O programa TV de Vanguarda foi um marco na história da televisão. De modo mais específico, podemos dizer que o TV de Vanguarda foi um marco na história da televisão paulista, se considerarmos o cenário no qual estava inserida a televisão. É sabido que a primeira emissora do país foi a PRF-3 Tupi, fundada na cidade de São Paulo em 18 de setembro de 1950. Tal fato fez com que as principais ações em torno desse advento ocorressem na mesma cidade, assim como a realização dos programas.
A realização dos programas e o desenvolvimento da televisão mais concentrado na cidade de São Paulo são fatores que suscitam a afirmação de que o TV de Vanguarda foi um marco na história da televisão paulista32. Seria difícil enumerar o principal motivo pelo qual seja reconhecido como um marco na história da televisão, porém se pode dizer que tamanho sucesso é resultado de uma união de fatores que estavam atrelados à produção do TV de Vanguarda.
O TV de Vanguarda foi escolhido para ser objeto deste estudo por uma característica que parece fundamental. Apesar de não ser o primeiro teleteatro da televisão (o Grande Teatro Tupi foi ao ar em 21 de maio de 1951); foi em 1952 que o teleteatro se
32 A mesma afirmação está presente nos Cadernos 4, intitulado O teleteatro paulista nas décadas de 50 e 60,
um caderno coordenado por Flávio Luiz Porto e Silva, organizado pela Prefeitura do Município de São Paulo e publicado em 1981.
consolida como gênero. Isso quer dizer que o começo das transmissões do TV de Vanguarda em 1952 é fundamental para que se possa identificar a existência de um gênero de televisão chamado teleteatro.
Como o próprio nome identifica, teleteatro é um gênero televisivo caracterizado pela adaptação e encenação de peças de teatro na televisão. Este gênero reinou de forma absoluta na televisão durante 12 anos até que, em 1963, surgiu a telenovela diária. Para se ter uma idéia desse reinado, “entre 1951 e 1963 foram produzidos 1.890 teleteatros (incluindo os teatros na TV) contra apenas 164 telenovelas” (ORTIZ, 1989, p. 53). Durante a década de 50 todas as emissoras paulistas: Tupi, Paulista, Record, Cultura e Excelsior - produziram programas de teleteatro. Podemos dizer que o TV de Vanguarda teve participação significativa nesse número de teleteatros, uma vez que foi exibido de 1952 a 1967.
Além do alto número de exibições, o TV de Vanguarda deve ser considerado como um dos mais importantes teleteatros devido ao tipo de preocupação dos profissionais envolvidos em adaptar a forma de encenação do teatro para a televisão. Uma comparação entre o TV de Vanguarda e os outros dois programas de maior relevância dentro da TV Tupi, O Grande Teatro Tupi e o TV de Comédia, aponta essa busca dos profissionais em utilizar um formato e uma linguagem que estivessem mais adequados para a TV, considerando as novas possibilidades ofertadas pelo uso da imagem.
O Grande Teatro Tupi, por exemplo, regularmente exibido às segundas- feiras, é mais conhecido pela encenação de peças por grupos de teatro que não tinham nenhuma relação com a televisão. Inclusive, como a segunda-feira costumava ser o dia de folga das companhias e grupos de teatro, os artistas iam ao estúdio para ensaiar somente no dia da própria apresentação. Essa forma de encenar uma peça, sem que os atores tivessem tempo para a adaptação ao estúdio, acabou por limitar a utilização dos recursos da televisão.
“Apesar de um diretor de TV, geralmente Luiz Gallon, acompanhar o ensaio e procurar dar ao espetáculo uma forma mais compatível com a televisão, o que resultava era um trabalho teatral. A própria estrutura do programa contribuía para isso: o grupo que iria se apresentar só comparecia à televisão para o ensaio no estúdio na tarde de segunda-feira. Não havia,
portanto, tempo para ajustar-se a forma teatral à linguagem da televisão e as câmeras terminava por permanecer estáticas, comportando-se como espectadores na platéia”. (SILVA. 1981, p. 60)
Dos três programas citados, o TV de Comédia foi o último a ingressar na televisão, sendo exibido pela primeira vez em 1957. O mais curioso em relação a esse programa é que seu principal produtor, Geraldo Vietri, começou a trabalhar na televisão sem ter experiência prévia com o rádio ou com a televisão (SILVA, 1981, p. 65). Dessa forma, diante da comparação entre os três programas de maior expressividade do teleteatro paulista na TV Tupi, podemos notar que cada um deles tinha uma característica marcante que lhe garantia exclusividade. No entanto, é o TV de Vanguarda que buscou se apropriar das muitas linguagens possíveis na televisão.
Os recursos de voz, de postura, de ensaio com os atores, de posicionamento, de angulação de câmera, enfim, uma série de adaptações começou a ser feita com base nas peças de teatro. O interesse em trabalhar a encenação de grandes peças na televisão a partir da utilização de muitas técnicas inovadoras colocou o TV de Vanguarda como um programa que anunciou a capacidade da televisão em apresentar encenações arrojadas, ainda que o início dessas encenações não tivesse sido um primor.
Essa busca em utilizar uma linguagem própria de televisão, tendo como base a ousadia dos profissionais envolvidos nesse processo, foi uma faceta revelada em toda a existência do TV de Vanguarda. Essa característica ficou ainda mais evidente quando, em 1958, foi utilizado pela primeira vez no Brasil o videoteipe33 na apresentação do teleteatro Duelo de Guimarães Rosa. A utilização do videoteipe foi o fator que influenciou diretamente na divisão da primeira e da segunda fase do TV de Vanguarda.
“Historicamente o TV de Vanguarda pode ser dividido em três fases distintas: a das transmissões ao vivo (de 1952 a 1960); a do videoteipe (de 1960 a 1962) e a fase que se seguiu à saída de Walter George Durst e de grande parte do elenco para a TV Excelsior, quando então a produção e direção do programa passaram para Benjamin Cattan, elemento que vinha do teatro (de 1962 a 1967)”. (SILVA, 1981, p. 36)
33 A informação sobre a primeira utilização do videoteipe no Brasil foi encontrada na sessão dos
É importante saber que a história do TV de Vanguarda foi dividida em três períodos, mas não cabe neste trabalho a análise de cada fase do programa. A relevante presença do videoteipe, que marca o início da segunda fase, se deu na década de 60 e foi até 62, data que extrapola o período que orienta este estudo. O mais importante em relação à definição de fases do TV de Vanguarda é que o programa foi acompanhando as mudanças no cenário das produções.
Os quinze anos de duração do TV de Vanguarda foram marcados por uma série de modificações na forma como se fazia televisão. Ainda na primeira fase, era possível observar como os profissionais do teatro tiveram que encarar a televisão de uma maneira mais acessível e aceitar o fato de que surgia um novo meio de comunicação que abria as portas para os artistas dos palcos. O intercâmbio entre os atores também pôde ser observado como um processo existente em outros gêneros da televisão, como a telenovela. Apesar do intercâmbio ter um caráter um pouco mais difícil na realização dessas produções.
A televisão era encarada pelo artista de teatro, considerado na época intelectualmente superior, com um certo desprezo (SILVA, 1981, p. 33). E esse julgamento do artista de teatro era ainda pior no caso das telenovelas. Dentro da televisão ainda havia o teleteatro, que era uma espécie de consagração das obras clássicas, um programa cultural mais elitizado, ao contrário da telenovela, que não tinha esse diferencial de produção artística. Isso dificultava ainda mais o intercâmbio entre os artistas que julgavam a telenovela um gênero menos politizado.
Por meio dessa consideração, de que a telenovela era julgada como um gênero de menor importância, é que damos seqüência ao trabalho. O próximo ponto deste mesmo item de gêneros que marcaram a história da TV analisa a primeira telenovela brasileira e as características que fizeram parte dessa produção inovadora.