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1. BÖLÜM

3.1. Mao Döneminde Çin’in Sosyal Planlama Ekonomisi

3.1.1. Bağımsızlık Döneminde Çin’in Ekonomik Durumu

Analisaremos o “espaço biográfico” no qual transitam as representações de Eva Perón a partir da autobiografia, LRMV, da biografia ficcional, SE, e da biografia, EJSV.

A expressão espaço biográfico, como proposta por Leonor Arfuch (2010, p. 12), define o “terreno no qual formas discursivas clássicas começam a entrecruzar-se e a hibridizar-se”. A autora analisa diversas formas narrativas tradicionais que tratam da própria vida, tais como memórias, correspondências, diários íntimos, etc.; e apresenta a irrupção de novas formas autobiográficas no mundo contemporâneo, sendo a entrevista a mais importante em seu trabalho. Destaca a autora a narratividade como característica comum às formas do espaço biográfico:

A multiplicidade das formas que integram o espaço biográfico oferece um traço comum: elas contam, de diferentes modos, uma história ou experiências de vida. Inscrevem-se assim, para além do gênero em questão, numa das grandes divisões do discurso, a narrativa, e estão sujeitas, portanto, a certos procedimentos compositivos, entre eles, e prioritariamente, os que remetem ao eixo da temporalidade. (ARFUCH, 2010, p. 111)

Tomo, portanto, de empréstimo a expressão para me referir ao corpora desta pesquisa, refletindo sobre autobiografia, autoficção e biografia na análise das obras.

Segundo Pozuelo Yvancos, a autobiografia é um gênero que, desde sua origem, joga com seu estatuto dual, no limite entre a construção de uma identidade, que possui muito de invenção, e a relação de alguns fatos que se apresentam como reais. Para o autor, a autobiografia não é um gênero ficcional, “é um gênero que transpassa muitas vezes a fronteira da ficção para instalar-se em outro território” (2006, p. 17, tradução nossa).7 Como gênero fronteiriço, multiforme, convencional e historicamente movediço (ibdem, p. 21), está vinculada a outros gêneros e práticas discursivas, como as confissões, o testemunho, a memória, dentre outros.

A diferença básica entre biografia e autobiografia é que, nesta, um indivíduo relata sua vida, conta sua história, suas experiências de vida; seu tema essencial são as realidades experimentadas de forma concreta por um sujeito que trata de refletir sobre as mesmas; seu autor, portanto, é alguém para quem essa vida é importante. De acordo com Gusdorf (1991, p.

12, tradução nossa), “ninguém melhor que o próprio interesado para fazer justiça a si mesmo, e é precisamente para esclarecer os mal entendidos, para restabeler uma verdade incompleta ou deformada, por que o autor da autobiografía impõe-se a tarefa de apresentar ele mesmo sua história”.8 Já na biografia, uma pessoa alheia à vida que se narra tenta estabelecer sua

estrutura interna, através de dados observados ou dos relatos feitos por outro sujeito (WEINTRAUB, 1991, p. 19).

Para Lejeune (2008, p. 15), o contrato de leitura, o pacto autobiográfico, identifica o eu textual com o eu do autor e isto origina e especifica o gênero autobiográfico. Segundo o autor, há autobiografia quando a obra possui estas características: quanto à forma da linguagem, é uma narração, em prosa; quanto ao tema, trata da vida individual, da história de uma personalidade; quanto a situação do autor, há identidade entre autor (cujo nome remete a uma pessoa real) e narrador; e, por fim, quanto à posição do narrador, há identidade entre narrador e personagem principal, e a perspectiva da narração é retrospectiva.

Assim, a identidade de nome entre o autor, o narrador e o personagem da narração da vida constitui a autobiografia. Tal identificação é fruto de um pacto ou contrato de leitura, firmado pelo nome próprio que confere um estatuto referencial ao texto, isto é, que faz com que este seja passível de ser submetido a uma prova de verificação (POZUELO YVANCOS, 2006, p. 28). O nome do autor caracteriza um tipo especial de discurso: “dizer que um escrito

é de um autor é resgatá-lo da palavra anônima e indiferente... é situá-lo numa posição ou estatuto que está fora e dentro do texto, no limite dos textos” (ibdem, p. 55, grifo do autor).

O objetivo da autobiografia é dar sentido a uma totalidade de vida, embora não o faça de modo a simplesmente relatar a cronologia dos eventos vividos. Diferente do diário íntimo, o relato não se faz dia a dia, cobrindo toda a existência, mas buscando temporalidades maiores e o estabelecimento de um nexo causal e explicativo entre fatos. Daí a afirmação de Weintraub sobre sua constituição como um tecido no qual se embrenha a autoconsciência através da inter-relação entre experiências. Tal inter-relação feita na autobiografia pode ter como funções a autoexplicação, o autodescobrimento, o autoesclarecimento, a autoformação, a autoapresentação ou a autojustificação. Segundo o autor, essas funções são entrelaçadas, porque se centram sobre o conhecimento consciente de sua relação e suas experiências (1991, p. 19). Para Gusdorf (1991, p. 14, tradução nossa), a autobiografia consiste numa tarefa de salvação pessoal:

8No original: “nadie mejor que el propio interesado puede hacer justicia a sí mismo, y es precisamente para aclarar los malentendidos, para restablecer una verdad incompleta o deformada, por lo que el autor de la autobiografía se impone la tarea de presentar él mismo su historia”.

A confissão, o esforço de rememoração, é, ao mesmo tempo, busca de um tesouro escondido, de uma última palavra libertadora, que redime em última instância um destino que duvidada de seu próprio valor. Trata-se, para aquele que embarca na aventura, de concluir um tratado de paz, e alcançar uma nova aliança, consigo mesmo e com o mundo. O homem maduro ou já envelhecido que converte sua vida em narração crê oferecer testemunho de que não viveu à toa; não elege a revolta, e sim a reconciliação, e a leva a cabo no mesmo ato de reunir os elementos dispersos de um destino que lhe parece ter valido a pena viver. A obra literária na qual ele se oferece como exemplo é o meio de aperfeiçoar esse destino, de levá-lo a um bom fim.9

Dito de outra forma, a autobiografia não é uma simples recuperação do passado tal como foi; isto seria uma caricatura. O indivíduo que recorda e narra eventos não é o mesmo que os viveu, está, agora, no momento em que escreve, marcado pela experiência e busca a si mesmo através de sua história (GUSDORF, 1991, p. 13). É um exercício psicológico intenso colocar-se em contato consigo mesmo, refletir sobre suas intenções, sobre os motivos de suas ações e narrá-los:

O autor de uma autobiografía impõe-se, como tarefa, o contar sua própria história; trata-se, para ele, de reunir os elementos dispersos de sua vida pessoal e de agrupá- los num esquema de conjunto. O historiador de si mesmo gostaria de desenhar seu próprio retrato, mas, igual a um pintor que apenas fixa um momento de sua aparência exterior, o autor de uma autobiografia trata de conseguir uma expressão coerente e total de todo o seu destino. (GUSDORF, 1991, p. 12, tradução nossa)10 Para Christine Delory-Momberger (2009, p. 99), essa representação da vida faz-se através da linguagem, na sintaxe da narrativa. A vida é transformada em uma ou em várias histórias. Segundo a autora, biografia são as figuras da vida representada, que não devem ser confundidas com a realidade:

as formas às quais os indivíduos recorrem para biografar sua vida não são apenas seus feitos, elas não lhes pertencem propriamente e eles não podem decidir, eles mesmos, integralmente, sobre elas: são formas coletivas que pertencem à história, à cultura, ao social e que obedecem às variações e às evoluções sócio históricas. (DELORY-MOMBERGER, 2009, p. 99, grifo da autora)

Embora as autobiografias de homens e mulheres públicos possam ser consideradas documentos históricos, o historiador necessita cotejá-las com os fatos oficiais, reconstruindo-

9 No original: “La confesión, el esfuerzo de rememoración, es, al mismo tiempo, búsqueda de un tesoro escondido, de una última palabra libertadora, que redime en última instancia un destino que dudaba de su propio valor. Se trata, para aquel que embarca en la aventura, de concluir un tratado de paz, y alcanzar una nueva alianza, con uno mismo y con el mundo. El hombre maduro o ya envejecido que convierte su vida en narración, cree ofrecer testimonio de que no ha vivido en balde; no elige la revuelta, sino la reconciliación, y la lleva a cabo en el acto mismo de reunir los elementos dispersos de un destino que le parece que ha valido la pena vivir. La obra literaria en la que él se ofrece como ejemplo es el medio de perfeccionar ese destino, de llevarlo a buen fin”. 10No original: “El autor de una autobiografía se impone como tarea el contar su propia historia; se trata, para él, de reunir los elementos dispersos de su vida personal y de agruparlos en un esquema de conjunto. El historiador de sí mismo querría dibujar su propio retrato, pero, al igual que el pintor solo fija un momento de su apariencia exterior, el autor de una autobiografía trata de lograr una expresión coherente y total de todo su destino”.

os através de comprovações indispensáveis. Isto porque o autobiógrafo nem sempre relata o que realmente aconteceu. Ao estabelecer um fio para a meada dos fatos a partir de suas motivações íntimas, o narrador pode proporcionar uma revanche à história, visto que atua como um leitor que revisita sua experiência:

A autobiografia é uma segunda leitura da experiência, e mais verdadeira que a primeira, visto que é tomada de consciência: na imediatez do vivido, envolve-me geralmente o dinamismo da situação e me permite tomar em consideração as complexidades de uma situação no tempo e no espaço. (GUSDORF, 1991, p. 13, tradução nossa)11

A autobiografia contém em si uma narrativa de formação: relata como um indivíduo tornou-se quem é, seu desenvolvimento, num processo vital. Estabelece-se no relato a gênese de uma individualidade e suas relações com a sociedade de modo que se justifique, ao menos para o autobiógrafo, a relevância do que narra. Formação de si, um caminhar orientado a um fim, um destino, uma forma realizada de si. Com isto, o horizonte da autobiografia é finalista ou teleológico. Parte-se do que já se sabe, de feitos já realizados e, alguns, acabados, para o estabelecimento de suas causas e motivações. A leitura que faz o narrador de sua própria vida é retrospectiva: "é a partir do fim que se articulam as relações de causa e efeito e que o movimento da aprendizagem ganha sentido para o leitor, ou seja, encontra, ao mesmo tempo, sua orientação e sua significação” (DELORY-MOMBERGER, 2009, p. 102). Isto é observado e analisado na autobiografia de Evita, LRMV, em que ela explica como se tornou quem era, buscando, em sua narrativa, as origens de sua personalidade e de suas ações políticas.

O autobiógrafo coloca-se num local estratégico de onde é possível ter uma visão retrospectiva e total da vida; com isso impõe a ordem do presente sobre o passado. Do que antes se viveu como acontecimento, agora se observam os resultados, numa relação de causa e consequência:

Ao sobrepor esta visão presente e consumada de um acontecimento passado, esse recebe um significado distinto que no momento em que estaba acontecendo não possuía. O sentido do passado é inteligível e significativo em função de sua compreensão no presente. Assim ocorre também com todo intento de compreensão histórica: os fatos históricos são situados de forma que se estabelece entre eles uma relação retrospectiva da qual careciam no momento em que aconteceram. (WEINTRAUB, 1991, p. 21, tradução nossa)12

11 No original: “La autobiografía es una segunda lectura de la experiencia, y más verdadera que la primera, puesto que es toma de conciencia: en la inmediatez de lo vivido, me envuelve generalmente el dinamismo de la situación y me permite tomar en consideración las complejidades de una situación en el tiempo y el espacio”. 12 No original: “Al sobreponer esta visión presente y consumada de un acontecimiento pasado ése cobra un significado distinto que en el momento en que estaba teniendo lugar no poseía. El sentido del pasado es inteligible y significativo en función de su comprensión en el presente. Así ocurre también con todo intento de

Os elementos da experiência passada são escolhidos e extraídos do contexto no qual se situavam anteriormente e são recombinados, porque agora o narrador autobiográfico, como um historiador de si mesmo, acredita que tenham um sentido que antes podem não ter possuído. Essa relação se opõe à ordem cronológica. De modo semelhante ao historiador na escrita da história, o narrador interpreta e orienta a vida na escrita a partir do sentido que agora atribui ao evento. O que predomina é a visão que tem de si o autobiógrafo no momento da escrita:

O valor tanto da história como da autobiografía é derivado do fato de que, em sua interpretação do passado, ambas apresentam como significativas determinadas partes desse passado. Em ambos casos os diferentes fragmentos que conformam o incoerente conjunto da realidade da vida foram previamente classificados e, posteriormente, selecionados alguns deles aos quais se lhes atribuiu um lugar apropriado num modelo de significados mais completo. (WEINTRAUB, 1991, p. 21, tradução nossa)13

Segundo Pozuelo Yvancos (2006, p. 24), o discurso construído na autobiografia é, portanto, autentificador, visto que o narrador escreve sua vida como a verdade, pretendendo que seu relato seja lido como a verdadeira imagem que de si mesmo testemunha. O autor chama a atenção para o fato de que o contexto determina o quanto o “eu” (o sujeito do relato) é fingido ou corresponde a uma realidade histórica. O limite entre o romance em primeira pessoa e o relato autobiográfico é contextual, neste o sujeito de enunciação é uma pessoa real, histórica, documentável, naquele não é.

Observa-se que o modo de narrar dos gêneros biográficos apresenta a vida como processo, sendo a autobiografia inseparavelmente unida à concepção do eu. Esse eu é apresentado como modelo humano. Isto traz à lembrança o gênero hagiográfico, que também nos interessa nessa pesquisa. O relato da vida de santo também é um gênero presente no espaço biográfico. Importa considerar que, para ser modelo, o santo deve possuir algumas características ou conjunto de valores, seguindo um padrão de modos de conduta que a hagiografia ou autobiografia reescrevem.

Em suas origens, a autobiografia está relacionada à hagiografia e também às confissões (Confissões de Santo Agostinho), logo à retórica da veracidade (POZUELO comprensión histórica: a los hechos pasados se les sitúa de forma que se establece entre ellos una relación retrospectiva de la que carecían en el momento en que tuvieron lugar”.

13 No original: “El valor tanto de la historia como de la autobiografía se deriva del hecho de que, en su interpretación del pasado, ambas presentan como significativas determinadas partes de ese pasado. En ambos casos los diferentes fragmentos que conforman el incoherente conjunto de la realidad de la vida han sido previamente clasificados y, posteriormente, seleccionados algunos de ellos a los que se les ha asignado un lugar apropiado en un modelo de significados más completo.”

YVANCOS, 2006, p. 60), mantendo-se esta presente na autobiografia, enquanto que o relato das façanhas maravilhosas permanece na hagiografia. No estatuto autobiográfico atual, permanece o ato de apoiar-se numa verdade, num pacto de sinceridade que estabelece com os leitores, e seu testemunho pode ser válido a outros indivíduos, como exemplo. Isso não significa que tudo o que diz é verdade e, sim, que tudo é apresentado como se fosse verdade, e é esse pacto o que separa a autobiografia das ficções ou narrativas com formas autobiográficas.

Pozuelo Yvancos destaca a presença de lacunas, não ditos, na autobiografia: “calar é ocultar algo que se deveria dizer” (2006, p. 44): além dos esquecimentos, há também a opção pessoal por não falar. Isto pode ser observado mais facilmente na autobiografia de personalidades públicas, em que há documentação com a qual é possível cotejar o texto, caso se queira fazer este tipo de inventário, o que não é exatamente o que proponho neste trabalho. No entanto, não há como ignorar o quanto a autobiografia de uma personalidade pública pode relacionar-se a instituições, como se deu com a de Eva Perón, distribuída em escolas públicas, como leitura básica do Partido Peronista.

Isto permite afirmar que a autobiografia se situa num horizonte não-ficcional (POZUELO YVANCOS, 2006, p. 69). Se pensamos nas margens do gênero, sua aproximação está na confluência com o não-ficcional. Mais próxima da ficção, ou melhor, inteiramente presente nela está a autoficção.

O romance SE, além de apresentar a biografia de Eva Perón e a história do sequestro e desaparecimento de seu cadáver embalsamado, apresenta autoficção. Segundo Alberca (2007, p. 31), o fundamento das autoficções é a identidade visível ou reconhecível do autor, narrador e personagem do relato. Na obra mencionada, o narrador, que tem o mesmo nome do autor, Tomás Eloy Martínez, narra alguns acontecimentos de sua vida relacionando-a à escrita do romance de modo metaficcional, jogando com a possível confusão entre pessoa e personagem, como menciona Alberca (2007, p. 32): confundem-se pessoa e personagem, ou se faz da própria pessoa um personagem, insinuando que esse personagem é e não é o autor, numa ambiguidade calculada ou espontânea.

Na autoficção, o autor pode criar múltiplas realidades:

O autor de autoficções não se conforma somente com contar a vida que viveu, mas em imaginar uma das muitas vidas possíveis que lhe poderia haver tocado a sorte de viver. De modo que o escritor de autoficções não trata apenas de narrar o que foi, mas também o que poderia ter sido. Isso lhe permite viver, nas margens da escritura, vidas distintas da sua. (ALBERCA, 2007, p. 33)14

14 No original: “El autor de autoficciones no se conforma sólo con contar la vida que ha vivido, sino en imaginar una de las muchas vidas posibles que le podría haber tocado en suerte vivir. De manera que el escritor de

A autoficção é a mais desconcertante e transgressora das estratégias autobiográficas dos “romances do eu”, segundo Alberca (2007, p. 130). Não é autobiografia, pois não estabelece o pacto biográfico de narrar a verdade; nem romance autobiográfico, porque não se apresenta claramente dissimuladora. Seu campo é o da indeterminação, por vezes, pelas múltiplas possibilidades de interpretação que apresenta:

A autoficção establece um estatuto narrativo novo, cuja hibridez talvez não dê resultados sempre interessantes ou significativos, mas se caracteriza por propor algo diferente do romance autobiográfico. Na medida em que não disfarça a relação com o autor, como o faz o romance autobiográfico, a autoficção se separa deste e, na medida em que cobra ou integra a ficção em seu relato, aparta-se radicalmente da proposta do pacto autobiográfico. Não basta reconhecer ou atestar elementos biográficos no relato para considerá-lo uma autoficção e para identificar os personagens romanescos com seu autor, e sim uma calculada estratégia para autorrepresentar-se de maneira ambígua. (ALBERCA, 2007, p. 130, tradução nossa)15

A autoficção apresenta-se como história imaginada e estas são contadas para melhor entender o real, “para vê-lo melhor desde o cruzamento entre o verdadeiro e o fingido, o dado e o suposto” (ALBERCA, 2007, p. 15, tradução nossa).16 A autoficção apela à suspensão da

tendência à credulidade, recordando ao leitor que pode ser mentira aquilo que é apresentado como verdade pelos formadores de opinião em nossa sociedade.

Após esta reflexão sobre autobiografia e autoficção, passo a discutir a biografia. Cabe observar que esta compartilha das características de que o narrador é conhecedor da totalidade dos eventos narrados e de que segue uma estrutura linear, contínua e organizada, justamente para melhor apresentar sua teleologia.

Segundo Bakhtin (2003, p. 139), a biografia é a descrição de uma vida. É a narrativa da vida de alguém, seja figura pública ou não, viva ou já falecida. A narrativa biográfica resulta da seleção, descrição e análise de uma trajetória individual.

Carlo Ginzburg afirma que, a partir da análise da micro história, é possível compreender uma determinada época (1996, p. 13). Embora nem sempre a vida de um grande

autoficciones no trata sólo de narrar lo que fue sino también lo que pudo haber sido. Esto le permite vivir, en los márgenes de la escritura, vidas distintas a la suya”.

15 No original: “La autoficción estabelece un estatuto narrativo nuevo, cuya hibridez puede que no dé resultados siempre interesantes o significativos, pero se caracteriza por proponer algo diferente a la novela autobiográfica. En la medida que no disfraza la relación con el autor; como lo hace la novela autobiográfica, la autoficción se separa de ésta, y en la medida que reclama o integra la ficción en su relato se aparta radicalmente de la propuesta del pacto autobiográfico. No basta con reconocer o atestiguar elementos biográficos en el relato para considerarlo una autoficción y para identificar los personajes novelescos con su autor, sino una calculada