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9.8.1. Programlı Tarama
“Caminhante, são tuas pegadas o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar.” (ANTÔNIO MACHADO)
É possível considerar a presente pesquisa, do ponto de vista dos procedimentos técnicos, como uma pesquisa do tipo documental. Conforme esclarece Gil (1996, p. 50) “[...] a pesquisa documental vale-se de materiais que não receberam ainda um tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com os objetos de pesquisa.”. Sobre a pesquisa do tipo documental, Gil (1996, p. 51) considera também que neste tipo de pesquisa “[...] estão os documentos conservados em arquivos de órgãos públicos e instituições privadas [...]. Incluem-se aqui inúmeros outros documentos, como cartas pessoais, diários, fotografias, gravações, memorandos, regulamentos, ofícios, boletins etc.”. A presente pesquisa trabalha, a partir de uma análise inspirada na arqueogenealogia foucaultiana, com a análise de documentos de órgãos públicos, que são os materiais produzidos e divulgados pelo projeto Saúde e Prevenção nas Escolas.
Busca-se aqui uma atitude teórico-metodológica onde investigar documentos não consista apenas em seguir as pegadas deixadas no passado, mas consista também em tomar esses rastros e analisá-los, agrupando-os, isolando-os e organizando-os, entendendo as relações de poder que aí se exercem (LOBO, 2012).
O primeiro passo teórico-metodológico desta pesquisa envolveu a realização de um levantamento bibliográfico acerca da temática envolvida. Dessa forma, utilizo para o embasamento teórico das discussões aqui realizadas artigos e livros acerca de temas como sexualidade, escola, educação sexual, modos de subjetivação, entre outros assuntos que se mostraram pertinentes. Ao entrar em contato com tais materiais levantados, pude constatar um grande número de publicações sobre a temática da sexualidade adolescente e também sobre a educação sexual nas escolas, o que me reafirmou a necessidade e importância de um estudo que problematizasse o que está em jogo nessa educação da sexualidade.
O segundo passo tratou-se de uma busca dos discursos a serem analisados. Conforme já foi dito, o corpus desta pesquisa é composto pelo material produzido pelo projeto Saúde e Prevenção nas Escolas. A escolha desse projeto baseia-se basicamente em dois motivos. Primeiramente, ele é bastante significativo, possuindo apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), da Organização das Nações para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). Segundo, o SPE possui grande abrangência nacional, tendo sido implantado em todo o Brasil (GOMES e VIEIRA, 2010).
Os documentos oficiais utilizados nesta pesquisa são os publicados entre 2006, que é o ano do material mais antigo encontrado, e 2010, que é o ano do material mais atual ao qual tive acesso. Alguns dos documentos utilizados não possuem data definida, como é o caso de folders e panfletos. Estes documentos foram buscados através de pesquisas na internet. Tal escolha metodológica deve-se ao fato de que a internet é a fonte de consulta e retirada desses documentos que é mais acessível a todos, sendo acessível mesmo aos profissionais de escolas que não são contempladas pelo projeto e que buscam material oficial para trabalhar a sexualidade dos seus alunos na escola. Na internet, é possível encontrar uma grande gama de material produzido pelo projeto, por vezes ultrapassando quantidade de material que chega às mãos das escolas contempladas.
Os materiais que foram encontrados estavam hospedados nos sítios eletrônicos da Unicef6, da Unesco7, da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão8, e do Departamento de
DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde9. Foram encontrados vinte e três documentos diferentes em formato PDF, todos materiais oficiais produzidos e distribuídos pela equipe envolvida na elaboração do projeto Saúde e Prevenção nas Escolas.
Os materiais são diversos, sendo alguns direcionados aos alunos, outros aos profissionais de saúde e educação, um direcionado à equipe de treinamento destes profissionais e parte não possui direcionamento definido. Os materiais voltados aos professores e agentes de saúde são compostos de guias sobre como trabalhar com os alunos as questões contempladas pelo projeto. Aos alunos, existem histórias em quadrinhos, cadernos confidenciais, guias de oficinas e folhetos. À equipe de treinamento dos profissionais de saúde e educação, um guia para a realização de um curso de formação. É possível também encontrar material direcionado a qualquer pessoa, como folders de divulgação do projeto. O conjunto de materiais é composto exatamente por: três guias; um trabalho; um briefing; um caderno; seis histórias em quadrinhos; oito fascículos; dois folders e um folheto. Nos documentos, vários assuntos relacionados à sexualidade são abordados, tais como: HIV e Aids, uso da camisinha, gravidez, diversidade sexual e preconceito. Mais detalhes sobre os documentos podem ser encontrados na tabela presente no “APÊNDICE A”.
Figura 3: Montagem com todas as capas dos documentos do SPE utilizados
Fonte: Elaborado pela autora
No levantamento dos documentos, pude encontrar mais material do que eu inicialmente esperava. Outra surpresa foi o fato de que esses materiais voltavam-se não só aos professores e aos agentes de saúde que iriam conduzir as ações de educação sexual, mas
7 http://www.unesco.org 8 http://pfdc.pgr.mpf.mp.br 9 http://www.aids.gov.br
também aos alunos, à equipe de treinamento dos profissionais da saúde e da educação e até mesmo à comunidade em geral, através de folderes e panfletos.
Além disso, impressionou-me a complexidade dos documentos, que possuíam várias páginas e traziam muitos conteúdos. Diferentemente do que eu imaginava, a educação sexual promovida pelo SPE não se limitava a prevenção das DST e da gravidez precoce. Pude perceber que diversas outras questões dizem respeito à sexualidade dos adolescentes, como discussões sobre gênero, diversidade sexual, álcool e outras drogas, protagonismo juvenil, entre outros temas, como será visto no capítulo quatro desta dissertação.
Diante desse complexo entrecruzamento de tantas questões nos materiais do SPE, me pareceu necessária uma primeira aproximação com esses materiais e uma primeira sistematização. Foi então que elaborei o material presente no “APÊNDICE A”, uma tabela que mostra cada documento, a data de publicação, o local onde foi acessado, a quem se destina e os assuntos mais presentes.
O terceiro passo metodológico desta pesquisa consiste na análise das informações obtidas, a partir da análise do discurso foucaultiana, já detalhada no tópico anterior. À medida em que estabeleci um contato mais aprofundado com os documentos, surgiram-me questões como “Que discursos são esses que aparecem nesses enunciados do SPE”, “O que torna possível que tais discursos estejam presentes nesses documentos?”, “Afinal, que adolescente e que sexualidade o SPE quer?”. Estas e outras perguntas de cunho arqueogenealógico guiaram a análise dos materiais do projeto.
Além disso, me pareceu necessário investigar como o projeto Saúde e Prevenção nas Escolas pôde existir. O trabalho da sexualidade dos alunos nas escolas não é algo natural e eu desconfiava que nem sempre ele havia acontecido da mesma forma ao longo do tempo. Assim, uma discussão nesse sentido também me pareceu fundamental. Essa discussão é realizada no capítulo a seguir.
3 EDUCAÇÃO SEXUAL NAS ESCOLAS E PROJETO SAÚDE E PREVENÇÃO NAS