Ao se considerar a tríade da atividade e os sujeitos como seres sociais, culturais e históricos, tem-se que o desenvolvimento de todos os processos psicológicos dos sujeitos estão ligados ao desenvolvimento de sua vida material, em dado contexto sócio-histórico, e vice-versa (LEONTIÉV, 1978). Chama-se de processos psicológicos aqueles que, com influência da atividade material, se constroem internamente ao indivíduo e passam a constituir o que antes era uma atividade externa, como interna (VYGOTSKY, 1984).
Para o trabalho, tem-se como importante o estudo dos processos psicológicos dos sujeitos que dizem respeito à imagem de si mesmos, dos outros e do mundo em que vivem. Como demonstram Peixoto e Clavaroille (2004), a autoimagem é importante porque, na medida em que representam como os sujeitos se colocam no mundo, acaba também por influenciar na forma como estes se relacionam com o mundo propriamente dito. Estas autoras demonstram, em um estudo feito com idosas francesas, que o “ser idoso” variava consideravelmente, na medida em que as formas de relação com os outros e com o mundo material também apresentavam variações. Isto é o que, como indica Osório (2007), constitui-se a verdadeira forma de reconstrução da imagem do idoso na sociedade: primeiro, mudando a forma como este sujeito vê a si próprio, depois, na forma como ele se coloca diante dos outros sujeitos e do mundo.
Para a abordagem sócio-histórica, a formação dos processos psicológicos não pode ser dissociada das construções da vida em sociedade (LURIA, 1988), portanto, a autoimagem seria, apesar de uma construção subjetiva, também em partes resultado de uma construção social. Como já relatado também, a construção social da velhice é um processo que participa ativamente na construção das outras “faces” do envelhecimento, tanto psicológico como biofisiológico (MAGALHÃES, 1989; OSÓRIO, 2007). Daí surge a importância de se conhecer como os sujeitos da pesquisa se percebem, na condição de idosos, e se de alguma forma a construção da autoimagem destes tem algum impacto sobre a forma como percebem os outros sujeitos e o mundo – acreditando que o inverso também se aplica, na medida em que
65 a forma como os outros sujeitos enxergam este idoso e que a maneira prática como estes idosos lidam com o mundo também influenciam na construção de sua autoimagem.
Assim considerando, o método elencado precisava permitir, além de conhecer os elementos que constituem a tríade da atividade, conhecer também, no momento de realização do estudo, como os sujeitos da pesquisa se enxergavam na condição de idosos, em relação aos outros sujeitos e como se relacionavam com o mundo. Esta demanda exigiu um método que conseguisse avaliar a interação entre sujeitos e artefatos tecnológicos a partir do ponto de visto biofisiológico, técnico, psicológico e social, demanda para a qual o método utilizado pelo Laboratório INTERATIVO apresentou-se como a melhor opção.
4.6.1 Possibilidades e limitações do método elencado
O método elencado para este trabalho, como já mencionado, vem sendo utilizado pelo Laboratório INTERATIVO para avaliação de produtos, principalmente eletrodomésticos, a mais de 10 anos. Dessa maneira, é importante demonstrar quais são as possibilidades deste método – indicando onde ele avança com relação aos métodos de estudo análogos – e quais são suas limitações.
Este método avança, quando comparado a métodos análogos para o estudo das tecnologias domésticas11 por priorizar as observações da atividade in loco, considerando a tecnologia como uma parte da atividade do sujeito, e não somente sua utilização como um fim em si mesma (BIFANO, 1999). Essa visão, como indica Norman (1993) tira o foco dos estudos somente dos atributos técnicos do artefato e levam à compreensão dos sujeitos como centrais nesta relação, entendendo-os como seres formados por características que ultrapassam o pensamento lógico e matemático, como as emoções.
O método também se apropria de contribuições da ergonomia da atividade, onde o estudo da atividade segue uma linha metodológica semelhante à apresentada neste trabalho (ABRAHÃO et al, 2005; CARVÃO, 2006; GUÉRIN et al, 2001; WISNER, 1994). A própria tríade da atividade utilizada, formulada por Béguin e Rabardel (2000) tem suas origens em trabalhos desenvolvidos sob a ótica da ergonomia da atividade, que é uma linha de pensamento dentro da ergonomia com abordagem sócio-histórica. O método avança ao
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Como por exemplo, os métodos realizados inteiramente em ambiente laboratorial por equipes de design, como relatado por Norman (2008) e o método que se constitui unicamente pelo relato de uso, utilizado por Peixoto e Clavaroille (2005) no estudo da utilização de tecnologias por sujeitos idosos.
66 também utilizar a proposição de outros autores, como as contribuições de Norman (1988; 1993; 2008; 2010) sobre a visão das tecnologias cotidianas do ponto de vista pragmático e emocional; e o aprofundamento na concepção de como as tecnologias domésticas distanciam- se daquelas analisadas como instrumentos em condições de trabalho em empresas e fábricas, e assim, são desenvolvidas, comercializadas e utilizadas segundo uma outra lógica vigente, a lógica do mundo doméstico, contribuições de Silva (1998a; 1998b; 1998c; 1998d), Bifano (1999; 2012), Roberto e Bifano (2008) e Amaral Junior e Bifano (2011). Dessa maneira, o método utilizado pelo Laboratório INTERATIVO permite a avaliação de artefatos tecnológicos segundo outra ótica, diferenciando-se por sua capacidade de compreender a inserção destes artefatos nas atividades dos sujeitos de uma forma mais completa: considerando os aspectos biofisiológicos, técnicos, psicológicos e sociais.
Com relação às limitações do método, destaca-se uma em especial: o tempo de execução. O método escolhido necessita de maior período de tempo para sua execução quando comparado aos demais que possuem finalidades semelhantes. Isso porque, as próprias características do método tornam a fase de campo bastante variável de acordo com cada sujeito: no caso deste trabalho, existiram casos de campo que duraram pouco mais de 30 dias e outros que duraram o dobro, com os mesmos números de observações. O estudo da atividade in loco depende exclusivamente de como os sujeitos organizam seu cotidiano e de como a tecnologia estudada está inserida neste contexto (BIFANO, 1999; 2012). Assim, o tempo de execução da fase de campo e do método correspondente está relacionado às próprias condições de vida dos sujeitos. Esta limitação, por sua vez requer dedicação exclusiva do pesquisador – que precisa ficar de prontidão para acompanhar as atividades sempre que solicitado – e impede que as atividades de muitos sujeitos sejam acompanhadas no mesmo intervalo de tempo, pela incerteza existente na frequência e periodicidade das observações. Conhecendo as limitações e considerando-as, o método foi empregado na execução dos demais objetivos específicos deste estudo, como demonstrado no capítulo III e os resultados obtidos estão apresentados e analisados nos capítulos que se seguem. Uma síntese do estudo do método está descrita na tabela a seguir.
67 TABELA 2 - Síntese do estudo do método desenvolvido pelo Laboratório INTERATIVO
Etapas do método Considerações teóricas sobre o método Principais técnicas do método
utilizadas -Estudo da tecnologia;
-Seleção dos modelos de forno de microondas;
-Avaliação heurística dos fornos selecionados.
*Considerações sobre a concepção materialista dialética da teoria;
*Considerações sobre o processo de instrumentalização;
-Avaliação Heurística;
-Seleção das participantes da pesquisa; -Empréstimo dos fornos de microondas para as participantes selecionadas;
-Observação da atividade in loco.
*Considerações sobre a concepção materialista dialética da teoria;
*Considerações sobre os constituintes da atividade; *Considerações sobre a organização da atividade; *Considerações sobre o processo de instrumentalização; *Considerações sobre os processos psicológicos.
-Observações;
-Entrevista em auto confrontação; -Teste de pictogramas.
-Transcrição das observações e entrevistas da fase de campo;
-Retorno à residência das participantes para entrevista final;
-Sistematização e análise dos resultados levantados.
*Considerações sobre a concepção materialista dialética da teoria;
*Considerações sobre os constituintes da atividade; *Considerações sobre a organização da atividade; *Considerações sobre o processo de instrumentalização; *Considerações sobre os processos psicológicos.
-Entrevista em auto confrontação;
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