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A superação do individualismo exacerbado83 impulsionou à introdução do valor social na condução da sociedade de modo a privilegiar o bem­estar da coletividade em detrimento do acentuado interesse egoístico particular.

Como já pontuado no capítulo anterior, o progresso econômico não assegura, por si só, o desenvolvimento da sociedade, já que depende da forma como os benefícios da prosperidade econômica são aplicados na implementação e no crescimento das liberdades individuais de todos84.

A justiça social foi introduzida na Constituição Federal de 1988 em duas oportunidades: primeiro como objetivo da República Federativa do Brasil, artigo 3o, inciso I da Constituição Federal, estabelecendo como escopo a construção de uma sociedade livre, justa e solidária; segundo como preceito da ordem econômica, inserida no artigo 170 da Constituição Federal.

81 Ver seção 3.3.1.

82 "A conclusão é que a dignidade da pessoa humana atrai a realização dos direitos fundamentais do homem, em

todas as suas dimensões. Fica fácil assim perceber porque o constituinte reafirmou o princípio ao dispor sobre a ordem econômica. É que os direitos fundamentais, de um modo bem mais concreto e eficaz que outros princípios, mormente os programáticos, que podem consubstanciar objetivos da ordem econômica ou que fixem diretrizes, objetivos e programas a serem realizados, defendem, no campo econômico, os indivíduos e as liberdades individuais a eles creditadas. É necessário ter clareza sobre como é improvável concretizar o ideal da liberdade humana e da dignidade individual, quando a ordem econômica que elegemos as contradigam' (PETTER, 2008, p. 196).

83 “A experiência histórica do Estado neoliberal – colhida durante a segunda metade do século XIX até 1930 nos

países industrializados – fêz com que as trágicas contradições entre o social e o econômico que então se registram, levasse à constatação de que o incremento quantitativo (industrial) da produção não acarretava necessariamente a prosperidade e a felicidade do corpo social” (CARVALHOSA, 2014, p. 596).

Partindo da análise da ordem econômica, mundo do dever­ser, estabelecida na Constituição de 1988, em que a justiça social é atribuída como escopo da ação econômica85, impõe­se ao Estado efetivar mecanismos pelos quais as externalidades positivas do progresso econômico sejam revertidas em benefícios a toda a coletividade, como se verifica pelo repasse ao Estado, por meio do pagamento de tributos, cuja receita auferida será destinada a custear políticas públicas.

Petter (2008, p. 201) pondera que a justiça social é expressão da dignidade coletiva, destacando que “[...] não basta alguém possuir digna existência se aquele que está ao lado não possui dignidade alguma”, ressaltando, pois, o caráter coletivo da dignidade representada pela justiça social:

Por isso que a justiça social está relacionada com a correção das grandes distorções que ocorreram numa sociedade, diminuindo distâncias e diferenças entre as diversas classes que a constituem, favorecendo os mais humildes. Evitar que os ricos se tornem cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres e oferecer idênticas oportunidades a todos constituem variações semânticas do termo sob comento.

A justiça social representa a introdução do caráter solidário na atividade econômica, de modo que os benefícios do desenvolvimento econômico sejam revertidos em benfeitorias destinadas à sociedade, inserindo, assim, o caráter distributivo86 na atividade econômica, de modo a diminuir os abismos entre os mais pobres e os mais ricos. Ao analisar a questão do patrimônio mínimo, o professor Fachin (2006, p. 171, grifo do autor) avalia a ação transformada da inserção do princípio da justiça social na ordem constitucional:

A iniciativa econômica privada e as situações jurídicas patrimoniais, refletindo uma nova perspectiva, atentam para valores não­patrimoniais, ou seja, para a dignidade da pessoa humana, sua personalidade, para os direitos sociais e para a justiça distributiva.

A justiça social passa ser princípio estruturante da atividade econômica inserta no artigo 170 da Constituição. É, na realidade, a adoção expressa de um novo credo em matéria constitucional, em que o paradigma adotado ultrapassa os sistemas das liberdades meramente formais desaguando nos direitos sociais econômicos. E esta autêntica mudança social e econômica projeta­se intensamente na própria estrutura

85 "A busca de uma igualdade substancial e mesmo a abolição de injustificados privilégios de alguns,

distribuindo equitativamente e proporcionalmente os ônus, os favores e as riquezas da produção social, sem nos deixarmos cair num sociologismo divorciado da ideologia constitucionalmente adotada, eis aí alguns dos objetivos visados pela justiça social" (PETTER, 2008, p. 201).

86 "A justiça distributiva, além das honras, também diz respeito à distribuição das riquezas e outras vantagens

entre os membros da comunidade. O padrão desta participação envolve o mesmo problema de critério. O cidadão, na Grécia antiga, era considerado um “acionista” da pólis e participava, assim, proporcional e diretamente, dos seus benefícios (ROSS, 1926, p. 293). As presas de guerra deveriam ser partilhadas entre eles criteriosamente, bem como o produto da terra. O solo não podia ser alienado, por motivos religiosos, pois era o lugar do exercício sagrado da vida familiar (Fustel de Coulanges, op. cit., p.289). As colheitas, porém deveria ser repartidas conforme os critérios constitucionais que variavam de cidade para cidade (Pol., II, 61265a ss. e II, 10, 1271b20 ss). Aristóteles, também estende a justiça distributiva aos benefícios conseguidos pelas associações privadas, cujo capital social era constituído pela contribuição (εισϕоραι) dos associados e devia ser distribuído de conformidade com elas (É.N., V, 7, 1131b30)” (FERRAZ JUNIOR, 2009, p. 203­204, grifo do autor).

contratual e no tráfico jurídico. Neste diapasão de exposições, a doutrina nacional, sempre fecunda em temas tão relevantes quanto atuais, acompanha toda esta dinâmica evolução imposta pelos cânones constitucionais. Destarte, a Constituição garantista das liberdades formais converte-se na Constituição dirigente, para a promoção da justiça social.

Como destaca Carvalhosa (2014, p. 600), “[...] a realização da justiça social – constitucionalmente atribuída à ordem econômica – vincula­se aos princípios da justiça distributiva87, entendida esta como etapa mais avançada da economia política, já liberta das concepções mecanicista do produtivismo”.

Desse modo, a justiça social implementada na ação econômica assegura a todos os integrantes da sociedade benesses de ordem econômica, social e cultural decorrentes da reversão das externalidades positivas em benefício do desenvolvimento, sob a modalidade de políticas públicas governamentais88 destinadas à concretização dos direitos sociais.

Um sistema ideal, em que se implemente a justiça social, apresenta­se quando todos disponham dos meios necessários para viver confortavelmente com dignidade, inexistindo desigualdades abissais que possam levar a escravizar a pessoa humana em função do poder econômico.

Grau (2012, p. 224, grifo do autor), com muita propriedade, estabelece o conceito de justiça social:

Justiça social, inicialmente, quer significar superação das injustiças na repartição, a nível pessoal, do produto econômico. Com o passar do tempo, contudo, passa a conotar cuidados, referidos à repartição do produto econômico, não apenas inspirados em razões micro, porém, macroeconômicas: as correções na injustiça da repartição deixam de ser apenas uma imposição ética, passando a consubstanciar exigência de qualquer política econômica capitalista.

A opção capitalista estabelecida da Constituição Federal de 198889 é plenamente compatível com a implementação da justiça social, uma vez que o capitalismo eleito como modo de produção tem viés social, constituindo modelo de economia social de mercado (Cf. MATSUSHITA, 2007, p. 160), afastando­se do modelo capitalista clássico, cujo eixo central era o individualismo e a acumulação de capital.

87 "Deve­se conceituar a justiça distributiva, no plano sócio­econômico, como o fundamento de um conjunto de

regras jurídicas postas pelo Estado, imponíveis às entidades econômicas, visando o benefício da generalidade dos tutelados, individual e coletivamente considerados" (CARVALHOSA, 2014, p. 603).

88 Política pública designa a atuação do Estado quando intervém na ordem social. Nesse sentido, disserta Grau

(2014, p. 26­27, grifo do autor) que “A expressão ‘política pública’ designa atuação do Estado, desde a pressuposição de uma bem marcada separação entre Estado e sociedade. O modo de produção capitalista supõe a separação do Estado e da sociedade, no que é reforçada a dicotomia direito público/privado. Daí por que se afirma que toda atuação estatal é expressiva de um ato de intervenção na ordem social. Também aí a separação entre Estado e economia, o que confere sentido às afirmações de que ‘intervém’ e cumpre papel de ‘regulação’ da economia. Assim, toda atuação estatal é, neste sentido, expressiva de um ato de intervenção. O Estado contemporâneo atua, enquanto tal, intervindo na ordem social”.

A reflexão apresentada por Matsushita (2007, p. 162) em relação ao aparente conflito entre o modo de produção capitalista e a justiça social é deveras apropriada:

Não há conflito entre o capitalismo e a justiça social, a opção brasileira é a de relativizar o liberalismo econômico, colocando a justiça social como barreira para que se pense unicamente na riqueza.

Essa economia social de mercado, que teve início da Alemanha pós­guerra fica entre o meio­termo do liberalismo e do socialismo, pois permite a livre iniciativa, mas o Estado intervém na economia, visando regular as atividades econômicas para existir a distribuição eqüitativa das riquezas.

Não existe fórmula matemática que consiga resolver a desigualdade social, mas ao que se deve ater é à existência digna da coletividade, conforme as regras da justiça social.

A reversão do progresso econômico em benefícios destinados a implementar a igualdade material e expandir as liberdades individuais de todos deverá ser promovida por meio de políticas públicas que assegurem benfeitorias de ordem material ou imaterial necessárias ao pleno desenvolvimento das pessoas90, que somente será alcançado com a promoção das necessidades, individuais ou coletivas, mínimas à sobrevivência digna.