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Plan Genel ve Özel hükümlerine İlişkin;

KOMİSYON RAPORLARI

PLAN NOTLARINA İLİŞKİN DEĞERLENDİRME:

C- Plan Genel ve Özel hükümlerine İlişkin;

bela bela mais que bela

A INSENSATEZ DA ESCRITURA: ensaios de literatura 165

mas como era o nome dela? Não era Helena nem Vera Nem Nara nem Gabriela Nem Tereza nem Maria Seu nome seu nome era... (GULLAR, 1999, p. 219).

O poema se inicia com o efeito polissêmico do adjetivo turvo, que situa a memória num plano desordenado e confuso, numa tentativa de promover uma sintonia fina de recuperação pela memória, como um velho rádio de ondas curtas, criando um clima onírico que se submete a variações antitéticas paradoxais: escuro / claro ; mole / duro ; fosso / muro. A resistência à memória representada pelo muro se funde ao es- curo do tempo, que vai sendo perquirido até que as reminiscências con- traditórias produzem o “bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas”, até que a memória cromática se estabiliza tempo- rariamente no azul do gato / galo / cavalo.

Repentinamente, a intromissão do palavrão (“azul / teu cu”) rompe o clima nostálgico para introduzir um momento de erotismo, em que o eu lírico se dirige ao objeto feminino de sua sensualidade, fun- dindo elementos que misturam prazer e pecado: gengiva / bocetinha; cheiro de flor / cheiro de bosta de porco.

A referência ao poema “Belo belo”, de Manuel Bandeira, restaura o lirismo nostálgico que pretende resgatar a memória do nome feminino: “bela bela / mais que bela / mas como era o nome dela?”. O nome dela, ou delas, bem como sua imagem, entretanto, não podem ser resgatados, pois a memória quente é toldada pela carne fria, e mais, pela confusão e profusão de acontecimentos que turvam a limpidez do passado:

constelações de alfabeto noites escritas a giz pastilhas de aniversário domingos de futebol enterros corsos comícios roleta bilhar baralho (GULLAR, 1999, p. 219).

O nome está perdido, mas está em poder do poeta, escondido em alguma gaveta, certamente metafórica, possivelmente instalada no pró- prio coração ou na memória, e algum dia se abrirá. Mas

Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos e pais dentro de um enigma?

(GULLAR, 1999, p. 219).

A busca do nome perde, então, a importância diante do desloca- mento que o eu poético promove para um momento de reunião familiar à mesa do jantar. O poeta, ao localizar temporalmente a cena como “esta hora do anoitecer”, parece aproximar o enunciado do tempo da enun- ciação. Na sequência da leitura, percebe-se que a cena é composta de frag- mentos de memória, metaforizados nos pratos de louça que já se que- braram, nos garfos e facas que “se perdem pela vida”, assim como as palavras dos pais e dos irmãos se perderam junto com o feijão, a farinha e os nacos de carne assada. Para o poeta, ser real é uma condição para que algo se perca, e assim foi com as coisas e pessoas que cercavam sua in- fância: eram “tão reais que / se apagaram para sempre”. A certeza do apa- gamento, entretanto, é posta em dúvida pela pergunta indecisa: “Ou não?”. A cena da infância do enunciador, na sequência, é atualizada para um momento próximo ao da enunciação, mas ainda remetendo ao tempo remoto, “perfeitamente fora / do rigor cronológico”. Os per- tences de seu passado o acompanham, refundidos, numa viagem de ônibus, ou de avião Boeing 707 sobrevoando o Atlântico. Em todos os momentos, comparecem os fragmentos de suas lembranças, aos quais o poeta se dirige na segunda pessoa do plural:

Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas cobertos de limo muros de musgos palavras ditas à mesa do jantar,

voais comigo

sobre continentes e mares (GULLAR, 1999, p. 220).

A INSENSATEZ DA ESCRITURA: ensaios de literatura 167

Os ecos do passado o acompanham também “pelos túneis das noites clandestinas”, pelas “esquinas do susto”, numa referência evi- dente ao clima de ditadura e repressão vigente no país nos anos setenta. A lembrança da menina do nome esquecido retorna à mente do eu lírico, e ele retoma com ternura o tratamento de segunda pessoa do singular: “Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes do mundo”. Aquela que não tinha nenhum nome agora tem todos.

A memória da casa na infância retorna em brumas com a pre- sença da tia tossindo no quarto, a pobreza de dinheiro e de amor, as goteiras, a penumbra, e as formigas negras que povoaram a infância do poeta. E a vida seguindo entre sorrisos, conversas, coitos, roubos, adul- térios, e a tentativa de decifrar o enigma que o poeta já propunha a uma ave no poema “Galo galo”, do livro A luta corporal (1950-1953):

– Que faço entre coisas? – De que me defendo? (GULLAR, 1999, p. 221).

Plantas e rosas (“como pode o perfume / nascer assim?”) no cofo do quintal, pés de tomate, capins (“mais verdes que a esperança”) nas- ciam por todo lado; a vida se manifestava enquanto o mundo guerreava (1939 a 1945). O horror da guerra se traduz na aspereza das palavras a ela ligadas: gestapo, wehrmacht, raf, feb, blitzkrieg.

As lembranças dessa época são muitas, mas não incluem ainda a vivência poética (o poeta teria, então, por volta de dez anos). Nada de Olavo Bilac nem de Raimundo Correia. Que é a poesia? Tuba de som estridente e rijo ou lira suave? Mais tarde, o poeta aprendeu que a voz da poesia é uma voz humana, produto de um corpo que possui uma ar- mação a sustentá-lo, um corpo lascivo, cheio de sangue, que se estende numa cama, que sua mãe chama de filho, que seu filho chama de pai, que funciona para que exista um sujeito chamado José Ribamar Ferreira, ou Ferreira Gullar.

Seu corpo se desdobra em corpo-facho (corpo que emite luz, que sustenta paixões); corpo-fátuo (transitório, vaidoso, presunçoso); cor- po-fato (corpo real, que ocupa lugar no espaço, concreto); corpo-falo

(em forma de pênis); corpo-galáxia (corpo que abarca o sistema solar). Da Via Láctea, o corpo do poeta sofre um processo de particularização que vai da região em que ele nasceu à família (ferreirense) e aos pais (newtoniense e alzirense).

Esse corpo do poeta viaja pelo tempo e pelo espaço, até se encon- trar no momento da enunciação, quando a voz poética declara ter 45 anos e uma crença:

combatente clandestino aliado da classe operária meu coração de menino

(GULLAR, 1999, p. 226).

Benzer Belgeler