A consideração de que a comunicação em nível social começa e termina na família nos obriga a analisar o pensamento que dá origem a tal citação. Logo, somos postos diante da teoria da mídia primária, que dá sustentação ao desenvolvimento da máxima de que a comunicação começa e termina no corpo. Primeiramente, é necessário analisar o significado de mídia primária a fim de compreender melhor esta questão acerca da família e do corpo.
A mídia primária é constituída pelo conjunto de palavras e simbolizações corporais humanas que não exige nenhum outro modus material além do próprio sujeito que se comunica, ou seja, sem instrumentos e aparelhos. Essa comunicação se dá mediante a adoção de símbolos verbais e não verbais, sendo o principal meio de entendimento entre os homens devido a sua intencionalidade e indicação de estabelecer o contato com o outro. O resultado deste tipo de comunicação, que tende a ser franca e aberta, depende da forma como está organizada a comunidade que a sustenta e o código do grupo no uso relativo dos símbolos e dos lingüísticos. (PROSS e BETH, 1990, p.162)
Na verdade, a palavra mídia em português é uma tradução equivocada para a terminologia medien do texto original em alemão de Harry Pross. Talvez a tradução mais próxima de seu significado seja a do espanhol medios e que de forma literal para o português seria meios. Logo, o que definimos com a terminologia mídia primária deveria ser meios primários. O que faz mais sentido se pensarmos no corpo como um meio, uma passagem, uma posição intermediária, uma possibilidade de estar com o outro e estabelecer alguma forma de contato no momento do encontro.
“Na língua da qual vem o latim e quase todas as outras famílias lingüísticas européias, o indo-europeu, essa palavra já existia, ‘medhyo’, e já significava ‘meio’, ‘espaço intermediário’. E ela poderia ser traduzida hoje, em tradução livre por ‘meio de campo’. Assim, a mídia não é outra coisa senão o meio de campo, o intermediário, aquilo que fica entre uma coisa e outra”. (BAITELLO, 2005, p.31)
A interpretação do termo mídia primária muda de figura, pois não é o corpo por si só que como mídia emite uma informação. O corpo passa a ser esse “meio de campo”, uma possibilidade de comunicação que surge nas mais diferentes formas de apresentação com função semântica, no caso das palavras, da linguagem e da fala, e representativa, quando consideramos essenciais os elementos que estão inseridos no ato da comunicação primária como os gestos, o meneio de cabeça16, as expressões faciais, o tom de voz, as articulações, a forma de movimentar os braços e as pernas, etc.
Essa maneira particular de analisar a comunicação em nível interpessoal nos leva a crer que o corpo é o ponto de partida e de chegada, bem como o meio pelo qual a comunicação da mídia primária se torna possível. Assim, nos parece possível desenvolver melhor os aspectos anteriormente apresentados no que diz respeito à família. O paralelo entre a importância do corpo para a realização da comunicação em mídia primária e a organização da família em termos sociais só pode ser traçado a partir do momento em que se define especificamente cada elemento envolvido neste processo.
Os conceitos de mídia primária, de corpo, de comunicação e de vínculos devem seguir a lógica da maneira como foram explicitados até aqui para, então,
16 Terminologia empregada por René Spitz para fazer referência à movimentação da cabeça para os lados, o
abordarmos todos esses aspectos de forma integrada. O corpo é fundamental para o encontro no qual o eu e o outro se tornam acessíveis e acessáveis num momento específico de tempo e espaço determinados. Já que “a comunicação entre duas mentes é impossível (...), a comunicação só pode ocorrer de uma forma indireta” (VIGOTSKI, 2003, p. 186). A acessibilidade se dá por meio da mídia primária com a possibilidade do surgimento da comunicação entre esses dois corpos que se relacionam – vinculam dentro de uma ordem social, que no caso é a ordem da família.
É importante ressaltar que este trabalho não tende a buscar fórmulas que dêem conta de todas as temáticas que possam surgir no âmbito da comunicação familiar, pois estaríamos sujeitos a reduzir o complexo conjunto de características dessa esfera. Como foi visto anteriormente, a forma como se estabelece a dinâmica da família e de seus familiares está em processo de formação, de mudança, de crescimento e sob ajuste permanente. O interesse principal é de verificar apenas uma faceta desse vasto universo já muito explorado. Essa faceta a ser compreendida é exatamente instância da família enquanto primeiro ambiente comunicacional em que os vínculos são estabelecidos.
Tendo por base este pensamento, torna-se fundamental assegurar que a comunicação estabelecida na esfera da família considera os fatores que estão ao redor dela no macrossistema social, de acordo com um viés sócio-cultural. Diferentemente das teorias elaboradas pelos estruturalistas dos anos 60, representados pela figura de Marshall McLuhan17, que acabavam por reduzir a complexidade dos processos comunicativos em uma troca de mensagens por um canal que liga emissor ao receptor.
A comunicação não pode (e nem deve) ser entendida como um processo mecânico que se define muito mais pela facilidade de transição da mensagem pelo canal, do que pela consideração de que na ponta desse sistema há dois corpos que se comunicam.
“Essa abordagem gira em torno de um modelo onde dois ou mais indivíduos interagem, trocando mensagens contra um pano-de-fundo necessário (o medium), embora teoricamente pouco relevante, já que o maior
17 Marshall McLuhan é autor de diversos livros, tais como Os meios de comunicação como extensões do
homem e A galáxia de Gutenberg - a formação do homem tipográfico, e um dos principais divulgadores de teorias que defendem o meio como mensagem, a existência de meios quentes e frios, entre outras.
cuidado acadêmico visa às motivações individuais e coletivas, as performances e os resultados”. (SODRÉ, 2002, p. 227)
Por essa razão é que a análise sobre a comunicação mantida pela criação de vínculos valoriza o cenário da esfera familiar. O interessante é o que está por detrás da informação, a atuação da linguagem não-verbal e sua contribuição para a construção dos vínculos entre os familiares. Nesse sentido, é fundamental considerar as ações das pessoas e os rituais que fazem parte do universo da comunicação, por exemplo, quando os familiares se encontram para jantar ao redor da mesa da cozinha e colocar a conversa em dia.
A família é o cenário perfeito para a constatação de que a mídia primária e suas características intrínsecas de comunicação pelo contato espacial e temporal estão no “outro lado da moeda”. Os estudos que se dedicam exclusivamente à informação, acabam por estabelecer suas ações a um plano limitado de verificar os resultados da comunicação entre os indivíduos partindo de uma política de ganhos. Ora, a comunicação pode ser analisada sob qualquer estrutura paradigmática. No entanto, devemos ter cautela ao afirmar que comunicar significa ganhar ou perder alguma coisa.
Essa visão da comunicação pensada em ganhos e perdas é, de uma certa forma, uma maneira atual de pensar os meios de comunicação. Acontece que os meios de comunicação estão além da exaustiva análise do ibope da televisão e da internet. O corpo dos indivíduos que fazem parte da família é um meio de comunicação, tal qual a televisão, mas exige ressalvas. E é exatamente essa investigação que será realizada ao longo deste trabalho, se a forma como a TV foi introduzida no modelo de família patriarcal nos anos 50 utilizou as características da comunicação em nível primário, ou não, para estender seu alcance aos telespectadores por meio de telas e infinitos suportes.
Entretanto, para chegarmos a essa análise avançada sobre os meios de comunicação, temos que desmistificar a idéia de que a informação é o componente essencial no processo que envolve a mídia primária. O pressuposto para a comunicação entre duas pessoas, por exemplo, é a vinculação que está balizada pelos pilares da captura e do encantamento existentes no momento do encontro. É como se houvesse um ritual que permitisse o enlace momentâneo daqueles que se comunicam; o arrebatamento de dois corpos que se mantêm unidos por uma ponte que converge em sentido, sentido de amar.
Podemos considerar o amor como uma das condições fundamentais para o estabelecimento da comunicação nos mais diversos ambientes. “É do encontro com o outro que nasce o amor e a comunicação (...)” (CONTRERA, 2005, p. 47). Especificamente no caso da família, é muito difícil tratar da construção de vínculos entre os familiares se faltar o amor e a atribuição de sentido que tal sentimento evoca no âmbito da família. As reuniões de domingo, a revelação de segredos entre irmãos, as conversas íntimas e infindáveis entre mães e filhos, todas essas situações que implicam em alguma forma de comunicação estão diretamente relacionadas à construção de vínculos entre os familiares. Isso é vinculação.
Até podemos considerar a informação importante neste processo se considerarmos sua função informativa de ser a configuração de um determinado assunto a ser abordado numa conversa. Apesar disso, a informação é verificada em contextos nos quais o objetivo principal de sua emissão não é a construção e a manutenção de vínculos que possam agregar sentido e função social, no ponto de vista da comunicação que engloba o amor. A informação pode ser qualquer coisa emitida no contexto do encaminhamento no modelo emissor – mensagem – canal – receptor, sem que esteja revestido de uma porção de significado.
“No contexto destas determinantes do processo de comunicação se revela com toda clareza porque sociologicamente <<informação>> se entende como mensagem que é reduzível. (...) A relação entre informação e incerteza (estar desinformado) nos remete às condições comunicativas, pois é evidente que a informação depende de formas que estão revestidas de significado.” (PROSS e BETH, 1990, p. 116/117)
Na verdade, a informação vem a ser uma mensagem que deveria suprir a necessidade primeira do homem do desconhecimento, de estar desinformado, e por conseqüência da incerteza gerada pela desinformação. É interessante essa visão sobre a informação, pois podemos verificar uma mesma questão sob duas óticas distintas. A primeira defende a informação enquanto mensagem capaz de suprir, responder as dúvidas sobre as incertezas do mundo e da vida cotidiana. Por outro lado, a segunda ótica, defendida por estudiosos como Pross, considera que a informação por si só pode ser entendida como uma mensagem reduzida que para comunicar necessita de um revestimento de significado.
Somos compelidos a pensar no papel da informação dentro da estrutura social da família, como ela poderia vir a interferir nesse universo, sua colaboração para a aproximação dos entes e a manutenção de vínculos. Chegamos à observação de que a informação isolada e desprovida de significado não é capaz de partilhar dessa complexa estrutura na qual se origina e se mantém a comunicação. A troca de informações tende mais ao contexto mercantil das empresas que trabalham com a produção de informação e são sustentadas pelas teorias regidas por números voltados à lucratividade, do que à sua aplicação em contextos que consideram a função do relacionamento e da vinculação dentro de suas estruturas.
2 MODUS OPERANDI:
O surgimento da televisão no Brasil foi resultado de uma somatória de fatores. Do ponto de vista histórico, a década de 50 foi um período marcado por acontecimentos que anunciavam diversas mudanças na sociedade. Podemos citar, de forma mais específica, a movimentação em torno de uma política nacionalista e o interesse pelo desenvolvimento das indústrias de bens duráveis. Essa onda de investimentos, também por parte dos planos políticos apresentados pelos presidentes da época, foi um fator importante do processo que permitiu a introdução da televisão no país. No entanto, foi sob a responsabilidade de Assis Chateaubriand e seu interesse em ampliar o setor de comunicação que o advento da televisão se tornou possível.
Como foi visto na primeira parte do capítulo 1, é inevitável afirmar que o cenário histórico contribuiu para essa ocorrência. A crise do papel e o grau de interferência do capital estrangeiro nas produções, por exemplo, foram fatores colaboradores para os principais acontecimentos que deram abertura para o surgimento da televisão no país. É correto afirmar que houve uma série de outras ações que também influenciaram nesse processo, porém os mais relevantes no que se referem aos meios de comunicação foram apresentados anteriormente.
É sabido que essa explosão de acontecimentos fez com que a introdução da televisão no país ocorresse de uma maneira definitiva e interferisse diretamente na estrutura social da família. Contudo, ainda não foi discutida a forma como ocorreu o processo de introdução da televisão na sociedade, dando ênfase ao advento e desenvolvimento desse meio de comunicação no âmbito da família que vivia na cidade de São Paulo.
É por isso que uma análise mais superficial talvez concluísse que houve uma pressão dos profissionais envolvidos nesse processo para que a televisão começasse a fazer parte da realidade comunicacional do período, incluindo a esfera familiar. No entanto, uma avaliação mais cuidadosa pondera que a televisão até poderia ter surgido como fruto do interesse de um determinado grupo social, porém esse meio não conseguiria se fixar nos ambientes familiares se a população não fizesse parte desse processo, já que no início das transmissões as pessoas se agregavam em torno dos duzentos aparelhos disponíveis na cidade.
O furor causado pela manifestação popular verificada nos centros urbanos do eixo Rio – São Paulo foi o demonstrativo que indica a aceitação desse meio de comunicação dentro das distintas esferas sociais. Talvez valha dizer que a principal dificuldade no período de seu surgimento foi o preço de compra dos aparelhos, o que dificultava o acesso das famílias mais pobres. Apesar disso, o fator financeiro não foi empecilho para o desenvolvimento dos mercados em torno desse aparato.
A Folha da Manhã - Vida Social e Doméstica p.12 Domingo, 22 de fevereiro de 1953.
A Folha da Manhã - Assuntos Especiais p.6 Domingo, 27 de setembro de 1953.
Figuras 2 e 3: Os anúncios mostram que o preço total da televisão é equivalente ao valor da entrada de um apartamento na Av. Ipiranga.
Nesse ponto, a pesquisa se volta para a forma como algumas camadas da população se sentiram levadas a tornar-se público das produções exibidas, ainda de forma experimental. É necessário verificar o que chamava a atenção do público para que ele se deslocasse de seu ambiente do cotidiano para compartilhar momentos de lazer com aqueles que tinham condição de comprar o aparelho televisor. Ainda não estamos falando da introdução da televisão nos lares, de forma propriamente dita, pois, devido ao número de aparelhos, a maior parte deles se encontrava em estabelecimentos comerciais.
No entanto, não demorou muito para que o caráter das produções chamasse a atenção do público e um número cada vez maior de pessoas quisesse ter seu próprio aparelho em casa. Esse interesse pela televisão está associado ao caráter de inovação que traz consigo toda e qualquer mudança, como também está relacionado com as estratégias utilizadas pelos profissionais da área para atingir cada vez mais público para suas produções. É importante compreender que os poucos aparelhos instalados na cidade de São Paulo não davam conta de atingir um grande número de pessoas. O cenário era bem diferente do que conhecemos hoje, não havia tamanha facilidade de entrar em contato com os bens de consumo, principalmente com a televisão.
Os aparelhos foram colocados em locais estratégicos, estabelecimentos comerciais e pontos de encontro, onde a passagem de um certo número de pessoas fosse garantida. Seria precipitado falar que o número de aparelhos pudesse interferir na estrutura da família, logo no momento de sua introdução no país. No entanto, a pesquisa caminha de modo a avaliar se na primeira década de implantação da TV no país, houve uma modificação na estrutura comunicacional das famílias. Enquanto diversos fatores do cenário histórico colaboraram para que tal evento acontecesse, é necessário verificar que o público que participou dessas mudanças não tem interesse consciente em dar suporte para a criação de um novo cenário comunicacional.
Somente a partir de alguns anos após o momento inicial em que os aparelhos foram colocados nos pontos comerciais, a televisão passou a ser vista como um bem a ser consumido pela população, já que o público se sentia mais familiarizado com o objeto em si e sua programação. Desse modo, a família passa a ser o principal cenário de
atuação da televisão, com uma dinâmica diferenciada ao ser influenciada diretamente pelo início da existência de um meio eletrônico em seu ambiente de comunicação.
2.1 Principais aspectos inseridos no processo de disseminação da televisão ao longo da