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Em contraponto à lógica do agronegócio, que se esforça para moldar a agricultura familiar camponesa, foi criada no ano de 2006 a Rede de Agricultores/as Agroecológicos/as e Solidários/as, logo após o processo de formação em agroecologia realizado pelo CETRA. Participaram dessa primeira formação 54 agricultores e agricultoras dos municípios de Itapipoca, Tururu, Trairi, Apuiares, Amontada e Irauçuba mobilizados por essa entidade, sindicatos de trabalhadores rurais (STRs) e outras organizações que atuam no território. Desde então, a Rede tem se constituído como um espaço social de mobilização, formação e irradiação de experiências no campo da agroecologia.

O curso, realizado em módulos temáticos, trabalhou de maneira articulada aspectos teóricos e práticos do conhecimento agroecológico, conferindo maior destaque para a trajetória de vida de agricultores e agricultoras e as formas como praticavam agricultura, quase sempre aprendida com os pais e na observação da própria natureza. Na medida em que o curso avançava, os participantes compartilhavam suas histórias de luta pela terra, de enfrentamento para defender os interesses das comunidades, de organização e do esforço para dar visibilidade ao trabalho realizado pelas mulheres na agricultura, tudo de forma integrada às discussões das práticas de recuperação e conservação do solo, da água e do seu armazenamento, das tecnologias apropriadas para o semiárido. Era a agroecologia sendo incorporada por meio das práticas, do encontro e, muitas vezes, do confronto entre os antigos e novos conhecimentos.

No processo de formação, as visitas de intercâmbio às unidades dos agricultores participantes da formação, tiveram um papel fundamental, como expressa Dona Fátima, agricultora agroecológica da comunidade Genipapo, município de Itapipoca:

O intercâmbio mais importante para mim foi lá no Recife [recorda], acho que é o da Dona Francisca. Foi bem no comecinho, quando nós iniciamos. Ela conta a sustentabilidade dela, o que ela era antes e o que ela é hoje. A gente viu a sustentabilidade dela, olhou o quintal dela cheio de plantas diferentes, de variedades, então aquilo ali incentivou mais a gente, pois a gente tava começando. Aí incentivou mais a gente a fazer no quintal da gente. Eu nunca esqueci do jeito dela, do acolhimento dela, do marido dela. Tinha o plantio de sabiá e eu disse para mim que na minha área dava pra fazer, então eu estava fazendo. Hoje, se eu tiver que comprar uma estaca, eu já não compro. Se eu não tivesse visto isso lá talvez não tivesse fazendo. O intercambio é bom por isso. Marcou muito, apesar de ter sido o primeiro que a gente visitou.

A participação no intercâmbio foi significativa para Dona Fátima, que, entre outras coisas, observou a utilização do sabiá como cerca viva e, logo voltando do intercâmbio,

tratou de adaptá-la a necessidade de sua unidade. Trata-se de um exemplo simples dentre tantos outros colhidos durante a pesquisa para mostrar a função que esses espaços de troca exercem, no sentido de estimular o potencial inovador dos agricultores, levando-os a buscar respostas técnicas a partir de problemas enfrentados em âmbito local.

Os agricultores envolvidos no processo de formação de multiplicadores em agroecologiaforam, pouco a pouco, experimentando em suas unidades familiares grande parte dos aprendizados obtidos durante os intercâmbios. Durante os módulos, relatavam as dificuldades e resistências enfrentadas no dia a dia, tanto no nível individual, quanto junto à família, especialmente quando resolviam experimentar trabalhar nas áreas sem queimar e brocar, utilizando adubos orgânicos a partir de insumos encontrados na própria unidade. Para muitos dos que estavam ali esses foram, certamente, os primeiros passos para mudar a forma de praticar agricultura, ainda que houvesse um longo caminho pela frente.

Outra estratégia utilizada durante a formação foi estimular a diversificação da produção, antes restrita basicamente a roça de milho, feijão e mandioca. Importante destacar que muitos agricultores trabalhavam com hortas tanto para o consumo quanto para comercializar no mercado local, mais, basicamente, limitada ao coentro e cebolinha. Uma das principais dificuldades enfrentadas pelos agricultores dessa região é o acesso e a escassez de água.

Devido a sua pouca abrangência e a descontinuidade de ações, o acesso à assistência técnica era muito restrito, presente, ainda que de forma frágil, em áreas de assentamento federal. Um grande número dos agricultores que estavam no curso recebia assistência através do CETRA, por meio de projetos financiados por organizações da cooperação internacional, e/ou por fundos públicos.

Ao final do curso, os participantes junto ao CETRA e entidades parceiras realizaram, em dezembro de 2005, na praça Perillo Teixeira, ao lado da Igreja matriz de Itapipoca, a primeira Feira Agroecológica e Solidária. Os agricultores e agricultoras trouxeram de seus roçados e quintais, frutas, verduras, ovos mel, goma, gergelim, plantas medicinais e produtos beneficiados como a tapioca, os bolos tradicionais, sucos, galinha guisada, entre outros. Além de aproximar os agricultores e consumidores, a feira possibilitou que esses produtores passassem a valorizar seus produtos que, antes, não tinham valor monetário para eles. Convém registar que, para maioria, a feira era a primeira experiência de comercialização, se não, a primeira experiência de venda direta.

Figura 6 - Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca

Fonte: Ana Cristina , pesquisa de campo (2012).

Desde então, a feira acontece quinzenalmente no mesmo local. Essa dinâmica exigiu uma nova organização dos agricultores que passaram a se reunir uma vez por mês para discutir questões relativas à produção e a comercialização, conforme explica Souza (2010, p. 24):

Agricultores e agricultoras passaram a desenvolver estratégias de comercialização que se baseavam em planejamentos coletivos sobre o que levar para feira, em que condições e em que quantidade, reforçando as ligações do grupo e considerando sugestões de consumidores.

Contudo, as reuniões não conseguiam agregar todos aqueles que participaram da formação, muitas vezes as discussões giravam entorno de questões específicas do cotidiano da feira. Daí surgiu à necessidade de criar um espaço para dar continuidade ao diálogo sobre os processos de transição agroecológica e, ao mesmo tempo, organizar os agricultores. Assim, em maio de 2006, foi criada a Rede de Agricultores/as Agroecológicos/as e Solidários/as do Território.

Zeza, agricultora agroecológica, do assentamento Maceió, município de Itapipoca, justifica assim a criação da Rede:

Quando terminou a formação, logo surgiu à feira, aí a gente perguntou: vai ficar só na feira? O pessoal vai ficar tudo debandado? A gente tinha que organizar um grupo, a gente não podia parar. Então, pra que a gente tivesse contato e a organização do grupo de agricultores, foi aí que a gente pensou na Rede. Por que a Rede? A Rede tinha outras pessoas de outros municípios que não só pessoal de Itapipoca, então a Rede é que abrangia mais municípios.

Quanto à organização da Rede, reuniões acontecem trimestralmente, das quais e participam, além dos feirantes, agricultores multiplicadores55, agricultores envolvidos com os

55

Agricultores responsáveis em replicar e desenvolver junto a suas comunidades as práticas inspiradas na agroecologia, são chamados frequentemente de agricultores – experimentadores.

quintais produtivos, com sistemas agroflorestais, apicultores, técnicos das entidades de apoio e lideranças ligadas às organizações de base dos agricultores. A Rede possui com um regimento interno e uma carta de principios, ambos construídos através de um amplo processo de discussão, onde estão expressos os objetivos, valores e compromissos assumidos por esse coletivo. A Rede é conduzida por uma coordenação colegiada, tendo uma coordenação geral e uma secretária, cada um composta de dois agricultores/as. Os técnicos não fazem parte da coordenação, mas apoiam no processo de gestão, formação e assistência técnica.

Figura 7 - Reunião da Rede de Agricultores Agroecológicos e Solidários do Território

Fonte: Ana Cristina, pesquisa de campo (2012).

Desde que foi criada, a Rede conta com assessoria técnica do CETRA e apoio financeiro desta entidade, que se dá por meio de aportes provenientes da cooperação internacional, hoje de forma reduzida, e do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA, entre outras organizações. De acordo com Souza (2010), a sustentabilidade financeira para garantir a realização das reuniões, intercâmbios e demais atividades é um dos maiores desafios enfrentados pela Rede, visto que captação de recursos e sua manutenção dependem ainda de projetos executados pela entidade que presta assessoria.

Buscando ampliar a articulação no âmbito institucional, em 2009 a rede passou a participar do Conselho de Desenvolvimento Territorial (CDT)56 , onde passou a pautar a agroecologia no debate sobre o desenvolvimento rural, abrindo, portanto, um importante canal de comunicação e articulação política. A participação da rede no CDT tenciona a disputa no

56

O CDT é uma estrutura criada para dinamizar as políticas de desenvolvimento territorial, através da articulação dos mais variados atores. É composta de forma diversa, assim, participam órgãos públicos, ligados ao governo federal, estadual e municipal, movimentos sociais, organizações populares, instituições de apoio e fomento, universidades, entre outros (SOUZA, 2010).

território, sobretudo, ao negar o modelo convencional de agricultura, baseado na monocultura e no uso de agrotóxicos e, ao mesmo tempo, defende um enfoque sistêmico, baseado na experimentação, na diversificação, no diálogo de saberes. Nesse sentido, sua presença é percebida como uma forma de resistência, não a única, como encontrada em Ploeg (2009), quando diz que a resistência camponesa tem que ser apreendida a partir de (2009) um conjunto de práticas heterogêneas e crescentemente interligadas.

Esse enfrentamento está presente nas dinâmicas locais de experimentação, intercâmbios e processos de comercialização apoiados pela Rede. A feira de Itapipoca tem seteanos onde participam diretamente dozeagricultores; a feira de Trairi, três anos e a de Tururu, dois anos, onde estão envolvidos dez e seis agricultores, respectivamente. Outra ação de grande visibilidade no território, na perspectiva de construção e de fortalecimento das experiências inspiradas na agroecologia, é o Encontro Territorial de Agroecológica e Socioeconômica Solidária (ETAs), realizado anualmente desde 2006. Para sua realização, a Rede estabeleceu uma articulação com o Fórum Microrregional pela Vida no Semiárido de Itapipoca e entidades parceiras. Consolidou-se no território como um espaço de formação, articulação e diálogo entre agricultores, técnicos e gestores das politicas públicas. É também um palco para as expressões culturais e do encontro da gente da praia, serra e sertão.

As visitas de intercâmbio são um dos pontos fortes do encontro, tanto para os participantes quanto para as famílias agricultoras que recebem um grupo de visitantes em suas unidades. São experiências diversas da agricultura familiar camponesa: quintais produtivos, sistemas agroflorestais, hortas orgânicas, viveiros, cooperativas de mulheres, casas digitais geridas por jovens, além de experiências que envolvem a riqueza cultural de comunidades quilombolas e indígenas. Os agricultores conduzem os visitantes por dentro dos terreiros, quintais e roçados e lá contam como se deu o início da sua experiência, as dificuldades e aprendizados. Descrevem como era sua unidade antes e como ela se encontra em face ao processo de transição agroecológica. Com isso se percebe que a construção de novos valores de convivência social e ambiental estão fortemente integradas às práticas de manejo adotadas e desenvolvidas pelas famílias.

O encontro se encerra com um ato público, geralmente com um cortejo pelas principais ruas da cidade, ocasião em que os agricultores, agricultoras, indígenas, jovens, mulheres, quilombolas e técnicos caminham embalando bandeiras de luta, de denúncia e reinvindicação, ao mesmo tempo em que entoam músicas que expressam suas vivências e desejos coletivos.

Figura 8 - Encontro Territorial de Agroecologia e Socioeconômicas Solidária

Fonte: A autora, pesquisa de campo, cortejo pelo centro de Itapipoca (2011). Figura 9 - Ciranda de encerramento do ETA

Fonte: A autora, pesquisa de campo, Praça Perilo Teixeira ao lado da Igreja Matriz (2011).

Desse modo, a articulação em rede, conclui Souza (2010), acrescentou novos significados ao trabalho dos agricultores, permitindo avançar nas dimensões produtivas, políticas, organizativas, de formação, de capacitação. No entanto, as experiências analisadas a seguir, demostram que esse caminho é formado de meandros: avanços, recuos, dificuldades e desafios, elementos que constituem o cotidiano dos agricultores e agricultoras.

CAPÍTULO 4

5 OS CAMINHOS DA TRANSIÇÃO AGROECOLÓGICA: PRÁTICAS, PROCESSOS E FORMAS DE ORGANIZAÇÃO.

A observação e a reflexão sobre a transição agroecológica revelada através do cotidiano, da trajetória das famílias, das experiências sociais foi o recurso metodológico utilizado para apreender a compreensão que os sujeitos sociais têm sobre agroecologia, as motivações para seguir esse caminho, as dificuldades enfrentadas, as formas de resistências e suas estratégias de organização.

Para compreender nossa problemática, optamos por dialogar com agricultores e agricultoras que participam de redes sociotécnicas57, espaço organizado em torno de relações mais ou menos estruturadas entre agricultores, ou entre outros sujeitos sociais, tendo como ponto de partida as relações socioculturais, afetivas, profissionais entre outras (SABOURIN, 2009). Estudamos dez experiências que demostram como esse processo é diverso e multidimensional58, o que nos exigiu uma visão mais ampla da agricultura, não só como espaço de transação econômica, mas como espaço de vida formada a partir das dimensões objetivas e subjetivas. Sob essa ótica, nosso primeiro passo foi reconhecer a singularidade dos sujeitos, o que nos levou, em muitos casos, reencontrá-los, conhecê-los, ouvi-los e, assim, permitir que se revelassem por meio do seu trabalho, das atividades socioculturais, do seu modo de vida. Por trabalhamos com a concepção de sujeito coletivo, os agricultores e agricultoras aqui mencionados expressam um conjunto de vivências compartilhadas por aqueles que integram, em alguma medida, o universo da agricultura familiar camponesa (MARTINELLI, 1999).

No sentido de expormos da melhor forma possível os resultados dessa investigação e, ao mesmo tempo, reconhecer os limites de uma pesquisa social, priorizamos o exame dos relatos e os apresentamos com as devidas e rigorosas mediações necessárias ao fazer acadêmico. É oportuno esclarecer que algumas das análises terão maior peso no corpo

57 Para Sabourin (2009, p. 206), o espaço sociotécnico local “é desenhado por relações de interconhecimento e

por prestações recíprocas no que diz respeito à produção ou redistribuição de produtos e conhecimentos, características das sociedades rurais e principalmente camponesas”. Nessa perspectiva, a constituição das redes se dá na inter-relação entre pessoas , locais e objetos.

58O enfoque multidimensional refere-se às dimensões econômica, social e ambiental em contraponto a

unidimensionalidade que enfatiza a dimensão econômica principalmente quando toma agricultura em sua relação com o mercado, nesse sentido esse enfoque é insuficiente explicar a complexa e heterogênea realidade da agricultura, espaço de produção, reprodução, sociocultural, econômica e ambiental (COSTABEBER e MOYANO, 2009).

geral da exposição, no entanto, não desprezaremos aspectos contidos nas demais, pois consideramos relevante pormenorizar alguns depoimentos que trazem importantes elementos para compreendermos melhor o que denominamos de caminhos da transição agroecológica.

5.1 Agricultura familiar camponesa no Território dos Vales do Curu e