A técnica de coleta de dados empregada nesta pesquisa foi a entrevista qualitativa, que objetiva a “compreensão detalhada das crenças, atitudes, valores e motivações, em relação aos comportamentos das pessoas em contextos sociais específicos” (GASKEL, 2002, p. 65). A coleta de dados foi inteiramente desempenhada pela pesquisadora e envolveu duas etapas. A primeira compreendeu o pré-teste e a segunda, a coleta de dados propriamente.
Na primeira etapa da coleta de dados, foram realizados dois pré-testes nos dias 13 e 14 de julho de 2010 através do Skype, serviço que permite a comunicação de voz via internet, com pessoas que já tiveram experiências de estudo e trabalho no exterior. Esta etapa foi útil para que o roteiro de perguntas fosse modificado, contribuindo para uma melhor condução das entrevistas posteriores.
Na segunda etapa, vinte e duas entrevistas foram realizadas no período de 14 de julho a 23 de setembro de 2010. Duas delas foram descartadas por não se enquadrarem nos critérios pré-estabelecidos de seleção dos entrevistados, fato que só foi verificado após a realização das mesmas. Assim, desconsiderando tais dados, foram submetidas à análise vinte entrevistas.
Os entrevistados residiam, no momento da coleta de dados, nas cidades de Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Campinas e Belo Horizonte. Das vinte entrevistas, dezesseis foram presenciais e aconteceram nas cidades de Florianópolis e São Paulo devido à facilidade de acesso da pesquisadora. O entrevistado residente em Campinas dirigiu-se a São Paulo para a realização da entrevista. Os locais e horários das entrevistas foram escolhidos com base na conveniência dos entrevistados (cafés, restaurantes e, em alguns casos, as organizações em que trabalhavam). Quatro entrevistas foram realizadas pelo Skype, nos casos em que os entrevistados residiam nas cidades de Belo Horizonte e Curitiba. Em um desses casos, a entrevista foi realizada em dois dias subsequentes devido à falha no meio de comunicação, porém este fato não prejudicou o andamento da mesma. A coleta de dados não
presencial se deu no horário comercial e os entrevistados estavam nas empresas em que trabalhavam no momento.
As entrevistas tiveram duração de trinta minutos à uma hora. Todas as entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas, sendo que as presenciais foram gravadas com o auxílio de equipamento apropriado para o armazenamento de áudio e as não presenciais foram registradas com o suporte do software Call Graph.
Tal como Godoi e Mattos (2006) neste trabalho considera-se três condições como essenciais à entrevista qualitativa. A primeira delas é que o entrevistado deve expressar-se a seu modo face ao estímulo do entrevistador. Alguns entrevistados se alongaram bastante ao tratar de alguns temas, enquanto que outros foram bastante sucintos em suas palavras. A segunda condição é que a ordem das perguntas não deve prejudicar a expressão livre do entrevistado. Em muitos casos, a ordem das perguntas foi alterada para permitir uma maior fluidez do diálogo entre as partes, sem prejuízo para a coleta. Por fim, é aberta a possibilidade de o entrevistador inserir perguntas ou participações no diálogo, conforme o contexto e as oportunidades, sempre considerando o objetivo geral da entrevista. A inserção de perguntas não previstas previamente ocorreu em casos que a pesquisadora julgou necessário para a clarificação do contexto em que ocorreu a repatriação do entrevistado, como por exemplo, nos casos em que os repatriados tiveram filhos no exterior. Julgou-se importante perguntar sobre tal experiência, que foi considerada marcante pelos que a viveram. O estilo aberto desta prática resultou na obtenção de grande riqueza informativa e em uma interação direta e flexível através do seguimento de perguntas e respostas.
Optou-se pela entrevista do tipo semi-estruturada, já que esta combina perguntas abertas e fechadas e possibilita ao entrevistado discorrer sobre o tema sem se prender à questão formulada (MINAYO, 2009). A construção de um roteiro de perguntas, conforme o apêndice A, facilitou sobremaneira a obtenção dos dados, uma vez que guiou o processo, porém, sem engessá-lo.
A primeira versão do roteiro foi submetida à banca de qualificação e, a partir daí, passou a sofrer diversas modificações. A primeira delas foi relativa à ordem das perguntas. Por sugestão da banca, as perguntas passaram a obedecer uma ordem cronológica, ou seja, o entrevistado foi questionado sobre os fatos na ordem em que ocorreram na prática, ao passo que anteriormente as questões estavam divididas em blocos temáticos.Também foram inseridas novas perguntas a partir de sugestões da banca. Os pré-testes geraram mudanças no roteiro, como na forma de questionar os entrevistados. Optou-se por pedir exemplos que ilustrassem os pontos chave do roteiro. Por fim, as últimas alterações ocorreram após o início
da coleta de dados. A realização das duas primeiras entrevistas ocasionou a inclusão de mais perguntas, necessárias para o entendimento do contexto em que ocorreram a expatriação e a repatriação. Quando necessário, perguntas adicionais foram enviadas por email aos dois primeiros entrevistados.
Verificou-se a adequação do roteiro nos muitos casos em que os próprios entrevistados respondiam à pergunta que seria feita na seqüência, sem que esta fosse explicitada, ou seja, passava-se de um tema a outro naturalmente, conforme previsto no roteiro. Acredita-se que algumas perguntas surpreenderam os entrevistados, como questões relativas ao sentimento deles sobre determinado assunto.
Além disso, acredita-se que é mais provável que as opiniões dos entrevistados sejam expressas em situações com um planejamento relativamente aberto ao invés de uma entrevista padronizada ou questionário (FLICK, 2004). Deste modo, procurou-se fazer com que as entrevistas ocorressem de maneira informal, para que o entrevistado se sentisse confortável em dividir com a pesquisadora parte de suas memórias do período de sua vida que viveu fora do país, compartilhando, inclusive, diversos aspectos da vida pessoal. Em um caso, o entrevistado agradeceu a oportunidade de dividir parte de sua experiência e principalmente os problemas vivenciados, sinalizando que havia pouco interesse por parte da empresa em ouvi-lo.
3.3.1 Seleção dos Entrevistados
Considerando que a finalidade desta pesquisa, de cunho qualitativo, é explorar as diferentes representações sobre um assunto, adota-se aqui o termo seleção ao invés de amostragem, conforme a sugestão de Gaskell (2002). Por não haver preocupação com a representatividade estatística, o pesquisador tem a flexibilidade de voltar ao campo e ampliar ou aprofundar a conversa com os participantes, dependendo do desenvolvimento teórico do trabalho. De fato, quando houve necessidade, perguntas adicionais foram enviadas por email para esclarecer pontos que ficaram obscuros durante a coleta inicial.
Conforme Gaskell (2002, p. 70) acredita-se que “não existe um método para selecionar os entrevistados das investigações qualitativas”. Deste modo, o acesso aos primeiros entrevistados deu-se a partir da rede de relacionamentos da pesquisadora. Além disso, o acesso a outros repatriados deu-se através da técnica bola de neve, indicada para
quando se necessita atingir populações pequenas e especializadas (AAKER; KUMAR; DAY, 2001). Portanto, os participantes da pesquisa foram solicitados a indicar outros profissionais com perfil semelhante que, por sua vez, indicaram outros. Os critérios utilizados para a seleção dos entrevistados foram:
a) Ser de nacionalidade brasileira;
b) Ser um profissional repatriado – funcionário que foi expatriado e retornou à empresa doméstica após a atribuição internacional;
c) Ter residido no exterior por no mínimo um ano; d) Ter retornado ao Brasil há no máximo cinco anos;
e) Pertencer a uma multinacional brasileira ou a uma multinacional estrangeira com operações no Brasil.
Ao decidir quantas entrevistas são necessárias, entende-se que mais entrevistas não melhoram necessariamente a qualidade ou levam a uma maior compreensão, mantendo-se o restante das coisas iguais. Além desta, a outra estratégia adotada para a definição do número de entrevistas, no caso desta pesquisa, foi o princípio de “saturação” ou de “redundância” definidos por Glaser e Strauss2 (1967 apud GODOI, MATTOS, 2006, grifo do autor). Para eles, o critério de julgamento para encerrar a amostra é a saturação teórica, ou seja, na medida em que são encontrados casos similares, o pesquisador adquire confiança empírica de que não encontrará dados adicionais que contribuirão para o desenvolvimento da pesquisa. Com base no exposto, o número de entrevistas ficou em vinte.