H- PUTPEREST ARAPLARDA MELEK, CİN VE ŞEYTAN İNANCI
I- PUTPEREST ARAPLARDA SİHİR
Durante a primeira metade do século XIX, após a independência do Brasil, existia já um debate sobre a existência da nação brasileira, o qual foi marcado por uma produção literária de cunho romântico (LEITE, 1983; RICUPERO, 2004; SANTOS, 2010; WEFFORT, 2006). Mesmo tendo havido a mudança no eixo teórico a partir da década de 1870, com a busca de referenciais mais científicos, a questão da nação permaneceu como centro de discussões (LEITE, 1983; OLIVEIRA, 1990; SANTOS, 2010; WEFFORT, 2006), ultrapassando em bastante tempo o período em que a valorização do Brasil se encontrava restrita ao elogio do torrão natal – a pátria –, que era típico do final do século XVIII brasileiro (LEITE, 1983), embora não tenha desaparecido dos trabalhos dos períodos posteriores (MAGNOLI, 1997). Portanto, a nação não era um conceito que pudesse ser ignorado sob a alegação de que este era considerado pouco familiar à realidade brasileira no começo do século XX.
Ao observarmos aquilo que o vocabulário da época comumente compreendia daqueles conceitos, vê-se que, de fato, poderiam ocorrer interpretações conflituosas, que dariam, justificadamente, margem a manifestações alarmistas. Um dicionário da língua portuguesa, publicado em Lisboa (FIGUEIREDO, 1913), compreendia, como era de esperar, que a ideia de pátria remetia à terra em que se nascia. Enquanto a nação era entendida como um
“conjunto de habitantes de um território, ligados por interesses comuns e considerados como pertencentes à mesma raça [...] com caracteres comuns” (FIGUEIREDO, 1913, p. 213). Os
significados encontram semelhança com a apresentação feita por um outro dicionário, publicado no Rio de Janeiro, no ano seguinte (POMBO, 1914). Porém, este último apresenta maior detalhamento da compreensão da nação. Para ele, além de passar pela raça, os
caracteres comuns seriam igualmente importantes, como “índole, costumes, usos, cultos, língua, etc.” (POMBO, 1914, p. 498). Mais além, faz diferença em relação ao povo, porque a
nação é natural, enquanto o povo, sendo artificial, é o conjunto submetido a uma mesma lei e ao mesmo governo.75 Anos mais tarde, já depois da guerra, um terceiro dicionário, também editado no Rio de Janeiro, que igualmente compartilhava da visão sobre a pátria, expressou a
75
Aqui, talvez involuntariamente, é retomado o debate sobre nação política e nação cultural. No caso, ele o reduz
ao afirmar que “nação” seria o equivalente ao conceito de nação cultural, e que “povo” seria o equivalente da
nação como “a gente de um país, ou região, que tem língua, leis e governo a parte” (SILVA,
1922).
Eis aí uma outra questão que, ao invés de ajudar, complicou ainda mais: a noção de raça. Na passagem do século XIX para o XX, mais claramente a partir de 1870, o Brasil passou a respirar a influência cientificista que misturava biologia e política, mais precisamente, raça e nação (SILVEIRA, 2004). “No conjunto, pode-se pensar que a palavra designava um conjunto de valores morais, intelectuais e físicos inatos, comuns a determinados
grupos humanos, valores esses transmitidos hereditariamente” (COSTA, 2004, p. 66). A raça
parece reforçar a compreensão que se tinha da nação como algo inato ao agrupamento. “Tanto os pensadores estrangeiros quanto os letrados nacionais, por vezes, empregavam a palavra
„raça‟ para designar a nacionalidade do indivíduo” (COSTA, 2004, p. 78). Portanto, fica
difícil inferir exatamente aquilo que se desejava explicar quando faziam menção à nação, sendo muito necessário analisar o contexto no qual a citavam.
Embora não seja objetivo buscar a justificação dos conceitos utilizados a partir de dicionários, fica evidente – e este é o objetivo de vasculhar o significado corrente no início do século XX – que não havia uma percepção homogênea do seu significado dentro dos próprios dicionários, que foram elaborados por pessoas que se destacam por uma erudição acima da média. Agora, imagine-se a diversidade que poderia estar presente na cabeça do indivíduo comum.
Não pairando dúvidas maiores sobre a relação direta entre a terra de origem com a pátria, a nação se apresentava pluralíssima. Ela parecia contemplar, concomitantemente, os valores culturais e políticos expostos na longa discussão a respeito dos critérios identificadores da nação. Esta está, classicamente dividida entre nação cultural, tipificada pelo modelo alemão, e nação política tipificada, pelo modelo francês, fartamente discutida em algumas obras importantes brasileiras e estrangeiras que observam esta partição, seja concordando ou contestando-a (HERMET, 1996; OLIVEIRA, 1990. RICUPERO, 2004; SMITH, 2004). Ainda naquilo que tange à distinta ênfase dada à nação, cultural ou política, dependendo da interpretação que se aceitar, há de se contemplar também que a escolha e crença na veracidade de um critério como identificador influi na maneira como a dita “nação” se relaciona com o Estado constituído no qual as pessoas habitam. Portanto, a nação pode ser vista como uma coletividade que converge em relação ao Estado, encontrando nele um
elemento de agregação, ou, ao contrário, que vê no Estado um elo menor ou até mesmo avesso aos interesses da coletividade, ponto de vista levantado por Walker Connor (1991).
Em virtude da pouca clareza dos valores inerentes quando da evocação de uma nação brasileira, ficaria compreensível que uma pessoa se sentisse impelida à condição de alerta, ou preocupada, em posição diametralmente oposta a das ideias expressas pelo doutor Wilhelm Rotermund. Por certo, haveria aqueles que, alegando algum critério inato da raça alemã, do ponto de vista biológico, colocar-se-ia totalmente avesso à mesma, portanto, conceitualmente seria possível entender que o pastor estivesse pregando a lealdade a outro Estado, e não ao brasileiro. De acordo com o que se sabe, não era o caso, mas, afinal, querer o bem da pátria não implicaria necessariamente em mantê-la sob a mesma soberania (uma interpretação literal das palavras do artigo traduzido por A Federação permite tal possibilidade de conclusão, mesmo que forçada). O importante aqui é destacar que, independentemente da perspectiva que se pudesse adotar como correta, existia um caos terminológico que favorecia a ocorrência de desentendimentos.
A construção da identidade étnica resulta da alteridade e não necessariamente do isolamento de uma comunidade (WEBER, 1997), por isso ela repercute um processo histórico, que no Rio Grande do Sul começou em 1824. No caso dos indivíduos de origem germânica gaúchos, essas identidades afloraram nas décadas finais do século XIX (SEYFERTH, 2004). Ao longo do processo de fixação, ficou evidente a eleição de uma nova pátria pelos imigrantes. Contudo, os novos habitantes (os imigrantes) preservaram uma cultura que antecedia bastante à da pátria escolhida. Acontece que essa cultura, voltada para a afirmação da etnicidade – germanidade (Deutschtum) – passou a receber influência direta da Alemanha, entre a passagem dos séculos XIX e XX, através de pastores e professores que para o Brasil vieram. Muitos escritores alemães foram aqui celebrados, entre os quais Fichte (SEYFERTH, 2004), que fora o principal teórico do nacionalismo alemão (conforme comentado no capítulo anterior, no item 1.3), cuja característica englobava a aceitação de um poderoso Estado alemão e do racismo (BERLIN, 1999; HERMET, 1996). A identidade étnica foi reforçada através do desejo de preservação do grupo mediante a valorização da endogamia. Paralelamente, a própria fé luterana – amparada por missionários oriundos da Alemanha – visava ao enraizamento somente entre os indivíduos que tivessem em comum a ascendência, o que seria uma forma de preservação da germanidade (JUNGBLUT, 2004). Significa que, em realidade, os próprios indivíduos de origem germânica, indiretamente, estimularam a mescla conceitual entre etnia/raça e nação, sendo difícil precisar os limites
entre uma e outra. Então, é nesse aspecto que a preocupação expressa por Sílvio Romero reside (item 1.4 do capítulo anterior), quando ele mostra desconfiança em relação ao teuto- brasileiro (SEYFERTH, 2004).
Por fim, é sabido que na Igreja de Lutero a educação e a evangelização são indissociáveis76 (SÄNGER, 1961). Contemplando essa realidade insofismável que envolveu a criação de várias escolas confessionais no Rio Grande do Sul no final do século XIX e no início do XX, entidades alemãs, como a Allgemainer Deutscher Schulverein zur Erhaltung
des Deutschtums im Auslande (Associação Alemã de Escolas para a Manutenção da
Germanidade no Exterior) e a Orstgruppe Hamburg (Grupo Regional de Hamburgo),
fomentaram e apoiaram “escolas para alemães e descendentes no exterior bem como enviaram professores alemães” (ARENDT, 2005a, p. 39). Dada essa condição, ocorreu a fundação de
uma associação de professores, vinculada à entidade responsável pela preservação e pelo desenvolvimento da fé – Sínodo Riograndense (GOTTSCHALD JÚNIOR, 1961) –, que teve participação na criação do jornal Allgemeine Lehrerzeitung für Rio Grande do Sul (Jornal Geral para o Professor no Rio Grande do Sul), órgão que durante a Primeira Guerra anunciava
que a mesma era fundamental para a Alemanha “levar a cultura do povo alemão ao mundo”
(ARENDT, 2005a, p. 55). A autora evidencia que a defesa feita da germanidade carecia de uma sistematização, mas que passava pelo fomento de uma consciência étnico-nacional alemã (2005a, p. 109).77
Mais uma vez seria adequado frisar que não se está objetivando provar que havia o interesse da parte dos indivíduos de origem germânica, prenhes em contradições (SEYFERTH, 2004), e, no caso específico da de fé luterana, em buscar uma integração a outro Estado ou em romper com o brasileiro. O pastor Wilhelm Rotermund veio a dar, ao longo do tempo, sobejas provas de lealdade ao Estado brasileiro. Contudo, parece ser razoável supor que o contexto geral, não do ponto de vista teórico, mas prático, possibilitou a sincera
crença na existência de um “perigo alemão”. Afinal, “o movimento „germanista‟ era um fato,
e por isso não admira que setores da população brasileira deduzissem, a partir desses
elementos realmente existentes, conclusões sobre o conjunto da população de origem alemã”
(GERTZ, 2004a, p. 30).
76 Para Lutero, a igreja instituição externa tem por objetivo garantir o correto ensino e a correta pregação da
Palavra, sem a qual não se alcançaria a verdadeira Igreja (DREHER, 2006). Logo, não existe evangelização sem educação, nem educação sem evangelização.
77 Embora, neste caso, fosse mais importante compreender exatamente o significado da expressão étnico-
Convém ressaltar que a condução firme, porém compreensiva, do governo também se vinculava à concepção de política pública existente. Dada a influência positivista que defendia a liberdade de ensino, o governo não objetava a existência de escolas confessionais (SEYFERTH, 2004).
A grande repercussão foi dada pelo O Independente, que chegou a lançar uma edição especial de sábado, no dia 5 de setembro, para tratar do assunto. Sucintamente, chamava a atenção para o pan-germano que estava a tramar contra os brasileiros. Louvou os componentes das comunidades teuto-brasileiras que condenaram o pastor e explicou que o comportamento fomentado por Rotermund seria uma falta em relação à declaração de neutralidade e um demérito para a própria Alemanha, que teria nele um inimigo (O INDEPENDENTE, 7 de setembro de 1914, p. 2). Reafirmou a importância da colonização,
para circunscrever as críticas apenas ao referido líder, quando comentou que “a colônia
contribuiu para o povoamento do solo, valorizando-o; aumentou a produção do sul do Brasil” (O INDEPENDENTE, 5 de setembro de 1914, capa), mas lembrou que a mesma enriqueceu e obteve liberdade que na Europa não tinha e, portanto, ao compartilhar da cidadania brasileira, ninguém deveria nada em especial à colônia alemã. A investida contra o pastor, e contra a
Deutsche Post, continuou nos dias posteriores, chamando-os, novamente, de pan-germanos,
de contrários aos brasileiros (7 de setembro de 1914, capa), e acusando Rotermund de ter
“brasilofobia” (11 de setembro de 1914, capa). Quando da retratação, feita pelo pastor a
Borges de Medeiros, o jornal (7 de setembro de 1914, capa) bradou ofendido ante a menção de Rotermund a um possível erro de tradução, afirmando que não seria difícil entender aquilo que havia sido escrito em alemão. Dias depois, talvez esquecendo do que fora dito, ao reclamar de um artigo escrito por Arno Philipp na Deutsche Zeitung, o editorial d‟O
Independente afirmou que era muito difícil compreender a língua de Goethe, porque
“conhecemos apenas o alemão colonial, aquele patuá” (23 de setembro de 1914, capa). Ao
que parece, de fato pode ter ocorrido um mal entendido pela incapacidade de muitos homens do jornalismo municipal em compreender a língua alemã.
A postura do jornal estivera voltada aos casos dos supostos “mal-agradecidos” do sul do
Brasil, que seriam um motivo de ultraje, insulto que passaria pelo desprezo da língua portuguesa. À Alemanha, O Independente continuava mostrando respeito e consideração. Ao referir ao imperador Guilherme II, na mesma data do comentário citado anteriormente, pode
ser extraída a citação “o imperador Guilherme – a quem se tem lisonjeado amiudadas vezes as qualidades de sedução pessoal” (23 de setembro de 1914, capa). Tampouco residia aversão à
participação germânica na política do Brasil, ao ressaltar a importância de Koseritz, e
lembrando que este “expressava-se mal, mas escrevia sem pecados o nosso idioma” (23 de
setembro de 1914, capa).
Há de se dizer que os desdobramentos foram tão intensos no interior das comunidades germânicas quanto fora. Fazendo coro à repreensão dada pelo governo, jornais de língua alemã que circulavam em Porto Alegre repercutiram o fato, conforme excertos publicados em
A Federação. O comentário mais interessante proveio do jornal católico Deutsches Volksblatt,
ao afirmar que o colega vernáculo teria prestado “um mal serviço à colônia alemã!” Isso, porque o vocabulário e o tom manifestado pelo jornal colega “tem alardeado desde o princípio da guerra, não poucas vezes e com insistência charlatanesca, um heroísmo de boca”, para tanto insistia que o mesmo poderia “ter o critério e o discernimento preciso para não instigar
(...) a prevenção que os luso-brasileiros não deixam de nutrir contra nós alemães” (A FEDERAÇÃO, 11 de setembro de 1914, capa).
Vê-se no trecho acima que, apesar da firmeza da crítica, poderia haver, caso desejado fosse, de levantar também uma suspeita (mesmo que leve) contra quem criticara o pastor. Ao
mencionar “nós alemães”, os católicos reafirmavam o caráter étnico-cultural da
nacionalidade. Ao que parece, não teria relação alguma com a cidadania, mas um olhar apurado da parte de algum gaúcho cético poderia reforçar ainda mais as dúvidas sobre o povo germânico.
No entanto, o objetivo era de, claramente, debelar motivos de suspeita. Mais do que procurar possíveis focos de rebeldia, A Federação manifestava o intuito de lembrar a comunidade luterana da importância de estar sob o beneplácito temporal do governo. Claro, além de antever um possível foco de problemas em virtude da existência de uma maior quantidade de admiradores da França no estado, pois que, se comentários viscerais pudessem ser evitados, no futuro talvez não houvesse maiores ameaças à manutenção da ordem, como acabaram ocorrendo. Do ponto de vista do poder constituído, estava sendo dito que a autoridade do doutor Rotermund tinha claras limitações, que a circunscreviam ao campo religioso e não poderiam ser transpostas sem prévia aprovação de Borges de Medeiros.