Segundo Elias (2005), ao longo da sua história, o Ceará ocupou uma posição periférica na divisão do trabalho agropecuário no Brasil. Até o inicio da década de 1960, o padrão de desenvolvimento rural adotado pelo Estado se baseava na pecuária extensiva, na
44Mas foram os índios os primeiros habitantes destas terras a demostrarem resistência, conforme foi
documentado por Pompeu Sobrinho em Topônimos indígenas dos séculos 16 e 17 no litoral cearense): “[...] os tapuias – Tremembés, notáveis pela sua valentia, conseguiram manter-se por muito tempo nas praias, especialmente, ao norte do rio Curu. Foram também estas praias os últimos redutos dos franceses no Ceará. Na nossa opinião, estes indígenas dominaram toda costa das margens do rio Curu ao Maranhão” (1945 apud MARTINS, 2008, p. 53). Além das tribos Tremembés, registramos também, a forte presença, Anacés, Guaranacés e Jaguaruanas na formação desse território cuja ocupação pelos homens brancos se deu a custa de muito sangue, nestas como em outras terras, por meio da catequese e do aldeamento, os índios foram forçados a deixarem o lugar em que viviam, sua religião e suas famílias (CETRA, 2012).
45 Primeiro assentamento de reforma agrária na zona costeira do Estado do Ceará, está localizado a 198 km de
agricultura de subsistência, no extrativismo vegetal e na produção comercial de algodão. A produção de milho, feijão, arroz, mandioca, castanha de caju, cana de açúcar, algodão, juntamente com a carne e leite de bovinos, caprinos e ovinos ocupava boa parte das terras cultivadas e eram responsáveis pela maior percentual do valor bruto da produção agropecuária do estado. Boa parte da agricultura praticada era de sequeiro, causando, com o passar dos anos, sérios impactos ao meio ambiente, somada às práticas agrícolas como o uso de queimadas, desmatamentos e, mais tarde, as técnicas improprias de irrigação aceleraram o processo de destruições das condições biológicas.
Economicamente, o território dos Vales do Curu e Aracatiaçu se baseou, até a década de 1960, “na cultura dos tradicionais sistemas de produção de carne, couros e peles, algodão, cera de carnaúba, milho, farinha, mamona, rapadura e mel”, assim como café, murici, cebola, batata – doce, manga, banana entre outros (VASCONCELOS, 2010, p.6). Parte desses produtos atendia o abastecimento local, já o excedente era comercializado em Fortaleza, Caucaia e Sobral. O beneficiamento da produção, como registra Martins (2008, p. 68-69), “era feito em casa de farinha, engenhos, usinas e barracões, geralmente na própria área”.
De modo geral, a economia do território se baseava na produção familiar, desenvolvia uma produção diversificada e, até então, não conhecia a monocultura, sedesenvolvendo a partir de uma dinâmica que envolvia múltiplas relações sociais. Assim, descreve a autora (MARTINS, 2008, p. 70):
Os agricultores faziam dois plantios anuais: no inverno, a chapada ou o arisco; no verão a vazante ou croa. Trabalhavam na diária, na empreitada e cultivavam terras de terceiros. A parceria (um terço de todos os produtos ou metade do algodão ou percentual de farinha) predominava na vazante e o arrendamento (uma quantia fixa de dinheiro, trabalho ou produto) na caatinga.
E complementa (ibidem, p. 71):
A atividade mais rentável da agricultura era a coleta de excedente pelo capital comercial. Além de receber as parcelas devidas pela renda da terra, o fazendeiro emprestava dinheiro a juros, financiava e reunia a produção, comprava barato as sobras da colheita e vendia a mercadoria fiado.
Outra prática comum entre os pequenos proprietários era o arrendamento em produto. “Na época da colheita, contratavam assalariados que se juntava aos familiares. O que não dispunha de condições para plantar um quadro separado em terras alheias trabalhavam em empreitada ou como diaristas, nas fazendas” (MARTINS, p 74). Nesse contexto, é importante destacarmos as condições de exploração e sujeição a que eram submetidos esses camponeses como ou terra insuficiente à reprodução do núcleo familiar.
Em meados do século XX, sob a lógica desenvolvimentista, o Brasil inicia um amplo debate sobre as desigualdades regionais brasileiras. Nesse contexto, destaca-se a criação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), do Banco do Nordeste (BNB), da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf). De acordo com Elias (2005), esse momento marca a ação do governo federal no meio rural nordestino, particularmente por meio da criação de políticas públicas orientadas para gerar condições técnicas e econômicas necessárias ao desenvolvimento do setor primário. Até então não existiam de forma significativa ações públicas voltadas à agricultura familiar, categoria que vai se fazer presente somente na década de 1990 com a criação do Pronaf.
Nessa perspectiva, integrar o Nordeste, lugar considerado atrasado e de homens bárbaros, tornou-se estratégico ao crescimento industrial. A respeito da política de ajuda externa praticada no Nordeste, Martins (2005) explica que as vésperas do golpe militar de 1964, a região era o centro das atenções, menos pela miséria e mais pelo processo de mobilização dos trabalhadores rurais pró-reforma agrária e melhorias salariais46. Essa situação ameaçava as oligarquias nordestinas e, ao mesmo tempo, tencionava, nas palavras da autora, a burguesia industrial do sul, principal beneficiada da força de trabalho e dos mercados regionais. Enquanto isso, o capital internacional preocupava-se em manter o equilíbrio mundial, especialmente após a revolução cubana, daí o interesse dos Estados Unidos e o desenvolvimento das ações da Aliança para o Progresso naquele momento era estratégico “garantir o padrão de consumo dos trabalhadores norte-americanos [e, ao mesmo tempo, tentar], evitar rupturas na dominação exercida sobre o continente” (MARTINS, 2005, p. 34).
Com a implantação do regime militar, em 1964, o Estado ditatorial por meio da repressão política extinguiu as Ligas Camponesas, organização mais importante naquele momento histórico, bem como silenciou também a organização sindical articulada em torno do Estatuto do Trabalhador Rural47.
A modernização da agricultura levado a cabo pelo Estado Brasileiro, como registrado nesse estudo, passou a subsidiar com vastos recursos públicos grandes proprietários, empresas nacionais e internacionais. No estado do Ceará, assim como ocorreu
46Destaca-se em 1955 a formação das Ligas Camponesas. 47
O Estatuo do Trabalhador Rural (ETR) foi votado em 1963, quando as leis trabalhistas eram vigentes desde 1943. De acordo com Silva (2004) o ETR foi o principal instrumento para a expulsão dos camponeses das fazendas. Ele determinava que o empregador pagasse 27, 1% sobre a jornada dos trabalhadores permanentes, passando os trabalhadores a ser mais “caros”, isso se explica, porque até então os gastos sociais não eram computados. O Estatuto, nessa perspectiva, não representou melhorias nas condições de vida dos trabalhadores, ao contrário, colaborou com sua expulsão.
em outras regiões do país, os pequenos proprietários e os sem terra das regiões da serra, litoral e sertão, no entanto, não tiveram acesso ao crédito, às novas tecnologias e ao financiamento, especialmente como explica o autor, “por não terem garantias a oferecer ao sistema bancário ou por não dispor de apadrinhamento político influente” (HOLANDA, 2006, p. 22). Principalmente porque não faziam parte dos sujeitos sociais contemplados nas estratégias dos governos militares para o desenvolvimento da modernização da agricultura - conservadora e excludente.
Além da herança histórica do processo de ocupação territorial, com base no acúmulo do capital e detenção do poder e dos fatores relacionados ao solo e ao clima, a adoção do modelo desenvolvimentista baseado na substituição de importações, instalado no Brasil pós-1945, o que intensificou ainda mais as desigualdades regionais já existentes, contribuiu para expulsão dos camponeses para as periferias dos grandes centros urbanos, conforme Holanda (2006). Elias (2005,p. 433) ao analisar as realidades regional e nacional , acrescenta outros aspectos:
[...] as relações sociais de produção e de organização do espaço, em especial as condições sociais e técnicas da estrutura agrária, que se caracterizam, principalmente, por uma estrutura fundiária concentrada e uma base técnica na sua maioria rudimentar, determinantes para as relações de trabalho e os regimes de exploração do solo predominantes, além, naturalmente, de uma estrutura de poder extremamente oligárquica e reacionária.
A década de 1970 registra a criação de importantes políticas voltadas aos projetos de irrigação48, destacando-se o Programa de Irrigação do Nordeste, com ênfase no aproveitamento dos vales úmidos do semiárido (ELIAS, 2005). O processo de modernização da atividade agropecuária nordestina e, consequentemente, a cearense, pode ser dividida em dois momentos, conforme analisa a autora (ibidem, 2005, p. 437):
O primeiro, na década de 1970, quando passou a ser priorizada em toda região Nordeste a construção de grandes perímetros irrigados públicos. Um segundo momento, viria com o Novo Modelo de irrigação, em meados da década de 1980. Nesse primeiro momento de incentivo à irrigação, os programas propostos associavam-se à irrigação pública, aos projetos de assentamento, à produção de alimentos, à colonização e ao incentivo à produção familiar como componente da política de desenvolvimento regional.
Vale salientar, contudo, que tais iniciativas, não objetivavam melhorar as condições de vida dos camponeses, tendo em vista que os investimentos subsidiados pelo Estado em infraestrutura (canais, barragens, perímetros irrigados entre outros), bem como em assistência técnica, foram disponibilizadas, na maior parte, para o incremento da
48 Elias aponta que na região Nordeste foram construídos 27 perímetros irrigados, nos quais nove destes se
agroindústria. Esse modelo de desenvolvimento, presente ainda nos dias atuais, além de manter a estrutura fundiária tradicional, extremamente concentrada, passou longe de atender as demandas dos camponeses (ELIAS, 2005).
No Território dos Vales do Curu e Aracatiaçu, as primeiras iniciativas de modernização tiveram inicio na década de 1960, quando o DNOCS objetivando incentivar o desenvolvimento da agricultura irrigada, implantou um Posto Agrícola no município de Pentecoste e, logo em seguida, o Projeto Curu-Pentecoste, “passando a beneficiar irrigantes particulares que pagavam ao governo o acesso à água que recebiam de um sistema que se estendia ao longo da bacia de irrigação dos açudes” (VASCONCELOS, 2010, p, 7). A modernização se intensifica em 1974 com a implantação de uma nova política de irrigação baseada na desapropriação de terras e no parcelamento em lotes entre proprietários individuais selecionados pelo DNOCS, sendo projeto Curu-Paraipaba49 o primeiro projeto implantado sob essa lógica (ibidem).
Nesse período, destaca-se a implantação da Companhia Agroindustrial do Vale do Curu (Agrovale) 50, indústria voltada para a produção de cana-de-açúcar e álcool no sertão cearense. Foi desafiando a natureza e as tradições culturais, mas também o modo de vida sertanejo, assinala Martins baseado em Saes (2008), que o Estado ditatorial afastou os obstáculos ao crescimento agroindustrial e criou as condições necessárias à reprodução das relações de produção capitalista no campo.
De cunho desenvolvimentista, essa experiência causou profundas alterações sociais e ambientais no território, sobretudo na produção agrícola, na organização do espaço e nas relações de trabalho. Já a monocultura e o uso intensivo de insumo industrial mudaram a paisagem da caatinga, especialmente na região irrigada, causando inúmeros danos ambientais e contribuindo fortemente com o processo de desertificação já em curso. Martins descreve assim (2008, p. 176):
Acentuou-se a erosão dos solos: compactados por erosão constantes na semeadura, desgastados pelas sucessivas queimadas para facilitar o corte da cana, salinizados e encharcados pelo manejo inadequado do sistema de irrigação. Em vintes anos, a produtividade da cultura decresceu, em média, de 120 para 30 toneladas por hectare, apenas do uso, em largas quantidades, de fertilizantes e agrotóxicos. Além disso, a
49 Projeto de irrigação alinhado à missão do DNOCS de combate à seca.
50A Agrovale foi fundada pelo empresário João Gomes Granjeiro em 1 de outubro de 1964. A usina foi
responsável pela introdução da produção de cana de açúcar em grande escala a base de uma agricultura tecnicamente moderna, com vultuosos investimentos em irrigação, variedades genéticas e insumos químicos. Segundo Martins, sua pretensão era se tornar o maior produtor de cana e de álcool do estado do Ceará. Para tanto, contou com apoio do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) e do Dnocs. Para garantir a matéria-prima necessária para a produção firmou contrato exclusivo para a compra de cana , como explica a autora, junto a 522 irrigantes do projeto Curu-Paraipaba (MARTINS, 2002).
adoção de práticas modernas destruiu a camada de matéria orgânica que, arrastada pelas águas, assoreou e poluiu os rios.
A Agrovale encerrou suas atividades após trinta e quatro anos produzindo açúcar no sertão. A passagem da caatinga, antes com seus carnaubais, oiticicas, capoeiras e pastos foi substituída pela cana irrigada. “A terra verdejante orgulhou os moradores, extasiou os visitantes, ilustrou a propaganda oficial” (2002, p. 143). Tudo era aparência, diz Martins, ao observar as consequências que essa experiência trouxe para a vida dos camponeses, bem como para todo ecossistema da região. Assim é ilustrado pela autora (2008, p. 176):
Espécies xerófilas diversas e adaptadas ao semiarido foram destruídas por tratores que deixaram a terra sem proteção, exposta ao sol e à chuva. A lógica do lucro imediato menosprezou o resultado de experiências seculares de produção agrícola e animal, tornando plantas e bichos mais vulneráveis a seca, pragas e doenças.
Além da Agrovale, outras agroindústrias incorporaram-se ao Projeto Curu- Paraipaba, são elas a Ypióca51, a FAISA e, mais recentemente, a Paraipaba Agroindustrial52 (VASCONCELOS, 2010).
Nos municípios de Paracuru, Paraipaba e Trairi predomina a fruticultura irrigada voltada à exportação, principalmente de abacaxi, coco verde, floricultura entre outros plantios. Nos municípios de Itapipoca e Itarema, empresas voltadas para o cultivo de coqueiro em larga escala com apoio financeiro da SUDENE se instalaram em terras habitadas pelo povo Tremembé e por trabalhadores rurais (BRASIL, 2010).
Além da fruticultura irrigada para exportação, se desenvolve no território atividades ligadas à piscicultura, caprinocultura e apicultura ao lado de atividades tradicionais como o artesanato, principalmente de palha e renda de bilro (SOUZA, 2010). Mais recentemente, a luta tem sido contra a especulação imobiliária e instalação de empreendimentos turísticos que ocupam terras de populações indígenas e costeiras e contra o avanço das fazendas de criação de camarão, principalmente nos municípios de Itapipoca, Amontada e Itarema (BRASIL, 2010).
A década de 1990 marca, de forma mais intensiva, a reestruturação produtiva do território cearense. Essa reestruturação de base econômica tem como principal agente o Estado que passa a criar as condições necessárias para inserir o Ceará no circuito da produção
51 A produção dos canaviais, do Grupo Ypióca se destina a fabricação de aguardente de cana-de-açúcar. No
território há duas fabricas, uma em Paraipaba e a outra, a maior do grupo, no Pecém, em São Gonçalo do Amarante.
52 A FAISA abriu falência no final da década 90,já a Paraipaba agroindustrial foi implantada em 2005, importa
agua de coco envasada. A empresa, segundo Vasconcelos , não negocia com as organizações dos irrigantes, compra individualmente o que é produzido no perímetro (VASCONCELOS, 2010).
e do consumo globalizados, passando a investir em atividades de modernização da agricultura (agronegócio), como a implantação de novas indústrias, incremento no setor turístico litorâneo, expansão do comércio e dos serviços, assim como construção de infraestrutura ligada aos setores de transporte, comunicação, recursos hídricos entre outros (ELIAS, 2002). Todavia, esse processo enfrentou e enfrenta resistências, fazendo ressurgir, em muitos lugares, uma “nova luta” pela terra, dessa vez a luta pela terra incorpora outras dimensões como a preservação da identidade, do bioma local, do espaço de vida e trabalho das comunidades camponesas em sua diversidade.
No campo da resistência, no município de Itapipoca se destacana luta das famílias do assentamento Maceió contra a instalação do “Projeto Pirata” pelo empresário português Júlio de Jesus Trindade53. A instalação deste empreendimento turístico ameaça o acesso daquelas famílias à praia, local onde pescadores e artesãs dedicadas à renda de bilro, principalmente das comunidades dos Apliques e Maceió, retiravam sua sobrevivência.
Outra iniciativa nesse sentido é a do Grupo Nova Atlântida, empreendimento espanhol que envolve várias bandeiras internacionais e prevê a construção de uma cidade turística na paria da Baleia, localizada a 200 km da capital, atingindo uma área da reserva indígena Tremembé, na comunidade São José dos Buritis (SOUZA, 2010).
Em termos da integração das famílias agricultoras ao processo de modernização, evidências empíricas e teóricas demostram que o processo de modernização agiu de forma seletiva sobre esse território, privilegiando especialmente aqueles segmentos aptos à integração competitiva. Grandes proprietários tiveram investimentos subsidiados com crédito agrícola liberado pelo Estado, para a construção dos perímetros irrigados, açudes, plantios de monocultura, grandes criações de gado e aquisição de máquinas agrícolas, seguindo a tendência nacional.
Os estudos realizados por Martins (2008), Vasconcelos (2010) e Elias (2005) nos possibilitaram uma maior compreensão sobre a ofensiva capitalista no estado do Ceará e, de modo particular, no que hoje se constitui o Território dos Vales do Curu e Aracatiaçu.
Ao analisar os processos em curso no estado do Ceará, Elias (2003, p. 67) questiona o desenvolvimento sustentável tão propagado pelo governo estadual. Por sua vez, a pesquisadora pondera que as políticas públicas voltadas
[...] à questão agrária; aos recursos hídricos, com destaque para as grandes obras de engenharia; a expansão da agricultura irrigada, ainda moldada na construção de
53 O empresário português Júlio de Jesus Trindade, também conhecido como “o Pirata”, faleceu no dia 30 de
grandes perímetros; a expansão da monocultura, especialmente a fruticultura [...]”, tem como beneficiário principal o setor empresarial – o agronegócio.
O governo do estado através daSecretaria de Desenvolvimento Agrário do Estado (SDA), então criada em 2007, antes denominada de Secretaria da Agricultura e Pecuária, seguindo a tendência do Governo Federal, passou a desenvolver e executar políticas públicas voltadas ao segmento da agricultora familiar. Cabe salientar que o conjunto dos projetos e programas são respostas às demandas históricas, alcançadas, de forma restrita,há bem pouco tempo em um contexto marcado por muitas tensões, especialmente no que se refere ao modelo de desenvolvimento, como exposto ao longo do estudo.
O Estado, ao mesmo tempo em que apoia o incremento do agronegócio, a expansão da agricultura irrigada, com destaque para a fruticultura, floricultura, olericultura e pesca, desenvolve ações voltadas ao segmento da agricultura familiar,explicitandoa disputa desses dois projetos - do agronegócio e da agricultura familiar, embora o primeiro exerça primazia sobre o segundo.
Apesar dos princípios da agroecologia orientar a elaboração do Plano de Desenvolvimento Rural Sustentável (PDRS), ela não se efetiva enquanto ação concreta, sendo invisíveis as iniciativas desenvolvidas nessa área. Quanto às atividades no sentido de fortalecer a agricultura familiar, destacam-se os Programas de Práticas Agrícolas, as mandalas, a extensão rural desenvolvida pela EMATER, o Projeto São José produtivo, antes restrito apenas à infraestrutura e água e agora passa a apoiar projetos produtivos, a exemplo das feiras da agricultura familiar. Além disso, a SDA também executa programas do Governo Federal, como o Garantia Safra, quintais produtivos com as cisternas de enxurradas, barragens subterrâneas, cisternas de placas, água para todos entre outros.
Ainda no campo das contradições, desde 2008, o Ceará passou a ocupar o quarto lugar em quantidade de estabelecimentos que usam agrotóxicos54, sendo o maior do Nordeste, atrás apenas dos estados da região Sul. Ademais, a utilização é estimulada pelo Governo do Estado por meio da isenção de impostos, como ICMS. Dentre os produtos, encontram-se, inclusive, aqueles que estão sendo reavaliados pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e que foram proibidos em seus países de origem. Não obstante, essa tendência segue a regra do Brasil, que em dois anos subiu do terceiro para o primeiro lugar mundial em consumo de agrotóxicos.
54São isentos os seguintes tipos de defensivos: inseticidas, fungicidas, formicidas, herbicidas, parasiticidas,
germicidas, acaricidas, nematicidas, raticidas, desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores, vacinas, soros, bem como, medicamentos produzidos para o uso na agricultura e na pecuária. Disponível em <http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=967742>Acesso em 22 de set. 2012.
A partir do panorama da agricultura no Brasil, questionamos o modelo de desenvolvimento vigente. Que lugar tem sido reservado à agricultura familiar camponesa, segmento responsável pela produção de alimentos no Brasil? Em que direção estão sendo construídas as políticas públicas voltadas a esses sujeitos sociais? Elas têm caminhado no sentido da construção da autonomia ou da domesticação pelo mercado?
Posto isso, os camponeses, conforme as palavras de Delgado (2010), só poderão progredir em outra concepção de desenvolvimento. Concepção essa que, segundo Elias (2003), precisa basear-se em interesses endógenos que articulem viabilidade econômica, sustentabilidade ecológica e igualdade social. Para superar a ideologia do consumo propagado