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PARLAMENTARİZMİN ORTADAN KALDIRILMAS I

O conteúdo da disciplina em Weil tem certa proximidade com o de Kant, mas vai além do mestre de Königsberg. Para Weil, inicialmente, é necessário distinguir entre educação e instrução. Ele afirma que “é certo que a instrução enquanto tal possui um notável valor educativo” (FP: 63-64). Ela pode ser considerada o meio mais fácil e mais direto para o indivíduo reconhecer o pouco valor de suas paixões. Porém, “é preciso notar que esse valor educativo da instrução não consiste na posse de conhecimentos úteis, mas em subverter o caráter à objetividade e à universalidade do juízo” (FP: 64).

Essa citação é importante, pois considera o perigo que pode estar contido na instrução como valor mais alto da educação. A instrução trabalha a habilidade do conhecimento do aluno, que não deixa de ser importante para a sua vida e para a sociedade. Contudo, não basta ao aluno apenas a habilidade do conhecimento. Ele precisa aprender a conviver em sociedade, respeitar as leis, ser honesto e responsável, noutros termos, ser moral. Mas qual o valor que a sociedade atribui para uma educação moral e acima de tudo humanista? Podemos responder que é muito pouco valor.

Normalmente, a sociedade apresenta uma visão utilitarista, que procura valorizar aquele que lhe é útil no cumprimento de uma determinada função. Nesse sentido, a formação de especialistas e técnicos é importante, porque contribuem para o desenvolvimento científico e tecnológico e nada mais. Será que a sociedade necessita apenas desse tipo de formação baseado na ciência e na habilidade técnica? Como ficam as relações humanas?

Para Weil, os conhecimentos científicos e técnicos dos especialistas “são indispensáveis para quem quer participar do trabalho social de maneira útil” (FP: 64). A educação, com base apenas nos conhecimentos científicos e técnicos, tem como função “formar homens capazes de orientar e de discernir o verdadeiro do falso, valorizar mais a qualidade da sua obra do que a sua utilidade, julgar os homens segundo o seu valor e não segundo o seu encanto” (FP: 64).

Esse valor que aqui se coloca é o valor material, quando se julga a pessoa pelo que ela possui em termos econômicos, e não pelo que ela é. Weil não despreza a importância da instrução. Ela é importante, mas não suficiente quando se trata das

relações humanas na sociedade. Nesse sentido, a educação pode ter como base a instrução, mas ela necessita vir aliada à formação moral do ser humano.

Para Weil, há uma opinião injusta e sem fundamento que consiste em supor que os homens são aptos e treinados para determinadas funções, como um pedaço de aço que pode ser forjado como toda roda ou como alavanca, mas não para desempenhar ora uma função ora outra, sem perder a sua identidade (FP: 64). Nesse caso, a instrução pode ter apenas um sentido utilitário e a educação se resume em formação de técnicos para uma determinada função.

E isso, apesar de ter um lado importante para a sociedade, por outro lado pode formar indivíduos escravos, incapazes de pensar por si mesmos e incapazes de agir como seres razoáveis em liberdade. Esses indivíduos não são livres, porque se veem presos a uma obediência passiva, obediência aos seus superiores sem o uso do senso crítico, tornando-se inúteis no sentido humano.

Weil considera que a instrução necessita seguir outro caminho. Ela deve estar a serviço da educação e nunca ser a serva daquela (FP: 64). Nesse entendimento, a instrução assume um aspecto positivo e fundamental para a educação. A instrução deixa de ser entendida como aquela que vê o homem como um objeto. Ao contrário, o educando passa a ser visto como “sujeito do processo educativo” e nunca como objeto. Portanto, na visão de Weil, a instrução deve assumir um lado positivo e estar a serviço da educação.

Num texto em que Éric Weil trata da “L´éducation en tant que problème de notre temps”34, ele se dedica ao tema Educação e Instrução. Há uma questão

fundamental: “Do que se trata em educação?” (DEC: 298). Esta questão é muito relevante, porque procura saber de que a educação se ocupa ou deve se ocupar. Para Weil, o século XIX tinha uma resposta que consistia em considerar a educação com a tarefa de instruir o educando.

Nos países como a Inglaterra, a França e a Alemanha, o ensinamento elementar que era a leitura, a escrita e o aprender a contar já era considerado como suficiente. Entretanto, o ideal da educação pela instrução não foi uma realização para grande parte da humanidade contemporânea. Segundo Weil, um grande número de europeus dos séculos XVIII e XIX, não teve acesso à instrução. Em contrapartida, havia a crença de que os iletrados seriam sempre seres violentos e

que não poderiam se tornar membros úteis e prósperos de uma sociedade moderna, industrial e próspera.

Assim, os trabalhadores, os camponeses, as classes médias e superiores, achavam que ninguém podia resistir ao progresso. Eles pensavam que a mudança era inevitável. Afirma Weil que “todos, do alto a baixo da escala, deviam colaborar ao grande empreendimento que tinha nome: progresso; e cada um, nesse sentido, devia se considerar como um trabalhador. A instrução era o meio, o progresso, o fim” (DEC: 299).

Tudo devia ter como fim o desenvolvimento do progresso. A instrução fazia parte do ensino escolar e superior que tinha como meta contribuir com o conhecimento científico e técnico para o desenvolvimento do progresso. Isso colocava a instrução como “uma das tarefas essenciais do nosso tempo” (DEC: 300). Essenciais, porque, na visão do progresso, as pessoas são pobres, porque lhes falta à instrução como meio de progredirem em direção a uma sociedade moderna, industrial e racional.

Nas comunidades ocidentais, tudo o que contribuiu para o progresso nas últimas três ou quatro gerações, devia servir de modelo para o restante da humanidade. As comunidades atrasadas queriam se beneficiar dos frutos da tecnologia moderna para “edificar uma indústria, formar os trabalhadores, os engenheiros, os professores de ciências, os administradores, os funcionários” (DEC: 300). Todos, sem exceção, queriam tirar proveito dos frutos do progresso, mas nem todos conseguiam ter acesso a ele. Apenas as sociedades mais avançadas da Europa conseguiram tirar melhor vantagem sobre o progresso da ciência e da técnica.

Para Weil, as nações que conseguiram colocar a educação como prioridade, melhorando e aperfeiçoando o sistema de instrução, deram um passo maior em direção ao progresso. Atualmente, a maioria dos políticos coloca a educação como prioridade de governo. Mas, na prática, o que se percebe é a falta de um investimento maior na educação. Isso leva a crer que nem todas as nações conseguiram e ainda não conseguem progredir. De qualquer modo, as civilizações modernas de todo o mundo tendem a assumir o caminho do progresso. Mas é bem sabido que toda essa comodidade da vida moderna ainda está restrita às nações mais avançadas, enquanto as nações mais pobres não usufruem dessa comodidade trazida pelo próprio progresso.

Para Weil, a educação deve ter como único fim “dar ao homem a oportunidade de conduzir uma vida que, precisamente, o satisfaça enquanto ser razoável” (DEC: 304). A busca pela satisfação leva em conta que ninguém impeça o outro de fazer o mesmo. Se a educação é uma questão de oportunidade, como prevê o texto, “bem poucos parecem ter a oportunidade de aproveitá-la” (DEC: 304). Atualmente, fala-se muito em educação para todos e educação de qualidade, mas até quando isso pode ser verdadeiro? Por que ainda existem tantas pessoas analfabetas ou semianalfabetas? O que falta para melhorar essa situação? Será mesmo uma questão de oportunidade?

A instrução desde então se torna necessária porque “sem ela não haveria o material de construção, nem o tempo, nem a vontade de construir” (DEC: 305). A instrução ensina como desenvolver o trabalho, mas não indica como será a obra. A instrução tem o papel de ensinar, mas não dá tudo pronto ao educando. “Seria ‘natural’ dizer que o remédio consiste em instruir os homens no uso de sua liberdade” (DEC: 306). A instrução tem o papel de ensinar o educando a pensar por sua própria conta, porque ele terá que construir seu próprio pensamento. Com isso, o educando verá que a educação possui um sentido para ele e que ela não é vista apenas como um valor comercializável (DEC: 307).

Weil tinha a convicção de que a educação poderia tornar a sociedade mais eficiente extirpando dela a insegurança fundamental e a violência oculta que a caracterizam. A educação, na perspectiva da instrução, teria assim um importante papel de reduzir as tensões sociais e internacionais. Com isso, a instrução torna-se necessária “porque a sociedade deve progredir e oferecer a mais pessoas a oportunidade de conquistar a liberdade e de fazer uso dela” (DEC: 307). E esse progresso do qual Weil fala deve ser estendido a todas as sociedades sem exceção.

A instrução não deixa de ser o meio para o desenvolvimento do progresso, no entanto, deve primar por uma educação mais humana. Ela precisa ter os valores humanos como prioridade em que o homem deixa de ser objeto e passa a ser sujeito no processo de transformação social. Assim, a instrução carrega junto de si os valores morais e humanos e procura privar o homem da violência transformando- o em ser razoável.

E, conforme vimos acima, a violência é uma realidade que está posta no mundo dos homens. Ela existe em toda a parte e não se pode fechar os olhos diante dessa realidade. Portanto, a educação, compreendida por Weil, tem como fim o uso

da violência como meio de combate à própria violência. Pode parecer um paradoxo, e, teoricamente, é um paradoxo.

Mas Weil trata de uma violência positiva combatendo outra negativa. A violência é positiva quando ela procura, por meio de um discurso razoável, contra- argumentar o discurso não razoável, o discurso desprovido de sentido humano. A violência é negativa quando ela desumaniza o homem e o impede de viver com dignidade. É essa violência que precisa ser combatida.

CAPÍTULO II

EDUCAÇÃO E MORAL NA LÓGICA DA FILOSOFIA

A Logique de la philosophie possui um conjunto de 18 categorias-atitudes com os seguintes nomes: Verdade, Não-Senso, Verdadeiro e Falso, Certeza, Discussão, Objeto, Eu, Deus, Condição, Consciência, Inteligência, Personalidade, Absoluto, Obra, Finito, Ação, Sentido e Sabedoria. A classificação dessas categorias se distribui da seguinte maneira: Categorias primitivas: Verdade, Não-Senso, Verdadeiro e Falso; Categorias antigas: Certeza, Discussão, Objeto, Eu e Deus; Categorias modernas: Condição, Consciência, Inteligência, Personalidade e Absoluto; Categorias Atuais: A Obra, O Finito e A Ação; Categorias Formais: Sentido e Sabedoria.

A sucessão das categorias segue uma ordem lógica, no entanto, ela não é linear, mas circular. A Verdade é apresentada como a primeira categoria e ela é primitiva. Já a Sabedoria é a última das categorias e ela é atual. Essa ordem é apenas representativa da atitude humana de um determinado período histórico. Ou seja, é a compreensão de como uma determinada atitude histórica se tornou discurso filosófico, ou categoria.

Assim, cada categoria é pensada sob o ponto de vista da precedente, com a intenção de ultrapassá-la e superá-la. Isso não significa que a categoria que foi ultrapassada tenha perdido o seu valor. A ultrapassagem se dá apenas na atitude histórica do homem que é evolutiva e dinâmica. Ao mesmo tempo, cada categoria constitui a formulação de um discurso histórico, mas que, enquanto pensamento filosófico, ultrapassa o próprio tempo histórico.

Com o escrito da Logique de la philosophie, Weil não quis formular um pensamento lógico nos moldes da metafísica e muito menos da ontologia. Em sua

Logique, não se encontra nenhuma refutação à lógica de Aristóteles, ou à lógica de

Wittgenstein. Não há uma preocupação com a lógica-matemática e muito menos com a tentativa de uma prova ontológica sobre a existência de Deus. Para Weil, a

lógica é filosófica. É a lógica do discurso histórico-filosófico que se pretende sistemático e coerente.

Para entender a lógica de Weil, é preciso levar em conta a dialética que se dá entre o pensamento e a ação. Para ele, a filosofia necessita refletir não somente o pensamento humano, porque o homem não é só pensamento, mas também ação. É preciso levar em conta que o homem é um ser capaz de reflexão e ação, capaz de transformação, ou seja, o homem é um ser histórico. É assim que o filósofo deve constituir a sua filosofia tendo como base o homem provido de pensamento e ação.

Encontramos, nas categorias da Logique de la philosophie, as formas lógicas dos discursos filosófico, ético, religioso, linguístico, social, político e educacional. Não temos aqui a intenção de aprofundar todas as categorias da

Logique, mas apenas aquelas importantes para esta análise que são: Discussão,

Consciência, Ação e Sabedoria. Não analisaremos essas categorias de forma exaustiva, elas apenas nos servirão de base para a compreensão filosófica sobre a educação e a moral em Éric Weil.

Encontramos, na filosofia de Weil, a tese de que a educação e a moral têm como fim uma ação política do homem, em busca de uma transformação de si mesmo e da sociedade como um todo. Isto é, a superação da violência. É essa a resposta que pretendemos dar até o final deste capítulo, sendo que o maior conteúdo dessa resposta será dado no encerramento deste estudo.