3. BULGULAR VE TARTIŞMALAR
3.3 Kimyasal Analiz Sonuçları
3.3.7 Kalsiyum (Ca)
Jandira fez o magistério na mesma escola em que, posteriormente, foi trabalhar. Logo que se formou, começou a lecionar como contratada em uma escola do Estado. Trabalhou nessa mesma instituição durante 10 anos, mas foi demitida quando uma colega concursada assumiu o cargo. Durante cinco anos, trabalhou nessa escola pública e, ao mesmo tempo, numa escola particular administrada por uma congregação de religiosas católicas. Isso lhe permitiu fazer algumas comparações sobre o seu trabalho nas duas instituições de ensino.
Jandira encontrava maiores dificuldades ao lidar com os pais de seus alunos na escola privada. Em sua opinião, isso se dava porque, como pagavam mensalidade, o nível de exigência dos pais era maior e, por isso, muitas vezes, desconsideravam a percepção e a opinião dos professores sobre o rendimento escolar de seus filhos; o interesse dos pais era pela aprovação do aluno mesmo que não tivesse alcançado bons resultados na aprendizagem. Isso fazia com que Jandira se sentisse responsabilizada quando a criança não conseguia se sobressair na escola.
Ela sempre foi muito comprometida com sua profissão. Conseguir que a criança tirasse proveito das aulas, que gostasse de ir à escola, que aprendesse o conteúdo que ela se esforçava para ensinar, era fundamental para essa professora. Além disso, sempre procurou ser pontual, sentindo-se mal se necessitasse faltar ao trabalho. Tentava trabalhar da melhor forma para que sua turma fosse bem-sucedida na aprendizagem.
Para Jandira, a escola particular oferecia melhores condições de aprendizagem ao aluno, por ter bons recursos materiais para auxiliar o trabalho do professor e os pais serem mais atentos à educação dos filhos. Já na escola pública, o professor tinha que suprir muitas carências materiais e as famílias se interessavam menos pelo desenvolvimento da criança. Apesar dessas diferenças, era sempre dedicada ao seu trabalho e procurava criar condições para realizá-lo da melhor maneira possível, tanto na escola particular quanto na escola pública. Preocupava-se em preparar o material para a aula, em acompanhar o progresso do aluno, tentava criar estratégias para facilitar a aprendizagem dos alunos da escola pública, mas, ainda assim, considerava que os resultados alcançados estavam aquém daqueles que obtinha na escola particular.
Muitas vezes ia dormir às duas horas da madrugada fazendo o seu plano de aula e às cinco horas da manhã já estava de pé para preparar, antes de ir para a escola, as
atividades que iria realizar com seus alunos. Apesar desse esforço, ela se sentia gratificada ao perceber o desenvolvimento das crianças, a partir do trabalho que realizava.
Uma extensa jornada de trabalho, cumprindo dois e, algumas vezes, até três turnos, incluindo a preparação das aulas para turmas diferentes, com alunos diferentes e com perfis diferentes, ajudando na promoção de atividades extracurriculares como os eventos nas datas comemorativas, causavam-lhe desgaste, tanto mental, quanto físico. Era comum não usufruir de uma pausa para descanso entre um turno de trabalho e outro. No que concerne à escola privada, essa professora afirma ter sido pouco valorizada em sua dedicação e habilidades, apesar de se considerar uma profissional competente. As exigências eram mais pesadas, uma vez que os pais esperavam resultados melhores, alegando que estavam pagando.
Ela comparava a postura de seus alunos da escola pública e da escola privada: na escola particular, tanto as crianças como seus pais tratavam os professores como empregados que deveriam obedecer às suas ordens. Na escola pública, entretanto, a clientela e sua família eram mais respeitosas com os professores. Além disso, na escola particular, a própria direção desqualificava o trabalho do docente.
Considerava também a organização do trabalho na escola particular como muito rígida. Além disso, apesar de haver bons equipamentos para uso em sala de aula, a escola oferecia muita resistência em emprestá-los aos professores por receio de que fossem danificados. Dessa forma, somente as religiosas podiam utilizar equipamentos audiovisuais tais como projetor de slides, retroprojetor ou aparelho de som.
Jandira havia sido aluna dessa escola na infância. Em sua época de estudante, a escola só aceitava crianças do sexo feminino e as alunas também eram submetidas a uma disciplina rigorosa: não havia tolerância com atrasos, o uniforme devia estar em perfeitas condições e as mensalidades deviam estar rigorosamente em dia.
Revela que, como professora na escola pública, tinha mais liberdade para direcionar o seu próprio trabalho. Os recursos materiais eram mais escassos do que na escola privada e, por esse motivo, era necessário que criasse atividades que facilitassem a aprendizagem dos alunos. Muitas vezes, ela mesma comprava os materiais necessários para desenvolver, em sala de aula, as atividades que elaborava com o objetivo de facilitar o seu trabalho com os alunos. Apesar disso, na escola pública, sentia-se mais
livre para realizar seu trabalho e, como gostava de sua profissão, tinha o mesmo comprometimento, independentemente de cobranças externas.
Considerando-se uma pessoa dedicada e responsável, achava que não era necessário que a escola particular tivesse com ela um tratamento tão rigoroso. Era costume a diretora ou a supervisora entrar em sala de aula inesperadamente para observar o trabalho dos professores, realizando com isso um monitoramento do que estava sendo feito e avaliando suas ações em sala de aula. Sentia-se constantemente vigiada e ameaçada com a possibilidade de demissão. Por esse motivo, achava que estava sendo desrespeitada, pois não se percebia reconhecida em seus esforços e em sua capacidade profissional.
Assim, revelou-se pouco à vontade para realizar o seu trabalho na escola particular, sentindo-se impedida de trabalhar conforme as suas convicções, pois devia seguir rigorosamente as prescrições impostas pela escola. Entretanto, preferia se calar diante disso, para evitar conflitos com seus superiores hierárquicos que resultassem em sua demissão.
Com o passar do tempo Jandira começou a apresentar os sintomas da disfonia, ou seja, revelou dificuldades para emitir os sons da fala. Havia ocasiões em que perdia totalmente a voz. Entretanto, os exames realizados por diversos especialistas, não revelaram qualquer comprometimento orgânico. Os problemas na voz começaram quando estava trabalhando na escola privada havia mais ou menos três anos e foram se intensificando com o passar do tempo. Além disso, começou a apresentar sintomas de depressão. Nas ocasiões em que ficava de licença em decorrência dos distúrbios da voz, era acometida por sentimentos exacerbados de melancolia que a deixavam sem forças para reagir: chorava com muita frequência, não tinha interesse em se cuidar, sentia falta de apetite.
Assim que os sintomas da perda da voz abrandavam, ela preferia voltar ao trabalho porque se preocupava com seus alunos e com a preservação de seu emprego, mas em pouco tempo, os sintomas retornavam. Foi recomendada a trabalhar na biblioteca da escola, baseando-se na hipótese de que, afastando-se da regência, da sala de aula e dos alunos, talvez conseguisse a supressão definitiva dos sintomas, mas em pouco tempo a disfonia voltou a se manifestar. O desvio de função não parecia uma solução para seus problemas.
Devido aos constantes afastamentos, a escola particular deu-lhe aviso prévio, mas seu irmão alertou-a para o fato de que a escola não poderia demitir uma profissional adoecida. A partir disso, Jandira começou a tomar providências para conseguir sua aposentadoria porque teve receio de não mais conseguir outro emprego. Entretanto, considera que foi prejudicada em seus objetivos profissionais e em sua realização pessoal, pois se aposentou muito jovem – estava com 43 anos de idade.
Atualmente ela se sente bem disposta e algumas vezes pensa em abrir mão dos benefícios da aposentaria para voltar a trabalhar, pois sempre gostou e ainda gosta da docência, mas além de estar receosa de não conseguir recuperar a mesma disposição do início de sua carreira, ela não gostaria jamais de voltar a trabalhar em uma escola particular, pois teme que os sintomas de seu adoecimento voltem a se manifestar, impedindo-a de prosseguir.
Esse relato nos dá alguns indícios do que a organização do trabalho docente, aliada à história pessoal da professora, pode ter contribuído para o seu adoecimento. Como sempre foi comprometida com sua profissão, parecia-lhe desnecessário um controle tão rígido por parte da direção da escola particular sobre o seu trabalho. Mesmo na escola pública, que exercia menos controle, ela realizava suas atividades com o mesmo interesse, não havendo necessidade que monitorassem suas ações em sala de aula.
O trabalho na escola particular colocava-a diante de algumas contradições, pois como professora, exercia uma função de grande responsabilidade, trabalhando com crianças em fase de alfabetização, mas a direção não confiava que sequer fosse capaz de cuidar dos equipamentos audiovisuais. Além disso, esperava-se que o aluno tivesse um ensino de qualidade, mas o professor não tinha autonomia para avaliar seu desenvolvimento: o importante era que ele fosse aprovado, pois seus pais pagavam e contavam com isso.
Se a escola se preocupava em oferecer um ensino de qualidade, era esperado que contratasse bons professores. Desse modo, para Jandira parecia contraditório que não confiassem no corpo docente. O professor era considerado apenas mais um educador entre muitos e, caso não cumprisse fielmente as normas da escola, era fácil demiti-lo, admitindo-se outro docente logo em seguida.
Na escola privada, vivia outra contradição entre o que havia imaginado que seria sua carreira docente e o que recebia como professora. Como se formou nessa mesma
escola, esperava que seu trabalho fosse valorizado e que confiassem em suas habilidades. Mas, na realidade, descobriu-se impedida de realizar a sua atividade, pois o que estudou durante sua formação não correspondia mais às demandas da escola, quando foi admitida como professora dessa instituição.
Desse modo, observamos que essas contradições, além dos impedimentos que viveu em sua atividade profissional, geraram as insatisfações e sofrimentos insuportáveis para Jandira, acarretando o seu adoecimento. O fato de ter apresentado justamente o sintoma da perda da voz, nos parece ter um valor simbólico. É claro que se trata de um sintoma típico dessa categoria profissional, mas temos que considerar que Jandira não apresentava elementos no plano orgânico que o justificassem. Sendo assim, podemos levantar a hipótese de que seu sintoma foi a forma que encontrou para expressar sua impotência. Seria exagero ver, na perda da voz, a forma desesperada encontrada por essa professora para comunicar que estava sendo impedida de agir? Teria sido a única maneira de se calar diante de uma situação que se tornara insustentável?
Assim como ocorreu nas investigações de Le Guillant (2006), no caso de Jandira observamos que a organização de sua atividade profissional na escola particular, onde as contradições e os conflitos eram particularmente intensos, representam um fator patogênico indiscutível, mostrando que somente as predisposições da estrutura de personalidade dessa professora não são capazes de explicar a eclosão de seu adoecimento. Isso se comprova quando consideramos que ela não identifica na escola pública, onde exerceu a docência submetida a condições materiais até menos favoráveis, que tenha se sentido impedida de realizar o seu trabalho ou experimentado qualquer tipo de mal estar.
Foram os resultados do levantamento realizado no HEAL e do estudo de caso acima, que despertaram nosso interesse em aprofundar o conhecimento do trabalho docente e seus impactos na saúde física e mental dos professores. Partimos então para uma nova etapa da pesquisa, que será exposta nos próximos capítulos.
No primeiro momento exporemos os estudos em torno da saúde do professor aos quais tivemos acesso e, em seguida, os resultados do nosso próprio estudo.
Capítulo II
2 O exercício da docência