4. DEĞİŞİM ve DÖNÜŞÜM İSTEĞİ
4.2 Psikolojik Maske: Persona
Nesta seção, apresentar-se-á de forma breve o que se considera atividade mediada. Este conceito auxilia na compreensão de como, partindo de uma abordagem sócio-histórica, é possível compreender a ação dos sujeitos no mundo e sua relação com as tecnologias.
Para Leontiév a atividade pode ser definida como:
Processos psicologicamente caracterizados por aquilo a que o processo, como um todo, se dirige (seu objeto), coincidindo sempre com o objetivo que estimula o sujeito a executar a atividade, isto é, o motivo (...) esta ação, por sua vez, ocorre de forma mediada. (LEONTIÉV, 1988, p.68).
Para este autor a análise das atividades é responsável por tornar claro como os processos de formação pensamento ocorrem. Para Bock, Furtado e Teixeira (2008), é a partir da atividade que “os seres humanos se põem no mundo e criam a relação fundamental que permitirá todo o processo de transformação do mundo e de si mesmos” (p.80).
A atividade é constituída por dois níveis menores, a ação e a operação (LEONTIÉV, 1978). Ação “é um processo cujo motivo não coincide com seu objetivo (isto é, com aquilo para o qual ela se dirige), mas reside na atividade na qual ela faz parte” (LEONTIÉV, 1988, p.69). A ação é, portanto, um nível existente dentro da própria atividade, mas que se diferencia desta por possuir um objetivo a parte, que não se coincide com o da atividade, mas colabora para seu alcance. A diferenciação está no fato de que o motivo da ação por si só, não é suficiente para estimular o agir (LEONTIÉV, 1988). Este autor acrescenta ainda que em certas ocasiões a ação pode ser mais significativa do que o motivo que a induziu. Há também
29 exceções às regras, como o caso das brincadeiras lúdicas infantis, onde a ação coincide com o objetivo do agir, sendo seu próprio fim.
A operação, por sua vez é “o modo de execução de um ato. O conteúdo necessário de qualquer ação, mas não é idêntico a ela” (LEONTIÉV, 1988, p.72). A operação é então o menor nível da atividade, sendo determinada pela tarefa. O objetivo de uma operação é satisfazer uma ação, ou seja, operacionalizá-la. A importância de se compreender estes níveis constituintes da atividade está no fato de que sujeitos distintos engajados em uma mesma atividade podem ter ações e operações diferentes. Um iniciante, por exemplo, apresenta um maior número de ações mais isoladas, que integram uma atividade geral. Em contrapartida, um sujeito experiente engajado em atividade semelhante apresenta níveis de ações conscientes menores e menos fragmentadas. Isso porque, no decorrer da atividade as ações de um iniciante se tornam operações quando este atinge certo nível de experiência (LEONTIÉV, 1988).
A atividade está representada, portanto, em níveis menores de sua organização que variam consideravelmente dependendo dos sujeitos, do contexto e da natureza da própria atividade. Estas considerações refletem a necessidade de uma análise mais detalhada e com maior foco no processo, que é onde se torna possível tomar conhecimento destas diferenças.
A atividade possui ainda outra caraterística importante na proposição da Teoria da Atividade: a mediação. Ao afirmar que os seres humanos transformam o mundo e neste sentido acabam por transformar as condições de sua própria existência, inicialmente Vygotsky (1984) e mais tarde Leontiév (1978) atentam para o fato de que este agir sobre o mundo só é possível através da mediação. O conceito de mediação é, no entanto, trabalhado com diferenças entre estes autores. Para Vygotsky (1988) a mediação está representada em dois níveis distintos: psicológico e material. O nível psicológico estaria representado pelos signos e símbolos, enquanto o nível material pelos instrumentos. A definição de ambos é assim elaborada:
A função do instrumento é servir como um condutor da influência humana sobre o objeto da atividade; ele é orientado externamente; deve necessariamente levará mudanças nos objetos. Constitui um meio pelo qual a atividade humana externa é dirigida para o controle e domínio da natureza. O signo, por outro lado, não modifica em nada o objeto da operação psicológica. Constitui um meio da atividade interna dirigido para o controle
30 do próprio indivíduo. O signo é orientado internamente.” (VYGOTSKY, 1984, p.73).
Outros trabalhos apresentam classificações aparentemente distintas para a mediação das atividades, como por exemplo, Ratner (1999), que classifica três espécies de mediação: consciência, cooperação social e instrumentos. No entanto, entende-se que a classificação deste autor é similar à formulada por Vygotsky (1984) na medida em que consciência e cooperação social seriam formas de mediação que dependem necessariamente dos signos e símbolos socialmente compartilhados. As classificações destes autores também convergem no sentido de se considerar um nível mediador interno (psicológico) e um nível mediador externo (material) que embora estejam relacionados, podem ser considerados distintos. Luria (1988) também utiliza este conceito de atividade mediada e instrumento.
Para Leontiév (1978) o instrumento é um “objeto com o qual se realiza uma ação de trabalho, uma operação de trabalho” (p.82). Para este autor, a mediação instrumental junto com a mediação pelos outros (social) é a verdadeira mediação que dá forma à atividade. Outro avanço na concepção de mediação instrumental por parte de Leontiév (1978) quando comparada àquela formulada por Vygotsky (1984) diz respeito à alegação de que, embora o instrumento tenha orientação externa, possui também uma dimensão psicológica na sua mediação: “o instrumento, por exemplo, não é de modo algum em si um objeto psicológico; todavia, a estrutura interna da atividade intelectual ligada ao instrumento e ao processo de domínio do instrumento tem indubitavelmente um conteúdo psicológico” (LEONTIÉV, 1978, p.136).
Trazendo a discussão para a ergonomia, Béguin e Rabardel (2000) ampliam a noção de ação instrumental a partir da proposta por Leontiév (1978). Estes autores contemporâneos, preocupados em trazer as contribuições da Teoria da Atividade para as atividades de projeto de produtos, propõem considerar a atividade como o ato de “agir sobre um objeto para atingir uma meta e dar forma concreta ao motivo” (BÉGUIN e RABARDEL, 2000, p.175), em sintonia com a proposição de Leontiév (1978) em “O Desenvolvimento do Psiquismo”. Explicam que, só é possível agir sobre o objeto da atividade com a mediação de uma terceira parte: o instrumento. O diferencial da proposta destes autores é o fato de que, partindo das formulações da Teoria da Atividade, apresentam o conceito de instrumento com outro significado do que aquele atribuído por Leontiév (1978) na Teoria da Atividade, e por Vygotsky (1984, 1988).
31 O que Vygostky (1984) considera instrumento, Béguin e Rabardel (2000) definem como artefato. Um artefato é qualquer coisa criada ou modificada pelo homem, e só assume função de instrumento através da atividade do sujeito (BÉGUIN e RABARDEL, 2000). Para estes autores, a concepção de Vygotsky de que um instrumento é somente um mediador com atributos materiais é errônea. Dessa forma, partindo da ideia apresentada por Leontiév (1978) de que o instrumento possui também uma dimensão psicológica, Béguin e Rabardel (2000) dizem que o instrumento possui dois componentes distintos: o artefato propriamente dito, que representa algo material ou simbólico produzido pelo próprio sujeito ou por outros; e um ou mais esquemas de ação, resultantes de uma construção específica do sujeito, ou através da apropriação de um esquema social pré-existente.
Desta maneira, a concepção de Vygotsky (1984) e Leontiév (1978) de mediação instrumental é reformulada pela ideia de que a mediação ocorre ao mesmo tempo no nível material e psicológico. Considerando esta abordagem, concebe-se que um determinado instrumento só assume esta identidade na medida em que, engajado em uma atividade, assume uma função técnica (artefato) e psicológica (esquema de utilização) (BÉGUIN e RABARDEL, 2000). Esta diferenciação está sistematizada nas figuras 1, 2 e 3, nas quais é possível observar as divergências das três concepções.
FIGURA 1 - Tríade da atividade mediada adaptada dos conceitos de Vygotsky (1984)
Na figura 1 é possível perceber como Vygotsky (1984) delimita os dois elementos de mediação: externos, representados pelos instrumentos, e internos, representados pelos signos e
32 símbolos. Esta concepção, embora ainda seja em partes mantida nos pressupostos de Leontiév (1978), sofre uma notável alteração:
FIGURA 2 - Tríade da atividade mediada adaptada dos conceitos de Leontiév (1978)
A figura 2 representa o avanço na proposição de atividade mediada desenvolvida por Leontiév (1978). Para este autor, embora os instrumentos estejam relacionados com a mediação material da atividade, possuem inegavelmente uma relação com a mediação psicológica no curso da atividade.
FIGURA 3 - Tríade da atividade mediada de Béguin e Rabardel (2000) Fonte: Adaptado de Béguin e Rabardel (2000).
33 Partindo do exposto por Leontiév (1978), Béguin e Rabardel (2000) elaboram a proposta de tríade da atividade apresentada na figura 3. Estes autores apresentam a ideia de que a mediação é instrumental, e que o instrumento, por sua vez, possui ao mesmo tempo uma dimensão de mediação material e psicológica, de forma indissociável.
Ainda avançando a partir da concepção destes autores, Lima (1998) propõe que a tríade da atividade deva considerar também a mediação interpessoal, na medida em que os sujeitos estão em interação com outros sujeitos no curso da atividade (figura 4).
FIGURA 4 - Tríade da atividade segundo Lima (1998)
Portanto, a ação dos sujeitos é sempre instrumental no sentido de que o objetivo de uma atividade só pode ser alcançado ao passar pela mediação instrumental, sendo esta tanto abstrata quanto concreta. O instrumento é concebido como dinâmico e pode exercer formas distintas de mediação em uma infinidade de atividades.
No caso deste estudo, optou-se pela conjunção das abordagens de Béguin e Rabardel (2000) e Lima (1998) para sistematização e análise das atividades observadas, visto que se objetiva compreender a atividade do ponto de vista do projeto de produto. Para a compreensão da dinâmica de ação das pessoas, por sua vez, serão utilizados os estudos desenvolvidos por Norman (1988; 1993; 2008. 2010), que serão apresentados mais adiante.