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A categoria temática negociação do cargo da repatriação foi identificada a partir dos códigos motivo da repatriação e negociação do cargo.

• Motivo da Repatriação

As entrevistas indicaram que quando o retorno ao Brasil não ocorreu no prazo previsto em função do término do contato, a iniciativa de repatriar partiu tanto dos profissionais quanto das empresas. No primeiro caso, quando a repatriação foi uma iniciativa da empresa, o que representou a maioria das respostas, as razões foram o surgimento de um cargo no Brasil antes do fim do contrato de expatriação e a diminuição das operações da

empresa no exterior. Quando o profissional solicitou o retorno, o fez por questões pessoais e insatisfação com a expatriação.

Os relatos a seguir ilustram os casos em que a repatriação foi motivada pela oferta de um cargo no país de origem.

Foi uma oferta do diretor financeiro (E8-ING).

O diretor de vendas assumiu a presidência e ele me chamou de volta pra assumir a gerência (E16-ITA).

Retornei por conta do convite que eu tive aqui (E19-EUA).

A repatriação também foi motivada pela diminuição das atividades da multinacional no país da expatriação. Em um dos casos, a unidade em que o executivo trabalhava foi vendida.

Nós passamos por um processo de enxugamento na empresa. Pra ter uma idéia, hoje a empresa tem sete, oito funcionários, nós tínhamos 120 em, 120, 130 funcionários em 2006. Bom, naquele momento, não existia mais a necessidade de o (nome do

repatriado) ficar lá, não pra aquele tamanho de negócio (E9-EUA).

Meados de 2006, eu fico sabendo que a unidade que eu to trabalhando lá ia ser vendida [...]. E aí eu comecei a sondar meu chefe na Alemanha e o pessoal aqui do Brasil (E11-ALE).

A área que eu estava administrando [...] havia uma discussão que, ‘olha, vamos manter essa área ou não, vamos fechar porque caiu 85%, não há o que sobreviver’ (E12-EUA).

Quanto motivado pelo repatriado, o retorno se deu por questões pessoais, em especial a carreira do cônjuge e o fechamento do ciclo da expatriação.

Eu estava lá fazia três anos e como eu fui e meu marido foi junto comigo, ele arrumou emprego, fez MBA, trabalhou, etc. Só que depois de três anos, ele pediu pra voltar (E4-ITA).

Principalmente por questões familiares, porque naquele momento era importante pra minha esposa voltar a trabalhar. E na França nós julgávamos que isso seria difícil ou que ela teria um trabalho, uma posição que não fosse condizente com a qualificação dela no Brasil e por essa razão nós consideramos importante voltar (E15-FRA). Também por questões pessoais, exatamente, principalmente, eu diria. A minha esposa trabalhava essa época lá, ela tinha conseguido se colocar no mercado, na (nome da empresa) que é uma empresa excelente, a gente tava com uma vida muito boa, mas é como se a gente precisasse cumprir o ciclo, foi uma resposta muito natural, tanto minha quanto dela (E10-ALE).

Em dois casos, os repatriados optaram pelo retorno em função da insatisfação com a empresa durante a expatriação.

Na realidade eu tive o desejo de voltar ao Brasil por várias situações que estavam acontecendo O meu retorno aqui foi em conjunto de fatores que fez eu voltar. A questão do visto foi um deles [...].O advogado da empresa era contratado pra renovar os vistos da empresa, ele tinha pisado numa bola feia [...]. Quando eu tava preparado pra vir pro Natal [...] no Brasil, duas semanas antes eu fui informado pela imigração que eu estava ilegal no país, que eu não poderia sair. Aquilo, pra mim, me deixou transtornado. Eu acabei não vindo no final do ano aqui pro Brasil (E12- EUA).

Eu via que eu tava lá já há um ano e tudo o que eles tinham prometido no briefing (da expatriação), assim, não tava acontecendo e aí eu já dei meio que uma sinalização aqui para o Brasil: ‘olha, vamos começar a trabalhar, fazer alguma coisa porque acho que se a gente também não se mexer aqui, acho que as coisas não vão acontecer lá’ (E13-ALE).

• Negociação do Cargo

O período de negociação entre o repatriado e a organização de origem na busca do cargo a ser ocupado no retorno variou de três a seis meses e se deu de diversas maneiras. Para a maioria dos entrevistados, a negociação ocorreu de forma relativamente tranqüila. Para uma pequena parcela dos profissionais, as empresas sinalizaram, desde o início da expatriação, que havia um cargo previsto a ser ocupado na repatriação, conforme relatos.

Fazia um pouco parte da estratégia. Antes da expatriação, a gente tinha essa posição na Argentina, que era responsável pela plataforma lá da Argentina e tinha algumas responsabilidades aqui no Brasil. E aqui no Brasil tinha um parque, exatamente a mesma coisa, responsável pela plataforma no Brasil e outras responsabilidades regionais. Então meio que tinha uma zona cinza que a gente chamava, de responsabilidades compartilhadas. Qual era a estratégia então? Juntar essa posição numa só. [...] Já tinha uma idéia de fazer isso. [...] A minha chefe comentou do nosso plano original que era esse, que a gente ia antecipar isso (E17-ARG).

A pessoa que tava no Brasil teve que sair, por motivos da própria empresa e eu acabei, como estava nesse pool, acabei antecipando um pouquinho e vim. Então não vou dizer que foi uma primura de planejamento, mas era uma coisa que já estava pré... (E18-VEN).

Outra forma de negociação do cargo foi através da rede de relacionamentos desenvolvida pelos mesmos.

Eu comecei a fazer meu networking e contatar reunião com RH 1, RH 2, RH 3, diretor 1, diretor 2, diretor 3 e fui fazendo meu networking. Eu falei assim ‘olha, eu to interessada e aberta’ (E4-ITA).

Por outro lado, a negociação do cargo a ser ocupado no retorno também se mostrou complexa. Para uma minoria, o processo foi cercado de incertezas e ocorreu de forma traumática.

Como o que eu fazia eles não tinham ninguém que fizesse e, por isso eu estava lá, eles viabilizaram a minha permanência lá até o momento em que eles se sentiram em uma zona de conforto e eu sabia que isso iria acontecer o tempo inteiro. Quando eles começaram a sentir que dava... É uma série de sinalizações que você começa a perceber que é... Alguém se mete no que você está fazendo, você não é convidado para uma reunião e tal... Então eu já ia percebendo essas coisas, já estava entendendo. [...] eu pedi para eles para passar os últimos seis meses do meu contrato no Brasil para que eu pudesse concertar a minha volta, ajeitar a minha volta (E2- POR).

Ela (tutora do repatriado) saiu (da empresa) no Carnaval, mais ou menos, duas semanas depois, então isso foi bem complexo, bem complicado, porque no momento que foi anunciada a saída dela, eu não consegui mais nenhum contato com ela, simplesmente... [...] não tive retorno, foi uma situação super desagradável, mandei email, de eu procurar e a secretária dela não ter resposta do por que ela não falava comigo, então uma coisa meio de enrolar mesmo, diretamente falando. [...] ficou um certo buraco negro por seis semanas, seis a oito semanas, até que o nome da sucessora foi decidido, a diretora do Brasil (E10-ALE).

Eu fico sabendo que a unidade que eu to trabalhando lá ia ser vendida. [...] ficou um negócio meio enrolado, ninguém falava. [...] meu chefe da Alemanha me chama e fala ‘por que você não fica aqui com a gente? [...] aí eu falei pro meu chefe ‘quero voltar’. [...] a única coisa que ele não fez, depois eu descobri, ele não comunicou a organização dessa minha decisão. [...] eu lembro que eu cheguei numa reunião com o pessoal e falei ‘e aí, pessoal, pra onde eu volto?’, daí o pessoal ‘ãh, como assim?’. [...] então eu diria que o processo de volta foi traumático e eu acho que essa é uma das grandes falhas das organizações não só na (nome da empresa), mas em várias. Você pensa muito bem antes de mandar o cara pra fora e o que você quer daquilo porque o brasileiro não planeja mais do que um cenário de dois anos, e depois? O que eu faço com aquele cara? (E11-ALE).

Houve uma situação em que o entrevistado declarou que foi obrigado pela empresa a voltar ao Brasil e assumir o cargo oferecido caso quisesse continuar empregado.

Não tive opção. Outra hora eu liguei para contar que eu não queria vir, tentei, tentei, mas eles falaram ‘quer continuar na (nome da empresa), você vai voltar, se quer continuar na (nome da empresa), você volta’. [...] quem dirigiu essa decisão, foi o

board da empresa, então não tem para onde fugir (E14-SUI).

Quando perguntados se havia abertura para declinação da proposta de cargo na repatriação, os entrevistados, em sua maioria, declararam que sim.

Foi o primeiro convite, por coincidência, que eu recebi, eu podia ter falado não, eu não... Não é o que eu quero fazer e ter buscado outro (E1-SUE).

Se eu quisesse procurar outra coisa, teria total abertura, só que daí não foi o caso (E3-HOK).

Foi negociado com o gestor, não foi nada de imposição (E7-ING).

Porém, em algumas situações, foi colocado que uma declinação não seria bem vista pela empresa.

Espaço sempre tem [...] depois você arca com as conseqüências (E16-ITA).

É opcional/mandatório. Se você não quiser se queimar na empresa, você tem que voltar (E5-ALE).