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2.1.3. Oyun ile İlgili Kuramlar

2.1.3.2. Modern Oyun Kuramları

2.1.3.2.7. Bağlanma Kuramı

As experiências analisadas compartilham, de modo geral, de uma referência comum: a agroecologia, termo que, em sua origem, não abrange, nem resume o conjunto de práticas, sentidos e identidades que surgem no movimento de crítica e resistência imposto pela modernização conservadora da agricultura brasileira (SCHMITT e TYGEL, 2009).

Por conta disto, partimos do pressuposto de que o enfoque agroecológico é um processo complexo que mescla múltiplas dimensões, nesse sentido não pode ser compreendido somente no ponto de vista técnico da convenção de sistemas convencionais de agricultura em sistemas que incorporem princípios e tecnologias de base ecológica.Desta feita, ao longo do trabalho, buscamos evidenciar e analisar o processo social que alimenta as experiências de transição agroecológica, especialmente no contexto do Território dos Vales do Curu e Aracatiaçu e, de modo específico, junto aos agricultores que formam a Rede de Agricultores Agroecológicos e Solidários.

5.1.1 “Agroecologia como um consórcio do ser humano com a natureza59

” - Experiência de Aberbaldo e Conceição, assentamento Córrego dos Tanques, município de Itapipoca-CE

A primeira experiência a ser apresentada é a de Aderbaldo Moura de Araújo e Conceição Irineu Araújo, quefazem parte da Rede de Agricultores Agroecológicos e Solidários do Território.

Marcamos a entrevista para o dia de realização da Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca, pois seria um momento para conversar com o casal, mas, devido a uma reforma em sua casa, Aderbaldo não pode comparecer, explicou Conceição na ocasião. A conversa seria, então, noutro dia em que os dois agricultores estivessem juntos. Houve uma dificuldade em manter contato telefônico com o casal. Devido a isso, resolvemos ir à sua casa, mesmo sem agendamento prévio. Aderbaldo e Conceição nos receberam com muita alegria, contudo nos explicaram que ainda estavam muito ocupados tocando a obra e as demais atividades

59 Cada sub item desse capitulo inicia com trechos extraídos das entrevistas como os agricultores e as

produtivas, assim, marcamos outra data. No dia acertado, Conceição necessitou ir à sede do município de Itapipoca, desse modo, a entrevista foi realizada apenas com Aderbaldo.

Aderbaldo e Conceição têm cinco filhos, destes, dois moram em casa com os pais. Vivem, desde 1996, na comunidade de Torém, no Assentamento Córrego dos Tanques, situado na região litorânea, onde atualmente vivem cerca de quarenta famílias agricultoras.

Aberbaldo nasceu na comunidade de Olho D’água, próxima ao Assentamento Várzea do Mundaú, no município de Trairi. Sua família veio para região quando ele ainda era adolescente. Seu pai era vaqueiro de uma fazenda e sua mãe agricultora. Já a família de Conceição é da região de Itapipoca. Aderbaldo sempre trabalhou na agricultura, mas, aos dezessete anos, foi para Itapipoca procurar emprego, trabalhou em empresa de ônibus, depois em oficina mecânica e, após quatro anos, retornou para o interior.

Aderbaldo, assim como muitos outros camponeses , não foram atraídos pelas “luzes” da cidade, mas forçado a deixar seu lugar, entendido aqui não só com espaço físico, mas como espaço de sociabilidade, de laços entre parentes e vizinhos, religiosidade, convivência com a natureza (SILVA, 2004), em busca de outras oportunidades de trabalho. A saída do agricultor compõe uma trajetória em que a modernização da agricultura não pode ser compreendida a partir da elevação da produção e do emprego de novas tecnologias no campo. Essas mudanças que fizeram parte do desenvolvimento do capitalismo no campo tiveram como efeito, dentre outros, o agravamento das contradições e desigualdades, tanto no campo como na cidade, na medida em que a modernização técnica não veio acompanhada de mudanças na estrutura agrária.

Estas contradições forjaram, ao mesmo tempo, condições objetivas e subjetivas para a criação de espaços de organização coletiva e, portanto, política, possibilitando que Aderbaldo, assim como muitos outros camponeses, passassem a tomar consciência da sua condição de excluídos60 – excluídos do direito a terra, dos recursos naturais, das políticas públicas, do direito à vida. O não acesso a terra ou a perda dela pelos camponeses incorre no risco da desagregação e do desenraizamento. Daí sua luta, daí sua resistência.

Não obstante, Aberbaldo diz que, mesmo enfrentando as todas as dificuldades, prefere a vida no interior. A partir desta afirmativa, o agricultor revela o caráter identitário de

60 Martins (2009, p. 26) chama nossa atenção quanto ao uso do conceito de exclusão, para o autor não existe

sociologicamente exclusão no sistema capitalista de produção, o que existe é “uma inclusão precária e instável, marginal”. E acrescenta , o discurso produzido a cerca da exclusão é produto de um equivoco, de uma fetichização, assim dentro desse contexto a exclusão é utilizada como uma palavra mágica como se fosse capaz de explicar todas as formas de precarização, sujeições, exploração e espoliação, próprias desse sistema que tem como lógica “desenraizar e a todos excluir porque tudo dever ser lançado ao mercado” (ibidem, 30).

sua condição camponesa, e, ainda, põe em cheque a ideia de que o espaço urbano das cidades é o lócus da realização profissional para todos.

O depoimento seguinte revela as razões que motivaram Aberbaldo a retornar ao interior, o pertencimento a um lugar e a negação da racionalidade imposta pelos padrões dominantes. Vejamos:

Me sinto melhor no interior, andando no meio das plantas, livre no meio da noite. A cidade não oferece isso pra gente, né? A gente aqui sai, chega dez horas, onze horas, deixa as coisas aí na área, vai par casa de amigos, para a igreja e volta mais tranquilo. Na cidade era ruim. As pessoas nem olham pra gente, baixam é a cabeça. Se agente fala, eles dizem que agente é matuto. Aqui no interior é falar, apertar a mão, abraçar e seguir a viagem – nos tem esse hábito. Outra coisa que eu não me acostumei foi que aqui a gente acorda cinco da manhã, na cidade, quando dá sete horas, o povo tá todo dormindo e você se torcendo dentro de uma rede, rolando pro lado e pro outro e a rua toda fechada – aí esse não é nosso jeito. Quando dá cinco horas, aqui já tem café feito e a gente já esta começando a labuta.

Essa passagem ainda suscita um breve comentário realizado pela pensadora francesa e militante, Simone Weil sobre a resistência e o desenraizamento. “Um ser humano tem uma raiz pela sua participação real, ativa e natural na existência de uma coletividade, que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro” (1979 apud, SILVA, 2004, p. 123). Essa reflexão igualmente se estende as demais experiências que compõem esse estudo, cuja construção de outra forma de fazer agricultura é também a história de luta de homens e mulheres pelo direito a terra para nela produzir e viver.

O sítio onde Aderbaldo vive com a família hoje está muito diferente de quando chegou ao assentamento. Aderbaldo lembra que, para produzir, tiveram que desmatar, pois era a única forma que conheciam. Como as demais famílias da região, o casal trabalhava com culturas de sequeiro61 e dependiam praticamente do período chuvoso para plantar. Praticavam agricultura de subsistência utilizando-se do desmatamento, queima e plantio de culturas como a mandioca, milho e feijão.

O agroecossistema manejado pela família é composto pelos subsistemas: setor experimentação, ou quintal agroecológico (em frente a casa) como costuma chamar Aberbaldo, quintal (atrás da casa), o campo produtivo (onde são cultivados a macaxeira, o milho e o feijão), bovinos, ovinos e casa de farinha. O trabalho é desenvolvido em oito hectares, mas o setor da experimentação (inovação) ocupa apenas um hectare. A produção do campo produtivo, segundo Aberbaldo, “é orgânica, mas não é agroecológica, porque tem que passar as grades.” O entrevistado tem conhecimento que essa prática representa um modelo de

61 Trata-se de uma agricultura realizada sem irrigação em regiões onde a precipitação anual é inferior a 500 mm.

A cultura de sequeiro depende de técnicas de cultivo específicas que permitem um uso eficaz e eficiente da limitada umidade do solo. São exemplos de cultura de sequeiro, o plantio do milho, da mandioca e do feijão.

agricultura convencional e que poderia utilizar-se de outras técnicas com base no manejo agroecológico como o plantio direto. No entanto, em face ao processo de transiçãoagroecológica, o agricultor também explica que o manejo de cada um dos subsistemas é diferente, mas todos têm sentido o efeito de sua experimentação. O que remonta o caráter processual da conversão, já que ruptura com as práticas convencionais ocorre através da experimentação dos agricultores, responsáveis diretos pelo manejo e gestão dos agroecossistemas.

Referente ao quintal agroecológico, o solo é arenoso e, em boa parte, tem cobertura de matéria orgânica. Ali se encontram os canteiros das hortaliças, as fruteiras como coco, goiaba, manga, abacaxi, limão, banana, mamão, caju, seriguela, graviola, maracujá, acerola, ata, cajá, todas integradas às plantas nativas, tais como o marmeleiro, mororó, pitombeira, pereiro, barbatimão. Boa parte das mudas foram trazidas dos intercâmbios a área de outros agricultores e também do viveiro do CETRA. Com relação aos insumos, algumas sementes de hortaliça (híbridas), como a alface, pimentão, tomate, cenoura, são compradas no comércio local, já as sementes de cebolinha, coentro, urucum, milho e da maniva62 são produzidas na propriedade. O espaço conta com uma nascente d’água bastante sombreada e um poço, ambos utilizados na irrigação da área. Aderbaldo explica as mudanças ocorridas nessa área.

Era uma área onde eu pensei em possuir uma cajueirada. A gente pensava muito curto. Aí, a gente começou a plantar cajueiro, cajueiro, cajueiro e foi cobrindo a área, e quando se começou a despertar a consciência agroecológica, começou a dispensar alguns cajueiros e a consorciar com algumas plantas e a gente conseguiu fazer esse pomar verde que você está vendo, todo consorciado. Hoje, a gente deve ter aqui, aproximadamente, vinte e cinco espécies de plantas nesse pequeno lugar.

Caminhando pelo quintal agroecológico, Aderbaldo mostrou as plantas que adquiriu durante os intercâmbios, falou do consorciamento das espécies, do controle dos insetos, o papel das abelhas na polinização, das formigas, as formas de manejo e as estratégias para captação, armazenamento e aproveitamento da água disponível. Sobre as plantas nativas explicou:

Uma planta nativa dessa faz todas as plantas se sentirem nativas. Esse é um marmeleiro; você vê as plantas que estão ao redor dele, olha o tamanho da pinha! Quem está em volta dela esta protegida. Agora ele sufocou a pobre dessa mangueirinha, mas deixa ela ai, quem for mais forte sobrevive.

Como se observa, é bastante detalhado o conhecimento que o agricultor tem sobre as modificações agrícolas desse ambiente físico. Ele explica, ao seu modo, que a biodiversidade proporcionada pela diversidade vegetal encontrada nessa área, juntamente com presença de insetos predadores, polinizadores e um conjunto de organismos desempenham funções ecológicas importantes naquele ambiente (ALTIERI, 2012).

62

Figura 10 - Aberbaldo preparando compostagem (esquerda), quintal agroecológico (direita)

Fonte: CETRA (institucional).

Figura 11 - Conceição e Aberbaldo (esquerda), poço Amazonas (direita)

Fonte: CETRA (institucional).

No inicio da experiência, a família foi assessorada pelo CETRA, todavia atualmente é uma outra entidade que assiste o assentamento. Ao questionarmos sobre assistência técnica e se esta atendia ou não às necessidades de sua unidade, Aderbaldo toca em uma das questões fundamentais do processo de transição, qual seja, o processo de formação dos técnicos. Embora se tenham alcançado avanços significativos, especialmente na educação formal 63, a ação da assessoria técnica continua voltada a orientação de atividades agropecuárias do tipo convencional, como adverte Aberbaldo:

63

Segundo Petersen e Caporal (2012), foram criados a partir de 2003, no Brasil, mais de 100 cursos de agroecologia ou baseado no enfoque em agroecologia, o que levou o Ministério da Educação (MEC) a incluir a

[...] o INCRA manda um técnico um a vez por mês. É mais uma conversa de amigo do que de assistência técnica. O técnico não tem a mínima experiência na área agroecológica, por isso que eu digo que é mais uma conversa de amigo, de se conhecer mais. O técnico tem outros conhecimentos, só que, quando a gente chega numa área agroecológica, a história é outra, a realidade é outra, só quem entende é quem já fez a formação, tem o sangue da agroecologia nas veias, a gente tem mais um encontro do que uma visita.

Atualmente, é significativo o número de agricultores que vêm transformando seus sistemas produtivos com a adoção de práticas agroecológicas. Essa realidade tem colocado novos desafios às políticas públicas que tratam do rural e das ações de assistência técnica e extensão rural. As famílias que já passaram por processo inicial de sensibilização, formação e mudanças relacionadas à prática e manejo do agroecossistema demandam outra modalidade de acompanhamento como expressa Aderbaldo:

Hoje, a gente não tem tanto uma carência de ter um técnico à vista, é mais para gente criar junto, entender as coisas. Sinto falta de uma assessoria que fale a nossa língua. Este é caso dos técnicos do CETRA, que entendem muito de agroecologia e isso é muito importante. Eu aprendi muito com a Carla, Pequeno, Paulo Maciel, uns que vinham botar a mão na massa, pra gente fazer agroecologia [...] Isso é muito importante, no tempo dos Caminhos da Sustentabilidade64 com o Pequeno e o Sergio a gente ia fazer mesmo, o Pequeno foi quem ensinou como moldava os canteiros de frente para o outro e ajudou muito, ele fazia o primeiro, fazia o segundo e a agente sente a necessidade desses técnicos que são da linhagem de agroecologia.

O contato do agricultor com a agroecologia ocorreu em 2004, quando foi convidado a participar do curso de multiplicadores em agroecologia promovido pelo CETRA. No início, resistiu porque teria que passar um final de semana do mês, durante dois anos, fora de casa, mas resolveu participar e conhecer uma nova experiência. Ao longo do curso, o Aberbaldo percebeu que já praticava agroecologia sem saber, pois já se preocupava com preservação de espécies nativas e o cuidado com as reservas de água. Mais conta que foram os intercâmbios nas unidades de outros agricultores que despertaram seu desejo de fazer agroecologia. Quando lhe perguntamos se havia algum intercâmbio em especial, respondeu:

Muitos. Quase todos. No Tianguá, conhecemos a área de carrasco e do cinturão verde; foi muito bom pesquisar ali. Teve outro muito bom lá em Pernambuco, em Surubim. Eu estava ali aprendendo, abrindo os olhos para muitas coisas. Tivemos uma visita lá na Ibiapaba, estas coisas me fez despertar para agroecologia.

Formação em Agroecologia em seus catálogos de curso de nível médio e superior. Encontram-se também em curso inúmeros cursos de tecnólogo, bacharel em agroecologia, assim como de espacialização, mestrado e doutorado com linhas dentro do campo de conhecimento da agroecologia

64 O Projeto Caminhos da Sustentabilidade foi um projeto desenvolvido pelo CETRA em comunidades do

Território dos Vales do Curu e Aracatiaçu, no período de 2003 a 2007, com o apoio financeiro da Manus Unidas, que tinha como principal objetivo estimular a adoção de prática agroecológicas através da implantação de unidades demonstrativas (UDS).

Para Petersen e Tardin(1999) 65os processos de formação são espaços que estimulam o intercâmbio de ideais, opiniões e discussões entre os agricultores experimentadores. Os intercâmbios de experiência, assim como as suas sistematizações e os testemunhos em forma de vídeo, são instrumentos pedagógicos adotados por um conjunto de entidades que desenvolvem ações no campo da agroecologia. Ainda sobre os intercâmbios, os autores consideram que os avanços do conhecimento técnico nesse processo “é tanto mais efetivo, quanto maior for o número e mais diversificada for a origem das referências práticas e/ou teóricas no debate, ou seja, quanto maior for a dialógica cultural (ibidem, p.6).

Há mais de dez anos, a família de Aberbaldo trabalha com a produção de hortaliças, sendo que um pouco mais de cinco anos produzindo de forma convencional. Essa produção era comercializa nos distritos vizinhos, distante 20 quilômetros do assentamento, percorridos de bicicleta e vendidos, de porta em porta, por Aderbaldo.

Segundo ele, os agricultores que aderem às propostas de agricultura de base ecológica, em um primeiro momento, são considerados “loucos” por suas comunidades. Com ele a história não foi diferente, visto que enfrentou a desconfiança dos amigos e familiares, que constantemente recomendavam:

Meu filho, tira essas moitas do meio, acaba com isso! Meu cunhado chega e manda eu limpar tudo, ai eu digo se eu limpar acaba os frutos, aqui é agroecológico, é assim mesmo, é planta dentro da floresta. O povo quer ver tudo limpinho, passar o rastelo no chão. Aí eu digo: aqui é outra forma, é assim mesmo.

Por essas e outras questões, “mudar a forma de produzir foi duro”, conta Aderbaldo, mas as inovações e adaptações incorporadas ao agroecossistema abriram novas perspectivas para a família. Na busca por autonomia, a família passou adotar, como estratégia produtiva, a lógica de intensificação do uso do espaço, a segurança alimentar, diversificação da renda e uma maior sustentabilidade do sistema. “Eu não quero um pedacinho do sítio que não produza. Aqui eu quero dinheiro e alimentação saudável”, afirma o agricultor.

A produção de sua unidade familiar é voltada para o autoconsumo e gera autonomia produtiva e reprodutiva à família. “Hoje a gente já tem consciência do que pode consumir e procura consumir o que produz. Pouca coisa a gente traz do comércio – o açúcar, o café e o arroz. Agora, a carne, o feijão, a farinha, as verduras, as frutas são produzidos aqui”, orgulha-se o agricultor. Como se observa, por manter interna a unidade produtiva, principal responsável pela reprodução da família, Aderbaldo consegue diminuir a dependência

65 PETERCEN, Paulo ; TARDIN, José Maria. Gestão do conhecimento Agroecológico. AS-PTA, [1999?] (não

publicada). Texto elaborado para seminário interno da entidade e depois utilizado durante as capacitações da Rede ATER-NE (2006).

externa à unidade de produção e, portanto, se reproduzir socialmente. “É por meio da produção para o autoconsumo que o agricultor familiar não depende, totalmente, do ambiente social e econômico em que está inserido e, principalmente, não depende das constantes flutuações das condições de troca do mercado”, conforme explicam Schneider e Gazolla (2007, p. 101).

A agricultura familiar camponesa combina, para sua reprodução, a lógica da produção para o autoconsumo e para o mercado. Segundo Schneider e Gazolla (2007), estas esferas estão dialeticamente ligadas e vão determinar “os caminhos” que os agricultores vão seguir. No caso da família, a comercialização “do excedente e não do que sobra”, diz Aderbaldo, é feita na comunidade, nos distritos vizinhos e na Feira Agroecológica e Solidária realizada quinzenalmente em Itapipoca. Conceição participa mais ativamente do processo de colheita, processamento e comercialização dos produtos, juntamente com um de seus filhos, que vive e trabalha em Itapipoca. São levados para feira, além da goma fresca e da tapioca, bolos e frutas como coco, goiaba, e banana, produção que dura os doze meses do ano, não faltando trabalho, ressalta Aderbaldo. Quanto às hortaliças produzidas, estas são comercializadas toda semana nas comunidades e comércio local. Não levam essa produção para feira para não comprometer a venda de outros agricultores que já comercializam estes produtos. 66

Perguntamos ao agricultor se alguma vez comercializou para os programas institucionais, como o PAA67 e o PNAE68·. Respondeu que não e justificou que a demanda pelos produtos sem agrotóxicos tem uma clientela garantida hoje na região, além do mais a feira e a venda no mercado local adsorvem sua produção, preferindo não “ariscar”, uma vez que outros agricultores participantes dos referidos programas relatam dificuldades operacionais, principalmente no que se refere ao pagamento dos produtos comercializados.

Os principais consumidores da feira agroecológica hoje são os comerciantes, lojistas e funcionários públicos. Segundo Aderbaldo, “o pessoal tem uma consciência do que é

66 Os agricultores feirantes decidem coletivamente quais os produtos serão levados à comercialização, a partir da

identificação do que é produzido em maior escala em cada unidade familiar. Destaca-se que não se trata de uma especialização da produção ou limitação da diversidade produtiva das unidades, mas sim uma organização do processo de comercialização acordada entre o conjunto de feirantes.

67O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) criado em 2003, pelo Governo Federal, utiliza mecanismos de

comercialização que possibilitam a aquisição direta de produtos de agricultores familiares ou de suas organizações, estimulando os processos de agregação de valor à produção. Parte dos alimentos é adquirida para a formação de estoques estratégicos e distribuição à população em maior vulnerabilidade social.

68 A Lei n° 11.947, de 16 de junho de 2009, estabeleceu que no mínimo 30% dos recursos repassados pelo Fundo

Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) aos municípios, para aquisição de alimentos destinados à alimentação escolar, deverão ser usados na compra de alimentos oriundos da agricultura familiar e do