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KOMİSYON RAPORLARI

PLAN DURUMU:

Exceto se encontra pousado

um pássaro azul e vermelho

– a brisa entortando-lhe as penas feito um leque feito

o cocar de um guerreiro que nele se transformara

para continuar habitando aqueles matos. (GULLAR, 1999, p. 248-249).

Algum menino lírico que tenha visto a encenação de Y Juca

Pyrama no palco da escola pode ser tentado a procurar os índios

Timbiras fora da literatura, mas se decepcionará. Poderá, entretanto, encontrar um pássaro azul e vermelho, cuja imagem se superpõe na mente do menino à de um guerreiro indígena do passado, que o pássaro certamente deve ter conhecido. A cena é localizada fora da cidade e das estradas, “como parte da história dos matos e dos pássaros”, onde “os guerreiros continuam vivos”.

A busca dos índios e a identificação com o pássaro azul e ver- melho trazem à mente do poeta seu conhecimento dos pássaros (caná- rio-da-terra, fogo-pagô, bigode pardo, galo-de-campina, anum, urubu); a história dos pássaros, entretanto, o menino só ficou conhecendo após

encontrar o fantasmagórico pássaro vermelho e azul. Esse pássaro tem uma verdadeira história, não a história trivial dos urubus, que “é prati- camente a mesma história dos homens”, prosaica como a dos papagaios na cozinha e a dos curiós na gaiola da barbearia.

Num processo de livre associação, o eu lírico abre parênteses para falar da filha do barbeiro que fugiu com o filho mulato do carteiro, e da consequente maledicência racista das vizinhas:

se tivesse fugido com um branco

ao menos ia poder casar (GULLAR, 1999, p. 251).

A história dos pássaros transporta a cena para a casa chique do dr. Gonçalves Moreira, que tinha um casal de canários-belgas, pássaros estrangeiros que moravam numa gaiola de prata e que tinham uma criada para cuidar deles com alpiste e água fresca. Em outro parêntese, o poeta evoca a presença prepotente dos norte-americanos em São Luís na época da segunda guerra. Os canários da elite, “nem-seu-souza”, não se perturbavam com o mundo lá fora.

Mudando de canário belga para curió, o poeta retoma a história da filha do barbeiro, Camélia, que caiu na vida, para desgosto do pai, seu Cunha, ele que tinha três filhas. A mais velha aprendeu a tomar in- jeção de Eucaliptina nas nádegas, aconselhada pelo enfermeiro:

E desde esse santo dia era injeção toda tarde. (e o curió,

nem-seu-souza)

(GULLAR, 1999, p. 253).

A terceira filha de seu Cunha escapou do apelo sexual e virou “filha de Maria” “(e o curió, / nem-seu-souza)”.

O curió passa o bastão ao canário-da-terra, que parou de cantar numa manhã de domingo, quando o dono, seu Neco, matou a mulher com uma canivetada nas costas. Motivo: dor de corno. A morte colou-se à rua, às árvores, às casas e dentro delas, em todos os lugares.

A INSENSATEZ DA ESCRITURA: ensaios de literatura 175

Religiosas, devassas, adúlteras, assassinadas, as mulheres de todas as cores são evocadas nos versos populares:

Salve a mulher de amarelo Põe a de verde no chinelo Mas a mulher de estampado Deixa o homem amarrado (GULLAR, 1999, p. 253).

As histórias dos pássaros “hurmanizados” (humanos e urbanos?), que metaforizam a liberdade do bem-viver das elites, representada pelo dr. Gonçalves Moreira, em contraste com o penar dos pobres, cujos pássaros-mulheres batem asas e provocam dor e tragédia, terminam com a evocação, por meio do vento-lembrança, dos “pássaros pás- saros”, cuja história:

só os guerreiros conhecem só eles a entendem quando o vento (numa lembrança)

sopra-a nas árvores de São Luís (GULLAR, 1999, p. 254).

O pai

se alguém chegasse lá por volta das 3 da tarde (hora

de pouco movimento) – ele meio debruçado no balcão lendo X-9 –

veria que tudo estava parado na mesma imobilidade branca (GULLAR, 1999, p. 254).

Newton Ferreira é o pai do poeta, dono da quitanda “na esquina da Rua dos Afogados / com a Rua da Alegria”. A vida do pai do poeta não se resumia às lides com os produtos de sua venda; suas leituras dos livrinhos X-9 o punham em contato com um mundo mais amplo, po- voado de gangsters americanos.

A imagem de Newton Ferreira lendo sua história policial na calma da tarde, apoiado pelo “amplo sistema” de produtores e fornece- dores que abastecem seu comércio, dirige a reflexão do poeta à evo- cação das tardes de sua cidade, ao mesmo tempo lenta e veloz, veloz porque lenta, com suas nuvens conduzidas pelos ventos (“outro sis- tema”) sobrevoando os telhados das construções. Sob os telhados, mis- turam-se “retratos de mortos”, “pequenas caixas com botões e novelos de linha”, “parentes tuberculosos em quartos escuros”, “crianças que mal começam a andar”, enfim, seres e coisas que compõem a vida da cidade sob a cobertura das telhas. Tal cena se passa distante dos olhos de “um hipotético passageiro da Braniff”, “que venha de avião dos EUA”. O primeiro mundo americano dominador não tem olhos para a pobreza e a sujeira dos subdesenvolvidos.

O foco do eu poético volta a se fixar na cena de Newton Ferreira lendo seu conto policial no armazém, à tarde, onde o tempo não flui. A cena, então, aproxima-se do momento da enunciação, quando o poeta aventa a possibilidade de sobreexistência da venda do pai, nas mercado- rias e no cheiro delas, no imóvel e nos móveis; jamais, entretanto, nas mesmas pessoas e nas mesmas conversas. O poeta evoca a mudança como “um aprendizado da morte”, em que os novos rostos com que se tem que conviver são “rostos desconhecidos / como num sonho mau”. As casas, as ruas, a cidade são os mesmos; as pessoas é que se perderam. Assim foi com Newton Ferreira, ex-center-forward da seleção maranhense.

A cidade

Ah, minha cidade verde minha úmida cidade

constantemente batida de muitos ventos (GULLAR, 1999, p. 259).

A evocação da cidade é sensorial. Ela é plástica, em seu verde e nas margaridas vermelhas, é sonora em seu canto, olfativa em seu jasmim, “ainda que sujo da pouca alegria reinante”, no cheiro da terra e do mato “que era abrigo e afeto”, próprio para expansões eróticas.

A INSENSATEZ DA ESCRITURA: ensaios de literatura 177

Apesar das toalhas bordadas e dos jarros de flores, a cidade é suja, de vergonha e humilhação, de pouca comida: é uma cidade doída. As águas metaforizam a dinâmica da cidade: as águas da chuva, dos esgotos, do tanque, do copo, do pote, da tina, dos banhos, águas que se represam e que rolam sem destino. O sujo da vida é o sujo da cidade, é o sujo do poeta, sujo de merda e de urina com pus, a sujeira delirante, que o conduz ao turbilhão insensato da viagem urbana, extraviado, re- lacionando os nomes dos locais às suas ações desvairadas. Nesse mo- mento, o eu lírico assume uma atitude fortemente subjetiva.

Ele urina pus nos jardins que pedem vida; perde-se nas estrelas; lava-se no ribeirão; conspurca a religião com sua urina; cega-se ao sol; revolta-se onde deveria haver paz; nega-se no ambiente de negócio; floresce nas hortas, já que o jardim é sujo; chora onde devia ter prazer; procura conhecer a palma da mão. E assim o poeta segue seu itinerário, fundindo os nomes dos locais às suas ações:

na do Alecrim me perfumo na da Saúde adoeço na do Desterro me encontro na da Alegria me perco Na Rua do Carmo berro na Rua Direita erro e na da Aurora adormeço (GULLAR, 1999, p. 262-263).

O poeta acorda na zona, ama, sofre, dilacera-se. É aplaudido por subverter a “ordem poética”, por se comportar como um artista de van- guarda; entretanto, é rigorosamente condenado pelo status quo por suas posições políticas subversivas, sob a indiferença das elites quanto à sorte dos desprotegidos:

(e os canários, nem-seu-souza: improvisam

em sua flauta de prata) (GULLAR, 1999, p. 263).

A estupefação do poeta diante da situação caótica provoca a ameaça: “Vendo o que tenho e mudo / para a capital do país”. A ameaça foi cumprida quando o poeta tinha vinte e um anos. Antes da mudança, suas possibilidades de casamento oscilavam entre a elite representada por Maria de Lourdes e a decadência de Marília. E a vida maranhense segue, uma vida pouca, “E por ser pouco era muito”, o amor buscado nas coisas, não nas pessoas. A vida, a vida mesmo, passava sobre a cidade de avião, certamente uma vida americana num americano avião da Braniff.

Benzer Belgeler