1.3. FEMĠNĠZME DAĠR GÖRÜġLER
1.3.4. Postmodernist Feminizm
Para Piaget (1994), a justiça é uma regra racional necessária para manter o equilíbrio entre as relações sociais. O autor detalhou todo o processo de construção da noção de justiça, explicitando suas etapas evolutivas e estabelecendo uma conexão entre a construção da noção de justiça e as etapas evolutivas da prática e da consciência da regra. Evidenciou também a existência da moral da heteronomia e a moral da autonomia, ambas construídas na e pela relação social.
Ele esclarece, ainda, que na moral da heteronomia a criança pequena acredita que, quando desobedece, é automaticamente punida por alguém superior ou por outras instâncias, como Deus, anjos, demônios, etc. Essa “justiça imanente” (PIAGET, 1994, p. 192) vai, aos poucos, sendo vista como insuficiente, na medida em que as crianças vão se tornando mais velhas e se desenvolvendo intelectualmente. Isso possibilita que elas compreendam que as conseqüências de seus atos não estão condicionadas a fatores “divinos”. A sanção automática evolui, então, para a sanção expiatória e dá origem a uma nova concepção de justiça: a justiça retributiva.
A sanção expiatória caracteriza-se por seu aspecto arbitrário, pois não há relação alguma entre o conteúdo da sanção e o ato a ser sancionado, ou seja, trata-se de punições que têm por objetivo fazer com que o sujeito não volte a repetir tal ato. Essa ausência de relação entre o tipo de sanção aplicada e o ato infracionário pode ser exemplificado nas situações em que ocorrem a retirada ou a proibição daquilo que o sujeito mais sente prazer: proibi-lo de participar de sua atividade preferida e/ou privá-lo de algo que não apresenta ligação direta com o ato cometido (como não ter festa de aniversário em virtude de um desempenho ruim na escola ou pelo fato de a professora tê-lo chamado a atenção durante as aulas).
A convivência com adultos que procuram pautar as interações sociais na e pela cooperação possibilita a evolução da sanção expiatória (primeiro nível evolutivo da justiça retributiva) para a sanção por reciprocidade que, embora ainda sendo parte da justiça retributiva, apresenta a coerência, a relação, entre a sanção e o ato infracionário. A sanção por reciprocidade caracteriza-se por possuir o mínimo de coerção, estabelecendo uma relação
natural ou lógica entre aquilo que a criança fez e a atitude que o adulto toma. Esse tipo de sanção está diretamente relacionado com o ato a que se deseja sancionar, como pedir a uma criança que riscou uma parede, que a limpe; para a criança que rasgou um livro, solicitar ajuda para recuperá-lo ou mesmo que o faça sozinho; deve-se considerar ainda, que a natureza do procedimento sofre variações de acordo com a faixa etária da criança, devendo, portanto, ajustar-se à idade do sujeito. Esse tipo de sanção parece mais adequada e mais positiva na construção da autonomia, pois, ao contrário da sanção expiatória, que reforça a heteronomia, esta vai ao encontro da cooperação e da igualdade propiciando as condições adequadas para a evolução da justiça retributiva para a justiça distributiva.
A justiça distributiva, ao contrário da retributiva, implica na construção do conceito de igualdade, conceito este que apresenta duas características evolutivas distintas: igualdade enquanto direito e igualdade enquanto equidade.
Segundo Piaget, a criança, por volta dos sete e/ou oito anos, constrói a noção de igualdade enquanto direito, concebendo-a enquanto tratamento igual a todos, sem considerar as circunstâncias pessoais dos indivíduos. Isso fica claro quando o pesquisador utiliza um dilema hipotético, cujo enredo aborda uma situação na qual a mãe dá um pedaço de pão a cada filho e um deles derruba o alimento na água. O autor questiona o seguinte: é justo dar outro pedaço de pão à criança que o derrubou? Entre as respostas emitidas, as que elucidam esse nível evolutivo de justiça são aquelas que consideram injusto dar outro pedaço de pão à criança que o derrubou na água. Argumentam que todos receberam, igualmente, um pedaço de pão e, nesse caso, se a mãe der outro naco a essa criança, ela terá recebido dois pedaços, ao invés de um.
A noção de igualdade enquanto equidade implica na construção da capacidade de enxergar o outro, de compreender e respeitar as diferenças individuais analisando a situação particular de cada um. Essa evolução no conceito de igualdade propicia, segundo a nossa perspectiva, as condições adequadas para a construção das virtudes. E como definir virtude?
Aristóteles (1973) a definiu como disposição para fazer o bem. Assim, a virtude (em grego, aretê) é a própria condição humana voluntária que visa a excelência, a superação e a perfeição. Assim, as virtudes envolvem sentimento e ação. E, é somente o exercício que pode possibilitar a construção das virtudes, é necessário então, que ocorra uma educação para as coisas consideradas corretas, esse é um ponto fundamental que interessa, tanto a educação formal, quanto a informal.
A excelência da moral, então, está relacionada com o “meio termo” ou “mediania”, como apresenta a teoria aristotélica, e, pensando nas virtudes, é importante preservar o
equilíbrio para que o indivíduo possa realizar as melhores ações, as corretas, e para que seja um homem feliz em sua plenitude (eudaimonia). O fim de todos os nossos atos, portanto, deve ser à procura do bem, a felicidade que se identifica com o próprio bem; o fim de todas as suas instituições nada mais é que meios para tal fim. Pensando nesse excelência é possível uma tentativa de aproximar a máxima Kantiana “ Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa, como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca como na pessoa de qualquer outro, sempre simultaneamente como fim e nunca simplesmente como um meio.” (Kant, 1995, p.69). Esse é um pensamento que demonstra a importância do agir pensando no outro, ou seja de forma autônoma e recíproca, desde que existam condições para que a reciprocidade aconteça.
Segundo Alasdir MacIntyre (2001), a noção que existe uma relação, quase simbólica, entre as tradições culturais e éticas da comunidade e do indivíduo demonstra que as virtudes só podem prosperar em comunidades que favoreçam a sua promoção, uma vez que, em muitas comunidades este incentivo não existe.
Dessa forma, o tema “virtudes” é universal e humano, pois, são as virtudes que possibilitam uma leitura de valor ao homem, seja dele próprio ou dos outros, apontando para qualidades nos homens que são apreciadas por todos. Para esse trabalho, se fez necessário a apresentação de um quadro sobre as possíveis virtudes subjacentes às ações do líder comunitário. Para tanto, sentiu-se a necessidade de organizar os conceitos e idéias das virtudes, baseando-se em Conte-Sponville (1995), em seu livro “Pequeno tratado das grandes virtudes”. É válido lembrar que o quadro apresenta uma síntese do conceito desenvolvido no trabalho em questão, pensando nos princípios éticos que regem a vida em comunidade e as virtudes que foram brotando nas falas das lideranças.
QUADRO 01 — VIRTUDES MORAIS
VIRTUDES MORAIS COMO ELAS SE DÃO?
Coragem
A coragem se torna uma virtude, quando está a serviço de outrem ou de uma causa geral e generosa. A coragem é pessoal e é necessário coragem para sofrer, para lutar, para suportar as adversidades, para enfrentar e para perseverar.
Generosidade
Generosidade é agir não em função de um texto ou de uma determinada lei, mas além das leis, do interesse e em prol do humano, de acordo com as exigências do amor, da partilha.
Compaixão
Compaixão significa participar do sentimento do outro, sem julgamento de que razões levam a esse sofrimento, se boas ou más; é a recusa em considerar o sofrimento humano, a crueldade e ficar indiferente a ele.
Misericórdia
A misericórdia, no sentido de perdão, triunfa sobre o ressentimento, sobre o ódio, rancor, desejo de vingança ou punição.
Gratidão
A gratidão é dom, é partilha, é amor; dá alegria a quem o alegra, nutre a generosidade. É o amor e a crença em Deus, em um amigo, no mundo, em um desconhecido, se regogiza com o agradecer.
A boa-fé
A boa-fé é uma fé no duplo sentido do termo, isto é, uma crença e, ao mesmo tempo, uma fidelidade no que se crê. É o querer que exista entre os homens e dentro de cada um deles o máximo de verdade possível.
Amor
O amor existe além de qualquer dever e coerção, é o próprio bem, o amor ao próximo, é a pratica do bem de forma espontânea.
Pureza
A pureza é o amor sem cobiça, é amar a beleza de uma paisagem, a fragilidade de uma criança; não existe como propriedade do real, mas como modalidade do amor.
Tolerância
A tolerância é uma virtude que exige, de quem a pratica, um ato de bravura, heroísmo ou mesmo a paciência e compreensão do outro em questões cotidianas e o uso da argumentação no lugar da força física ou psíquica, respeitando a dignidade humana.