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Já a década de cinquenta foi caracterizada como um período de restritas transformações no sistema educacional brasileiro, sobretudo, quando analisado sobre uma ótica de descentralização administrativa e financeira. Em contrapartida, foi um momento onde diversos comitês, campanhas e congressos foram realizados, universidades e conselhos foram fundados, e a segregação entre educação e saúde foi oficializada ministerialmente.

Como marco inicial, o decênio principiou-se no governo Getúlio Vargas (1951-1954), com a retomada da orientação nacionalista em áreas como a economia e a política. Contrariamente, o campo da educação foi pautado nas referências das ideias de pensadores como Anísio Teixeira e Lauro de Oliveira que, por sua vez, foram fundamentadas nas teorias do desenvolvimento cognitivo e epistemológico de Jean Piaget (conhecidas como epistemologia genética). O objetivo era a criação de centros populares de educação para crianças e jovens de até 18 anos de idade em todos os estados brasileiros, com atividades em período integral onde se praticariam ações alternadas de caráter intelectual (com métodos ativos que valorizassem o pensamento e o raciocínio) e prático (com artifícios que congregassem dança, música, teatro, jogos, ginástica, dentre outros). Infelizmente, somente o Centro Educacional Carneiro Ribeiro no bairro da Liberdade em Salvador foi constituído, corporificando a ideia escola-classe e escola-parque, que materializava o postulado do desenvolvimento individual, exaltado por Piaget (1988, p. 47) quando afirmou que:

Se o ensino consiste em simplesmente em dar aulas, em fazê-las repetir por meio de ‘exposições’ ou de ‘provas’, e aplicá-las em alguns exercícios práticos sempre impostos, os resultados obtidos pelo aluno não tem significação que no caso de um exame escolar qualquer, deixando-se de lado o fator sorte. Unicamente na medida que os métodos de ensino sejam ‘ativos’ – isto é, confiram uma participação cada vez maior as iniciativas e aos esforços espontâneos do aluno – os resultados obtidos serão significativos. Nesse último caso, trata-se de um método bastante seguro, que consiste, se assim pode se dizer, em um espécie de exame psicológico continuo, em oposição àquela espécie de amostragem momentânea que, apesar de tudo, constitui os testes.

Contrariamente, como ato pródigo foi criado durante o governo citado a Universidade Católica de Pernambuco (1951), a Universidade Mackenzi em São Paulo (1952) e a Universidade Federal do Ceará – UFC (1954). Foi efetivada a Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário (CADES) ligado à Diretoria do Ensino Secundário; o Comitê Brasileiro da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar (OMEP); e o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). Também foi designada a separação entre o Ministério da Saúde e o

Ministério da Educação, que passou a ser denominado de Ministério da Educação e Cultura (MEC).

Na sucessão política, mas sem grandes diferenciações, o ano de 1954 complementou- se com o governo de Café Filho (1954-1956), fortalecendo o continuísmo das práticas de formação de centros de pesquisas e núcleos de ensino superior. Como exemplo pode ser citado à criação do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), proposto ao estudo, ao ensino e ao desenvolvimento da compreensão da realidade social brasileira, por meio de pesquisas que elaborassem categorias e mensurassem dados capazes de subsidiar as ações públicas destinadas ao incentivo e a promoção do incremento nacional.

Da mesma forma, foram constituídos Centros de Pesquisa Educacional nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Bahia, composto por intelectuais brasileiros e estrangeiros voltados a elaboração de estudos de temas correlacionados diretamente e indiretamente com a educação nacional, ou seja, fatores que alterassem de modo primário ou secundário os resultados do sistema de aprendizagem. Assim, foram feitos estudos sobre urbanização, industrialização, exclusão, formação de docentes, dentre outros.

Assim, revela-se no governo de Café Filho (como o anterior), a ausência na referência de ações destinadas à descentralização fiscal da educação brasileira, bem como, a deficiência de políticas públicas para o crescimento e melhoria do ensino básico brasileiro. A única exceção passível de exposição foi à formação da Companhia Nacional de Alimentação Escolar (CNAE), destinada ao melhoramento da nutrição das crianças presentes nas escolas públicas. Como resto o que pode ser mencionado é a formação de novas universidades, como a Pontifícia Universidade Católica de Campinas e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Por fim, o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961) inaugurou uma nova fase na educação brasileira, marcada pela ênfase no ensino profissionalizante e no destaque das escolas técnico-profissionais. O objetivo principal era criar o sustentáculo para o crescimento acelerado do país, por meio da constituição de uma mão-de-obra qualificada e com formação prática, destinada aos mais variados segmentos produtivos urbano-industrial da economia nacional. Logo, a educação profissionalizante era uma maneira de associar o indivíduo na ambicionada civilização industrial, por meio de um ensino secundário técnico.

Nessa conjunção, coube à educação uma aguda conexão ao programa desenvolvimentista governamental em curso, limitando-se a instrumento de qualificação e não de emancipação. A visão positivista de progresso material restringiu o sistema de ensino à função de formação do trabalhador operacional e prático, com abreviada capacidade criativa,

o que impossibilitava a interiorização de um aspecto maior do progresso, o ciclo de invenção- inovação-tecnologia, suporte para o crescimento autônomo de longo prazo.

Em suma, a educação era direcionada para a racionalização do trabalho. Com uma gênese técnico-profissional destinada ao aproveitamento do abastamento dos recursos naturais do país. A maximização da produtividade, meta precípua do governo federal, estava inserida a esse processo e a educação técnica era o meio existente para o alcance desse desígnio.

Como aporte, o volume de recurso destinado à educação limitava-se a 3,4% do total de investimentos realizados em todo o período. A educação básica, dentre todos os níveis e modalidades de ensino foi a mais desfavorecida. Como consequência, os dados de 1958 demonstraram que 42% dos brasileiros acima de 15 anos de idade eram analfabetos. Somente 59,3% dos paulistas, 58,6% dos gaúchos e 56,6% dos catarinenses acima dos 5 anos de idade conseguiam ler e escrever (e estes eram os estados com os melhores resultados).

Já a taxa de escolaridade que demonstra o percentual de alunos de determinada faixa etária, matriculados e frequentado a escola foram igualmente indesejáveis e discrepantes. Observando as presença de crianças brasileiras entre 7 e 11 anos de idade pode ser conjeturado a nível nacional uma presença relativa de apenas 54,3%, enquanto que na Argentina esse percentual já era nesse momento superior a 88%. Realizando confrontações internas se pode perceber que a taxa de escolaridade da região Sul (70,2%) é o dobro das regiões Norte-Oeste (35%) e Nordeste (35,2%). A faixa etária com pior comparecimento a escola foi a de 7 anos de idade com apenas 40,8% de média nacional. Em contrapartida a faixa de idade com melhor compleição foi a de 10 anos com 62,1% de média nacional.

Tabela 27 – Taxa de escolarização por idade e por região – 1958

Idade Norte-Oeste* Nordeste** Regiões* Sul*** Brasil

7 25,6 28,2 51,9 40,8 8 34,8 36,1 74,0 56,4 9 37,1 38,6 80,1 60,9 10 40,3 40,3 80,4 62,1 11 36,8 35,5 65,5 54,1 Total 35,0 35,6 70,2 54,3

Fonte: Brasil, Ministério da Educação e Cultura, 1961, p.12.

* As regiões exibidas pela tabela não são as regiões espaciais tradicionalmente empregadas. A região Norte- Oeste versa sobre os territórios que satisfazem aos atuais estados de Rondônia, Acre, Roraima, Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí, Mato Grosso e Goiás.

** A região Nordeste da tabela consiste nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco. Alagoas, Sergipe, Bahia e Espírito Santo.

***A região Sul dessa tabela é formada pelos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Guanabara, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Para Plank (1996) a centralização administrativa sem aprovisionamentos ajustados de recursos proporcionou relevantes perdas para a educação básica brasileira na década de cinquenta, uma vez que não foram usufruídos os benefícios herdados de uma estrutura com descentralização estadual da década anterior. Como agravante foi concomitante os problemas da descentralização com forte desigualdade regional e local.

De modo geral, além da falta de verbas os projetos governamentais destinados à educação básica não acarretaram transformações qualitativas no ensino científico. O investimento de capital externo que foi em diferentes áreas o suporte do Programa de Metas do governo de Juscelino, no setor educacional marcou-se como anódino e sem a ocorrência direta de aplicação.

Em relação ao ensino básico, o que ficou como registro proeminente foi à publicação, em 1959, de um manifesto de educadores intitulado “Mais uma Vez Convocados”. Esse movimento versava como alusão ao manifesto, difundido em 1932 pelos mesmos educadores, denominado como "Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova". Fernando de Azevedo, redator do primeiro texto, compôs igualmente o de 1959, que foi assinado por 189 relevantes intelectuais, entre os quais Anísio Teixeira, também signatário do primeiro ato. Reiniciava-se a luta de um grupo que foi denominado como os Pioneiros da Escola Nova. Seu objetivo consistia no amparo, como direito dos cidadãos e dever do Estado, de uma educação pública, forçosa, laica e gratuita. Em outras palavras, de uma educação afiançada pelo Estado para todos os que estivessem em idade de frequentar a escola; da obrigatoriedade da matrícula sob infortúnio de punição; da não subordinação da educação a qualquer doutrina religiosa; e finalmente, da gratuidade da educação, para que todos, indiscriminadamente, tivessem acesso à mesma. Contudo, foi um período marcado pela ausência de ações legais da descentralização do ensino brasileiro tanto no contexto administrativo, político e econômico das relações intragovernamentais e intergovernamentais.

O ensino superior foi marcado como um processo de expansão fundamentado no surgimento de novos centros públicos de ensino, igualmente destinado a responder os anseios das ações progressistas nacional. Foi encaminhado pelo ministro da educação Clóvis Salgado, a criação da Universidade de Brasília (UNB), bem como, foi estimulado à elaboração de diversos cursos superiores nas redes federais e particulares voltados as áreas de administração e gestão. Como justificativa, acreditava-se indispensável à formação de profissionais destinados ao gerenciamento do país (uma elite bem preparada) que poderiam aplicar mecanismos práticos para a otimização dos empreendimentos públicos e privados. De forma peculiar, a efetivação de um programa para o incremento de uma área estratégica, como a

administração, aludiria à racionalização e a modernização do país, através da estruturação de uma ciência moldada em bases, valores e técnicas mercadológicas e produtivistas e subordinada a um modelo industrial.

Benzer Belgeler