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O movimento operário no Rio Grande do Sul, reconhecidamente, teve na imigração como um todo e, em particular na presença germânica, um fator fundamental para a sua existência e organização (BILHÃO, 2005; MARÇAL, 1987; PETERSEN, 2001; SILVA JÚNIOR, 2004a). Chegados numa terra nova, os imigrantes, portadores de cultura e idioma diferentes, encontraram suporte e estímulo para a preservação das mesmas ao chegarem às cidades, por intermédio da fundação de agremiações e de outras entidades nas quais os seus valores sociais poderiam ser preservados, através de um exercício coletivo. Em virtude desse aspecto, Sílvia Petersen (2001) ratifica a importância do compartilhamento de valores culturais, como no caso dos imigrantes, para a constituição de organizações de cunho trabalhista. Contudo, a experiência desses trabalhadores, mediante disputas, convivências e tensões de toda ordem, proporcionou mudanças na maneira pela qual se identificavam. Ou

seja, “as solidariedades étnicas começaram a ser redimensionadas em função das solidariedades de classe” (BILHÃO, 2005, p. 246).

As contínuas reivindicações coletivas do proletariado, através do uso de artifícios como a greve, permitiram que operários como os germânicos, que em Porto Alegre tinham a mesma origem da maioria dos patrões desta cidade, percebessem o quanto suas afinidades pessoais encontravam mais significação no interior da classe do que no interior da etnia alemã. Essa reelaboração da identidade começou a ficar mais nítida, entre os trabalhadores de Porto Alegre, a partir do movimento grevista ocorrido em 1906 (BAK, 2003).

Apesar do processo de identificação ser dinâmico, está sujeito a avanços e retrocessos, dependendo da maneira pela qual os grupos sociais se encontram e interagem entre si. Significa dizer que o indivíduo é capaz de compartilhar distintas identidades sociais – étnicas, de classe, de gênero – que se relacionam, dependendo tanto das circunstâncias pelas quais constrói a sua trajetória de vida quanto do contexto no qual se insere (BILHÃO, 2005). Portanto, se por um lado, a labuta diária e a militância por melhores condições ajudou a ressaltar o aspecto de classe e anti-burguês do operário, por outro lado, a concentração de determinados trabalhadores em um determinado bairro da cidade, a dedicação a um tipo de atividade profissional específica em especial (ser metalúrgico, marceneiro, chapeleiro), a formação de agremiações culturais, bem como a preferência dos patrões por imigrantes brancos ajudou a reforçar uma identidade étnica. Até porque, a maneira como os políticos de Porto Alegre (BAK, 2003) viam o trabalhador de origem alemã – que formara uma elite operária especializada e melhor remunerada (GERTZ, 1990) – destoava da maneira como viam o restante da classe trabalhadora. Isso, porém, não significaria que os operários se enxergassem como sendo membros da mesma comunidade dos seus patrões.

Sobre isso, é adequado resgatar a observação feita por Sidney Garambone. Em Porto

Alegre, “a Federação Operária adota uma moção de protesto à guerra, sendo seguida pela

Federação dos Operários Alemães, que aconselham os alemães e descendentes a não embarcar

para o serviço do Exército” (2003, p. 75).

Por outro lado, havia entidades compostas por trabalhadores que tinham na etnia um critério definidor para a participação dos mesmos. Uma delas, o Bürger Klub, ao solicitar à municipalidade a isenção de imposto urbano teve negado seu pedido, justamente por seus

estatutos exigirem o conhecimento do idioma alemão, bem como o pertencimento à raça caucasiana (SILVA JÚNIOR, 2004a).

Ao longo das duas primeiras décadas do século XX, em Porto Alegre o movimento operário foi sendo organizado. O conflito interno maior dizia respeito à polarização entre anarquistas e socialistas, com a primazia dos primeiros no interior da Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS), criada no ano de 1906 (PETERSEN, 2001). Na FORGS, militavam trabalhadores de diferentes etnias e nacionalidades. Os discursos continuaram sendo feitos em diferentes idiomas (MARÇAL, 1985). Após a greve de 1906, aquelas que a seguiram foram de pequena monta e não tiveram um verdadeiro caráter coletivo, no sentido de integrar diferentes categorias (PETERSEN, 2001), mas em 1911, o Correio do Povo alertou (em um sentido de precaver contra os encrenqueiros) a população sobre a chegada de dois líderes alemães (MARÇAL, 1985, p. 63). Contudo, no ano de 1913, as obras urbanas realizadas em Porto Alegre provocaram um aumento na atividade do movimento. Houve acréscimo de mão-de-obra estrangeira na cidade, sendo que estes também teriam sido portadores de uma sólida identidade nacional (BILHÃO, 2005).

A chegada da guerra de 1914, pelas referências obtidas junto a um segmento bem específico do movimento e vinculado a uma liderança em especial, foi recebida com indignação e com manifestações de aversão. Era, nesse caso, uma variante dos militantes da tendência socialista.

Teoricamente, o socialismo professado em Porto Alegre assumia uma postura tributária do seu equivalente europeu e buscava referências em vários autores deste continente. Benito Schmidt (2002) lembra que na capital gaúcha viviam homens simples e autodidatas que procuravam respostas para os males do capitalismo e, portanto, não desenvolveram um rigor intelectual. Mesmo havendo trabalhadores etnicamente alemães no socialismo, muitas das referências teóricas deles eram de autores franceses, em repercussão que era igual ou até maior do que a dos alemães, com destaque para o líder francês Jean Jaurès (SCHMIDT, 2002). Provavelmente, eles não estavam a par das divergências do movimento europeu.73

73 A Segunda Internacional havia sucumbido em virtude da conduta adotada pelas principais lideranças dos

partidos social-democratas europeus. Ao abandonarem os ideais pacifistas e apoiarem a participação operária na Primeira Guerra, romperam com as determinações expressas durante o Congresso daBasileia, em 1912, que haviam sido alinhavadas ainda durante o Congresso de Stuttgart, dois anos antes (BOTTOMORE, 1997). A maioria dos partidos representados na Internacional acabou prestando apoio aos governos de seus países de origem durante a guerra em 1914.

O anarquista alemão Friedrich Kniestedt, que imigrou para Porto Alegre por causa da guerra, afirmara que:

“os trabalhadores alemães tinham sido entregues aos militaristas alemães pelos seus

assim chamados representantes [porque não teriam] seguido a um chamado do sonho supremo da guerra, do rei, mas como social-democratas e sindicalistas bem

disciplinados atenderam aos seus [...] líderes” (GERTZ, 1989, p. 112).

Nos periódicos de Porto Alegre há registros de manifestações antibelicistas que teriam ocorrido na Europa, de acordo com as informações telegráficas que chegaram. Isso se passou logo no início das hostilidades. Podem ser vistos informes referindo a ocorrência de protestos contra a guerra em importantes cidades europeias, como Londres, São Petersburgo, Berlim e Lisboa (O INDEPENDENTE, 5 de agosto de 1914, p. 2)

Os acontecimentos europeus, portanto, tiveram alguma ressonância por aqui. Um setor do movimento operário, como referido anteriormente, se levantou em oposição ao conflito. Assinado por Carlos Cavaco, como presidente, o jornal A Federação publicara sua

contestação, cuja chamada era “Manifesto do Partido Socialista/ Ao Povo!/ Às classes trabalhadoras!/ Guerra à guerra!” (9 de agosto de 1914, p. 3).

De fato, o socialismo no Rio Grande do Sul estava profundamente ligado à mão-de-obra operária de origem alemã, como pode ser observado pela quantidade de signatários na fundação do partido com esse nome, em 1897 (MARÇAL, 1987, p. 13). No entanto, o partido citado no jornal não havia de ser o mesmo. Devia se tratar do partido de mesmo nome, fundado por Carlos Cavaco no ano de 1908 (SCHMIDT, 2002). Não obstante, a falta de referenciais teóricos, diferentemente do companheiro Francisco Xavier, o socialismo que Carlos Cavaco74 professava o tornara peculiar, marcado mais pelo voluntarismo e pela sua

Os segmentos à direita (revisionistas) do Partido Social-Democrata alemão foram acusados de colaborarem com o esforço de guerra (MATTICK, 1988).

Uma voz dissonante em relação à posição preponderante entre a social-democracia alemã, no interior da Internacional, havia sido a do socialista francês Jean Jaurès. Ele já discordara dos seus companheiros alemães, ao questionar a evidente incapacidade da social-democracia alemã em promover mudanças no governo alemão, apesar do crescimento eleitoral (BOTTOMORE, 1997). A postura do francês diante da guerra também foi distinta. Enquanto os líderes alemães haviam aquiescido com o governo do país naquilo que tangia à declaração de guerra, Jaurès havia permanecido contrário à mesma, até o seu assassinato em 31 de julho de 1914. Ao que parece, o movimento alemão se deixara levar pelo discurso chauvinista da propaganda anti-eslava, e até mesmo difundido-o (LUDWIG, 1931). Em certa medida, esse comportamento foi um reflexo da intensa propaganda de guerra do governo alemão, que utilizara o artifício de publicar documentos devidamente alterados para impressionar positivamente a opinião pública interna (como veremos no item 2.9.4).

74Consta que aderiu ao socialismo no ano da greve de 1906, e a palavra “revolução” o empolgara mais em

virtude da influência literária romântica do século XIX, até bastante francesa, como a obra de Victor Hugo (SCHMIDT, 2002). Além desse autor, para saber mais sobre Carlos Cavaco, ver: CAGGIANI, 1986.

vaidosa conduta pessoal. No manifesto em questão, as prédicas visavam a deixar nítida a solidariedade com os camaradas europeus.

O Partido Socialista vem agora pela imprensa [...] protestar contra a guerra que se estende tragicamente pelos povos civilizados da velha Europa.

Protesta, pois:

Em nome do sangue derramado, em nome do pranto vertido, em nome do luto que se multiplica, em nome da fome que ameaça as classes do trabalho, em nome da viuvez, em nome da orfandade!

[...]. Protesta contra a guerra!

Protesta contra o assassinato de Jean Jaurès! (A FEDERAÇÃO, 9 de agosto de 1914, p. 3).

Mesmo engajado na luta operária, além de socialista, Cavaco se identificava como republicano. Sua ideia de republicanismo provinha da inspiradora Revolução Francesa, que também seria a essência da sua doutrina socialista, daí a recorrência em usar expressões como liberdade e fraternidade (SCHMIDT, 2002). Essa recorrência se manifestou no artigo de

agosto de 1914, quando do protesto “em nome da liberdade violada, em nome da fraternidade ofendida, em nome dos princípios humanos esquecidos” (A FEDERAÇÃO, 9 de agosto de

1914, p. 3).

Em realidade, o socialismo fora uma maneira de Carlos Cavaco encontrar projeção na sociedade porto-alegrense, mediante uma causa (SCHMIDT, 2002). Assim, ele conseguiu

desempenhar o seu papel de “legionário de todas as ideias grandiosas” (SCHMIDT, 2002, p. 368). Aliás, a expressão “legionário” foi uma marca indelével da sua personalidade. No encerramento do “Manifesto Socialista”, em agradecimento ele deixa as seguintes palavras:

e como o Partido Socialista do Rio Grande do Sul não deseja exclusividade, nem preferências na grande batalha pelo Bem da Humanidade, declara que aceita agradecido [...] a colaboração de todo aquele que se alistar voluntário nas fileiras

combatentes dos Legionários da Liberdade” (A FEDERAÇÃO, 9 de agosto de 1914,

p. 3).

Ao longo de 1914, Carlos Cavaco continuou a cruzada contra o militarismo, advertindo contra os infortúnios que adviriam à classe trabalhadora sob a forma de aumento de preços e carestia (SCHMIDT, 2002). Com a continuidade das batalhas, a postura de Cavaco acabou sofrendo uma sensível alteração. Da condenação da guerra, ele migrou para o de apoio a um dos campos da contenda. Em 1917, ele formaria outro grupo de legionários, não mais da liberdade, mas do Sul, de guerreiros dispostos a grandes feitos, grupo que será alvo de comentários do trabalho, posteriormente, quando abordarmos o inesgotável ano de 1917 (item 4.5.2). O caráter de classe ficaria esmaecido pelo acentuado nacionalismo, com algumas pitadas de xenofobia. Entretanto, nesse momento do ano de 1914, a referência operária obtida

nos leva a observar que uma identidade coletiva maior, ainda era acenada como bandeira da identidade social.

2.8 O INCIDENTE DA DEUTSCHE POST: A DIVERGÊNCIA