• Sonuç bulunamadı

A relação estabelecida entre os familiares é um dos fatores para a construção dessa ordem social intitulada família. Nessa ordem social, o complexo jogo das relações garante uma troca que permite a transformação dos vínculos entre os familiares e a estrutura da própria família. Isto é, a comunicação estabelecida confere a seus realizadores o poder de mudança dessa estrutura social que lhes agrega; assim como a estrutura social interfere diretamente no modo como seus entes se comunicam. A agregação de diversas identidades em um comum confere a essa instituição um corpo vivo e mutante.

Partindo da consideração de que a forma como se dão os relacionamentos entre os familiares gera um corpo organizacional vivo e mutante, podemos começar a analisar a maneira como se dão os vínculos entre os familiares. O complexo jogo de relações – vinculações estabelece uma “dialética da família”14 que parte para o estabelecimento de uma dinâmica própria, desde o nascimento de um novo membro, até o rompimento de vínculos por meio da perda de um familiar.

A questão é que pouco importa a natureza deste vínculo, se ele começa dentro da família, no caso específico do modelo patriarcal, ou surge pelo apadrinhamento de uma pessoa de fora desta ordem social e que passa a fazer parte desse universo. O

14 A terminologia “dialética da família” faz referência à publicação intitulada Dialética da Família, de 1981,

princípio de toda a organização dos relacionamentos interpessoais é que ninguém pode viver isolado. O vínculo é uma das condições da vida humana, juntamente com a função e o sentido que atribuímos às coisas (CYRULNIK, 2005, p.57). Sem a vinculação não haveria a construção da ordem social familiar e dos relacionamentos de um modo geral.

A noção dos vínculos está além da interpretação da união dos comuns, pois a simples idéia de juntar um determinado número de pessoas sob uma mesma ordem não funciona para a criação de relacionamentos. A fim de estabelecer uma noção mais precisa, devemos utilizar o termo vinculação sob a ótica da comunidade, para qual utilizaremos a definição abaixo explicitada:

“A ‘comunidade’, cujos usos principais são confirmar, pelo poder do número, a propriedade da escolha e emprestar parte de sua gravidade à identidade a que confere ‘aprovação social’, deve possuir os mesmos traços. Ela deve ser tão fácil de decompor como foi fácil de construir. Deve ser e permanecer flexível, nunca ultrapassando o nível ‘até nova ordem’ e ‘enquanto for satisfatório’. Sua criação e desmantelamento devem ser determinados pelas escolhas feitas pelos que as compõem - por suas decisões de firmar ou retirar seu compromisso. Em nenhum caso deve o compromisso, uma vez declarado, ser irrevogável: o vínculo constituído pelas escolhas jamais deve prejudicar, e muito menos impedir, escolhas adicionais e diferentes”. (BAUMAN, 2003, p. 62)

O vínculo como uma construção de laços, entre aqueles que permanecem sob a composição da comunidade, é o que garante a sobrevivência do homem ao longo do tempo. A humanidade se manteve e se mantém graças às comunidades criadas como ordens sociais de confirmação de sua existência através do número de pertencentes a tal ordem. Na verdade, o número de pessoas que fazem parte da comunidade é importante na medida em que suas identidades são preservadas perante os outros e o compartilhamento de suas experiências pessoais assegura aprovação social.

A questão apresenta um alto grau de complexidade, pois ao mesmo tempo em que os homens se relacionam e se vinculam criando uma comunidade, a comunidade se apresenta como uma ordem social que parece delimitar o campo de ação de cada um de seus pertencentes. Como é visível nas estruturas das famílias patriarcais, essa ordem social é

flexível, uma espécie de corpo em constante construção que se modifica conforme o desenrolar das relações estabelecidas dentro de seu campo social, mas também segue uma certa conduta que exige a manutenção desses vínculos tal como um organismo vivo.

A manutenção dos vínculos exige cuidado daqueles que estabeleceram laços sob a ordem dos relacionamentos interpessoais. Da mesma forma como o conjunto de regras estabelecidas na comunidade e a dinâmica própria das relações - vinculações permitem a sobrevivência daqueles mantidos por tal organização social, os vínculos devem ser mantidos por uma série de condições próprias da comunidade. Quer dizer, o vínculo perpetua a comunidade, que por sua vez perpetua o homem, porém a comunidade também deve perpetuar os vínculos.

Uma das formas que a comunidade oferece para a perpetuação dos vínculos é o encontro. Mais do que isso, “é do encontro com o outro que nasce o amor e a comunicação, e é do encontro com o outro que construímos, desde o início, nossa própria identidade” (CONTRERA, 2005, p. 47). O encontro é a mais significativa forma de vinculação, pois “o ser capturado e o deixar se capturar” por alguém da comunidade é a construção de uma forte ligação de identificação entre o eu e o outro. Naquele exato momento de reiteração da identidade, os homens não apenas se põem em contato, mas estabelecem um vínculo de captura e de comunicação.

Chegamos ao ponto crucial sobre a discussão de vinculação e comunidade, pois é esse debate que oferece condições para a interpretação da comunicação sob a forma como pretendemos trabalhar: comunicação é vínculo. Somente a partir do princípio de que comunicação e vínculo, de que compartilham da mesma realidade semântica, é que podemos desenvolver as questões apontadas pelo presente estudo. Seria muito difícil tratar a introdução da televisão na esfera da família paulistana nos anos 50 se o vínculo estabelecido entre os familiares deste período não fosse considerado comunicação.

Todos os aspectos apresentados até aqui são relativos a este interesse de propor o diálogo entre dois aspectos que, inicialmente, parecem estar diametralmente opostos. De um lado está a comunicação, do outro está a família e seus estudos amplamente realizados pela linha da biologia e da psicologia. O que se pretende neste estudo é a análise conjunta destes dois fatores, pois a comunicação provavelmente não existiria se não houvesse a família. Na verdade, há uma forte ligação entre a comunicação e os vínculos

mantidos pelos familiares, a noção de comunidade e a família, o ambiente comunicacional e o momento em que se dá a comunicação por meio do ponto de encontro, entre outros fatores.

É interessante observar a importância da família para a construção dos vínculos e para a realização da comunicação. Fazendo uso da difundida colocação de que a comunicação começa e termina no corpo15, poderíamos nos arriscar ao dizer que, em termos sociais da família de modelo patriarcal encontrada em grande escala na década de 50, a comunicação começa e termina na família. Somos introduzidos nessa ordem social no nascimento, pertencemos a ela durante todo o período em que permanecemos vivos e continuamos carregando traços das experiências tidas nessa esfera durante os últimos anos de vida. Estabelecemos uma identidade pessoal e desenvolvemos nossas capacidades comunicativas a partir da vivência que experimentamos neste ambiente comunicacional.

Benzer Belgeler