3. BULGULAR VE TARTIŞMALAR
3.1 PM 2.5 ve PM 2.5-10 Kütle Miktarları
Sempre responsável e comprometida, Jandira procurava criar condições para realizar seu trabalho da melhor maneira possível, tanto na escola particular quanto na escola pública. Muitas vezes, orientava os pais de seus alunos sobre as dificuldades de seus filhos, mas percebia que na escola particular, nem sempre as famílias aceitavam sua opinião porque temiam a reprovação da criança. Jandira avaliava que esses pais consideravam que o investimento financeiro que faziam na educação da criança era mais importante do que o seu desenvolvimento. Isso lhe causava sofrimento, pois nem sempre podia contar com o apoio das famílias.
De outro lado, à direção da escola particular também não interessava desagradar aos pais dos alunos, pois eram tratados como clientes que compravam os serviços que a escola comercializava. Assim, o professor tinha que tentar atender às expectativas dos familiares, ou seja, os alunos deveriam obter os bons resultados pelos
quais os pais estavam pagando. Desse modo, o professor muitas vezes era responsabilizado quando a criança não conseguia obter boas notas, tanto pelas famílias quanto pela escola.
Às vezes, os pais colocam os filhos numa escola particular e acham que a escola vai fazer tudo e que os filhos vão sair dali cem por cento [...] e isso não condiz com a realidade porque a criança, muitas vezes, vai para a escola particular, mas tem limitações, ela não aprende. Aí, muitos pais acham que é a professora que não está ensinando direito e não olham a limitação do filho [...] ou, às vezes, enxergam e não querem ver.
Jandira procurava cumprir da melhor maneira possível às prescrições em ambas as escolas, mas considerava que a escola particular era mais exigente em relação ao professor. Às cincos horas da manhã já estava de pé para se preparar para seu trabalho e não era preciso que ninguém a chamasse ou que ela usasse o despertador para acordar, pois estava sempre atenta aos seus compromissos. Considerava que, apesar de sua dedicação, o trabalho como professora nem sempre era reconhecido, além de ser mal remunerado e desgastante. Sua mãe comentava que, se tivesse mais filhas não gostaria que fossem professoras. Mas apesar disso, Jandira sentia sua atividade como gratificante. Afirma que, embora a escola pública oferecesse piores condições físicas de trabalho, achava injusto não se dedicar aos seus alunos tanto quanto o fazia na escola particular. Entretanto, revela ter sido pouco reconhecida pela instituição de ensino particular como boa profissional, apesar de se considerar competente.
A escola particular reza assim: aqui é uma escola particular, a gente precisa do aluno. Professor tem muitos. [...] Ainda mais numa escola de irmãs... elas são muito financistas. Aí, a gente pensa na caridade... elas não se preocupam. Elas se preocupam com o dinheiro. [...] Eram muitos rígidas assim por olhar o lado delas, a vantagem para elas.
Muitas pessoas reconheciam o seu trabalho e ainda se lembram de como era boa professora, mas Jandira afirma que seu trabalho foi pouco valorizado na instituição particular, especialmente quando começou a apresentar os primeiros sintomas de adoecimento.
Eu acho... Inclusive a gente vê agora muita gente que a gente encontra e diz: “Nossa! Como você era boa professora!” A maioria reconhece seu trabalho. Agora... eu me sinto assim... No ambiente da escola, enquanto você está prestando serviço, você vale. Se você adoeceu, você não vale. Você é esquecida, sabe? As pessoas não procuram saber como você está: “Oh, fulana, aqui é da escola, você está melhor?” Nem um dia! Eles colocam outra pessoa e ali eles vão se movendo e acontecendo e continuando.
Ela se mostra decepcionada em relação à escola particular, pois esperava que o seu esforço fosse reconhecido, uma vez que, conforme suas palavras, vestia a camisa da instituição e procurava cuidar da imagem pública do colégio, realizando um bom trabalho. Ressalta, entretanto, que gostava de ser respeitada como uma profissional responsável e competente e não admitia ter que bajular os superiores hierárquicos para conseguir vantagens, embora procurasse manter bom relacionamento com a direção.
Entre as dificuldades de sua profissão acha que o trabalho docente tem sido pouco valorizado e faz comparações entre o momento atual e o que imagina ter sido o trabalho docente em sua infância. Considera que as famílias não têm mais o mesmo interesse pela educação das crianças e, desse modo, o professor perdeu um poderoso aliado, ficando com grande parcela de responsabilidade pela formação das gerações futuras.
As pessoas mudaram pra pior porque aí a mãe sai, o filho faz e acontece com a empregada, faz e acontece dentro da escola, com a professora, faz e acontece na sociedade. E as próprias mães não estão querendo educar o filho não. Elas preferem sair fora, pegar a bolsa e ir trabalhar e deixar o problema rodar, do que ensinar ao filho uma tarefa que é chata.
Mas, apesar das dificuldades que encontrou em seu trabalho, especialmente na escola particular, Jandira também ressaltou que gostava muito de sua profissão e que preferia estar ainda exercendo a docência a estar aposentada por invalidez. Lembra-se que, em seu grupo de trabalho, era considerada uma pessoa divertida e entusiasmada e sente falta da convivência com suas colegas de profissão, embora seja uma pessoa que ainda tenha facilidade para fazer amizades. Afirma que o benefício que recebe da Previdência Social é suficiente para seus gastos pessoais e que não precisa pedir dinheiro ao esposo para isso. Além disso, ele tem recursos financeiros para assumir as despesas da casa, não necessitando de sua contribuição. Mas ela ressalta que quando trabalhava fora de casa, também sentia mais interesse em se cuidar.
Mas assim... faz falta a gente sair, conversar, até mesmo para se arrumar. Porque a pessoa que trabalha, a pessoa se sente na obrigação de estar arrumando o cabelo, fazendo uma unha. Eu ainda faço isso porque toda vida eu fui muito vaidosa, mas assim... A pessoa tem aquele compromisso de ter uma aparência melhor para sair para trabalhar porque você não vai trabalhar de qualquer jeito, né? E você ficando em casa, você fica mais a vontade, né? Então faz falta até para isso. É... ele dignifica. O trabalho dignifica.
Apesar das dificuldades do cotidiano, ainda considera que seu trabalho lhe causava satisfação especialmente por perceber o quanto contribuía para o desenvolvimento de seus alunos.
Mas é gratificante... é complicado e é gratificante. Quando você vê uma criança lendo, você pensa assim: não fui eu que ensinei; de uma hora pra outra ele pega o livro e fala: “professora, já sei ler”. Você fala: mas não fui eu que ensinei!... Então, nas séries iniciais... Eu achava ainda mais gratificante porque nas outras, a criança já aprendeu a ler, mas nas séries iniciais é bonitinho demais.
1.2.3 O adoecimento
Jandira se sentia pouco à vontade para realizar o seu trabalho na escola particular, pois se percebia impedida de sustentar suas convicções quando alguma situação não lhe agradava e, desse modo, calava-se para evitar conflitos com seus superiores hierárquicos, pois temia ser demitida.
E às vezes a gente escuta algumas regras que a gente não gosta. Eu sou uma pessoa muito falante, eu gosto de expor as minhas idéias, eu gosto de estar explicando o motivo do que eu não gostei e às vezes em escola particular a gente não pode. Então eu me calava... Aí eu me calava... Mas eu estava adoecendo.
As diversas tentativas de explicar aos pais a respeito das dificuldades de alguns alunos e ser mal interpretada causavam-lhe enorme dissabor. Quando não concordava com alguma situação, preferia usar a franqueza para tentar solucionar os conflitos, mas percebeu que na escola privada, não podia apresentar suas idéias e opiniões, especialmente quando eram contrárias a algumas prescrições da instituição. Jandira percebia que não havia espaço para diálogo, pois numa escola que visava à obtenção de lucro, a lógica era a de que “o cliente sempre tem razão”. Isso a deixava triste:
Eu fui me entristecendo de ver muita coisa, de ver aluno que era ruim e a gente ia falar que tava ruim e as mães não aceitavam porque estavam pagando. Tudo isso me aconteceu.
Desse modo, não lhe era permitido expressar as suas impressões sobre o desenvolvimento dos alunos, tampouco exprimir o saber que adquiria no exercício de sua atividade, cotidianamente. Não era possível elaborar meios alternativos de realizar o seu trabalho de acordo com sua percepção do processo de ensino e aprendizagem, pois era obrigada a seguir às diretrizes e prescrições da escola fielmente. Assim, Jandira foi impelida a se calar, o que parece ter favorecido a eclosão de seu adoecimento. Descobriu-se envolta em contradições, pois a forma como foi educada enquanto ex- aluna da mesma instituição era muito discrepante de como deveria agir como
professora. Além disso, lhe parecia incoerente que uma escola cuja proposta era oferecer um ensino de qualidade, desse pouca autonomia para o professor realizar o seu trabalho. Ela associou seus sintomas a essa impossibilidade de se expressar e ao fato de ter que aceitar viver sob condições e valores diferentes daqueles que serviram de base para sua formação.
Eu tenho essa facilidade de estar dialogando e como eu não gostava e não podia sempre estar colocando as minhas idéias... aí eu guardava... aí veio a doença. (...) Eu nunca briguei, eu nunca discuti com colega... mas eu acho que eu fui adoecendo pela postura que eu vi... que a minha criação de um jeito... Eu achei aquilo constrangedor, eu não aceitava o que as pessoas faziam, o que as pessoas diziam, sabe? Eu não aceitava e aí eu fui...eu acho... atacou o que atacou. Toda vida eu fui muito positiva, o que é correto... Eu sei até onde que eu posso, eu sei aonde que eu dou conta e que eu não dou conta.
Quando solicitava à direção da escola o empréstimo de algum equipamento audiovisual para utilização em sala de aula, percebia que não tinham confiança em deixá-lo sob sua responsabilidade. Também considera que o acúmulo de atividades, a sobrecarga de trabalho, a preocupação excessiva por realizar suas tarefas da melhor forma possível, também contribuíram para o seu adoecimento. Por esse motivo, necessitou se afastar de suas atividades profissionais em diversas ocasiões, pois foi acometida de uma grave disfonia que a impedia de realizar o seu trabalho. Mas, muitas vezes, não era compreendida em suas necessidades de cuidados com a saúde. Alguns colegas de trabalho duvidavam que conseguisse uma aposentadoria, pois era muito jovem. Jandira percebeu que, em muitos casos, as pessoas julgavam que estava “fazendo corpo mole.”.
Consequentemente, ela se sentia ainda mais deprimida, passando a não mais confiar em sua capacidade como professora e temendo cada vez mais enfrentar tudo que estivesse relacionado ao seu trabalho na escola particular. Sentia-se impotente diante de muitas situações que a desagradavam e que iam contra seus princípios morais e convicções religiosas e, desse modo, julga que foi impedida de realizar o seu trabalho conforme seu saber, sendo este, o principal motivo de seu adoecimento, culminando numa aposentadoria precoce.
Ela atribui a doença e a aposentadoria precoce, sobretudo, à experiência na escola particular, dizendo ter se sentido “podada”.
Mas eu julgo que foi mais pela escola particular do que pela escola pública. Com isso eu aposentei muito cedo. Eu fui prejudicada, eu fui podada. Quando eu falo com os outros que sou aposentada, os outros até estranham. Acham que sou muito nova. Realmente eu fiquei sem atividade.
1.2.4 Os sintomas
Jandira começou a apresentar dificuldades para emitir os sons da fala. Havia ocasiões em que perdia totalmente a voz. Entretanto, os exames realizados por diversos especialistas, não revelaram qualquer comprometimento orgânico que justificasse a sua disfonia.
Desde o início, ele (o médico) disse que poderia ser assim um estado de stress, ele falou que poderia ser alguma coisa nas cordas vocais e ele tentou olhar que poderia ser alguma coisa na faringe, labirintite, mandou ir à fonoaudióloga para ver o que daria para ser da voz, mas só que eu fiz a microfilmagem e não deu nada. Eu fui ao otorrino e ele também não constatou nada. Então, ele achou que poderia ser um estresse e que poderia ser assim... alguma coisa que eu não gostasse e que me bloqueasse. Era um bloqueio do que às vezes eu via, queria falar e não falava. Ele achou que a causa da minha doença seria essa.
Em busca de solução para seu problema, Jandira se submeteu a uma psicoterapia e o seu psicólogo identificou na sua disfonia, sem causas orgânicas, indícios de uma conversão decorrente de neurose histérica.
Eu tive até procurando um psicólogo na época e ele me explicou que tem pessoas que não dão conta e começam a desmaiar. Tem pessoas que não dão conta e vem aquela dor de cabeça, vem adoecendo outro membro e o meu foi a fala porque fui impedida talvez de estar expondo o que eu queria, porque era um regime fechado, um regime de irmãs.
Jandira considera que seu adoecimento foi fruto de problemas emocionais, suscitados por sua situação profissional. Caracteriza-se como uma pessoa que valoriza a verdade e a justiça e por isso tem necessidade de expor suas opiniões mesmo quando discordantes em relação às prescrições. E sempre que se sentia impedida de fazê-lo, a disfonia se manifestava.
Segundo seu relato, os problemas na voz começaram quando Jandira já estava trabalhando na escola privada há mais ou menos três anos e foram intensificando com o passar do tempo, ficando mais freqüentes e culminando em uma depressão. Os afastamentos freqüentes lhe causavam grande dissabor, pois se sentia como se não estivesse cumprindo bem as suas atividades como professora.
Durante as crises, para se comunicar com seus familiares, precisava escrever ou bater palmas para chamá-los e quando não conseguia se fazer compreender, sentia-se ainda mais deprimida. Nas ocasiões em que esteve afastada, logo que percebia que sua
voz estava retornando, preferia voltar ao trabalho porque se preocupava com seus alunos e temia ser demitida em razão dos afastamentos. Ela se define como uma profissional dedicada e que, muitas vezes, tratava os alunos como filhos, não se sentindo tranquila quando tinha que deixá-los sob os cuidados de outra docente.
Porque eu ficava: ah! Coitados dos meninos eles vão ficar prejudicados com outra pessoa. É aquela doação que a gente pensa nos outros e sempre querendo o melhor. E a escola, crianças assim de escola... ainda mais de primário...a gente é meio mãezona de menino... dos outros. Ai meu Deus e os meninos com outra professora estranha... né? Mesmo doente eu ficava com essa preocupação. Às vezes era época de prova né? Como que os meninos iam se sair com outra professora, na prova?
Com o adoecimento, Jandira sentiu-se ainda mais rejeitada, desvalorizada enquanto pessoa e como profissional. Afirma que enquanto conseguia exercer suas atividades sentia-se reconhecida como pertencente ao grupo de funcionários da escola. Entretanto, quando adoeceu e necessitou de afastamento para cuidados com a saúde, percebeu que alguns de seus colegas preferiam não continuar mantendo relações de amizade com ela, pois temiam se comprometer perante a direção da escola e consequentemente, serem penalizados por esse motivo.
Amizade?... A gente nota como o ser humano é. Às vezes, tem colega que fica com medo de conversar com você para não ter um comprometimento com o patrão.
1.2.5 A aposentadoria
Por ter necessitado se afastar em muitas ocasiões para se recuperar da disfonia, Jandira seria demitida pela escola particular e estava cumprindo aviso prévio, ou seja, seus temores não eram infundados. Isso fez com que se sentisse ainda mais desvalorizada em sua capacidade profissional, o que acarretou o agravamento dos seus sintomas. Estava muito deprimida quando seu irmão alertou-a para o fato de que a escola não poderia demitir uma profissional com problemas de saúde. A partir de então, ela começou a tomar providências para conseguir sua aposentadoria.
Alguns colegas de profissão lhe diziam que não seria fácil conseguir comprovar sua necessidade da aposentadoria, pois o seu adoecimento não revelava causas orgânicas, entretanto, os médicos eram unânimes ao identificar uma causa psicogênica para as dificuldades na fala que ela apresentava.
Ela ressaltou que o processo de comprovação da necessidade da aposentadoria por invalidez lhe causou muito sofrimento, pois se sentia tratada como louca ou, em outros casos, como se estivesse simulando os sintomas da doença. Relata que em uma das perícias, o médico se referiu a ela como “a professorinha que não fala”, o que lhe causou um intenso sentimento de revolta, pois se considerou desrespeitada ao perceber um tom de ironia na afirmação do especialista.
Entrei pelo INSS, sofrendo, porque o INSS é difícil; é uma instituição difícil. Eles te pressionam muito. Eles me levaram para lugares horrorosos lá no Carlos Prates, naquele INSS. Passei por várias provações, por lugares horríveis, de gente que parecia que estava até doido mesmo.
Devido ao seu adoecimento, Jandira avalia que foi prejudicada em seus objetivos profissionais e, consequentemente em sua realização pessoal. Afirma que, por causa dos sintomas que não cediam, sua única saída foi a aposentadoria, pois temia não conseguir outro emprego, imaginando que ninguém daria oportunidade para uma professora com dificuldades na voz.
Entretanto, revelou que, ao contrário do que muitas pessoas poderiam estar pensando a respeito de sua aposentadoria precoce, não considerou vantajosa essa medida, pois percebeu uma significativa diminuição de seus vencimentos. Além disso, ainda hoje, sente-se ociosa quando fica em sua casa apenas cuidando dos afazeres domésticos, pois já estava acostuma a ter muitos compromissos e gostava disso.
Para se sentir útil, aproveita o tempo livre para ajudar aos familiares e outras pessoas que venham solicitar algum tipo de ajuda, pois continua mantendo um largo círculo de amizades.
Enfim, Jandira considera que ainda não está totalmente bem, mas através da psicoterapia, compreendeu que deveria tentar ser mais franca e autêntica, procurando defender suas posições diante dos outros. Evitando se calar diante daquilo que julga inadequado conforme suas convicções pessoais, tem maiores possibilidades de afastar o sintoma que a aflige, ou seja, a perda da possibilidade de se expressar através da fala.
Mas agora através do tratamento que eu fiz eu aprendi a não ficar muito tempo... Eu posso até ficar com uma raiva, mas eu aprendi a não ficar. (...) Hoje ainda eu tenho esse problema, porém, assim... quando eu fico muitíssimo abalada. Agora eu aprendi que eu devo... eu não preciso usar minha fala para maltratar as pessoas, mas eu tenho que falar o que eu sinto porque, se eu não falo o que eu sinto, eu fico engasgada e adoeço. Foi o que aconteceu.