outro que nunca existiu, a não ser como reflexo de seus próprios fantasmas.

"Ela e Ele", "Ele e Ela": por detrás do mito da simetria intelectual, desponta, irregular e desigual, o casal Odette e Swann. "Dire que j'ai gâché des années de ma vie, que j'ai voulu mourir, que j'ai eu mon plus grand amour, pour une femme qui ne me plaisait pas, qui n'était pas mon genre!" - epígrafe de Un Amour de soi, citação de Un Amour de Swann, decalque de Rachel e Serge e do engodo de ver no outro uma imagem sonhada. Este par, na análise de Doubrovsky, tem, por sua vez, outro decalque: o do casal primordial - Adão e Eva - que engendrou o erro, também arquetípico, ligado ao saber (um dos temas de seu romance: o conhecimento intelectual, que permite a Rachel alavancar sua inversão com relação a Serge). O eufemismo original de Swann reverbera o mito do casal original, que dá início à aventura humana:

le "nom spécial" [faire catleya], qui se voulait "trace" d'un évènement original, nous réfère soudain à l'originaire, mieux, au mythe même de l'origine. Odette- Swann, c'est Adam et Ève. [1979: 112]

O eufemismo, devido ao poder generativo da linguagem, reverbera, igualmente, o interesse pelo mito do nascimento (do livro), assinalado a propósito do incipit, que dá início à aventura da escritura através de distintas metamorfoses (renascimento,

transmutação, translação, tradução e separação; Cf. 2.2.1). Na Recherche, é a "lembrança do nascimento da lembrança", que em mise en abyme, gera o texto. Em Un Amour de soi, é a lembrança dos lugares da lembrança que, na mise en abyme do título, evoca o intertexto: a lembrança de outros textos.

O mito adâmico é, também, o mito do paraíso perdido - que impulsiona o movimento e o desejo - nostálgicos - do eterno retorno (da espiral). No caso da escritura proustiana, esse movimento está implícito no incipit e no prólogo. Em Un Amour de soi, por decalque, o retorno é, inclusive, orubórico. O caminho de volta é traçado pelos fios que imbricam temas e permitem aos fantasmas do imaginário povoar o texto, deslocar seus significantes, fazer migrarem sentidos e efeitos, no que se denomina "escritura da insistência": seus fios são condutores ao reinício - o próximo livro autoficcional.