5. BULGULAR, SONUÇ ve ÖNERİLER
5.5. Gelecek Çalışmalar İçin Öneriler
Um dos primeiros desdobramentos da política de gênero da CUT, inicialmente “política para mulher trabalhadora”, refere-se ao questionamento das relações de poder internas à própria central sindical. Isso repercute imediatamente na constituição de um espaço que dá consistência à essa problemática na dinâmica sindical: a Comissão Nacional da Mulher Trabalhadora da CUT (CNMT)38. Naquele
contexto, observa-se a lógica da bipolarização na abordagem das relações de poder
38 O trabalho de DELGADO (1998) sobre a organização das mulheres na Central Única dos Trabalhadores (CUT) aponta a criação da CNMT, no 2º Congresso Nacional, em 1986, como marco de uma reconfiguração do espaço sindical. No mesmo Congresso, “a CUT reconhecia a existência da discriminação das mulheres na sociedade, assumia o compromisso de lutar por sua eliminação”. Essa autora situa o feminismo como matriz dessa reconfiguração dos mecanismos de poder no espaço sindical.
entre homens e mulheres. É esse o enfoque dos enunciados que abordam o quadro de composição das direções sindicais, predominantemente a Executiva Nacional da CUT, para evidenciar a disparidade entre homens e mulheres nos espaços de poder na central sindical. Um dado que passa a ser auferido nos processos congressuais e eleitorais: quantos são os homens e as mulheres na composição dos espaços de deliberação?
Composição Direção Executiva Nacional CUT
0 20 40 60 80 100 2000 1997 1994 1991 1988 1986 1984
Ano eleição Mulheres
Homens
GRÁFICO 139: Composição da Direção Executiva Nacional da CUT por sexo
Fonte: CUT Nacional
A análise desse quadro reforça o argumento de que a criação da CNMT não fora suficiente para promover , no curto prazo, o equilíbrio entre homens e mulheres na composição da Direção Executiva da CUT. Dois anos após a criação da CNMT, em 1988, a presença de mulheres na direção executiva nacional da CUT
39 Os dados organizados nesse quadro consideram os integrantes efetivos da Diretoria Executiva Nacional da CUT.
diminuiu: de 87,5% em 1986 a presença masculina passou a 91,95% em 1988, enquanto a presença feminina decresceu de 12,5% para 8,05% no mesmo período. Essa situação só se alterou significativamente com a aprovação da cota mínima de 30% de participação de mulheres nas instâncias de direção da CUT, ocorrida na plenária nacional da CUT, em 1993. Em 2000, a definição passou a ser de 30% para um dos sexos.
Sartori (2001, p. 226) destaca que na história dos Congressos e encontros deliberativos da CUT a presença masculina gira em torno de 75%, o que leva o autor a deduzir terem sido os homens que majoritariamente decidiram em favor da política de cotas. Conforme os dados auferidos por esse autor em sua pesquisa, os homens teriam votado favoravelmente porque isso “provocaria menos polêmica e menos discussão”. Entretanto, argumenta o autor, se a votação fosse secreta, o resultado teria sido diferente. A análise de Sartori no que se refere ao posicionamento de homens e mulheres sobre a questão não é conclusiva, pois indica também a existência de homens que lutaram para alterar o problema das relações de poder, bem como de mulheres dirigentes contrárias à implantação da política de cotas.
A complexidade das formas de representação política não se esgota na composição das direções sindicais. Não há um consenso entre as diversas forças políticas que compõem a central sindical em relação ao mecanismo de cotas na solução da problemática enunciada. Se há o reconhecimento da existência de avanços no que diz respeito à estrutura sindical, percebe-se também a denúncia dos limites de uma política restrita à ação de “alguns e algumas sindicalistas, mas não do
conjunto da estrutura e das instâncias políticas”40. A regulamentação da participação
das mulheres nas instâncias cutistas para a condução das políticas de gênero foi a opção: “liberação de uma dirigente da CUT nos seus níveis nacional, estaduais e regionais, responsável pela condução das políticas e da ação sindical de gênero aprovadas pela Central”. Provavelmente, um dos limites das medidas adotadas é a instauração da polarização que confere, nas relações de poder, papéis que novamente vão se fixando para atribuir lugares de fala. As demarcações fixadas pelas regulamentações conjugam a dispersão de posições políticas e abrem espaço para a emergência de problemas que, até então, não eram enunciados.
As definições do 5º Congresso se mantiveram nos posteriores e corroboram uma constatação apontada pelos estudos sobre a participação das mulheres no espaço público a partir da década de 1980: transcendendo o cotidiano doméstico, as mulheres trouxeram novos temas, práticas e problemas para a política e novas configurações para as relações de poder. Para Giulani (1997, p. 652), as trabalhadoras organizadas em sindicatos impulsionaram modificações complexas que atingiram arraigadas dimensões culturais e introduziram na política temas de reflexão “no qual o cotidiano doméstico e do trabalho são ponto de partida para rever a divisão sexual no trabalho e a relação de poder na representação sindical”. Conforme a análise de Delgado (1998, p. 214) a organização das mulheres dirigentes sindicais, ao extrapolar o local de trabalho strictu sensu e incluir a casa e as relações familiares, permitiu compreender melhor “os tipos de trabalho desenvolvidos pelas
40Cf. Resoluções do 5º Congresso Nacional da CUT, realizado em 1994, encontram-se disponíveis no sítio da CUT: www.cut.org.br.
mulheres, a maneira como vivem e interpretam seu cotidiano, as expectativas em relação à profissão e à vida profissional”. Ao lado dessa politização do espaço privado podemos vislumbrar a capacidade de tornar pública a intimidade, enfocando questões relativas à sexualidade e temas considerados tabus, como assédio sexual e gravidez indesejada. No Congresso de 1994, a definição da campanha “Cidadania: igualdade de oportunidades na vida, no movimento sindical e no trabalho” teve como conseqüência o posicionamento favorável da CUT em relação à legalização do aborto. No Congresso de 1997 foi aprovada uma moção de apoio às reivindicações do Movimento de Gays, Lésbicas e Travestis – o direito à união civil entre pessoas do mesmo sexo e combate à homofobia nos sindicatos e locais de trabalho. Esses dois acontecimentos discursivos indicam a forma como polêmicas ganham a cena e se expressam na configuração de uma prática discursiva.
Em 2003, no 8ºCongresso Nacional da CUT, foi criada a Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora. Essa redefinição operada na estrutura organizativa insere, na institucionalidade da Central, as relações de gênero não como temática, mas como problema para a ação sindical. A emergência de problemas de gênero abala a premissa política referenciada numa definição de sujeito estável e presumível da prática sindical traduzida pelo dístico classe trabalhadora41. A
regulamentação e reestruturação dos espaços institucionais evidenciam dois níveis da conjunção saber-poder. De um lado, o reconhecimento e legitimidade do sujeito que expressa diferença em relação ao modelo abstrato classe trabalhadora, redefinindo o estatuto daqueles/as que têm o poder de pronunciar verdades. De
outro, o pronunciamento de verdades, ou jogos de verdade, discursos que são acolhidos e funcionam como verdades e instauram mecanismos e instâncias – como a Secretaria – que permitem distinguir e sancionar enunciados verdadeiros e falsos.