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Peter Senge’ye Göre Örgütsel Öğrenme Engeller

Uma das primeiras dificuldades é definir e estabelecer uma distinção concreta entre o texto falado do texto escrito. Considerar as diferenças de meio e canal de difusão é fundamental para estabelecer estes limites, uma vez que os textos falados são emitidos através do ar por meio do som, enquanto os textos escritos são transmitidos normalmente por meios impressos, necessitando de um suporte físico minimamente estável. Uma primeira consequência importante que opõe fala e escrita tem relação com a duração da mensagem. A fala, por se tratar de ondas sonoras que viajam pelo ar, tem a duração limitada à memória imediata4, ao passo que a mensagem escrita durará pelo tempo em que

seu suporte puder preservá-la. Também as distâncias que as mensagens falada e escrita podem viajar são muito distintas. A mensagem falada pode alcançar uma pequena distância antes que as ondas sonoras se extinguam, além de poder sofrer interferências de outras fontes de som ou de barreiras físicas (ruídos). Por sua vez, a mensagem escrita praticamente não apresenta este limite espacial, podendo viajar por milhares de quilômetros, sem ser submetida a ruídos.

A transmissão da linguagem através da voz acarreta em traços constitutivos da língua falada, na medida em que o som determina a codificação de informações de modo muito diferente do que a língua impressa. A voz carrega, junto com a informação textual propriamente dita, informações sobre o sexo, a faixa etária, o estado emocional do falante, e ainda mais importante do que isso, por meios da prosódia é que são diferenciadas as diferentes ações que fazemos ao falar (tais como ordens, saudações, pedidos etc) além de organizar a informação falada de modo coerente.

Não se pode deixar de notar que um texto escrito pode ser oralizado, como é o que de fato ocorre em diversas situações normais de uso da língua. É necessário diferenciar a “fala falada”, aquela que é realmente espontânea, de outras modalidades de texto falado (como a “fala escrita” e a “fala recitada”). A “fala falada” é caracterizada pela presença física contemporânea dos interlocutores em um mesmo espaço, mas mais do que isso, é planejada

4 “A memória imediata refere-se àquilo que pode ser mantido de forma ativa na mente, começando no momento em que a informação é recebida. É essa informação que representa o foco da atenção no momento e que ocupa a corrente de pensamento do momento. A capacidade da memória imediata é bastante limitada (pode manter aproximadamente 7 itens) e, a não ser que seu conteúdo seja recapitulado, normalmente persiste por menos de 30 segundos.”(SQUIRE; KANDEL, 2003, p. 96). Naturalmente, pode-se guardar na memória de longo prazo fragmentos ou mesmo o sentido geral de uma mensagem falada, desde que haja recapitulação de tal conteúdo.

e produzida no momento próprio da interação, em uma situação que é percebida de modo particular por cada um dos participantes da interação (NENCIONI, 1983). Os interlocutores em uma comunicação falada face a face compartilham o contexto situacional, e, consequentemente, a dêixis é situacionalmente dada, o que tem uma consequência direta sobre as estruturas linguísticas que emergem nesta situação, como será especialmente demonstrado no Capítulo 8 deste trabalho.

Em uma situação natural de interação espontânea, a reação de um interlocutor a algo que lhe foi falado é uma incógnita para o falante, que pode, no máximo, ter uma certa expectativa sobre o tipo de reação que sua fala terá, porém a ação (linguística ou não) por parte do interlocutor é construída no momento da interação e é, portanto, imprevisível. A espontaneidade é um traço marcante da “fala falada”, e isso faz com que ela seja plena não somente em informação, mas, principalmente, caracterizada pela realização dos mais diversos valores ilocutivos. Isso significa que a “fala falada” é marcada por uma grande acionalidade (NENCIONI, 1983).

Já a construção do texto escrito equivale a tornar as expressões linguísticas autônomas dos valores paralinguísticos e situacionais e dos limites da memória, com isso possibilitando o destacamento do texto em termos de espaço e tempo de sua produção, o que lhe confere uma transcendência cultural e social. Estas qualidades do texto escrito estão centradas na idealização do interlocutor e na absorção do contexto pelo texto. O texto escrito só realiza uma ação na medida em que é lido e inserido em um contexto. Como decorrência, a escrita diferencia-se da fala espontânea também no que se refere à acionalidade do discurso resultante. A ação realizada ao escrever não corresponde à(s) ações realizadas ao falar: o resultado da escrita é um texto escrito, o resultado da fala espontânea é uma reação por parte do interlocutor. Na fala, cada enunciado realiza uma ação, visto que a natureza da fala é ilocucionária. Por outro lado, na escrita, o texto, como um todo, carrega a potencialidade de uma ação.

Como exemplo, pensemos em uma situação na qual uma bibliotecária faz um cartaz no qual está escrita a palavra “SILÊNCIO” para colocar em uma biblioteca. Quando a bibliotecária está escrevendo o cartaz, a ação que ela está cumprindo naquele momento é a ação de escrever. A ação de pedir silêncio só se concretiza no momento em que o cartaz é pregado na parede da biblioteca e há alguém que o lê. Ou seja, escrever a palavra “SILÊNCIO” em um cartaz só produzirá o efeito de um pedido de silêncio se a palavra for lida

dentro do contexto adequado. O mesmo cartaz pode ser usado por uma professora que queira ensinar seus alunos a ler, então a ação realizada pela palavra escrita será completamente diferente. Na fala espontânea, ao contrário, um pedido de silêncio é motivado e concretizado no momento mesmo de sua produção. Também não se pode usar a mesma prosódia do pedido de silêncio se o que se quer fazer é mostrar como se deve ler a palavra “SILÊNCIO”.

Contudo, a visão que assume uma separação discreta entre fala e escrita, adotada neste trabalho, não é consensual entre os pesquisadores e teóricos da linguagem. Há aqueles que adotam a perspectiva de que há uma continuidade entre as duas modalidades. Esta visão fundamenta-se sobretudo nas possibilidades de gêneros textuais produzidos nas modalidades falada e escrita e costuma não considerar a oralidade em sua manifestação natural, ou seja, sonora, realizando a análise dos aspectos estruturais da fala sempre de uma perspectiva textual, portando, ignorando características constitutivas da fala, como a prosódia.

Para estes pesquisadores, textos falados e escritos não representam dois polos opostos; suas diferenças seriam melhor compreendidas dentro de um contínuo tipológico, em que, de um lado, estaria a escrita formal, e de outro, a conversação espontânea (MARCUSCHI, 1995, 2001). Segundo esta perspectiva, no uso linguístico são encontrados textos escritos que se assemelham, em certa medida, à fala (cartas familiares, textos de humor) e textos falados que estão mais próximos da escrita formal (conferências, entrevistas profissionais), além de haver ainda diversos tipos mistos (KOCH, 2006).

Segundo estes autores, a visão dicotômica de fala versus escrita permaneceu durante bastante tempo e a partir dela foram arroladas uma série de características que diferenciariam o texto falado do escrito. Algumas das características da fala seriam o fato de ser contextualizada, redundante, fragmentada, incompleta e pouco elaborada; ao passo que a escrita seria descontextualizada, condensada, planejada, completa e elaborada (KOCH, 2006). Para a Koch (2006), a distinção realizada com base nestas características não é suficiente e nem sempre verdadeira. Koch (2006, p. 45) observa que estas diferenças foram elaboradas “tendo por parâmetro o ideal da escrita (isto é, costuma-se olhar a língua falada através das lentes de uma gramática projetada para a escrita), o que levou a uma visão preconceituosa da fala”. Segundo ela, o texto falado não se articula de forma caótica e desestruturada, pelo contrário, “tem uma estruturação que lhe é própria, ditada pelas

circunstâncias sociocognitivas de sua produção e é à luz desta que deve ser descrito e avaliado”.

No entanto, essa tentativa de valorizar a produção falada colocando-a em um contínuo com a escrita não soluciona os problemas de análise, pois os estudos realizados normalmente adotam o tratamento e análise tão somente das propriedades lexicais e morfossintáticas características de textos falados e escritos, deixando de lado os aspectos relacionados à realização sonora da fala. Com isso, por mais que sejam reconhecidos os problemas de tal abordagem, a simples proposição do contínuo não elimina o problema de fundo e a fala continua sendo analisada com base nas mesmas unidades de análise construídas para a escrita.

A razão para isso pode ser encontrada nas limitações existentes até bem pouco tempo para a observação e análise da produção oral. Desde o início dos estudos linguísticos, a linguagem somente pôde ser analisada a partir de seu registro escrito, e isso deu origem a categorias e métodos de pesquisa elaborados para essa modalidade. A tecnologia vem permitindo o registro e a recuperação do som, a propriedade mais importante para considerar a fala em uma diamesia separada da escrita. Equipamentos de gravação portáteis e sem fio, o desenvolvimento de mídias digitais de grande capacidade, o aumento do desempenho em termos de processamento e memória dos computadores pessoais com custos cada vez mais acessíveis permitiram o desenvolvimento de novas técnicas e instrumentos de análise, propiciando aos pesquisadores a exploração de dados de fala produzidos fora de laboratório e em contextos naturais diversificados.

O avanço tecnológico foi fundamental pois, tendo disponível o som, o pesquisador não mais se limita a investigar os elementos linguísticos facilmente codificados através de representações gráficas, mas pode considerar em sua análise as informações carregadas pela prosódia. As questões linguísticas pertinentes ao nível segmental da língua são uma decorrência superficial dos processos de construção particulares de textos falados e escritos, processos estes que estão ligados à dimensão pragmática que faz emergir, mesmo na língua falada formal e pouco interativa, formas impossíveis na escrita. Mais uma vez, é importante lembrar que através da fala são realizadas ações (atos de fala), o que não ocorre na escrita (como ilustrado pelo exemplo do cartaz de “SILÊNCIO”, a escrita apresenta a potencialidade de ações). A ação que está por trás de cada enunciado é um fator determinante da sua materialização linguística.

Assim, é importante tratar a “fala falada” dentro de sua dimensão própria, que é a oralidade, e reconhecer a importância da pragmática para a realização de qualquer texto oral. A característica mais importante deste tipo de fala, considerada espontânea, é seu caráter interativo. Na fala espontânea há o cumprimento de ações, ou seja, o princípio que rege os textos da fala espontânea repousa sobre um fundamento ilocutório. É a partir do relevo dado ao aspecto pragmático que é possível perceber que as ações não são o produto de um locutor ativo mas isolado; ao contrário, o locutor se dirige a um ou mais interlocutores sempre em uma situação dinâmica e interativa e realiza ações dirigidas aos seus interlocutores a cada enunciado. A fala espontânea pode ser definida como o cumprimento de atos linguísticos não programáveis, em uma situação de interação livre entre interlocutores, que pode ser modificada a qualquer instante (CRESTI; SCARANO, 1999).

Tendo como base esta definição, é fácil perceber que grande parte dos estudos sobre a fala, mesmo aqueles baseados em corpora orais, não têm se dedicado ao estudo da fala espontânea. Isso porque falta à grande maioria dos corpora disponíveis o registro da fala em situações naturais de produção, que vão muito além da típica “entrevista”, gênero mais comumente encontrado (em conjunto com a situação de sala de aula, ou interações em mídias como televisão e rádio). Através de um corpus que contenha produções linguísticas decorrentes de situações naturais, nas quais os informantes interagem e engajam-se em diferentes atividades cotidianas, abre-se a possibilidade de compreender de modo muito mais amplo e profundo como se organiza a informação e como ocorrem as interações linguísticas da fala espontânea.

Além de serem representativos da fala espontânea, é preciso que corpora de fala sejam disponibilizados com recursos que permitam o fácil acesso ao áudio das situações gravadas. A anotação de corpora orais deve garantir a segmentação do fluxo da fala em unidades delimitadas a partir de pistas prosódicas e disponibilizar o acesso à fonte de áudio. Adicionalmente, a técnica de amostragem deve assegurar que o corpus apresente uma grande variação de contexto, e não somente de falantes (MONEGLIA, 2011). Sem perder de vista a legibilidade das transcrições, estas devem seguir um padrão que preserve não somente os fenômenos de ordem segmental, mas outros fenômenos da fala natural, como a segmentação do fluxo da fala com base em fronteiras prosódicas. Com esta medida pode-se assegurar que o material seja acessível, e mais importante, adequadamente interpretado.

A título de exemplo, consideremos a seguinte sequência de fala espontânea, realizada em situação natural: “não não acho que aquilo tem que fazer um ponto”5.

Neste caso, há, pelo menos, duas possibilidades de leitura:  (a) “Não, não acho que aquilo tem que fazer um ponto.”

(b) “Não, não. Acho que aquilo tem que fazer um ponto.”

Levar em conta apenas a dimensão lexical não nos permite identificar o escopo da negação em tal caso. Contudo, ao escutar o exemplo, não se tem nenhuma dúvida de que a interpretação adequada é a segunda.

Estes procedimentos garantem que corpora orais sejam explorados para pesquisas em todos os ramos da linguística, desde os mais normalmente investigados, a lexicografia, a morfossintaxe e a semântica; mas incluindo também ramos ainda não tão prolíficos quanto estes primeiros em se tratando de trabalhos baseados em corpora orais no Brasil, como a fonética e fonologia (para as quais normalmente utilizam-se gravações de laboratório, altamente artificiais) destacando aí a prosódia, a análise do discurso, a estruturação informacional e a pragmática.

Ainda faltam dados sobre a fala espontânea que permitam a produção científica nas diversas áreas citadas, porém a tecnologia disponível nos dias atuais possibilita um registro mais adequado e com mais qualidade do que o que se vinha fazendo até poucos anos atrás. O próprio estudo do Tópico, que é tradicionalmente um tema bastante discutido, ganha uma nova dimensão a partir da análise de dados da fala espontânea. As peculiaridades do corpus de pesquisa e o tratamento dado aos dados garantem, pois, a originalidade e relevância desta pesquisa para o Português do Brasil.

Benzer Belgeler