2.1. Performans
2.1.3. Performans Kriteri
A prevalência de exposição a eventos traumáticos por adultos ao longo de sua vida é alta, até mesmo em sociedades democráticas e pacíficas (BOWMAN & YEHUDA, 2004). Um grande estudo, estatisticamente representativo, realizado nos Estados Unidos, com amostra de aproximadamente 6.000 adultos e denominado The National Comorbidity Survey (NCS) mostrou que 61% dos homens e 51% das mulheres pesquisados tinham experimentado um ou mais eventos traumáticos graves ao longo de sua vida (KESSLER, SONNEGA, BROMET, HUGHES, & NELSON, 1995). Um outro estudo realizado em Detroit, que considerou participantes com idades variando entre 18-45 anos, encontrou uma taxa de prevalência de eventos traumáticos de 89.6%, sendo 92% em homens e 87% em mulheres (BRESLAU et al., 1998). Dados similares foram relatados no Canadá, com 81% dos homens e 74% das mulheres experimentando eventos traumáticos ao longo de sua vida (STEIN, WALKER, HAZEN, & FORDE, 1997b).
Por outro lado, viver eventos traumáticos nem sempre leva ao desenvolvimento de um transtorno mental como o TEPT, pois a prevalência de TEPT na vida da população em geral é significativamente menor que o grau de exposição a eventos traumáticos. Nos EUA, a pesquisa realizada pelo NCS relatou que o melhor índice para ocorrência de TEPT, considerando o tempo de vida da população pesquisada foi, na média 7.8%, sendo 5% em homens e 10% em mulheres. Considerando um ano de prevalência de TEPT a média foi 3.6% (KESSLER et al., 1995). Um estudo canadense verificou - considerada a resposta mês- passado aplicada aos sintomas de TEPT - uma média de 1.2% para homens e 2.7% para mulheres (Stein, Koverola, Hanna, Torchia, & McClarty, 1997ª apud BOWMAN & YEHUDA, 2004).
Uma amostra de jovens adultos em Munique relatou 26% de homens com exposição a eventos traumáticos, mas somente 1% manifestou TEPT; em mulheres, 18% foram expostas a eventos traumáticos, mas somente 2.2% preencheram os critérios para TEPT (PERKONIGG, KESSLER, STORZ, & WITTCHEN, 2000). Esses dados mostram que a prevalência de TEPT na vida dos indivíduos é mais baixa que o número de experiências com eventos traumáticos e que há variação nas taxas de acordo com a cultura e o gênero dos indivíduos expostos, com o risco condicional de incidência de TEPT sem exposição a eventos extremos. Esse varia amplamente em diferentes amostras para o mesmo tipo de exposição, e em amostras similares para diferentes tipos de eventos. Na população em geral exposta a qualquer tipo de evento traumático, o NCS descobriu que o grau do TEPT após exposição era de 8.2% em homens e 20% em mulheres (conforme KESSLER et al., 1995). O estudo de BRESLAU et al (1998) considerou o risco condicional de TEPT em taxa de 6.2% para homens e 13% para mulheres, para uma média da amostra total de 9.2%.
Os pesquisadores Rachel Yehuda & Davidson (2000) demonstraram que o TEPT é o quarto transtorno psiquiátrico mais comum na população geral afetando, em algum momento de suas
vidas, cerca de 10% dos homens e 18% das mulheres. Mostraram, também, que a maioria da população experimentará ao menos um evento traumático ao longo da vida e estimaram que 25% dos sobreviventes desenvolverão TEPT. Estudos comunitários descrevem uma prevalência de TEPT em aproximadamente 8% da população adulta dos EUA. Indivíduos em situação de risco (grupos expostos a incidentes traumáticos específicos) produzem achados variáveis, com as taxas mais altas encontradas entre sobreviventes de estupro, combates militares, cativeiro, confinamento ou genocídio com motivações políticas ou étnicas (DAVIDSON, 2004).
Segundo o DSM-IV (1995) estudos comunitários realizados nos EUA revelam uma prevalência durante a vida do Transtorno de Estresse Pós-Traumático variando de 1 a 14%, estando a variabilidade relacionada aos métodos de determinação e à população amostrada (se são parte de grupos de risco ou não). Esse manual também considera que as taxas de TEPT mais altas são encontradas entre sobreviventes de estupro, combates militares, cativeiro ou genocídio com motivações políticas ou étnicas e vítimas de violência criminal, com as taxas de prevalência variando de 3 a 58%. Com as atualizações desse manual e das metodologias clínicas, chegou-se à conclusão de que o transtorno seria mais comum do que se poderia imaginar (Yehuda, 2000).
KRISTENSEN (2005) realizou um estudo sobre a prevalência do TEPT no qual apontou que, partindo do critério A para evento estressor do DSM III (1980) e DSM III-R (1987), os dados estatísticos sobre prevalência de TEPT variaram de 39,1%2 a 75%3. Com a mudança de critérios do DSM-IV (1995) foram encontrados índices mais elevados de TEPT que os anteriores, variando de 57,1%4 a 89,6%5. O aumento da prevalência da terceira para a quarta
2 Breslau, Davis, Andreski, Peterson (1991) referidos em Kristensen (2005). 3 Kilpatrick, Saunders, Veronen, Best & Von (1987); idem.
4 Creamer, Burgess & McFarlane (2001); idem. 5 Breslau, et al. (1998); idem.
versão do DSM em 20% deveu-se à revisão na definição de estressor a partir do DSM-IV (critério A1, maior variedade de eventos; critério A2, resposta emocional) e, ao aprimoramento das metodologias para diagnóstico de TEPT, conforme KRISTENSEN (2005, p.29). Quanto ao aprimoramento das metodologias, verificou-se que os estudos sobre TEPT utilizaram diferentes versões dos instrumentos, tais como: SCID – Strutural Clinical Interview for the DSM-IV; Diagnostic Interview Schedule (NIMH-DIS) e Composite International Diagnostic Interview (WMH- CIDI), criados pelo National Institute of Mental Health e World Health Organization (WHO) respectivamente.
Uma revisão da literatura sobre os principais tipos de violência contra crianças e adolescentes associados ao TEPT foi realizada por Soares, Alvarenga, Velasquez, Dias & Silveira (2008). Foram avaliados os estudos científicos recentes sobre a relação entre violência e Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT), considerando: a) faixa etária de 0 a 18 anos; b) gênero; c) tipo de violência e, d) os descritores PTSD e Violence. Foram encontrados 108 artigos, sendo que 37 desses estudos (34%) apresentaram estratificação por gênero e 35 desses últimos (94,6%) – consideraram exclusivamente vítimas do sexo feminino. Verificou-se homogeneização quanto ao tipo de violência em 41 estudos (38%) dos 108 consultados: aproximadamente a metade abordou exclusivamente o testemunho ou vivências de ataques terroristas ou guerras, 25% tratam somente do abuso sexual na infância (ASI) e os 25% restantes mostraram-se divididos quanto aos diferentes tipos de violências consideradas.
Os artigos revisados corroboram o risco aumentado que vítimas de violência apresentam de desenvolver transtornos psiquiátricos (como TEPT, dependência química e depressão), prejuízos cognitivos (sobretudo no tocante à memória e à regulação emocional), maiores chances de condutas criminais e de perpetuação intergeracional de comportamento violento e suas consequências nefastas. SOARES, ALVARENGA, VELASQUEZ, DIAS & SILVEIRA (2008).
Concluiu-se nesse levantamento que o elevado percentual de estudos que abordam a violência contra a mulher e envolvem crianças e adolescentes parece refletir a relação histórica entre a violência contra a mãe e os riscos aumentados de comprometimentos mentais e físicos de seus filhos. Além disso, quase todos os estudos que consideraram unicamente o abuso sexual infantil (ASI) tinham por amostra somente mulheres – expondo uma presumida fragilidade sociocultural de gênero. Nessa revisão foi também verificado que a compreensão dos comprometimentos de saúde física e mental decorrentes do terrorismo e das guerras evidencia-se no número de estudos concentrados sobre o tema (18,5%). Como os diferentes povos vitimados por situações de violência compartilham prejuízos mentais similares sugere- se uma generalização transcultural desses fenômenos.