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1.4. Tüketici Davranışlarını Etkileyen Faktörler

1.4.4. Psikolojik Faktörler

Desde seu projeto inicial, a Escola Sindical 7 de Outubro adota a relação entre educação e trabalho como eixo estratégico da formação sindical7. O enfoque

dessa concepção não se limita à crítica da organização capitalista do trabalho, mas se estende às estratégias de luta dos trabalhadores e trabalhadoras, às experiências e saberes produzidos, mobilizados e organizados nas situações de trabalho. Segundo essa concepção, a “realidade empírica em que estão inseridos os diversos segmentos dos trabalhadores e as potencialidades objetivas trazidas pelas novas formas de produção” (ARROYO, 1991, p. 213) remetem para as dimensões formadoras dos processos produtivos e das relações sociais. Trata-se de uma concepção ampla de educação que incorpora “a construção e apreensão do conhecimento, dos valores, da cultura, do saber, das identidades e diversidades, para melhor entender os vínculos entre existência e consciência, entre trabalho e cultura, entre vivência e saber” (ARROYO, 1998, p. 145).

7 Uma descrição desse eixo estratégico da formação sindical pode ser conferida em Santos (2003) e na Edição Comemorativa da Escola Sindical 7 de Outubro: 15 anos (2003).

Nessa noção ampla de educação não só a experiência dos trabalhadores e trabalhadoras é posta em cena, mas eles e elas tornam-se protagonistas da produção de saberes. Essa foi a perspectiva desencadeada no final dos anos 60, na Itália, com a composição de um grupo que reunia sindicalistas, médicos/as e psicólogos/as do trabalho em torno da denúncia dos riscos em matéria de saúde sofridos pelos/as trabalhadores/as das fábricas da Fiat. A partir do confronto entre os saberes informais dos/as trabalhadores/as e dos saberes formalizados dos/as especialistas, desenvolveu-se a investigação do espaço e das relações de trabalho. Essa interlocução, denominada por Oddone “comunidade científica ampliada” proporcionou um novo tipo de relação entre especialistas e trabalhadores/as organizados. Assim, o movimento sindical apresentava uma demanda de investigação autônoma e propunha os saberes da experiência como base para a elaboração de conceitos sobre a experiência. Afirmava-se o papel da classe trabalhadora na definição de instrumentos de adaptação e controle dos danos provocados à saúde. A formação sindical tornou-se momento de valorização da experiência de vida e de luta dos/as trabalhadores/as8.

8Uma repercussão disso foi a liberação de 150 horas de trabalho, anualmente, para estudos de tipo cultural, distintos dos de formação profissional, consolidada na convenção coletiva dos metalúrgicos italianos. Ao mesmo tempo em que as empresas deveriam garantir a liberação, o Estado deveria encarregar-se de assegurar o acesso à educação básica e a promoção de outras demandas educativas dos/as trabalhadores/as. Essa medida vigora desde 1973 e com esse dispositivo os/as trabalhadores/as tiveram a ocasião de intervir nos conteúdos e métodos tradicionalmente utilizados pelo sistema educativo italiano. O caráter estratégico da formação sindical na experiência dos/as trabalhadores/as metalúrgicos/as italianos/as foi uma das fontes de criação da Escola Sindical 7 de Outubro. No início da década de 1970, a Fiat automóveis definiu a instalação de uma planta no Brasil, mais precisamente no parque industrial da Grande BH. Naquele momento, os/as trabalhadores/as italianos/as decidiram em Assembléia fornecer auxílio financeiro para que os/as metalúrgicos/as brasileiros/as pudessem se formar e fazer frente à exploração da empresa Fiat. Doaram um dia de trabalho para a construção da Escola. A experiência das 150 horas inspirou a Escola Sindical 7 de Outubro no sentido de articular educação e trabalho no terreno da escolarização de jovens e adultos. Em 1991 a Escola, em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte, deram origem ao Projeto de Educação de Trabalhadores (PET). Em sua primeira formulação, o projeto propunha sensibilizar

Um novo tipo de relação de saber se construiu por meio da aproximação entre trabalhadores/as e especialistas. O encontro de saberes desses dois pólos colaborou para o reconhecimento das organizações de trabalhadores/as como interlocutores/as culturais. Conforme analisa Clot (1981, p. 12):

A mudança dos protagonistas do saber, e mesmo a transformação de seus modos de elaboração não reduziu a importância dos conhecimentos existentes. Ao contrário, eles abrem perspectivas de renovação conceitual num momento em que as ciências humanas encaram o problema de reavaliação de seu objeto9.

Inspirados por essa referência, pesquisadores franceses, dentre os quais se destaca Yves Schwartz, tomaram como preocupação repensar o regime de produção de conhecimentos sobre situações de trabalho10. Adotando o conceito de

“comunidade científica ampliada”, perceberam seu limite: o conhecimento do trabalho – a linguagem que permitia colocar a experiência em palavras – pertencia ao domínio científico clássico. Esse limite, aliado a elementos de ordem conjuntural – o declínio do trabalho imediato, a fragmentação dos coletivos de trabalho, a desestabilização da herança cultural do movimento de trabalhadores/as – gerou a dirigentes sindicais para demandas relacionadas à luta pelo direito à educação; promover o intercâmbio com dirigentes sindicais italianos/as para trocas de experiências na área da educação popular. Análises sobre essa experiência podem ser conferidas no artigo de Hermont et al. (2000) e na dissertação de mestrado de Charles Cunha (2003). Outras iniciativas da Escola Sindical 7 de Outubro relativas à educação dos/as trabalhadores/as são descritas na Edição Comemorativa.

9Do original francês: Ce changement des protagonistes du savoir, la transformation même de ses modes d’élaboration ne réduisent pas l’importance des connaissances existantes. Bien au contraire, ils ouvrent des perspectives de renouvellement conceptuel à un moment où bien des sciences humaines affrontent le problème d’une réévaluation de leur objet (CLOT, 1981, p. 12).

necessidade de também ampliar os/as interlocutores/as. Assim, além dos/as militantes operários/as, os/as desempregados/as, agentes dos serviços, funcionários/as especializados/as, consultores/as e profissionais de diversos ramos foram incluídos, redimensionando o conceito utilizado por Oddone em suas pesquisas. Essa ampliação proporcionou o deslocamento da concepção de trabalho operário para uma noção mais geral da atividade humana: “tentativa universal, mais ou menos bem sucedida, de renormalização parcial dos meios de vida” (SCHWARTZ, 2000, p. 42).

A idéia de “retrabalho das normas que preexistem a toda situação”, que conforma o conceito de atividade, obriga a instauração de estruturas permanentes de aprendizagem dos saberes e valores. A renormalização que se produz nas atividades gera uma situação de “desconforto intelectual”, isto é, “questiona novamente e invalida, em parte, os saberes disciplinares, que, por definição, têm sempre tendência a neutralizar a história atual, local, dos homens e das atividades”. Assim, do ponto de vista dos saberes disciplinares, produz-se outro deslocamento provocado pelo encontro de diferentes disciplinas11 convocadas para a tarefa de colocar em palavras

a experiência e a cultura do trabalho.

10A síntese aqui apresentada tomou por referência o texto de Schwartz (2000). Nesse trabalho, o autor nos apresenta um conjunto de indagações que justificaram a construção do dispositivo denominado Análise Pluridisciplinar das Situações de Trabalho (APST) e do Departamento de Ergologia, vinculado à Universidade de Provence, França. Esse departamento tem sua origem no desenvolvimento de um trabalho coletivo, iniciado no final da década de 1970, que envolveu pesquisadores de vários campos do saber – Filosofia, Lingüística, Sociologia, Ergonomia, Economia etc. – em estreita colaboração com trabalhadores assalariados que se defrontaram com problemas propostos pelas mudanças nas situações de trabalho. Cf. Duraffourg (1998).

11Considero aqui disciplinas a partir da definição de M. Foucault: “Chamamos ‘disciplinas’ a conjuntos de enunciados que tomam emprestado de modelos científicos sua organização, que tendem à coerência e à demonstração, que são recebidos, institucionalizados, transmitidos e às vezes ensinados como ciências”(FOUCAULT, 1995, p. 201).

Por essa via, foram abaladas as bases de sustentação da relação entre especialistas e trabalhadores, ou entre conhecimento formalizado e conhecimento informal, presentes no conceito de comunidade científica ampliada. O amálgama dessa relação que, conforme a formulação de Oddone, era a consciência de classe, cedeu espaço para um novo dispositivo: aquele das exigências éticas e epistemológicas, que comporta tanto os saberes gestados na atividade quanto admite que generalizações e modelizações devam ser reapreciadas.

Seguindo essa trilha que complexifica o estatuto de produção e legitimação de saberes no trabalho, Santos (1991) traçou um ângulo de análise para o “Projeto USIMEC”, indústria metalúrgica da região do Vale do Aço, em Minas Gerais, no qual aborda a relação entre os trabalhadores da fábrica e os engenheiros. Desenvolvendo a noção de trabalho como “movimento de vida” assinalou a “criação de métodos e maneiras não previstas para realização das tarefas, assim como a existência de iniciativa e de autonomia em sua execução”. Em sua análise, a autora atribuiu um lugar especial à inteligência e ao saber presentes na atividade, para além da resistência à organização do trabalho. Dessa forma formulou a noção de “saber em trabalho”:

Trabalhar é satisfazer uma exigência – produzir – mas, estreitamente ligada ao fato de criar, de aprender, de desenvolver, de dominar, de adquirir um saber. Trabalhar é procurar preencher certas lacunas do saber e, desse modo, as suas próprias. Quer dizer, se desenvolver, se informar, se formar, se transformar, se experimentar e experimentar sua inteligência. Este trabalho do saber supõe atividades que fazem a relação entre o simples e o complexo, o abstrato e o concreto, o saber como produto e como processo, o formal e o informal, o individual e o coletivo (SANTOS, 2000, p. 129).

O trabalho é entendido como espaço de configurações sempre singulares, de sujeitos em relação permanente entre si, com o meio e com o próprio saber. Focalizar os saberes que se produzem em situações de confronto de poder leva a identificar aspectos que mobilizam os sujeitos em torno desse “trabalho do saber”.

A demarcação do trabalho como espaço de criação aponta para a existência de formas de cultura, saberes e valores que estabelecem a relação entre produção e significação. Interessa-me, sobretudo, o questionamento que tal démarche propõe às bases epistemológicas e políticas da produção de saberes. Partilho da premissa formulada por Di Ruzza e Schwartz (2003), segundo a qual a formação sindical é locus privilegiado em que se estabelece a confrontação de saberes múltiplos (que advêm das práticas profissionais ou outras; ou de corpus teóricos mobilizados na ação de formação) na qual ocorre o processo de elaboração e produção de saberes. Ao mesmo tempo em que nos coloca diante do princípio educativo do trabalho, o encontro com esses saberes apresenta uma exigência analítica que emerge da prática sindical: compreender e interpretar o movimento da sociedade e dos mundos do trabalho. Há ainda a dimensão pedagógica da formação sindical identificada nos métodos específicos instaurados para dar conta dessa exigência. Dessa forma, a especificidade da formação sindical remete a reflexões sobre as relações de saber: produção de saberes no trabalho e as estratégias desenvolvidas na disputa por reconhecimento e legitimação desses saberes.

Na atividade sindical, o saber é estratégia de disputa de poder que repercute no reconhecimento dos trabalhadores como sujeitos de direitos. Penso que entender as relações de saber na prática sindical exige considerar a dinâmica

conflitiva e não neutra da produção de saberes e a dinâmica subjetiva do “saber em trabalho”, pois a produção do saber é ao mesmo tempo a produção do sujeito enquanto “saber sobre si”.

Em que medida o “saber em trabalho” produz efeitos que vão além do questionamento à legitimação de saberes situada na polarização entre conhecimento científico e saberes da experiência? Que incidências ao “saber sobre si” decorrem da relação de saber que sustenta a atividade sindical? A noção relação com o saber tem sido aplicada para desvendar essa complexidade, abrindo perspectivas importantes para a interrogação sobre a produção de subjetividades em contextos de relação de saber.