2.3. Oyun Teorisinde Pazarlık
2.3.1. Pazarlık Oyunlarının Tablo ve Grafik Gösterilimi
As motivações que me levaram a esta pesquisa são resultado da minha trajetória pessoal, profissional, acadêmica e do contato com movimentos sociais. Assim como qualquer pessoa que se situe no campo social, os discursos sobre “categorias” específicas de sujeitos nos atravessam constantemente. Não é preciso ser lésbica ou conhecer uma para ouvir falar sobre o que “é” lésbica. Como sempre duvidosa das “verdades” e curiosa pelas diferenças, especialmente aquelas que não são muito explicadas, mas apenas ditas, meu impulso/desejo para saber sobre essa forma de existência acentuou ao conhecê-las. E conhecendo-as, deparei- me obviamente com uma diversidade que, às vezes, fazia jus ao que era dito e, às vezes, surgia enquanto pluralidades outras.
Pouco tempo depois eu entrava no curso de Psicologia da UNESP – Universidade Estadual Paulista de Assis, comecei a estudar as questões ligadas às lesbianidades ao mesmo tempo em que iniciei minha militância junto à organização não-governamental, o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre as Sexualidades (NEPS). Nessa ONG, fui coordenadora de um projeto para mulheres lésbicas e bissexuais, denominado Café com bolachas16, onde, a partir
de um olhar mais influenciado pelo espírito acadêmico, pude verificar no discurso dessas mulheres a presença de estigmas e estereótipos sobre as lesbianidades que as atravessavam e se cristalizaram ao longo de suas histórias de vida, tanto no nível individual quanto no social, coletivo e político.
Em Assis, algumas situações que presenciei e que mais me marcaram foram, por um lado, junto a algumas lésbicas, agressões entre parceiras, violência doméstica, machismo e a tentativa de divisão de alguns membros dos grupos de lésbicas em “clubes do bolinha” e “clubes da luluzinha”, valorizando as primeiras. Por outro lado, com relação à sociedade em geral, presenciei lésbicas sendo expulsas de bares por estarem demonstrando afeto entre si, sendo violentadas verbal e fisicamente em espaços públicos e privados, enfrentando uma extrema dificuldade nas relações com os familiares devido a não aceitação por parte deles em relação à sua orientação sexual e, ainda, uma, às vezes sutil e às vezes agressiva, insistente tentativa de invasão dos homens em suas relações e seus espaços.
Assim, motivada por essa percepção, passei a me perguntar a respeito dos mecanismos pelos quais, em relação ao dispositivo da sexualidade, as lésbicas individuam ou singularizam
16 Esse projeto, que teve duração de doze meses, fazia parte do Grupo de Trabalho de Diversidade Sexual junto
a outros projetos que tinham como finalidade desenvolver intervenções preventivistas, de potencialização da cidadania e dos direitos humanos, bem como dar apoio psicológico à população LGBTT e seus familiares.
o atravessamento do biopoder exercido pela lesbofobia em suas vidas, em seus corpos, seus prazeres e suas paixões, ou seja, em seus processos de subjetivação.
Partindo de alguns estudos que apontam para o fato de que 10% da população é composta por homossexuais e quase 40% por bissexuais (MOTT, 2003), presume-se uma parcela significativa de mulheres que se atraem e/ou relacionam homoeroticamente, em algum momento da vida ou a partir do momento da descoberta do desejo homossexual, o que constitui uma parcela da sociedade que não pode ser ignorada e que, muitas vezes, é desconhecida. Além disso, há discussões científicas acerca da grande diversidade sexual que abrange “exclusivamente homossexuais”, “eventualmente heterossexuais”, “principalmente homossexuais”, “bissexuais”, “principalmente heterossexuais”, “eventualmente homossexuais”, “exclusivamente heterossexuais”17 e, dentro dessas categorizações, outras
tantas possibilidades.
Kinsey também contestou explicitamente a idéia de uma antítese absoluta entre as pessoas heterossexuais e homossexuais. Enfatizando as variações entre os comportamentos e sentimentos exclusivos do hetero e do homo, ele negou que os seres humanos representam duas populações distintas,
heterossexual e homossexual. [...] A idéia de identidades heterossexuais e homossexuais — dois tipos essencialmente distintos entre pessoas — é um legado político bastante ambíguo. (KATZ, 1996, p. 105)
Barbosa e Koyama (2008) realizaram uma pesquisa sobre o comportamento sexual dos brasileiros, o qual contou com 1835 mulheres nas grandes regiões urbanas no ano de 1998 e 2742, em 2005. Verificaram que cerca de 3% das entrevistadas referiram ter se relacionado sexualmente com outras mulheres ao longo da vida. Sobre os dados de 2005, as autoras afirmam que não foi possível estabelecer estimativas confiáveis devido ao pequeno número de relatos desse tipo de parceria. Sobre esse fato, elas explicam que:
Mais do que uma redução objetiva do evento, esse achado sugere que o relato de parcerias homossexuais entre mulheres ainda é marcado por temores de preconceitos e censura e, nesse sentido, mais passíveis de serem omitidos nos contextos de pesquisa. (BARBOSA; KOYAMA, 2008, p. 31)
Gimeno Reinoso (2005, p. 215) aponta que o desejo sexual é fluido na maioria das pessoas e muito mais variável do que a cultura permite ver: “se algo é minoritário são as
17 Escala Kinsey sobre o comportamento sexual: KINSEY, Albert. C. Sexual Behavior in the Human Male.
pessoas que manifestam, ao longo de toda a vida, um desejo exclusivamente homo ou heterossexual (aquelas que se situam em um ou outro extremo da escala Kinsey)”.18
Assim, partindo-se de uma visão estereotipada, socialmente construída, sobre mulheres lésbicas ou com relações/práticas homoeróticas, pode-se pensar que isso lhes acarreta o sentimento de não pertença a uma história e de exclusão social. Isso as colocaria em uma posição de vulnerabilidade ao sofrimento físico e psíquico, bem como lhes dificultaria o acesso a direitos, logo, de serem cidadãs, além de influenciar em outros aspectos relevantes de sua vida afetivo-sexual, tais como: os cuidados de si/do outro, o encontro de parcerias, sua relação com o prazer, o amor, o trabalho e outros aspectos importantes de sua socialização primária (a família) e secundária (o campo social). Castañeda (2007, p. 22) aponta que o homossexual, apesar de “cada vez mais visível na cultura, cada vez mais presente na sociedade, permanece, contudo, uma personagem radicalmente desconhecida”.
É apenas a partir do fim da década de 1970 que passaram a ser realizados estudos específicos no Brasil, muitos deles especialmente recentes, sobre a mulher homossexual enquanto sujeito saudável e de direitos, e sem uma perspectiva patologizante. Entre os quais temos: Lago e Paramelle (1978), Miccolis (1983), Mott (1987), Bellini (1989), Portinari (1989), Leonel (1999), Navarro-Swain (2000; 2004), Perucchi (2001), Facchini (2004; 2008), Pinto (2004), Lessa (2004; 2007), Almeida (2005), Meinerz (2005), Vencato (2005), Oliveira (2005), Lacombe (2005; 2007), Nogueira (2005), Souza (2005), Barbosa (2006), Facchini e Barbosa (2006) e Selem (2007). Entretanto, ainda são poucos os estudos sobre as lesbianidades comparativamente a outras pesquisas relativas às sexualidades humanas ou, mais propriamente, em relação aos homens homossexuais. No campo da saúde, no Brasil, por exemplo, são raras as publicações:
Se, internacionalmente, os estudos sobre saúde e homossexualidade feminina ainda não conseguiram fornecer os subsídios necessários para o esclarecimento da existência de demandas e riscos específicos, os dados disponíveis para o Brasil são ainda mais escassos. [...] foram localizados apenas sete estudos que focalizam diretamente a relação entre homossexualidade feminina e saúde sexual e reprodutiva. (BARBOSA; FACCHINI, 2005, p. 21)
Porém, não existem estudos específicos sobre os processos de estigmatização das lesbianidades. Estudos éticos sobre sujeitos políticos específicos contribuiriam para o cuidado
18 Minha versão do original em espanhol: “si algo es minoritario son las personas que manifiestan a lo largo de
toda la vida un deseo exclusivamente homo o heterosexual (aquellas que se sitúan en uno u otro extremo de la escala Kinsey)” (GIMENO REINOSO, 2005, p. 215).
mais apropriado com sua segurança e sua saúde física e mental; contribuiriam também para a criação de políticas públicas e trariam problematizações psicossociais que podem colaborar para a produção de qualidade de vida para pessoas que são movidas por perspectivas binárias de estigmas e estereótipos, além de dar visibilidade a estes sujeitos e às violências ocultadas a eles direcionadas. Dessa forma, o pesquisador,
[...] como sujeito social e coletivo que é, [...] não pode perder de vista essa finalidade intrínseca e imanente do conhecimento: contribuir intencionalizadamente para a emancipação dos homens, investindo nas forças construtivas das práticas reais mediadoras da existência histórica. Só assim torna ética sua atuação profissional e científica. (BIANCHETTI; MACHADO, 2002, p. 83)
A homossexualidade de mulheres é um tema que entrou há pouco tempo na agenda política nacional, tendo sido incorporado apenas em 1993 na sigla do Movimento LGBTT. A lésbica, além de outros eixos de diferenciação social (como classe, raça/etnia, nível de escolaridade), é estigmatizada invariavelmente por ser mulher e por ser homossexual. Enquanto mulheres, as lésbicas tiveram, recentemente, o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (PNPM), criado em 2002 a partir da Secretaria de Estado dos Direitos da Mulher, transformada, em 2003, em Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SEPM19), que
incorporou formalmente as demandas de mulheres lésbicas. E, enquanto homossexuais, a Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH20) que, em 2004, lançou o Programa Brasil
sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLBT e de Promoção da Cidadania Homossexual, visando respeitar a especificidade de cada segmento populacional.
Na área da Psicologia, ainda não foram realizados estudos específicos sobre lésbicas, na perspectiva que esse trabalho propõe. Evidenciar como os processos de estigmatização das lesbianidades contribuem para a construção da subjetividade de mulheres lésbicas ou com relações/práticas homoeróticas é original e de grande relevância, pois amplia o conhecimento científico na área em questão. Assim, esse estudo pode servir como material informativo para profissionais e instituições que trabalham especificamente na área de gênero, sexualidades e lesbianidades, bem como compreender algumas faces do machismo e da heteronormatividade e suas formas de atuação.
19 Disponível em: <http://www.presidencia.gov.br/estrutura_presidencia/sepm/>. Acesso em: 03 de ago, 2008. 20 Disponível em: <http://www.presidencia.gov.br/estrutura_presidencia/sedh/>. Acesso em: 03 de ago, 2008.