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ĠKĠNCĠ BÖLÜM RADBRUCH FORMULÜ

2.3. Radbruch’un Hukuka BakıĢı

Nesta sessão apresentamos algumas características sobre João, o aluno com deficiência na sala da professora Beatriz. Tratamos sobre seu diagnóstico, convivência escolar, atendimentos especializados e características comportamentais, de comunicação e cognitiva com base nas observações registradas em diário de campo e em entrevistas com coordenadora e a psicomotricista do Centro de Atendimento Clínico e Educacional – CACE, com a professora Beatriz, o auxiliar Valter e a professora do AEE, Carol.

João tem sete anos. É um menino robusto, bem cuidado, meigo e que manda beijo para todos na escola. O menino interage com as demais crianças de sua sala e adultos utilizando gritos e gestos com a boca. Nestes momentos, é comum cuspir/babar nas pessoas. É muito conhecido na escola já que passa parte de seu tempo passeando pelos corredores.

Segundo a professora do AEE foi diagnosticado, por um neuropediatra, como portador de déficit cognitivo e motor. Apresenta características de microcefalia. Segundo Peñas (2003, p. 589 apud REIS, 2012, p.40):

A microcefalia é definida como a presença de um perímetro craneano menor em dois desvios padrão abaixo da média. Um perímetro craneano baixo indica um cérebro pequeno (microcefalia). É fundamental distinguir as formas primárias e secundárias da microcefalia. A microcefalia primária compreende as situações em que o cérebro é pequeno e não completou o seu desenvolvimento embrionário normal devido a fatores genéticos, cromossómicos e malformativos, ou, devido ao efeito de patologias ambientais intra útero. A microcefalia secundária implica que o cérebro

completou um desenvolvimento embrionário normal, mas depois sofreu um dano (lesão) difuso e alterou-se o seu crescimento evolutivo. Neste segundo grupo incluem-se os processos vasculares finais pré-natais tardios, patologia perinatal diversa e doenças sistémicas pós-natais.

Resumidamente, Reis (2012) afirma que a microcefalia pode ser provocada por diferentes situações, tais como: genética, infecções, problemas circulatórios e uso de drogas. Dependendo da causa e do tipo da microcefalia, pode provocar no indivíduo hipertonia muscular, paralisia, crise convulsiva e atraso mental. Na ficha apresentada pela professora Carol não vem especificando se a microcefalia apresentada por João é do tipo primária ou secundária. Há ainda uma receita médica anexada indicando o medicamento Carbamazepina20

que é recomendado para acentuar crises de epilepsia/convulsivas e tem como um de seus efeitos colaterais a sonolência.

Em sala de aula, é auxiliado por Valter, responsável por seus cuidados básicos. João frequentou a Educação Infantil com parte da turma que compõe o 1º ano, por isso as crianças já o conhecem e convivem bem com sua condição de deficiência.

João não se alimenta na escola, passa a manhã sem comer. Às vezes que bebe água é por estímulo do auxiliar que o leva ao bebedouro, liga a torneira e João coloca aos poucos a água na boca. Ele tem dificuldade de deglutir. De acordo com a irmã de João, que estuda na mesma escola, ele só se alimenta de mingau, vitaminas e caldos liquidificados e servidos na mamadeira já que não consegue comer nada sólido, pois se engasga. Valter afirmou que já tentou dar sopa na colher para João, mas ele engasgou e preferiu não insistir. Como não lancha, ele nunca sai com a turma em fila para buscar a merenda na cantina. O menino também utiliza fralda descartável.

A irmã de João é responsável por levá-lo à escola, ficar com ele durante o recreio e é ela também que cuida dele e de outro irmão menor em casa. Segundo relata, costuma colocar música e dançar com João em casa. Sobre a relação familiar, na percepção de Valter, a mãe de João o trata como uma criança normal, sem mimos. Quando ela vai deixá-lo na escola, o que ocorreu uma vez durante as observações, entrega a criança e seu material no portão da sala para a professora e sai, mesmo que ele fique chorando. Para o auxiliar, é importante esta postura da mãe em insistir que o filho participe da escola e da sala de aula.

No entanto, segundo relatos da coordenadora pedagógica, a mãe de João demorou a matriculá-lo por não querer que ele frequentasse a escola já que não acredita que ele tenha

20 Indicação e Efeitos colaterais retirados de: http://www.medicinanet.com.br/bula/1165/carbamazepina.htm, acesso em 18 de novembro de 2013.

condições de aprender. Relata ainda que a obrigatoriedade legal foi o que fez a mãe matricular o menino na escola regular.

Quanto aos atendimentos especializados realizados no CACE, João não os faz. De acordo com a a diretora da instituição, a mãe o levou para iniciar os atendimentos em 2012, por indicação do Centro de Educação Infantil no qual o menino estudava. A princípio a família deu aparato à criança, o acompanhava nos atendimentos e apresentava frequência regular. Devido seu comprometimento, João tinha três atendimentos por semana no CACE, com psicomotricista, terapeuta ocupacional e professora do AEE.

Aos poucos a mãe deixou de levá-lo aos atendimentos. Ainda conforme a a diretora, os especialistas reclamavam da infrequência, pois afetava a evolução do desenvolvimento da criança. De acordo com as regras da unidade, a partir de três faltas não justificadas a criança é desligada dos atendimentos. A gestão e especialistas tentaram conversar com a mãe de João, saber o que ocorria, mas ela não respondeu aos chamados.

Posteriormente a mãe atendeu à convocação e, em conversa com a direção, relatou dificuldades de transporte e da quantidade de vezes que precisava se deslocar à unidade. Partindo desta realidade, foi organizado um calendário diferenciado para que João tivesse dois atendimentos em um mesmo dia, reduzindo para dois dias por semana a quantidade de idas ao centro. Na avaliação da diretora, o rendimento da criança cai quando realiza mais de um atendimento por dia, mas foi a forma de garantir a frequência da criança.

Ainda assim, João continuou faltando aos atendimentos, até ocorrer a desistência por parte da mãe. Para a diretora, a dificuldade com o transporte pode ter contribuído para isso. Mesmo o CACE tendo um transporte para buscar e deixar as crianças e responsáveis que são atendidos, este deslocamento acontece em um mesmo horário para todos e a mãe de João não podia/queria esperar pelos horários determinados. Acreditamos que a descrença da mãe, apresentada pela coordenadora da escola, contribui para a decisão de não frequentar os atendimentos especializados.

A psicomotricista reiterou a questão da infrequência de João e os prejuízos que acarretaram na sua evolução. Ela declarou que João deixou de ter atendimentos em grupo, teve sua escala de atendimentos diminuída, tudo para tentar mantê-lo no CACE, o que não ocorreu. Ainda conforme esta especialista:

Ele ficou na escala durante muito tempo, ele tinha dois atendimentos, a terapia ocupacional e a psicomotricidade, mas ele vinha pra um e não vinha pra outro. Ele já chegou a ter três atendimentos, mas como ele faltava os três, ai ficou em dois, ai cortou mais um, ficou só um, ai complica. O João é uma criança bastante comprometida, ele tem dificuldade, ele tem atraso em todos os aspectos do

desenvolvimento, pra mim, ele tem pouco estímulo, ele necessita de investimento, é uma criança que pede investimento e ele tem (...) carência de comunicação, carência de tudo. Nos atendimentos, ele participava do jeito dele, só que ai acabou tendo que ser individual o atendimento dele. (PSICOMOTRICISTA CACE) (SIC) Neste relato observamos o empenho dos especialistas do CACE em manter João em atendimento, mesmo que não fosse da forma mais adequada, com todos os atendimentos necessários para que apresentasse a evolução esperada. Na avaliação da psicomotricista, João necessita de um acompanhamento que deveria aliar o trabalho realizado no CACE e o comprometimento da mãe.

João também não participa constantemente do AEE na escola. Segundo a professora do atendimento, o aluno falta bastante. A mãe justifica esta ausência com a dificuldade de transporte e pelo filho menor que não tem com quem deixar. Conforme relatos do auxiliar Valter, a irmã de João o confidenciou que a mãe não o traz para o atendimento porque não vê nenhum resultado no filho.

João passa parte da aula circulando pela escola, vai para o parquinho em companhia de Valter. Esse procedimento acontece por orientação da coordenação pedagógica da escola e da professora do AEE, sempre que João encontra-se agitado, gritando em sala ou atrapalhando o andamento da aula. Os períodos da aula após o recreio são os mais difíceis para ele entrar em sala, por querer ficar na companhia da irmã.

João costuma gritar em sala. Para a professora Beatriz, ele usa os gritos como estratégia para sair de sala sempre que se cansa. Para Valter este é um recurso de comunicação que muda conforme seu desejo, segundo relata:

Quando ele tá fazendo um gagaga [imitando um dos sons que João emitia] , é que ele tá tentando falar, geralmente ele faz isso olhando pra você, é como se tivesse alguma coisa incomodando. Às vezes ele tá querendo água, outras quer que coce as costas dele, por causa da fralda. Mas acho que se ele desenvolvesse algum tipo de atividade em sala que chamasse a atenção dele, ela não faria isso [gritar em sala] . Como ele não faz nada, fica andando pela sala, mexendo com os colegas e quando cansa daquilo é hora de começar a gritar para sair. (AUXILIAR VALTER) (SIC) Concordamos com a opinião de Valter sobre os ruídos realizados por João ser uma forma de comunicação, assim como mudarem de acordo com a situação. Observamos que nos momentos que os colegas se aproximam para brincar com ele, João emite sons mais tranquilos e demonstra uma aparente alegria. Já quando ele retorna do recreio e não quer entrar em sala os sons são mais intensos, altos e sua fisionomia demonstra raiva e agitação. Essas expressões se repetem quando ele quer sair de sala durante a aula.

Quanto às atividades pedagógicas, João não participa de nenhuma. Não há atividades planejadas para ele nem por parte da professora Beatriz, nem pela professora do AEE ou pelo auxiliar de sala. O menino não possui nenhum material didático.

A relação de João com os colegas em sala pode ser avaliada como positiva. Isso se deve ao fato de a maioria da turma ter estudado com ele no ano anterior, na Educação Infantil. As crianças parecem compreender a condição de deficiência de João. Mesmo que se sintam incomodados nos instantes em que ele grita e/ou cospe nelas, as crianças não revidam ou o agridem, alguns se protegem, outros pedem ajuda à professora. Para eles o João é como um bebê e por isso se sentem responsáveis por ele. Algumas crianças ajudam a limpar sua baba, outras brincam com ele repetindo os sons e movimentos que faz. As crianças sentam com ele no colchonete e lhe mostram os livros de história.

Sobre as habilidades de João, a professora do AEE faz a seguinte avaliação:

Ele consegue segurar e ele consegue pintar, ele não pinta como uma criança que pinta dentro do contorno, nem juntando todas as linhas, mas ele faz rabiscos, ele rasga papel, ele consegue cola r, ele entende o que tá sendo falado, na contação de

histórias ele entende a história, se você falar com ele ‘João, oi João, tudo bom?’,

ele entende. Ele tem essas partes de dificuldade na coordenação, que tem no atestado dele, e se tivesse sido trabalhado cedo, com certeza ele tava bem melhor. (PROFESSORA DO AEE) (SIC)

De acordo com a professora, ele tem condições de realizar algumas atividades em sala, mas ainda precisa ser estimulado quanto à coordenação dos movimentos. No que se refere ao desenvolvimento cognitivo, à aprendizagem de conteúdos, a professora demonstra descrença, priorizando a indicação de atividades que estimulem o desenvolvimento motor. No entanto, reconhece que João consegue compreender algumas situações, como as histórias que escuta.

A professora de sala de aula não tem informações sobre o desenvolvimento nem habilidades de João. Acredita que durante o período em que cursou a Educação Infantil, ele era estimulado apenas nas relações de convivência com as demais crianças. Também não teve contato com a professora que estava atuando com a turma antes dela assumir e por isso não tinha informações sobre o que ele fazia em sala. Tudo que sabe foi coletado através de conversas informais com as colegas de trabalho e com a professora do AEE. A professora Beatriz reconhece que João gosta de música, de objetos que giram, de andar pela escola e de se relacionar com os colegas de sala. Ainda de acordo com a professora, o trabalho a ser desenvolvido com João é apenas de socialização, por não crer que ele seja capaz de aprender.